As rédeas da Vida

Comitiva de Despedida, maio de 2023

Si Fu conta que muito de seu Kung Fu foi desenvolvido em viagens acompanhando seu próprio Si Fu, meu Si Gung, ao redor do mundo. Uma outra parte, foi na Rodovia Presidente Dutra, onde segundo seus cálculos morou por volta de 6 meses. Acontecia, que como vivia no Rio de Janeiro e seu Mestre em São Paulo, considerando tempo de viagem e eventuais transtornos comuns em estradas, passava quase um dia para concluir seu traslado; fazendo isto por alguns anos, chegou ao número citado.

Neste período de tempo, eu imagino, na sua ida era o momento de conter a ansiedade e aguardar o momento da chegada; seu retorno, era o momento de digerir toda a experiência vivida e transformar em energia para se manter inteiro até a data do próximo retorno. Acho que estes momentos de solidão são cruciais para o Kung Fu, já que a ressignificação da experiência acontece de forma natural.

Comitiva para Celebração do Aniversário de Madame Helen Moy, dezembro de 2017

Certa vez, em um dos seus retornos para o Rio, a experiência vivida em São Paulo foi tão marcante que ela passou a viagem inteira revivendo aquele momento. Na ocasião, ele havia pedido a seu Si Fu autorização para iniciar um trabalho. Em uma tentativa de estímulo, ao menos, é assim que eu vejo, Si Gung com Maestria não disse que sim, tampouco que não. Apenas incitou dúvidas dando exemplos claros de que sim, ele poderia iniciar um trabalho ao mesmo tempo que deixava clara, muitas vezes com os mesmos exemplos, sua eventual incapacidade de seguir seu desejo.

Então, o que fazer? acho que se Si Gung tivesse dado uma resposta definitiva, sendo sim ou não, para Si Fu, seria bem mais fácil. Neste caso, bastava iniciar o trabalho tendo certeza do apoio de seu Mestre, ou nem começa-lo, já que, pela essa ótica, ele não seria capaz. Acho que no fundo, a proposta era: caso Si Fu iniciasse ou não o trabalho, ele precisava ter certeza de que a decisão seria dele.

Momento de Vida Kung Fu

Pessoalmente, posso contar várias vezes em que cheguei no Mo Gun ou saí dele com lágrimas nos olhos. A experiência vivida era tamanha que eu usava as lágrimas como uma tentativa de diluir tudo o que eu sentia. A bem da verdade, havia nestas lágrimas, uma intenção quase oculta de necessidade de atenção ou algum tipo de pena.

Clamava através dos olhos pela elucidação de sentimentos que eu tinha ciência e de alguma forma, justamente por saber quais eram, preferia ignorar. Acho que Si Fu sabia disso, e por mais que eu clamasse por pena, Si Fu me trazia a responsabilidade. Nunca foi fácil, nunca houve um “coitado do Gui”, era pancada atrás de pancada na busca desenfreada de ambos em apontar meu coração para o caminho que eu sempre quis seguir, mas nem sempre tive coragem de trilhar. Exatamente por isso, em nenhum outro momento ou lugar da minha vida e a despeito de toda a dificuldade, senti-me tão respeitado.

Hoje, as lágrimas que acompanham este texto não me remetem a pena ou qualquer forma de me diminuir. Elas tratam justamente, apesar de toda dor e tristeza do processo, de finalmente me encontrar com os sentimentos de veras temidos. Si Fu nunca disse que eu podia ou não, mas exigia de mim a respostas para as minhas próprias dúvidas, afinal, achando que posso, ou que não posso é minha a razão. Muito obrigado, Si Fu. Por tudo até hoje, e por tudo que há de vir!

Para Onde Vão os Olhos!

Ato Cerimonial Nonagésimo Terceiro da família Moy Jo Lei Ou; 2023

Foco sugere rigidez e certa perda de capacidade visual. Em um primeiro contato, à luz da oftalmologia, é plausível entender que isto acontece, pois para ter foco é preciso fixar o olhar em algum ponto e não deixar perder de vista, o que ocasiona perda de vista com relação ao todo.

No que diz respeito ao Kung Fu, entendo que o equilíbrio seja a base para qualquer coisa; então, quando se fala de foco, trata- se apenas do aproveitar de forma positiva os mecanismos disponíveis. Isto pode ser perfeitamente estudado no Sistema Ving Tsun; em sentido didático, mais especificamente, creio que a trilogia fundamental proponha a prática desta observação.

Entenda: Siu Nim Tau carrega uma forma de trabalho com os olhos que é diferente do Cham Kiu, que é diferente do Biu Je, que é diferente dos anteriores. Atrevo-me a dizer que cada nível trata de uma maneira o foco.

Em outras palavras, o que quero dizer é que há uma maneira propositiva, onde fixar os olhos em movimento é o estudo, em outro momento, fixar os olhos sem movimento, por fim, antecipar os olhos para direção do movimento vindouro.

Praça Quinze, Centro do Rio de Janeiro, 2023

Há alguns meses, proponho-me uma atividade física diferenciada. Cismei que vou me tornar um maratonista. Posso dizer que este desejo surgiu do enorme incomodo que é usar o transporte público no Rio de Janeiro sobretudo em horário de pico; faço questão de fugir disto. Pois bem, eram 15 minutos de corrida que passaram para 5KM e agora almejo os 15KM. É certo que há neste ato, subjacente, outras questões. Sem dúvida, a necessidade de ir mais longe e me por a prova é sintoma de algum desajuste, ou ajuste, do meu momento atual.

Bem, talvez tenha o leitor algum interesse em saber sobre minhas mazelas emocionais; mas não é este o assunto, lembra? Foco! Iniciei o texto dando uma direção ao olhar, em algum momento, mudei o rumo e agora retomo. Quem sabe, é chegada a hora de esclarecer minhas intenções: Diferente do que é muitas vezes dito, para mim, foco não é estático, o que seria percebido pela rigidez supracitada; gosto de entende-lo como flutuante no sentido de vai para onde a maré propõe; em caso de mudança de rota, são os pequenos ajustes que direcionam de forma simples e eficaz, sem esforço.

Yam Chá e Vida Kung Fu. 2011

Para onde a maré me leva? navegar é preciso, viver não, disse o poeta. Penso mais ou menos assim; planos, metas e objetivos dão um norte, mas apenas o caminhar do caminho é capaz de guiar o navegador.

Ao Longo de minha jornada Kung Fu, mudei o norte muitas vezes. Em vários momentos Si Fu disse: “Esse é o seu grande momento”. Acabou não acontecendo; o que precisa verdadeiramente acontecer eu não sei, mas eu tenho um sistema, e sobretudo um Si Fu que se disponibiliza em qualquer tempo, para que eu possa aprofundar meus estudos.

Se quisermos saber sobre qual o foco a partir de hoje, eu diria que é retornar a minha casa!

Saudade

Visita Oficial de Mestre Senior Julio Camacho ao Brasil. 2023

A língua portuguesa é capaz de traduzir sentimentos como nenhuma outra que eu conheça. Por isso, busco através da influência do meu Si Fu, ser preciso em todos os sentidos. Com relação a língua, por sorte, tenho acesso a uma ferramenta ímpar. Então, hoje compartilho o sentimento que mais traduz meu momento atual; a bem da verdade, ele é um pouco mais antigo.

Foto Oficial da Cerimônia ocorrida no dia 20/05.

Acontece, que a primeira vez que fiquei um longo tempo afastado fisicamente do Si Fu foi quando morei em Angola. Naquela época, tive de aprender a me relacionar com ele por outras vias, claro, a tecnologia sempre ajuda; Mas, o que mais me ajudou a me sentir próximo, a despeito dos quilômetros de distância, foi a sintonia. Para mim, Kung Fu diz respeito a manter os corações alinhados. Toda a intenção, por mais que possa percorrer caminhos distintos é direcionada, sem força ou pressa, para o mesmo lugar. Naqueles tempos, o desejo da família Kung Fu, além de outros, era iniciar um trabalho no continente africano. Por isso, pude me sentir próximo.

Momento da Cerimônia de Discipulado, Baai Si, de Rafael Romanizio.

Para ser mais certeiro, entendo que este alinhar de corações iniciou bem antes da minha cerimônia de baai si. Já que esta possui componentes muito similares, na verdade, exatamente os mesmos do casamento. Desejo mútuo de aproximação e conhecimento, proposta de crescimento pessoal, e legado para a humanidade. Um outro correspondente, próximo a fidelidade, é a lealdade. Em meu caso, a despeito de algumas interpretações equivocadas, busco seguir a risca o que Si Fu diz, ou o que me comprometo a fazer. Para isso, outra vez, é preciso sintonizar o coração. Apenas sintonizando os corações se torna viável explorar ao máximo as oportunidades e, aos poucos, digeri-las.

Visita de Mestre Senior Julio Camacho e Senhora Márcia Moura Camacho ao Escritório do Discípulo Márcio Lopes.

Bem, as possibilidades não aparecem ao acaso; cada discípulo tem em suas mãos as ferramentas necessárias para de alguma forma oportunizar as experiências. Por isso, cada almoço, passeio, viagem, reunião, chamada de vídeo, ou o que mais a criatividade for capaz de sugerir, é crucial.

Almoço em Família, oportunizando o Kung Fu

Sim, toda é qualquer experiência é valida se o discípulo busca vivê-la, e o mais importante, à sua maneira.

Mesmo compreendendo que para se ter vida Kung Fu, a presença física não seja obrigatória, pessoalmente, necessito de contato direto. Por isso, este fim de semana aqueceu uma chama que vive há muito tempo em meu coração; pude conversar, rir, ouvir e contar histórias, ao mesmo tempo em que vivia a marcialidade; que aliás, foi confundida por mim no passado.

Chamar a atenção, ou redirecionar o foco quando este se perde não se relaciona em nada com bronca ou briga. É apenas uma recondução ao fato relevante de todo aquele cenário. Por isso, exatamente por Si Fu apontar meus erros, posso reconduzi-los ao fim almejado. No fim, explico que todo este texto diz respeito a uma reflexão profunda por conta da pergunta de uma amiga:

” E se ele se mudar outra vez, ou pedir para você voltar para a África, você vai?”

Caso Si Fu decida se mudar para Marte, faço questão de comprar os bilhetes para ele, Si Mo e eu. Caso a intenção seja que eu vá sozinho, da mesma forma compro os bilhetes para me visitarem; Afinal, qual o mal que existe em se viver daquilo que se acredita?

O Vazio que Propõe Preenchimento

Cena do Filme o Reino Proibido

É comum iniciarmos qualquer prática com algum objetivo muito bem fundamentado. O desejo pode ser emagrecer, ter mais resistência ou aumentar o salário, em caso de cursos e concursos. Nestes cenários, como a principal propaganda, em geral, traduz- se como a conclusão do objetivo visado, atingido a meta, busca-se uma nova. E assim muitas pessoas estruturam a vida.

No meu caso, isto aconteceu com o Kung Fu. Antes de iniciar minha prática já estava montado todo o percurso que eu iria percorrer e como me tornaria mestre. Muito rapidamente notei que mesmo sendo criativo, jamais poderia supor o caminho que a vida me levou.

Kung Fu é uma dinâmica diferenciada pois não se busca meios para atingir o fim. A pratica do kung Fu já se basta. Em outras palavras, havendo presença, o Kung Fu se desenvolve independente do desejo, saber, suficiência ou insuficiência. Ninguém é tão autossuficiente que não possa usar tais habilidades disponíveis, ou incapaz de forma a não desenvolve-lo.

Há uma cena no filme que cito, onde o discípulo despeja uma enxurrada de saberes em seu Mestre. Ele fala sobre habilidades físicas e coisas que viu em filmes. Seu Mestre, com um sorriso sem graça, apenas enche a xícara de chá que servia. Em dado momento, a xícara enche e queima o rapaz. Ao ouvir o lamento do discípulo, o Si Fu comanda: ” esvazie a xícara”. Incauto, ele simplesmente joga o chá fora.

Venerável Ordem Fraternal Esotérica de São Francisco de Assis, umas das primeiras palestras que assisti do Si Fu, 2007.

Em geral, um problema grave dos discípulos é a incapacidade de obedecer, Considerando que a palavra obedecer é intimamente vinculada a proficiência em ouvir, analisemos os fatos:

Antes de obedecer é preciso ouvir a partir de uma escuta inteligente, Kung Fu, o que está sendo dito. O Mestre da história acima deu uma ordem, o aluno não ouviu, por isso jogou o chá fora. Ora, por qual razão se enche uma xícara vazia?

Beber o líquido era o comando, contudo, cheio de pressupostos como estava optou por descartar o conteúdo. Aprofundando a discussão, o ato de beber significa absorver integralmente o que foi disponibilizado pelo mestre; como já estava “cheio” de saberes mal digeridos, foi incapaz de apreciar o novo conteúdo.

Assim acontece na minha vida kung fu. Eu, discípulo, apresento ao Si Fu uma serie de saberes, muitas vezes sem contexto, e exijo dele o desenvolvimento marcial a partir da minha história; isso é um prejuízo enorme. O Si Fu é um líder, então, ele apresenta o chá, ou seja, o conteúdo a ser absorvido. Apenas desta maneira podemos de fato imergir na chamada dimensão kung Fu.

Demorei alguns anos para perceber isso, esta experiência existe desde quando iniciei minha pratica. Abaixo compartilho uma das situações que me ajudam a despertar esta sensibilidade.

Estudo Especial sobre o Programa Fundamental, 2022

Há alguns anos, Si Fu foi com uma comitiva à Argentina. Lá eles tomaram posse das facas encomendadas ao Mestre Senior Leandro Godoy, meu Si Suk. Foi uma época muito divertida, Si Fu a todo momento voltava no assunto da viagem conosco, compartilhava mais um ajuste que fez no modelo para encomendar e convidava seus discípulos a participarem do processo.

A todo momento, falava-se sobre o “Baat Jaan Do” no núcleo. Nesta viagem eu não pude participar, mas fiquei muito empolgado e desejoso de estar junto. Como havia a proposta de no ano seguinte uma nova comitiva faze-la, aguardei meu momento. Por falta de sorte, a pandemia do covid 19 começou e a viagem foi desmarcada. Eu ainda estava empolgado com o espírito que ficou alguns meses no ar, mesmo depois da viagem.

Então, tomei a decisão de fazer o meu momento especial; decidi comprar o par de facas antigo do Si Fu, o que ele aprendeu todo o conteúdo do nível superior final. Apenas pelo fato de ter sido do Si Fu, estas facas são especiais, além disto, antes do Si Fu, elas pertenceram ao Si Gung. É claro que eu esperava uma cerimônia de entrega recheada de muitas histórias e sugestões de uso, tal como foi no momento anterior.

Empolgado, entreguei o valor ao Si Fu. Sua resposta foi olhar, por no bolso, tocar meu braço e dizer: ” Use bem” Mais nada. Mesmo assim, não deixei a decepção tomar conta do meu semblante, achei que era o caso de aguardar o momento oportuno.

Tempos depois, vendo que a oportunidade não chegava decidi discretamente abrir a mochila e deixar ele ver o instrumento. Tinha esperanças que ele pedisse para entregar a ele e assim, finalmente, me devolver da forma como eu queria. Ato contínuo, senti que estava forçando demais e que a intenção desta atitude era manipular o Si Fu. Sentindo-me mal por isso, fechei a mochila e pus nas costas, assim entendi que as facas me foram entregues.

Momento Atual

Reunião administrativa, 2012

A propósito do meu desenvolvimento marcial, vejo alguns obstáculos interessantes. O fato de eventualmente confundir minhas intenções pessoais e o fluxo em desenrolo me faz tomar algumas decisões equivocadas e, em alguns casos, efetivamente erradas.

Geralmente o caminho é o mesmo; vejo o cenário se configurar, aplico o aprendizado que gostaria de desenvolver e faço minha estratégia, à força, encaixar. O resultado é catastrófico.

Bem, o que há de interessante nestes momentos é a possibilidade de retorno, a posteriori, ao momento vivido. Ressignificar, parece-me uma condição inerente ao ser humano e valorizada ao extremo no meio das artes marciais.

Associada a ela, há a necessidade de responsabilização. Quero dizer: é importante estar relaxado e seguro para continuar a jornada sem medo de errar, além de convicto da condição de acerto; esta segurança tem origem na capacidade de absorver o cenário, positivo ou não, e direcioná-lo ao caminho mais favorável.

Admitidos à família, 2008

Suponho que o leitor concorde comigo sobre a simplicidade e lógica do que foi escrito acima; eu também acreditei, já que isso me é dito faz tempo e de maneiras distintas. Mas sua vivência traz uma camada de complexidade que não é nada simples, muito embora não deixe de ser lógica.

Em meu caso, por natureza, tendo a ser formal. O uso correto de termos e obediência a regras é para mim fundamental. Meu próprio nome em alguma medida menciona esta característica.

Características não tem problema em si, a observação vai para o aproveitamento produtivo dela. Por exemplo, o Sam Toi, mesa ancestral, representa toda a nossa ancestralidade ao longo dos séculos. Por conta disso, achei que sua configuração era sempre a mesma. Contudo, por duas vezes, acompanhei mudanças ainda em nossa família.

Uma delas foi curiosa. Na mesa ancestral, é comum haver itens como flores, frutas, chá. A razão disto é o desenvolvimento do zelo já que estes itens precisam ser trocados com frequência e promovem experiências de vida Kung Fu.

Eis que certa vez Si Fu decidiu retirar todos estes itens do Sam Toi, deixando apenas os móveis, e os itens de referencia direta aos ancestrais.

Eu quase passei mal vendo isto. Si Fu retirava cada item da mesa e pousava em minhas mãos dizendo para guardar. Acho que poucas vezes tentei tanto redefinir uma decisão do Si Fu quanto naquele dia; provavelmente, porque Si Fu antes de tomar qualquer decisão costuma consultar seus discípulos; desta vez, não foi o caso.

E assim seguimos: Retirando itens, pousando em minhas mãos, eu ensaiava um mas… desistia ante seu olhar sério e diminuía diante do peso daqueles pequenos itens .

Mão Livre vai a frente; dias passados e atuais.

Na época, isso aconteceu por conta de descuidos. Naqueles tempos, em geral, eu era o mais antigo do núcleo. Por isso, a título de “gerar experiências aos mais jovens” propositalmente eu não cuidava do Sam Toi.

O curioso é que pela mesma razão, eu não trocava a toalha do banheiro, não varria o núcleo ou limpava qualquer mancha de sujeira. De novo a desculpa: ” estou dando oportunidade aos demais”.

Si Fu sabia que não era isso, eu em alguma medida também. Daí o desconforto em ver o Sam Toi sendo desmontado.

Esta história durou alguns dias. Durante este tempo, ocupei-me em deixar o núcleo mais organizado e limpo que eu podia. Aos poucos, os demais vendo meu esforço, passaram a me apoiar. Por fim, Si Fu decidiu que os itens deveriam retornar.

Lembro que por alguns anos tive muita vergonha sobre o que aconteceu. Culpava – me em vários momentos e entendia que jamais iria reparar reparar o erro. Isto é fato, algumas consequências deste grave descuido nunca puderam ser diminuídas e sobre isto lamento. Ao mesmo tempo que relembro desta e de outras histórias para o fim de poder me refinar.

Em Guerra

Ilustração sobre aspectos da Guerra

Há várias maneiras de se entender ou viver a guerra. Uma maneira que aprendi, dentro do Mo Lan, nosso círculo marcial, traduz a guerra sob três lentes.

Pena, Oratória e Gesto Marcial; observando a ordem, proponho uma leitura sobre sua tradução; a primeira diz respeito a habilidade de escrever; Alinhar o pensamento e manter o ritmo da escrita evitando assim perder a linha de raciocínio, bem como as normas da escrita, é a habilidade de um escritor; Neste caso, como é comum a pessoa planejar o ato, em geral, se esta sozinho e em ambiente controlado.

A Próxima Guerra, parece-me que de alguma maneira complementa a anterior. Penso assim porque neste caso não se está sozinho, e muito embora a ação possa ser planejada, é impossível ter controle do “todo” fazendo com que quase sempre seja necessário ajuste.

A última, em minha visão, trata da real habilidade de quem demonstra; isso porque o gesto marcial necessita ter o rigor e a precisão da gramática, bem como as variações de tom de um bom orador.

Portanto, por esta leitura, é possível saber o nível do praticante apenas observando a execução de gestos.

Contudo, ainda assim, somos convidados a experimentar os três desafios.

Estudo do Nível Superior Final, 2020

Suponho que isto aconteça por várias razões, a mais simples, seria desvincular a imagem de um artista marcial a de repetidor de gestos. Uma coisa não está relacionada a outra.

A prova disto, aliás, observa-se pelo jeito como falamos ou damos nome aos movimentos. Não é a “forma”, como é comum no Mo Lan, e sim “Listagem” ou “Sequência”, e, mesmo estas duas palavras devem ser usadas em momentos oportunos.

Outra razão, seria a qualidade da guerra. Existem duas: Grande e Pequena Guerra, uma se relaciona a crises vividas por civilizações, a outra, a crises vividas pelo soldado em campo. Talvez você se surpreenda, mas a dita Grande Guerra não é a que trata da guerra entre os povos, mas sim, do soldado consigo em campo de batalha.

Ou Seja, o maior valor da guerra é a que trata de um. A rigor, vários um, quando falamos de tropas.

Comitiva Oficial de Visita a Angola, 2017

Outro dispositivo para efetivar a desvinculação supra citada, são viagens. Si Fu conta que o Kung Fu dele foi desenvolvido ao longo de inúmeras viagens com seu Si Fu, meu Si Gung. Por isso, faz parte do nosso “DNA”, ir em busca do desenvolvimento pessoal em terras estrangeiras.

Nestes momentos, ainda que a pequena guerra se faça presente, através da relação Si Hing Dai, a mais importante se faz internamente, e a cada desafio pessoal;

Creio não ter sido por acaso que minha primeira viagem internacional tenha sido com meu Si Fu, pude viver experiências inéditas na ocasião, além de diversos desafios que em princípio pareciam impossíveis para mim.

Como conclusão, entendo que em nossa família, todos os dispositivos apresentados tem uma intenção estratégica. Esta intenção é potencializada pela disponibilidade do Si Fu tanto na grande quanto na pequena guerra. E, independente de qual guerra se estava falando, cabe aos discípulos fazer o seu melhor!

Invisível

Com Mestre Senior Julio Camacho, Núcleo Barra, 2019

“Zelo é a maneira correta de amar”. Este aforisma de patriarca Moy Yat me acompanha há alguns anos.

Há pouco tempo, tive uma leitura um pouco melhor absorvida por mim. O fato é que no ano de 2018, iniciamos o programa fundamental, instrumento exclusivo do Clã Moy Jo Lei Ou. Ao menos, até o momento. Este programa carrega como conteúdo um momento que chamamos de parte teórica.

Então, ouvi uma leitura do Si Fu sobre o que é zelo. Foi bom ouvir a tradução em palavras de uma ação tão sutil. Em geral, sou pouco chegado a sutilezas, de forma a fazer com que meus cenários de aprendizado sejam sempre complexos. Mas, será que é isso mesmo?

Cena do Filme Karate Kid, 1984

A construção sobre o que dizia respeito as artes marciais, onde me apoiei, iniciou antes mesmo de eu ter nascido. O mito de um jovem acompanhando um senhor em jornadas de aprendizado me fez conceber pensamentos sobre a maneira ideal de abordagem do Kung Fu.

Sempre me imaginei ao lado de um senhor muito velhinho que eu deveria ajudar a se mover, a se alimentar e que viveria no alto de uma montanha mística qualquer. Lá desbravaríamos todos os segredos do Kung Fu.

O fato não poderia ser mais diferente. Deparei-me com uma pessoa que ainda hoje, após todos os anos de convívio, não está nem perto dos 60 anos. Bem, frustrei-me por não encontrar o velhinho, mas, por sorte, resolvi seguir.

É claro que na vida Kung Fu a todo momento sou convidado a estar atento ao que há de mais corriqueiro, justamente pelo alto risco de distração. E a maneira de me chamar à atenção que Si Fu usa sempre é contundente e inconfundível, não há meio termo, ou estou disposto a vida kung Fu ou não.

Por isso, muitas vezes pude experimentar o cansaço físico ou o medo, ou, o que é para mim o maior desconforto, o vazio. É comum Si Fu não dar respostas e deixar que decidamos o melhor caminho, desta forma, naturalmente somos convidados a nos responsabilizar; quando não dá certo a consequência se apresenta na medida que deve ser. Como disse no início, acho que em geral tendo a tornar minha vida mais complicada que deveria ser, mas, retomo a pergunta, será?

Casamento do Si Fu, Dezembro de 2018

Acontece que me é mais fácil traduzir o aspecto visível que invisível. As sutilizas carregadas nas coisas que não se vê, e nem por isso deixa de estar presente, costumam ser altamente subjetivas, e, sobretudo, não vistas.

Ao casar, duas pessoas combinam um compromisso que durará o tempo de vida, muitas vezes também póstumo, do casal. Por todo este período se tem a oportunidade de conhecer um ao outro, então, mais que o amor, estas pessoas tem a oportunidade de experimentar o cuidado sem expectativa de retorno. Apenas cuidam, pois assim se vive melhor.

Lembro de um momento, onde mais uma vez estava cansado, mal alimentado e aos tropeços tentava desenvolver meu Kung Fu. Si Fu chegou de carro, pediu-me para descer pois tinha algo que queria que eu levasse “para cima”.

Disposto, apesar de cansado, outra vez desci o mais rápido que pude, claro, não queria que Si Fu ficasse me esperando, e, sem perguntas, direcionei-me para a traseira do carro. Alguns segundos se passaram e nada aconteceu. Finalmente, percebendo a estranheza da situação, voltei-me para o lado do motorista. Só então notei que Si Fu estava com o braço para fora e um embrulho na mão.

Si Fu fez questão de frisar, ” Si Mo mandou para você”. Naquele embrulho, havia o espaguete mais saboroso que provei em minha vida.

Zelo é o ato de estar atento e a capacidade de cuidar. Não é difícil notar o zelo quando uma faca está em seu pescoço e mesmo assim não causa lesão, mas, as características sutis são ainda mais empolgantes.

De minha parte, o ato de descer veloz demonstrou exatamente o oposto do que eu queria, já que apesar de ação ter sido estrategicamente veloz, não teve relação alguma com o cenário apresentado.

Por essa e outras diversas razões, pergunto- me: quantas vezes na minha vida fui incapaz de perceber a sutileza do cuidado com relação a mim?

Crendo ou não, sempre há razão.

Filme Coração Valente, estrelado e dirigido por Mel Gibson.

Iniciar um projeto exige preparo. É importante obter conhecimento, ter ciência das ferramentas disponíveis e habilidade para dominá-las. Por isso, apenas começar qualquer plano já é em si louvável, independente do nível de compromisso com o resultado final.

Mesmo assim, há algumas situações que facilitam o desenvolvimento de um objetivo, sem necessariamente depender da determinação pessoal, neste caso, acho que posso chamar de sorte.

Os E.U.A é uma potencia mundial em diversos sentidos, sobre filmes, uma das maiores premiações acontece por lá, então, por ser americano, creio que se tornar ator era favorável a Mel Gibson. Mesmo sendo favorável, ele se aproveitou bem de suas oportunidades, então, além de ser ator, decidiu-se por se tornar Diretor.

Para mim, seu objetivo era se refinar profissionalmente, portanto, mais uma vez, dedicou-se a desenvolver sua arte e se valeu de alguma camada de sorte. Sobre a direção, por oitiva, soube que na estreia do filme citado o ator e diretor se viu atormentado e com medo, cogitando até cancelar o projeto.

Para a sorte de todos, não houve desistência e o mundo pode apreciar uma grande obra. Não somente pelo sucesso do filme, mas também, pela inspiração causada na vida de pessoas.

Não segurar a mão através da aderência dos braços. Núcleo Barra O2 – 2018

Acho muito difícil determinar o que se quer aprender. É claro que podemos procurar por material sobre assuntos que mais nos interessam, entretanto, no sentido da vida, a sorte, ou a aleatoriedade é dimensionada para mais, assim, objetivamente, percebe- se que qualquer plano foi transformado em outro e agora a melhor saída é seguir. ” Se você quer que Deus ria, faça planos”. Por isso é que o melhor caminho a trilhar é o que se determina pelo ato de caminhar.

Disse no início do texto que Mel Gibson teve sorte, e que se preparou para chegar a direção de projetos; ao mesmo tempo, no momento final, viu-se dominado pelo medo e a possibilidade de não ser capaz de realizar o que se propunha. Afinal, ele pode ou não pode?

Eventualmente, o poder e o não poder caminham lado a lado. Esses momentos de epifania são cruciais e devem ser buscados com regularidade, já que o efeito produzido é uma avaliação profunda sobre si. Dizer que posso sem entender os riscos e perigos prováveis, é sem dúvida uma atitude incauta. Submeter-se a dúvida após avaliação correta e dedicada, percebida capacidade de atuar no cenário apresentado, o não fazer é estúpido.

Preparar Antes de Aderir. Núcleo Barra Downtown – 2022

Existe sorte e existe capacidade treinada, ambas, se bem exploradas e usadas concomitantemente, geram o fim adequado a situação. Então sim, é possível se preparar para qualquer cenário, e através dele desenvolver trabalhos de excelência.

Mas, no fim, o ápice da ação bem sucedida ou não, depende da escolha.

Desde que iniciei minha pratica, venho me preparando não sei para que exatamente, mas a preparação acontece o tempo todo, e me aproveito dela. Si Fu por sua vez, está sempre disponível e me provocando novos desafios. Posso escolher não fazer ou fazer com o melhor que eu tenho.

Até porque, se acho que posso, ou acho que não, o que esta certo é: sempre tenho razão. Por isso vejo que o caminho ultimo a se trilhar, após longo preparo e proveito da sorte seja a escolha.

Vou para os E.U.A ou não? Isto independe da minha capacidade pessoal, ou dos desafios envolvidos, apenas minha escolha é capaz de decidir. Exatamente como Si Fu fez nos anos de 1994 ou 2016.

Alto Nível

Carácter que pode ser traduzido como humanidade

O saber sobre outras culturas traz ao estudioso uma série de benefícios. Creio que o maior experimentado seja a capacidade de simbolizar. Afinal, é o idioma algo além de símbolos?

É inclusive esta logica que pode ser capaz de diferenciar os seres humanos dos demais animais. Todos pensam, mas a habilidade de gerar valores é intrínseco ao homem. Por exemplo, sobre uma bebida, apenas o homem tem a necessidade de engarrafá-la, trazer valores, preços, e, eventualmente, sentimentos. Compartilhar uma bebida a título de “melhor apreciar o momento” jamais será o desejo ou ação de um cachorro.

Assim se constrói também a linguagem; Através de códigos predefinidos e combinado entre os nativos. É importante trazer esta diferença, pois, o mesmo símbolo pode, e em geral tem, significados diferentes quando adicionados a outra cultura.

A propósito da “humanidade” para a cultura chinesa, sabe-se que diz respeito a dois ideogramas distintos. Um se refere ao homem, o outro ao numeral dois. A junção destes caracteres informa muito mais que o ser, mas a ação necessária para se definir como tal; já que para haver humanidade, neste caso, é necessário que exista interação entre no mínimo dois humanos.

Prática de Chi Sau. Luanda, Angola – 2017

Chi Sau, é um exercício consagrado do sistema Ving Tsun. A primeira vez que temos acesso a ele é no nível básico, primeiro nível do sistema, conhecido como Siu Nim Tau.

Mais uma vez, devemos atentar a que tipo de olhar devemos fazer sobre o processo; para o oriente, sobretudo na China, a melhor maneira de se “esconder um tesouro” é deixa-lo evidente, assim sendo, é possível confundir o usurpador no sentido do real valor do item.

Deve-se pensar, ” se é tão importante, não pode estar explícito”. Outro ponto, é a literalidade da palavra. Dizer que é básico, significa que há nele todas as sementes necessárias para que se de continuidade a prática.

O que quero dizer, é que logo de início, apresentam-se os fundamentos; desta forma, tendo ciência ou não, isto não é relevante, o praticante tem a oportunidade de praticar conteúdos avançados, ou superiores, mesmo sem ter ingressado formalmente no domínio.

Portanto, o Chi Sau, pode ser considerado um laboratório de estudo dos componentes do Sistema Ving Tsun.

Prévia DDD21, a série – 2016

Mas, voltemos a simbologia. Tratar o Chi Sau apenas como um dispositivo técnico, parece-me um desperdício de potencial. Conceitos profundos são abordados nos dispositivos técnicos; como linha central, energia aderente, base, dentre outros.

Por isso, fez se crucial a oportunidade que tive de em diversos momentos, e em cenários diferentes, viver com meu Si Fu oportunidades parecidas àquelas vividas nos dispositivos técnicos do Ving Tsun.

A título de exemplo, lembro de quando fomos gravar a série DD21, escrita por Si Fu. Foi uma oportunidade impar de exercitar minha capacidade de conexão com pessoas não só diferentes, mas com objetivos e preocupações diferentes das vividas na relação Si Hing – Dai.

A ponto de poder ressignificar algumas conversas com Si Fu. Não lembro exatamente o tema, mas, por alguma razão, lembro do desconforto em tratar com ele sobre o assunto. Certamente era relativo a maneira como lido com dinheiro; que me recordo, não com exatidão, mas com a significação a posteriori que fiz, Si Fu disse mais ou menos assim:

Meu sonho é fazer Chi Sau com meus discípulos, Guilherme. Você não sabe o quanto. Chi Sau de verdade, onde o apoio não é a habilidade técnica, mas sim a verdade por trás do movimento que sustenta o argumento. Este é o alto nível que desejo para a nossa família. Portanto, venha fazer Chi Sau comigo quando quiser, mas, por favor, não me venha com essa base frouxa e a atitude meia boca. Quando vier, venha como homem, dando o melhor que você pode, assim sendo, prometo te entregar o melhor de mim.

Apoiado em Tang, Bong e Fuk Sau, imagino o nível ao qual Si Fu se refere. Mas, no caso, acho que falávamos na atitude de aderência sem técnica prévia como norte. Mas sim, o mais puro e genuíno Kung Fu. Onde não importa o tempo de prática, aqui, mais vale usar o que tem.

Independente de como, até hoje, não me vejo capaz de fazer este alto nível de Chi Sau, não só por incapacidade técnica, mas sobretudo, humana.

A Lei

“Isaac Newton; pensador Inglês, pai da Mecânica Clássica ”. 1643 à 1727

Mover-se requer energia; portanto, há no movimento desgaste. Contudo, como ensina Newton, todo corpo em movimento tende a permanecer em movimento. Na realidade, a tradução do que ele teria dito é mais ou menos esta:

“Todo corpo continua em seu estado de repouso ou de movimento uniforme em uma linha reta, a menos que seja forçado a mudar aquele estado por forças aplicadas sobre ele”.

Em meu entender, o que está escrito é que a menos que se perca o foco, o “corpo”, tende a continuar seu caminho.

Então, mais difícil que se manter em movimento é sair da inércia. Claro, já que a tendência é manter seu estado de origem. Creio que isto justifique a preguiça em geral experimentada ao alvorecer.

Inauguração do Núcleo Barra O2; 2017

Creio que exista um paralelo a este pensamento, oriundo da cultura chinesa : ” Siu Nim Tau deve ser feito quando se tem vontade, para ter vontade é preciso fazer todo dia”.

O aforisma de patriarca Moy Yat, meu Sitaai Gung, há alguns anos me mantem atarefado; não pela frase, mas seu uso. Claro, o que está dito é que se executa Siu Nim Tau apenas quando há vontade, e para esta vontade advir é preciso fazer como um hábito.

Contudo, mesmo esta frase, não me marcou tanto quanto as experiências que tive com Si Fu em diversas situações.

Montagem do Núcleo Barra, Downtown. 2021

Já tive a impressão de que Si Fu é incansável. Em qualquer momento, acontecendo alguma brecha, ele está criando. Desde coisas grandes a detalhes. Pode ser um quadro que devemos trocar a moldura, disposição, tamanho; ou dirigir series e escrever mais um livro. Todo o tempo é, ou ao menos tenta, o tempo todo aproveitado.

Analisando com um pouco mais de cuidado, notei que o que pareceu uma atividade sobre humana ,é na realidade absolutamente condizente com nossa espécie; o que Si Fu faz de diferente é o que chamamos de Kung Fu. Por isso, creio que Si Fu seja absolutamente cansável, e é justamente por isso que faz tudo tão bem!

Há anos atrás ele me disse, mais de uma vez, ” O que faço é exatamente o que você está fazendo, com a diferença de que faço a mais tempo.

” Um corpo em movimento tende a permanecer em movimento. Si Fu há muito saiu da inércia, agora, basta se levar pela lei natural que virou hábito.

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