Prefiguração

O Tao

Yin- Yang trata de entendimentos contrários. Mais profundamente, percebe-se que o fim de determinado intervalo é o início imediato de seu oposto, dando o sentido de movimento, não por acaso, cíclico. Contudo, mesmo em seu fim, há de se existir um tanto do que já se passou e virá, isto justifica o círculo branco na configuração escura e o círculo claro na configuração preta.

A imagem comum do Yin-Yang está incompleta. Originalmente, a parte escura, representando o invisível, deveria ser maior que a clara, que representa o visível. Isso reflete a realidade: há mais coisas invisíveis do que visíveis.

Considerando a visão humana como um ângulo de 180 graus, os outros 180 graus são imperceptíveis. Além disso, obstáculos como prédios e carros limitam ainda mais a visão. Portanto, o visível é sempre menor que o invisível.

Esse conceito também se aplica à prefiguração e configuração. Antes de algo se manifestar (configuração), ele está em um estado latente (prefiguração). Pequenos sinais no estado latente, chamados de tendências, podem indicar o que está por vir.

Esses mecanismos não devem ser vistos de forma reducionista ou dicotômica, dada a infinidade de possibilidades latentes e soluções inesperadas. O observador, por mais perspicaz que seja, nunca conseguirá mapear todos os cenários possíveis. Em situações extremas, isso pode significar a diferença entre a vida e a morte. Abaixo, trago uma experiência vivida há alguns dias que suponho ser capaz de traduzir na prática o que foi dito.

Aula de Fundamentação, Núcleo Barra.

Um dos meus passeios favoritos na Barra da Tijuca é correr do Mo Gun ao Quebra Mar, no posto 01 da praia da Barra. Nas últimas semanas, venho fazendo isso todo domingo. No último domingo, estava retornando para casa e optei por caminhar por um trecho da calçada mais escuro.

Em dado momento, notei quatro jovens vindo na direção oposta, se aproximando cada vez mais. Para mim, este é um claro momento de prefiguração. Não sabia exatamente o que queriam, mas o ambiente estava escuro, eram quatro jovens eu estava sozinho e todos vinham na minha direção. Considerei desviar a rota, mas não haveria tempo; a tendência era que me alcançassem antes de conseguir.

Decidi seguir em frente. Notei que dois estavam mais à minha esquerda e os outros dois à direita, aparentando a intenção de me cercar. Quando julguei o momento adequado, acelerei o passo e me direcionei totalmente para a direita, fazendo com que os quatro ficassem à minha esquerda. Um deles me ofereceu um doce que estava em uma caixa na sua mão. Disse que não estava interessado e continuei meu passo acelerado, mas sem correr.

Ele ainda tentou argumentar, mas repeti que não queria e segui caminho sem parar, mantendo-me de frente para todos. Continuei minha caminhada e mais nada aconteceu.

Cinema em Família Kung Fu.

Eu consideraria que aquela poderia ser uma situação de assalto. A prefiguração indicava esse desfecho, mas não se configurou. Isso ocorreu porque, percebendo a tendência, atuei nas variáveis de forma sutil e conectada com a necessidade, sem desesperos ou certezas prévias. Atuei precisamente. Note também que a experiência marcial está implícita. Não desferi nenhum golpe, mas, a todo momento, minha atitude foi marcial.

Já em casa, pus-me a refletir sobre quando teria aprendido a habilidade de lutar sem lutar. Lembrei imediatamente de diversas vivências com meu Si Fu, onde socos e chutes simplesmente não existiam, mas era exigida uma postura marcial. Poderia ser em uma reunião, oferecendo algo a ele ou assistindo a um filme. De verdade, absolutamente tudo é Kung Fu.

Ainda refletindo, lembrei que um conceito bastante presente no Yin-Yang é que tudo o que se configura também se torna prefiguração do próximo momento. Tive habilidade para lidar com a situação porque tenho um Si Fu, então, a situação se configurou em apenas uma recusa do que foi oferecido. Nem todos têm a mesma sorte. Por isso, creio ser meu papel como cidadão ter alertado a polícia do possível problema. Nesse caso, falhei terrivelmente. Aliás, o que eu estava fazendo sozinho em uma rua escura no domingo à noite?

Ensaio Sobre Acervo

Parte da coleção Ving Tsun Kuen Kuit, arte criada por patriarca Moy Yat.

O Sistema Ving Tsun possui cerca de trezentos anos. Trezentos anos a partir de seu estabelecimento como tal, por nossa ancestral Yim Ving Tsun. Portanto, há mais histórias anteriores a seu marco de fundação.A partir do estabelecimento inicial, o sistema foi consolidado. Então, sua transmissão passou a ser viável para além das paredes do monastério Siu Lam e, posteriormente, para o mundo.

O marco de um início é um acervo, uma vez que deu nome à arte e criou uma estrutura coesa. O acervo, nesse contexto, refere-se a um conjunto de conhecimentos, práticas, documentos e tradições acumulados ao longo do tempo. O estabelecimento de materiais indicativos, como nomes, estruturas ou documentos, são maneiras de manter vivo e transmissível qualquer saber.

Logo do Instituto Julio Camacho, arte criada por Mestre Senior Julio Camacho.

O Patriarca Moy Yat foi um dos responsáveis por tornar o sistema Ving Tsun conhecido para além da China. Sua principal contribuição foi no sentido de transmissão, quando, por exemplo, adaptou o sistema para melhor apreciação no chamado mundo ocidental. Ele dizia que a maneira correta de transmitir o sistema era de forma pura e integral. Entendo que a maneira pura à qual se refere é a preocupação de transmitir o que o sistema propõe e não suas interpretações pessoais. Quanto ao integral, é preciso que seja completo e restrito ao seu fim. Creio que essa forma de abordagem ele tenha aprendido com seu próprio Si Fu, Patriarca Ip Man.

Meu Si Fu, Mestre Sênior Julio Camacho, através dos aprendizados com seu Si Fu, Grão Mestre Léo Imamura, discípulo direto do Patriarca Moy Yat, fez chegar a nós a importância dessa abordagem. Além disso, valendo-se das perspectivas e possibilidades de qualquer acervo, Si Fu criou sua própria maneira de dar continuidade e perpetuar o sistema, criando programas que fortalecem e protegem os que já existiam. Para mim, essa é a origem do Instituto Julio Camacho.

Com Mestre Senior Julio Camacho, 2018.

Portanto, o Sistema Ving Tsun, que foi fundado na China há três séculos, passou por diversos processos de construção, correções e refinamentos. Como há tempos ele não é transmitido apenas na China e necessitou de diversos ajustes para se atualizar à época e à cultura em que foi inserido, pode-se entender que o sistema Ving Tsun, e também o Kung Fu, são patrimônios da humanidade. Sendo assim, cabe a todos os seus transmissores o olhar cuidadoso ao passado, no sentido de manter o que é original do acervo, a transmissão atualizada, com o objetivo de tornar o entendimento e apreciação viáveis aos contemporâneos, e a sensibilidade para perceber as variações ainda sutis e invisíveis que vão sugerir como serão as necessidades futuras.

Terceira Imersão da Família Moy Jo Lei Ou. Florida, E.U.A.

Em minha família, Si Fu prefere trabalhar com seus discípulos. A meu ver, este é um aspecto fundamental no sentido da estratégia da abordagem do sistema e preparo das próximas lideranças. Veja, ao deixar o trabalho daqueles que não são discípulos a encargo de seus membros vitalícios seniores, Si Fu gera a eles a oportunidade de se responsabilizar por sua própria comunidade e criar uma base que, no futuro, irá gerar novos discípulos. Estes, por sua vez, já estarão habituados a trabalhar com pessoas tão distintas entre si que entenderão que não existe uma verdade absoluta, apenas leituras pessoais. Portanto, o mais novo também deve se inspirar e desenvolver sua própria abordagem do sistema, que mais tarde será lapidada por Si Fu e, então, tornar-se-á Kung Fu. Isso, por sua vez, torna aquele praticante absolutamente capaz de continuar o trabalho para as próximas gerações, tendo ele esse objetivo ou não.

De minha parte, enquanto legatário do sistema, e por isso alguém que passa por todo este processo de aprendizado, assumo o compromisso com minha ancestralidade de perpetuar o sistema, respeitando a corrente originária e por onde há de vir minha linhagem.

Conceituando Vida: Uma Perspectiva Multifacetada.


A origem da vida, segundo a ciência.

A vida, esse fenômeno complexo e fascinante, transcende qualquer tentativa de definição unidimensional. Para compreendê-la em sua plenitude, é necessário explorar suas diferentes facetas sob as lentes da biologia, filosofia e sociologia, enquanto também consideramos interpretações pessoais que podem ampliar nosso entendimento.

Do ponto de vista biológico, a vida se revela através de uma intrincada rede de processos vitais que caracterizam os organismos vivos. Desde os simples microorganismos até os seres humanos complexos, todos compartilham a capacidade de crescer, se reproduzir, responder a estímulos ambientais e metabolizar nutrientes para sustentar suas funções vitais.

Filosoficamente, a vida é uma jornada de questionamento, reflexão e busca por significado. Nesse contexto, nos confrontamos com questões profundas sobre o propósito de nossa existência, a natureza da realidade e o significado da vida em si. A filosofia nos convida a explorar a complexidade da experiência humana e a compreender nosso lugar no universo.

Sob uma ótica sociológica, a vida se desdobra através das interações sociais, das normas culturais e das estruturas sociais que moldam nossa experiência coletiva. Somos seres inerentemente sociais, inseridos em uma teia de relações que influenciam nossas percepções, valores e identidades. A vida social é dinâmica e multifacetada, refletindo a diversidade e complexidade da condição humana.

Uma Perspectiva Pessoal: O Significado da Vida

Finalmente, é crucial considerar interpretações pessoais sobre o significado da vida. Nesse sentido, compartilho da visão de que o oposto da vida não é a morte, mas sim a não-vida. A morte é apenas um evento dentro do ciclo natural da existência, enquanto a não-vida representa a ausência total de experiência e existência. Assim, todas as características biológicas, filosóficas e sociais que mencionamos são parte integrante da vida, contribuindo para a construção da existência do ser vivente.

Ao explorar essas diferentes perspectivas, buscamos ampliar nossa compreensão da vida em toda a sua complexidade e riqueza. Cada abordagem oferece insights únicos que enriquecem nosso entendimento dessa jornada que compartilhamos. Contudo, é importante frisar que todas estas maneiras de entendimento, seja filosófica, biológica ou sociológica, tornam-se sem sentido a partir do momento em que o indivíduo torna-se apenas um expectador ou teórico da sua própria existência.

Encontro com Mestre Senior Julio Camacho sobre o Baat Jaam Do.

Em adição, gostaria de mencionar a arte e como seu exercício poderia corroborar para  a experiência plena da vida e do viver.Ao considerarmos arte uma expressão pessoal, podemos entender que o artista é aquele que usa qualquer técnica de maneira ímpar, portanto, arte não está vinculada a uma profissão, na realidade, o que faz um indivíduo um artista ou não é a maneira como ele insere pessoalidade a ação. Creio ser por isso que meu Si Fu comenta que um cantor,em princípio, é um músico. O que fará daquela pessoa um artista é dar sua maneira de viver a musica como tradução da própria existência. Então, concluo afirmando que a melhor e maior maneira de viver a vida é viver com arte.

Aprofundando-me, trago à luz a arte marcial, ou seja, a capacidade de se expressar plena e pessoalmente diante de um cenário crítico. De forma primordial, o que possibilita a noção de que a vida é preciosa é sua finitude. Daí a necessidade de protegê-la a todo custo. Esta é a maneira biológica de agir. Munidos da expressão marcial, ou melhor, da arte marcial, podemos transcender a etapa biológica e viver de acordo com nossas crenças. Claro, mesmo assim, não é possível evitar o fim da vida, mas reforço que o contrário da vida, e talvez o principal problema, não é morrer, mas sim, deixar de viver.

Quando é Possível?

Conheço muitos que não puderam, quando deviam, porquê não quiseram quando podiam. François Rabelais.

Ao pensar na possibilidade humana, percebemos uma série de mecanismos criados pela espécie que viabilizam sua sobrevivência. Analisando com cuidado, é fácil notar o quão grandiosos, são estes mecanismos, luz elétrica, carros, foguetes, etc. Por consequência, também temos a suposição de que a espécie humana está acima de qualquer revés de suas ações. Afinal, chegando a tal ponto de poder, não é difícil supor ser capaz de fazer qualquer coisa. Contudo, como salienta Rabelais, querer é poder apenas quando é permitido. Portanto, é necessário a observação do que é preciso. Apenas assim é possível viver uma vida equilibrada. Aqui, lembro também de determinado rei do livro ” o pequeno príncipe” que se dizia capaz de tudo. Quando o pequeno príncipe pede para que ele faça desaparecer o sol o rei diz ser capaz, mas é preciso esperar a hora certa. Para mim, o que estes dois pensadores, François Rabelais e Saint-Exupéry dizem é que para que a vontade seja contemplada, ela precisa navegar pelo sopro da oportunidade, apenas assim, é preciso operar ‘milagres’.

Prática no Núcleo Ipanema.

A experiência marcial, eventualmente e de forma ilusória, faz achar que no poder reside a vitória. Para isso, pressupõe a busca de mais, seja através de exercícios físicos rigorosos, ou qualquer outro mecanismo que leve o corpo ao extremo, assim, apenas pela capacidade de fazê-lo, entende-se poderoso.  É preciso cautela nesta análise, basta notar que nem sempre o máximo atingido pelo corpo é o suficiente para o objetivo fim e por mais que se treine há sempre um limite. Nestes casos, perdeu-se tempo e se gerou  machucados.  Alguns tão profundos que dificilmente irão se recuperar.

Então, a saída são as vias estratégicas. Por exemplo, ao praticar com Si Fu, percebo que simplesmente sua mão flui. Eventualmente, até vejo o uso de uma técnica, mas o ponto é que o movimento dele não está refém dela, ele  simplesmente se aproveita das minhas aberturas. Eu ofereço a ele a vitória. Seu papel é garantir a não derrota, ou seja, evitar de me oferecer oportunidades, e de bom grado, receber o que ofertei, não há razão alguma para forçar, esta dado é preciso apenas aproveitar.

Terceira Semana de Imersão na vida Kung Fu da família Moy Jo Lei Ou.

E se refletirmos de maneira aprofundada sobre o que é vitória, percebemos que esta reside na atitude diante de uma ação, em vez do aparente resultado. Por exemplo, mesmo que o Si Fu se aproveite da vitória ofertada, com Kung Fu, eu percebo que não perdi. Quero dizer, através do bom aproveitar das oportunidades ele conseguiria me golpear. Se me aproveito também, percebo as brechas em minha guarda ou eventual falta de atenção ou o que seja que fez com que eu me desestabilizasse. Portanto, em vez de me sentir derrotado, posso me ver vitorioso pelo aprendizado.

Aliás, tive uma experiência bastante marcante neste sentido. Ano passado, outra vez, eu não consegui o visto americano. Fiquei bastante desanimado e entendi, que a próxima visita a casa do Si Fu agora em maio e todos os seus eventos não seriam possíveis para mim. Contudo, mesmo desanimado, desafiei-me a associar a negativa à experiência de quando Si Fu me golpeia se aproveitando das brechas que dou. Acontece que é muito mais fácil para mim extrair aprendizado quando Si Fu me golpeia que em qualquer outro cenário. Claro, Si Fu quer me ajudar, ao contrário do Consul americano por exemplo. 

De qualquer forma, cabe a mim decidir qual postura ter diante deste cenário. Em vez de apenas me deprimir, faço questão de estar junto dos meus irmãos da forma como posso. De fato, ainda não posso ir, mas posso, apenas por me manter disponível, galgar os mesmos degraus dos demais, mesmo que no Brasil. Quanto ao visto, é questão de tempo, é certo que em algum momento terei conseguido. Então, tenho certeza que minha visita aos EUA será muito mais proveitosa. E a exemplo da experiência com Si Fu, neste caso também posso perceber as possíveis brechas que deixei e que me inviabilizaram a conquista do visto.

Então, é importante entender que negativas não são sinônimos de desistência, é preciso resiliência e vontade. Vontade esta que vai para além do poder, pois eu desejo, e posso. Sendo assim, certamente quando houver o dever, a possibilidade lá estará.

Ensaio sobre Kung Fu

Ideograma de Kung Fu

Kung-Fu (功夫) é um conceito originário da China que se tornou patrimônio da humanidade. Este conceito combina diversas habilidades e contém em si toda a sua essência. Por ser tão genérico e abrangente, qualquer tentativa de separação ou definição além de sua própria expressão reduz seu significado.

Mesmo assim, devido à sua disseminação principalmente através de filmes e abordagens bastante específicas, e por ter sua origem em uma cultura tão distante, é necessário algum nível de tradução. Sugiro, portanto, alguns entendimentos:

“Kung” (功) significa habilidade ou mérito adquirido através do esforço, ou tempo gasto ou energia investida para alcançar um objetivo, enquanto o ideograma para “Fu” (夫) pode ser entendido como sabedoria. Juntos, eles representam a ideia de dominar uma habilidade através de treinamento árduo e dedicação constante.

Montagem do Antigo Núcleo Barra, Downtown.

Com base na disseminação mais comum do conceito através de filmes, é possível entender que Kung Fu seja uma arte marcial, o que é impreciso, ou até mesmo expressões de combate que se valem de socos e chutes, o que é extremamente redutor.A proposta de tradução dos ideogramas revela alguns conceitos bastante subjetivos. Por exemplo, qualquer coisa pode ser obtida com habilidades ou méritos advindos do esforço, ou da dedicação de tempo. Isso é crucial, mas incompleto, pois a completude advém da sabedoria. Ou seja, através de dedicação árdua e tempo investido, é possível alcançar um objetivo, mas somente a sabedoria irá direcionar a melhor maneira de alcançá-lo.

No fim, o tempo e o trabalho pesado dedicado a qualquer atividade nos torna mais inteligentes para realizá-la com menos esforço. Em outras palavras, em um nível elevado, ou com Kung Fu, não há esforço algum. De toda sorte, a capacidade de fazer tudo de forma simples e eficaz, se bem incorporada, passa a ser um hábito.

Prática de Seung Chi Sau com mestre Senior Julio Camacho.

Pessoalmente, tive bastante dificuldade de entender esta dinâmica. O fato de fazer nunca me foi um problema, mas fazer com excelência já foi mais dificultoso. Certamente, ter insistido na prática do Kung Fu me ajudou a vivenciar o que hoje escrevo com naturalidade e verdade. Há anos trabalho no Mo Gun em diversos níveis. Hoje noto que coisas que demorava alguns dias para fazer se resolvem em poucas. E lembro de uma história que ouvi do meu Si Fu há alguns anos:

Um praticante estava as vias de aprender o Seung Chi Sau (双黐手) dispositivo do sistema Ving Tsun), seu mestre, pediu-lhe que fosse buscá-lo em casa para tomarem café juntos. Cruzando a cidade, o aluno fez o que foi pedido e passou a manhã e a tarde em reuniões em restaurantes. Após o almoço, foram a casa de seu mestre e em não mais que três minutos, este passou ao praticante o exercício esperado. Em seguida, saíram novamente para atividades outras que se relacionavam intimamente com o Kung Fu, mas se distanciaram bastante da perspectiva de socos e chutes.

Ensaio sobre sintonia

Inscrição em Pedra indicativa dia níveis do sistema Ving Tsun. Arte de Patriarca Moy Yat.

Sistemas são conjuntos de elementos inter-relacionados que trabalham juntos para alcançar um objetivo comum ou resultarem em algum fim naturalmente desenvolvido. Estes podem sofrer ou não a ação do ser humano, como é o caso do sistema solar ou de um sistema de gestão. Todavia, é possível simplificar um sistema separando-o em três aspectos distintos e complementares: entrada, processamento e saída.

  1. Entrada: Representa o nascimento ou início do sistema, seja de um corpo celeste ou de um sistema criado pelo homem.
  2. Processamento: Refere-se ao desenvolvimento ou transformação das atividades iniciadas.
  3. Saída: Corresponde à construção resultante dos dois primeiros aspectos, englobando o resultado final. Esse resultado pode ou não ter um fim, dependendo do método ou maneiras de se entender essa ordem. Dois exemplos elucidativos podem ser citados.
Café da Manhã em Família Kung Fu.

Quanto à lógica de modelo e à lógica de desenvolvimento, são duas abordagens que podem ser aplicadas ao estudo do desenvolvimento humano. Utilizo essas abordagens para melhor traduzir meu entendimento sobre sistemas:

  1. Lógica de Modelo: Esta abordagem concentra-se na descrição e explicação do desenvolvimento humano por meio de modelos teóricos ou conceituais, construídos com base em observações empíricas e teorias. Eles descrevem padrões gerais de desenvolvimento, estágios de crescimento ou processos subjacentes. Um exemplo seria o modelo de estágios de desenvolvimento cognitivo de Jean Piaget.
  2. Lógica de Desenvolvimento: Essa abordagem considera o desenvolvimento humano como um processo contínuo e dinâmico, influenciado por fatores como genética, ambiente, interações sociais e experiências individuais. Destaca a importância do contexto e das interações ao longo do tempo. Um exemplo seria o conceito de Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP), introduzido por Vygotsky.
Despedida de Mestre Senior Julio Camacho

Em resumo, enquanto a lógica de modelo se baseia em modelos teóricos para descrever padrões gerais de desenvolvimento, a lógica de desenvolvimento enfatiza a natureza dinâmica e interativa do desenvolvimento humano ao longo do tempo. Ambas as abordagens têm seus próprios méritos e são úteis para entender diferentes aspectos do desenvolvimento humano. Embora a lógica de modelo possa sugerir um ponto a ser atingido e este ponto seja considerado suficiente ou acabado, no caso da lógica de desenvolvimento, o fim de um processo é justamente o início de outro.

Considerando que o sistema Ving Tsun possui uma fase estruturada que compõe os três primeiros domínios: Siu Nim Tau, Cham kiu e Biu Je, uma semiestruturada, onde os domínios são nomeados como Muk Yan Jong, Luk Dim Bun Gwan e Baat Jaam Do e a última, a fase não estruturada, percebemos o caminho de entrada, processamento e saída. E mais, o aproveitamento do melhor da teoria dos dois pensadores citados, Piaget e Vygotsky.

O primeiro, pois os três domínios da fase inicial possuem uma ordem de apresentação clara e seriada. O segundo, pois a segunda fase do sistema já possibilita a transmissão de maneira não linear. Por fim, a última fase não apresenta estrutura alguma, indicando ao praticante que é o momento de expor o Kung Fu adquirido, e se bem aprendido, será expresso em qualquer cenário, por isso, não há limites de naturezas.

Entenda que, no fim do sistema, iniciamos um novo momento, uma abordagem absolutamente nova. Para mim, ali de fato reside o Kung Fu, já que ele pode ser aplicado em qualquer lugar.”

Ensaio Sobre a Angústia.

Moy Jo Lei Ou Baat Jaam Do.

Sobre a Angústia, é importante entender suas raízes. Observando suas causas, ou seja, as experiências que direcionam ao desconforto, há grandes chances de lidar com o mal gerado. O principal, aliás, é lidar com as sensações que a angústia traz, pois uma vez instalada, ela nunca se limita a um aspecto específico; a angústia pode conter em si medo, ansiedade, insegurança, entre outros sentimentos. Por isso, na minha opinião, a análise, no sentido de dividir em partes, é o principal caminho para aprender a lidar com o mal.

Penso que uma forma de lidar com os sentimentos que geram a angústia esteja relacionada a aspectos íntimos da experiência marcial. Aqui, refiro-me à habilidade de se apoderar da arma, onde a pessoa entende que seu corpo pode ser usado de maneira marcial, para isso, toma consciência de forma profunda da extensão de si, seja no sentido físico ou de potencialidades.

Em seguida, uma vez que já se reconhece o potencial, é o momento de pôr em prática. Então, o praticante desenvolve a habilidade de exercer todo o potencial latente.

Por fim, a condição de deter a própria arma. Sendo este o último domínio, cabe ao artista marcial o mais alto nível daquela experiência. É onde, além de entender o potencial e saber usá-lo, por opção e baseado no contexto, não usa.”

Sessão do Nível Superior Final com Mestre Sênior Julio Camacho.

É importante entender também sobre a orientação do movimento, neste caso, a ação de descobrir o potencial, usá-lo e, por fim, apesar da condição, abrir mão. Saiba que a língua chinesa, em geral, trabalha com movimentos não estáticos. Por exemplo, ao falar de energia interna, não me refiro à energia que está dentro do praticante, mas sim àquela que se direciona para dentro.

Assim, entender o caminho que gera a angústia como algo que vem de fora, do meio social, e que reverbera intimamente é o primeiro passo para aprender a lidar com ela. Haja vista como, em geral, o medo ou a insegurança, por exemplo, se originam na relação com o outro. Seja o medo sobre como determinada ação vai reverberar ou a insegurança sobre o eventual apoio ou crítica alheia. Assumir a responsabilidade da ação, entender que nada em si é bom ou ruim, e sim seu uso, é fundamental.

Por isso, apropriar-se do sentimento alheio, assumindo que ele reverberou internamente, é o primeiro passo. Depois, usar o sentimento de maneira a gerar alguma ação benéfica é o seguinte, e, por fim, identificar se é favorável aproveitar ou não o sentimento.

Celebração do Aniversário de Mestre Sênior Julio Camacho, 2020.

Como exemplo prático, lembro-me de Si Fu e Si Mo. Ambos optaram por viver em outro país mesmo após anos em sua nação de origem e com carreiras consolidadas. Imagino que houve muitas críticas sobre a decisão deles e certamente essas críticas foram ponderadas; conhecendo meu Si Fu, acredito que foram justamente as críticas que fizeram com que o processo deles fosse bem-sucedido, uma vez que as ouviram de coração aberto e puderam neutralizar de forma prévia os entraves possíveis.

De toda sorte, assim como Si Fu e Si Mo, estou em vias de me mudar. Pretendo, assim, também direcionar meu futuro para um caminho mais próspero. Em meu caso, as críticas favoráveis ou desfavoráveis ainda me afetam e me fazem perder o foco, mesmo o desafio não sendo ainda tão grande. Mas, apesar do medo, estou animado. Em breve o desafio será para valer, e até lá, vou me refinando.

Do Sistema ao Kung Fu

Yim Ving Tsun.

A fundação do sistema Ving Tsun é atribuída a uma pessoa, esta pessoa se chama Yim Ving Tsun. De fato, o que foi atribuído a ela foi a formatação do sistema, ou seja, sua configuração e linearidade, de modo que o desenvolvimento do Kung Fu fica a critério do líder de família.

Entenda: o sistema Ving Tsun (Yim Ving Tsun Kuen) ou os punhos de Ving Tsun, é um caminho para se atingir o Kung Fu. Como caminho, é importante entender que passar por ele é como caminhar por trilhas, que podem se atualizar a todo momento, jamais trilhos que conduzem a um caminho rigoroso e direcionado com algum objetivo fim.

Assim feito, desenvolvemos o Kung Fu, que é, em minha opinião, a expressão artística de um indivíduo

Reunião de Alinhamento com Mestre Senior Julio Camacho.

De maneira parecida, cabe saber que líder de família e mestre são coisas diferentes. Ambos podem ser chamados de Si Fu, mas suas diferenças podem ser entendidas tanto na grafia dos termos – elas são diferentes – quanto no seu papel.

Para o fim deste texto, baseio-me na segunda hipótese. Enquanto mestre, este Si Fu é considerado um perito na transmissão de um sistema. Pessoalmente, percebo-o como um técnico, alguém capaz de transmitir o entendimento e a aplicação das técnicas do sistema Ving Tsun. Por se concentrar em técnicas e manejos, este não contribui diretamente para o desenvolvimento do Kung Fu.

Aquele que desenvolve o Kung Fu é também um perito no sistema, porém, foi capaz de transcender suas limitações e explorar plenamente suas capacidades, tornando-se assim um perito em transmitir a capacidade de outros também se libertarem e desenvolverem, assim, sua própria maneira de construir o Kung Fu.

Almoço em família Kung Fu.

Eu tenho a oportunidade de viver o que foi dito na prática. Por exemplo, todos os que tiveram a oportunidade de participar de reuniões on LINE já observaram que nos próprios aplicativos que permitem as reuniões, é possível ver um emoji de uma mãozinha, indicando que aquela pessoa gostaria de falar.

Na nossa família, Si Fu, pede que aqueles que desejem falar simplesmente abram o microfone e falem.

O trabalho do Kung Fu acontece porque, embora se possa falar a qualquer momento, é evidente que existem momentos certos para se falar.

Acertar este momento não é uma tarefa fácil, pois é necessário percebê-lo e, em percebendo, nem sempre o tempo de percepção e intervenção, neste caso, a fala, estão alinhados, o que gera risco de desvirtuar o assunto. Claro, isto não é desejado.

É uma experiência bem desafiadora e absolutamente rica em termos do Kung Fu. Vale a pena experimentar.”

A matéria prima da expressão Marcial

Linhagem Ancestral.

Para se desenvolver no Kung Fu, é mandatório pertencer a uma família de Kung Fu. Esta pode ser composta simplesmente, e não por acaso, por um Si Fu e um To Dai. Este arranjo origina uma linhagem.

Em geral, embora não seja obrigatório, mas, se existir, como recurso, faz-se uso de outros membros para fortalecer o aprendizado. Tem-se então a chamada relação Si Hing Daai. Reforço, e esta percepção é crucial para o entendimento do texto, que o ponto de partida, meio e fim para o desenvolvimento marcial de qualquer indivíduo é a relação originadora, de então, o que segue é um recurso utilizado na medida da necessidade e de forma estratégica.

Com isso posto, espero esclarecer o nível de trabalho e dedicação dos irmãos Kung Fu que têm a missão de dar continuidade ao legado de seu mestre. Mais que trabalho e dedicação, o contato direto com seu mentor é essencial para que todo o aprendizado possa ser absorvido dele, e de forma estratégica, disseminado.

Celebração de meu trigésimo quarto aniversário.

Um dos livros da coleção Fundamentos do Kung Fu, de autoria de meu Si Fu e dois de seus contemporâneos, tem como título a epígrafe “Marcialidade”. Sobre as interpretações e usos diversos do termo, sugiro a leitura do livro. Aqui, trago um pequeno trecho que traduz mais meu entendimento do que as impressões dos autores, embora esta seja baseada na prática constante do que foi dito ali. Conforme segue:

“Era domingo, relativamente cedo. Considerando o número total de horas dormidas, poder-se-ia dizer que era madrugada. Surrupiado o sono de beleza, pensa-se ser possível relativizar a cara amassada.

Não pode!

A expressão Marcial, em meu entender, diz respeito a locomover-se, mesmo desejando manter-se parado. E uma vez em movimento, com a mente alerta e em guarda.

Alguns minutos mais tarde, encontramos Si Fu, absolutamente desperto. Se estávamos juntos no dia anterior, suponho que também ele dormiu pouco. Sob conversas diversas, seguimos ao aeroporto. Si Fu fala, eu cuido das orelhas, da mala, da champanhe e todo o resto se perde.

Para onde íamos mesmo?

Um tanto incomodado, busco atualizar o momento. Tudo está muito confuso, o assunto era importante, e também todo o resto. Dando por mim, ou para o que está além de mim, percebo que estamos parados no pedágio.

Quando aconteceu?

Questão técnica, o cartão não passa e o carro não anda. Absolutamente atrapalhado, busco minha bolsa, invisto na missão de não quebrar nada, ouvir o Si Fu e nos libertar da pausa. Lento demais, faltou disposição, Si Fu me alerta. Afinal, o que eu fazia ali?”

Foto do dia.

Voltei ao Mó gun reflexivo. Por que estava tão desatento?

Simples: como praticante de um sistema, faltou a expressão Marcial. Seguem-se os dias. Estando junto aos meus irmãos Kung Fu, vejo-me na obrigação de evocar o Si Fu. Buscando fugir de um conto enfadonho, opto por uma expressão prática:

“Éramos três pessoas, falávamos sobre a prática, enquanto a praticávamos. Na mesa, algumas guloseimas e um cenário absolutamente rico para a expressão Marcial. Bocas cheias, conversa rolando, afinal, comem ou se falam?

Se falam, eu como; se comem, eu falo. Perguntam-se e agora? Por gestos eu respondo: Kung Fu. Por fim, termino. Um antes, outro depois. Dessintonizados, talvez. Pelo espírito evocado, absolutamente humano, marciais.”

Sobre o que meus irmãos Kung Fu aprenderam, posso apenas intuir. De minha parte, ao reviver a experiência com Si Fu a partir deles e por uma outra ótica, pude ressignificar o momento. Fato é, meu papel não é o de professorar. Apenas compartilho meus aprendizados com aqueles sob o mesmo nome; sobretudo, e humildemente, reaprender.

Reatividade

Demostração prática de Kung Fu..

A última visita do Si Fu foi bastante importante para mim. Isto se dá por diversos motivos: saudade, pautas que tratamos, reunião da família para recebê-lo.Tudo isso, por si só, já é o bastante para desenvolver diversas reflexões. Embora refletir seja um grande prazer para mim, nosso último encontro trouxe bem mais do que eu poderia esperar.

Viagem do Si Fu para Brasília.

Sobre esperar, fez-me inclusive questionar seu uso.O problema da espera é a imobilidade. Aguardar uma ação externa traz este risco; é quase a desculpa perfeita para não se fazer, aliás, responsabiliza-se outrem pela inação ou qualquer tipo de falha; a esta espera, dou o nome de espera passiva.Uma solução encontrada para esse problema chama-se proatividade. Contudo, há problemas. “Pró” quer dizer à frente, vejo nesta ideia os fundamentos da precipitação.Por isso, prefiro outra solução, a reatividade, esta eu nomeio de espera ativa.

Estudo sobre o Sistema.

Veja, reagir é impossível sem considerar o cenário ou qualquer nível, no melhor sentido da palavra, de provocação.Com este espírito, espero ansiosamente a próxima vinda do Si Fu, ou minha ida para lá. E sei que para que isso faça sentido, é necessário fazer com que toda a experiência vivida gere frutos. Somente assim, nós conseguiremos caminhar novos passos, em vez de ter que trabalhar sempre as pmesmas situações.

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