
Para se desenvolver no Kung Fu, é mandatório pertencer a uma família de Kung Fu. Esta pode ser composta simplesmente, e não por acaso, por um Si Fu e um To Dai. Este arranjo origina uma linhagem.
Em geral, embora não seja obrigatório, mas, se existir, como recurso, faz-se uso de outros membros para fortalecer o aprendizado. Tem-se então a chamada relação Si Hing Daai. Reforço, e esta percepção é crucial para o entendimento do texto, que o ponto de partida, meio e fim para o desenvolvimento marcial de qualquer indivíduo é a relação originadora, de então, o que segue é um recurso utilizado na medida da necessidade e de forma estratégica.
Com isso posto, espero esclarecer o nível de trabalho e dedicação dos irmãos Kung Fu que têm a missão de dar continuidade ao legado de seu mestre. Mais que trabalho e dedicação, o contato direto com seu mentor é essencial para que todo o aprendizado possa ser absorvido dele, e de forma estratégica, disseminado.

Um dos livros da coleção Fundamentos do Kung Fu, de autoria de meu Si Fu e dois de seus contemporâneos, tem como título a epígrafe “Marcialidade”. Sobre as interpretações e usos diversos do termo, sugiro a leitura do livro. Aqui, trago um pequeno trecho que traduz mais meu entendimento do que as impressões dos autores, embora esta seja baseada na prática constante do que foi dito ali. Conforme segue:
“Era domingo, relativamente cedo. Considerando o número total de horas dormidas, poder-se-ia dizer que era madrugada. Surrupiado o sono de beleza, pensa-se ser possível relativizar a cara amassada.
Não pode!
A expressão Marcial, em meu entender, diz respeito a locomover-se, mesmo desejando manter-se parado. E uma vez em movimento, com a mente alerta e em guarda.
Alguns minutos mais tarde, encontramos Si Fu, absolutamente desperto. Se estávamos juntos no dia anterior, suponho que também ele dormiu pouco. Sob conversas diversas, seguimos ao aeroporto. Si Fu fala, eu cuido das orelhas, da mala, da champanhe e todo o resto se perde.
Para onde íamos mesmo?
Um tanto incomodado, busco atualizar o momento. Tudo está muito confuso, o assunto era importante, e também todo o resto. Dando por mim, ou para o que está além de mim, percebo que estamos parados no pedágio.
Quando aconteceu?
Questão técnica, o cartão não passa e o carro não anda. Absolutamente atrapalhado, busco minha bolsa, invisto na missão de não quebrar nada, ouvir o Si Fu e nos libertar da pausa. Lento demais, faltou disposição, Si Fu me alerta. Afinal, o que eu fazia ali?”

Voltei ao Mó gun reflexivo. Por que estava tão desatento?
Simples: como praticante de um sistema, faltou a expressão Marcial. Seguem-se os dias. Estando junto aos meus irmãos Kung Fu, vejo-me na obrigação de evocar o Si Fu. Buscando fugir de um conto enfadonho, opto por uma expressão prática:
“Éramos três pessoas, falávamos sobre a prática, enquanto a praticávamos. Na mesa, algumas guloseimas e um cenário absolutamente rico para a expressão Marcial. Bocas cheias, conversa rolando, afinal, comem ou se falam?
Se falam, eu como; se comem, eu falo. Perguntam-se e agora? Por gestos eu respondo: Kung Fu. Por fim, termino. Um antes, outro depois. Dessintonizados, talvez. Pelo espírito evocado, absolutamente humano, marciais.”
Sobre o que meus irmãos Kung Fu aprenderam, posso apenas intuir. De minha parte, ao reviver a experiência com Si Fu a partir deles e por uma outra ótica, pude ressignificar o momento. Fato é, meu papel não é o de professorar. Apenas compartilho meus aprendizados com aqueles sob o mesmo nome; sobretudo, e humildemente, reaprender.