Vaidade


O caminho da Mestria

Um olhar atento é aquele preocupado em perceber todas as nuances do objeto observado. Munido deste princípio, o observador será capaz de notar muito mais do que uma simples imagem, como no caso de uma foto, por exemplo. Isso por si só retira a importância de se perceber como bonito ou não. O olhar vagueia por caminhos bem mais profundos e eventualmente relevantes. Ou seja, ir além do aspecto narcísico, por assim dizer, é imergir no que chamamos de Kung Fu.

Este paralelo também é feito sobre a observância da relação do Sistema Ving Tsun com o Kung Fu. Lembrando que o sistema é um meio, não um fim, quando se deseja aprender o Kung Fu. Talvez, para ficar mais claro, eu precise afirmar que, em minha opinião, o especialista no Sistema Ving Tsun é um técnico, não um mestre.

Nonagésimo Oitavo ato cerimônia da família Moy Jo Lei Ou.

No limite do paralelo entre o que foi escrito, percebo a vaidade. Parece-me óbvio no caso da observância apenas de si em uma foto. No outro trecho, considerando não ser tão claro, eu explico: A pessoa que se dedica muito ao sistema pode evoluir muito no exercício dele; isso traz algum traço pessoal. Contudo, o Kung Fu é o traço pessoal do outro, por isso, é possível ensinar a outra pessoa a maneira de executar uma técnica, não é o mesmo no caso do Kung Fu.

Assim, quando meu Si Fu pergunta o que gostaríamos de ser, entre um transmissor do sistema, de Kung Fu e Mestre Zen, a resposta adequada estava, como sempre, no meio.

Pós e Pré eventos.

Já me orgulhei de também ser capaz de olhar para além de mim, no caso da foto, ou meu preparo como Si Fu buscando a transmissão do que vai além do sistema. Mas há outro ponto crítico de vaidade.

Preparar-se para transmitir um sistema é pouco; para desenvolver Kung Fu, é preciso ir além. Então, por que será que quando Si Fu fez esta afirmação, eu intuí que gostaria de ir além?

O caminho da mestria

Mestre Senior Julio Camacho, 2024.

No dia 15 de Março de 2003, Si Fu foi outorgado Mestre. Hoje,  vinte e um anos depois, iniciamos um processo que prepara os próximos mestres de nossa família.

Podemos entender, que toda este a estrutura proposta, chamada Encontro de Legatários e Programa de Mestrado teria sido iniciada em 15 de março de 2003. Creio que sim, mas acho que não só isto.

Mestre e Mestrandos

Para mim, a principal característica que faz com que hoje possamos preparar outras pessoas com condições de transmissão de um sistema, o Ving Tsun, e contribuir com o aprendizado do Kung Fu é o próprio Kung Fu. Quero dizer, a capacidade de se refinar a cada segundo, desta maneira, individualmente, e também perpétuo, ou seja, pelas mãos de nossos discípulos.

No sentido último, o que fica é a inspiração. A partir dela, seu uso prático, que diz respeito a reproduzir, à sua maneira, os aprendizados propostos e desenvolvidos com seu mestre. Para isso, é do meu conhecimento apenas uma forma que efetivamente funciona.

Conversa sobre legado

Atualizar é a essência. Um processo tradicional é aquele que é entregue, e pode ou não, existir por gerações e sempre passa por transformações. Portanto, congelar o tempo, quero dizer,  fixar na memória o jeito passado como a única maneira de fazer é perder toda a essência no processo de desenvolvimento do Kung Fu.

Por isso, creio que os programas e encontros ora propostos sejam maneiras de nos atualizarmos sobre como Si Fu pensa hoje. A partir disto, teremos os novos mestres recém saídos de seu processo de formação o que gera um frescor na transmissão de um sistema tão antigo, e por esta via, também atual.

Considerando o que falei sobre inspiração, vejo um problema. Meu Si Fu é a pessoa mais criativa que conheço, o tempo todo ele está inovando.  Enquanto meu papel é apreender o que está sendo proposto, ainda é simples. Para mim, o desafio mesmo será no momento em que eu próprio precisarei inovar.

Sugestões de prática.

Já ouvi dizer que Zelo é a maneira correta de amar. Em outro momento, um pouco mais velho, que Zelo diz respeito a observância de dois aspectos. Um de caráter teórico e outro prático. Atenção cuidadosa, supõe a observância do cenário. Já o cuidado, necessariamente compõe ação em benefício de algo.
A conjunção destes dois aspectos, em outras palavras, a excelência em ambos, chamamos de Zelo.
Uma forma de expressão deste aspecto,por exemplo, é a capacidade de servir. Note: para servir, discrição, percepção da necessidade e a ação propriamente dita são Fundamentais. Minha percepção é que justamente por esta razão, o tempo todo estamos nos servindo. Seja na relação Si-To ou Si Hing Daai.

Recepção de Mestre Senior Julio Camacho

Servir uma xícara de chá, é uma demonstração de Zelo. Hoje, com o primeiro dia da visita do Si Fu do ano de 2024, pude notar o realização deste mecanismo, para mim quase mágico, por parte dele com seus discípulos. Já disse, Zelo, é a forma correta de amar. Talvez por isso, após tantos meses sem contato físico, venha-me aos olhos toda a emoção experimentada em poucas horas de vivência compartilhada. Difícil de segurar, mais difícil, é retribuir o carinho, e como consequência, desenvolver com mestria meu Kung Fu.
Sim, a maneira correta de amar, Zelo, está intimamente ligada ao desenvolvimento humano, e um grande ser humano reproduz, representa e nomeia, um Mestre Grandioso. Não atoa, são dotadas destas características, humanidade e Zelo, os seres humanos de mais alto nível.

Traslado para casa.

Mais cedo, fomos buscar Si Fu no aeroporto e lá tomamos café. Em seguida, o trânsito até o destino possibilitou mais tempo juntos. Vários aspectos foram abordados e assim, mesmo com trânsito e mais tempo juntos, passou rápido. No final, com o carro já no destino, resolvi fazer mais uma pergunta. E de novo, Si Fu disponibilizou mais do seu tempo. Os assuntos simplesmente fluem, de minha parte, poderia ficar dias falando , contudo, esta é apenas metade, a teórica, do que se diz sobre Zelo. Existe a metade prática que completa a ação. Minha falta de timming não me permitiu concluir toda a ação do Zelo, quero dizer, no cenário, o correto era ter entendido que aquele momento havia encerrado, portanto, calado-me, uma ação prática, e Si Fu ter seguido seus planos. Como não percebi isto, por Zelo, ele me deu mais tempo. Como consequência, ele atrasou um pouco mais seu compromisso seguinte.
Quero dizer, a saudade é grande, posso e devo me aproveitar de sua presença, mas a observação do contexto é essencial. Como eu estava voltado somente a minha necessidade, desconsiderei todo o cenário, e contribui com o atraso.
Este foi só o primeiro dia, não tive contato técnico nenhum com Si Fu, mas pude observar minhas habilidades marciais e forma profunda. Que venham os próximos.

Da entrega à seu proveito.

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Grão Mestre Leo Imamura e Mestre Senior Julio Camacho, monastério Siu Lan.

O que torna algo tradicional é a sua entrega, assim, gerações tornam vivo o que há muito havia iniciado. É importante observar que no processo de entrega, é imperativo a atualização. Somente desta forma, qualquer processo longevo sobrevive as “intempéries” da passagem do tempo.

No que diz respeito as atualizações de nossa linhagem, noto uma grande atenção para com a posteridade; já que a entrega pura e completa do sistema Ving Tsun é característica dos descendentes de Patriarca Moy Yat. Por exemplo, temos a preocupação de Grão Mestre Leo Imamura em atender o pedido de seu mestre e criar o Ving Tsun Experience, ou mestre Senior Julio Camacho, em continuar seu legado através do Programa Fundamental.

Além da elaboração do programa fundamental, vejo como um grande passo a pequena atualização, no sentido de transmissão, do programa tradicional por marte de mestre senior Julio Camacho. Esta pequeno direcionamento sobre como se procede a transmissão em nossa família, para mim, indica um grande crescimento no sentido de desenvolvimento pessoal de cada praticante.

Estudo do Nível Superior Final com mestre Senior Julio Camacho.

A proposta de transmissão do sistema tradicional na família Moy Jo Lei Ou ocorre pela relação Si Hing Dai. Desta forma, Si Fu fica disponível para aparar as eventuais arestas e desenvolver o Kung Fu de acordo com a demanda do próprio praticante, além de propor, de forma individualizada, os entendimentos pessoais do sistema.

Pessoalmente, acho maravilhoso este processo, já que a responsabilidade de construção do Kung Fu daquele indivíduo passa a ser de toda a família, inclusive, no sentido prático, e se evita vícios, vez que a troca é com diversos membros.

Além disto, creio que assim, o próprio praticante comece a tomar posse de seu Kung Fu convidando seus contemporâneos a praticar, pois não existe, nesta dinâmica, a figura de um professor. Portanto, logo o praticante entende que o cenário é bastante rico pois todos, a todos os momentos, aprendem.

Há alguns dias, estávamos estudando a listagem do nível superior final, éramos nove pessoas em uma sala, Si Fu tinha saído e quando retornasse daríamos prosseguimento ao estudo. Eu estava com pouco tempo; já que logo em seguida tinha outro compromisso. Por haver tanta gente e em momentos diferentes, o nível de discussão sobre detalhes e possibilidades era bastante alto, o que poderia fazer com que deixássemos de passar juntos por todas as partes. Na medida que pude, tentando respeitar ao máximo o tempo de todos, inclusive o meu, tentei dar seguimento ao que havíamos combinado com Si Fu, creio que tenha funcionado.

Fim de um dia de prática.

Responsabilizar- se pela próprio desenvolvimento é uma exigência natural do estudo das artes marciais. Lembro-me, como em diversos cenários eu pude experimentar essa necessidade com meu Si Fu, mestre Senior Julio Camacho; no último nível, creio que esta naturalidade seja levada ao extremo, pois é o último conteúdo da fade semi estruturada, ou seja, ali, parece-me ser a ultima chance de se desenvolver o Kung Fu em um cenário que possui camada última de algum nível de estrutura.

Então, acredito que tendo o praticante iniciante a percepção de que o kung Fu depende de iniciativa pessoal, desde muito cedo, trabalhará as condições necessárias para que seu desenvolvimento seja melhor trabalhado, por isso, para mim, uma das maiores contribuições do Si Fu para o sistema Ving Tsun, mas sobretudo, para a sua descendência direta, seja a forma como ele estrutura os nossos programas.

Por Fim, julgo não serem beneficiados apenas os novos praticantes. Não tenho dúvida, que o fato de ter absorvido o que queria, dentro de um cenário complexo e com muita gente, como na história que contei acima, adveio da própria imersão na dinâmica das propostas do Si Fu. No primeiro momento, no sentido de entender o que ele propunha para poder reproduzir, depois, para que usasse tudo o que foi dito no sentido de transmissão, como base na construção do meu próprio Kung Fu.

O Caminho em Prática

Artista Marcial em prática.

Qualquer jornada pressupõe desafios, sabe-se previamente que haverão dificuldades e obstáculos a se interporem, estes, em geral, são os principais inibidores do desejo de continuidade, quando se desiste, ou o motor propulsor, quando se chega ao objetivo. Aliás, o desejo muitas vezes, talvez sempre, é o motivo de se iniciar, continuar e finalizar qualquer tarefa.

Isto vale para quando a dita jornada acontece por iniciativa pessoal, caso contrário, ou seja, não existindo desejo, deixa de haver valor, algum motivo ou glamour. Assim sendo, nota-se que a norma é nem começar. Penso, que baseado no precedente, nasce a ilustração da conduta marcial adotada no ocidente; através de imagens de grandes esforços, desafios, e histórias de superação; A partir deste ponto, nascem os heróis.

Há aí um equívoco a meu ver. Kung Fu, diz respeito sim a grandes esforços, sobretudo o esforço de se tornar a força invisível. Por este aspecto, gera-se, aos poucos, o chamado alto nível.

Portanto, baseado em um sistema e na relação Si To ( Si Fu – Todai), o discípulo tem acesso à aspectos mais íntimos e caros de seu mestre, sendo estas suas bases, e os caminhos práticos que serão capazes de conduzir ao desenvolvimento humano.

Estudo do Nível Superior Medial com Mestre Senior Julio Camacho.

O esforço e o desejo associados são um grande mecanismo de conquistas. Como catalisadores, é esperado se crer que são os melhores ou únicos; o que gera reação em cadeia onde se percebe, ao menos é o que muitos acreditam, serem a qualidade máxima necessária àqueles que buscam algum nível de sucesso. A reação natural para este processo é a falta de tato para os eventuais desajustes ou mesmo perigos envolvidos no processo. Segue então, que existem sistemas capazes de inibir os malefícios do método de forma a aperfeiçoar seu uso, para o fim de haverem apenas benefícios.

O sistema Ving Tsun, muito claramente, e desde seu início, dispõe à todos que se interessam suas ferramentas, são aspectos basilares para toda uma construção. Por básico, espero que entenda que é o que está por base, o que não é necessariamente fácil.

Assim, basta então, diminuir o desejo e ser sutil. Quero dizer, toda a vontade deve estar de acordo com o cenário apresentado, então, a partir da adequação, o desejo naturalmente diminui, com pouco esforço. O que é, em seu tempo, a arte de se tornar sutil. Mais uma ressalva, o esforço natural advém do esforço não natural, ou seja, a vontade, muitas vezes inabalável, de se atingir um fim; acontece que com muito esforço, a associação da vontade ao cenário torna o que é inabalável em adaptável, por fim, consegue-se o mesmo de maneira similar, com muito trabalho, mas sem desperdícios de energia.

Antigo Núcleo Barra, condomínio O2.

Por si, o supracitado é um excelente cenário de desenvolvimento do Kung Fu, mas não é tudo. Quando não se tem desejo, mas é preciso ser feito, o momento se torna muito mais complexo. Entre várias lembranças que tenho do Si Fu, a que me vem a memória, certamente por conta dos registros de nossos contatos mais recentes, tratam do que eu entendo como a cultura da família Kung Fu.

Parece-me que o compromisso e a manutenção das palavras é a pauta que norteia todo o modo de viver do Si Fu, em nossos contatos, sempre esta característica toma espaço, e por ela fazemos valer a minha experiência marcial, mesmo muitas vezes eu não sendo capaz de apreender tudo, seja por não ter o moral tão bem trabalhado, ou por não ter vontade. E ai vem, o que para mim, é a relação Discípular, o compromisso.

Assumindo a relação Discípular, o Si Fu garante a entrega de todo o sistema aquele discípulo, de sua parte, o seguidor assume a responsabilidade de acompanhar seu mestre e desenvolver tudo o que lhe for passado, baseado, claro, nas circunstâncias, mas independente do momento.

Há alguns dias, Si Fu completou meu Kung Fu. Portanto, a parte dele está feita, o que segue é minha tentativa de levar adiante. Com a proposta de manter nosso combinado, desde então, refiro-me ao ato de entrega, busco acordar alguns minutos mais cedo, todos os dias, mesmo fins de semana, e quando houver, feriado , para estudar o que foi apresentado. Por vezes, o processo ocorre com muita vontade e disposição, outras vezes, um pouco menos animado, mas sempre pelo compromisso, que é, como disse antes, o que entendo ser o “espírito” da família, em outras palavras, nosso Kung Fu. Este é hoje, o principal dispositivo que criei para manter contato com meu Si Fu. O principal hoje; e certamente a principal, não única, base para os próximos.

Reflexões Avulsas.

Início das Atividades com Mestre Senior Julio Camacho.

Em algum nível, tenho dificuldade em perceber o limite das coisas. Saber quando continuar ou onde parar é um desafio constante. Nestes instantes, sempre me questiono que referência seguir.

Pensava que seria fácil, quero dizer, basta atuar com Kung Fu. Mesmo assim, apesar de agir considerando ter por base uma boa interpretação da experiência marcial, tenho dúvidas sobre o que é exatamente o Kung Fu. Penso que a interpretação teórica, apesar de um bom guia, não conclua a questão.

A prática é a experiência mais adequada para este fim, pratica dos dispositivos do sistema, mas sobretudo, do Kung Fu em seu sentido mais amplo. E por ser prático, hoje, não vejo jeito outro que não a subjetividade. Por isso, tanto me dedico ao seu estudo. Curioso usar a expressão “tanto” já que ao usá-la eu quis dizer que dedico muito, porém, sabe-se lá se muito é o suficiente.

Naquele dia, véspera de buscar o Si Fu no aeroporto, dormi pouco; combinei de encontrar meus irmãos Kung Fu de madrugada e terminei meus afazeres tarde no dia anterior. Já tinha me comprometido, então, melhor dar seguimento aos planos. Foi um prazer enorme encontrá-lo, conversamos por bastante tempo e a noite teria mais, o que fomentou demais minha animação.

O transcorrer do dia um um pouco monótono e difícil, meu outro trabalho não é tão prazeroso, mesmo assim, faço o meu melhor no momento. E como estava muito animado por poder encontrar o Si Fu mais tarde, creio ter entregue bastante coisa.

A circunstância malogrou meus planos, por conta dela, não foi possível encontrar Si Fu naquela noite. Outra vez, haviam combinados, então, optei por não mudar os planos, era combinado eu dormir no Mo Gun, assim o fiz. Por razões graves e tristes, mesmo os planos no núcleo não puderam se cumprir por inteiro, diante do cenário, fiz o que estava a meu alcance.

Estudo sobre o soco de Batalha.

Ao fim do dia, já bem tarde, pus me a refletir.
Queria ter feito bem mais, queria ter mais tempo com Si Fu, queria não ter que trabalhar em meu outro emprego. Queria tantas coisas e achava ter me preparado para isso, mas mesmo assim, a frustração me acompanha. Pus- me a tentar entender se por ter feito “tanto, ” estar exausto, e por isso mesmo ter “fracassado, ” não seria um indicativo da necessidade de desistência.

Como eu disse, tanto não é necessariamente suficiente, eu buscava nesta reflexão entender como fazer menos e tirar mais. A reflexão não estava me levando muito adiante já que o dia transcorreu independente do meu desejo de que assim o fizesse, portanto, planejar algo diante de um cenário vivo em si, é na realidade fazer muito, e tirar nada.

Fiel a meu entendimento de que a prática é em todos os casos soberana à reflexão, decidi que por todo o evento eu entregaria o máximo que podia, mesmo que não saisse como desejado ou houvessem interrupções, e que estaria presente em todos os momentos que poderia estar. Sobre as consequências disto, optei por não me preocupar.

Fim das Atividades com Mestre Senior Julio Camacho.

Sigo pensando assim, mas a exemplo de um texto que escrevi falando sobre o aprofundar do meu entendimento no que diz respeito a resiliência, sucesso e fracasso tomaram um novo significado. Isso aconteceu quando compartilhava com Si Fu meu desconforto com os insucessos da minha vida. Acreditava que trabalhava muito, e sempre entreguei o máximo que pude, então, não entendia o que faltava.

“Pare de sentir pena de você! “

A conversa foi bem mais longa, durou dias, até, mesmo assim, trago apenas este recorte. Assim que ouvi a frase, entendi que Si Fu não tinha captado o que quis dizer, mentalmente elaborei a experiência, buscando novos contornos para poder trazer luz ao que eu sentia.

Eu dormi pouco, não fiz metade do que queria, não obtive o reconhecimento que julguei justo, entregava o máximo dentro de cenários que não me agradavam… não entendia o que faltava para Si Fu poder entender.

“Pare de sentir pena de você! “

Percebi então que não foi o Si Fu quem não entendeu. O problema é que minha vaidade eventualmente me cega; tão envolto em mim, nestes momentos deixo de perceber que existem coisas bem maiores acontecendo, muitas vezes do meu lado. Então, é isto mesmo, deixar de ter pena de mim. O trabalho de que não gosto, eu me comprometi a fazer, portanto, sua entrega não deve ser motivo de orgulho ou sua execução um martírio, foi uma escolha. As noites de pouco sono são reflexo da vida que tenho hoje, se é sono que me falta, cabe a mim me atualizar; sobre o bom olhar alheio a respeito das minhas ocupações, não é um indicativo de algum sucesso, é apenas opinião.

Então, continuo achando que devo entregar o máximo de mim, o fracasso, pode ser entendido como sinônimo de vaidade e miopia, e o sucesso sempre existe quando se entrega o melhor de si. Seus frutos hão de vir, mas apenas, se no meio do caminho se for capaz de ainda semear.

Ensaio sobre a resiliência: seus ser ou não ser.

Por do sol em Luanda, Angola. 2018

Entendo como característica pessoal a habilidade de investir intensamente, insistir, até o ponto de se ter o que precisa. Neste aspecto, não desistir é cláusula pétrea da ação com seu oposto punível com a inquietante sensação de fracasso e perda de rumo; Eis, portanto, o que chamo de resiliência. Esta habilidade, possibilitou-me iniciar a prática do Kung Fu ao qual me dedico até hoje, minha primeira viagem internacional, e algum tempo depois, meu início formal como instrutor de artes marciais, por exemplo.

Há um outro lado; para todas as situações que se encaminham para o desgaste é necessário haver um ponto de ruptura, seja este da situação, ou do caminho a ser percorrido. É certo que esta atitude traz à vida uma camada de leveza que há muito almejo, mas pareço incapaz de atingir, o que segue, é que este “ponto” sempre é confuso para mim. De toda forma, o que sei é que tudo que chamei de resiliência ao longo da vida foi posto em cheque há alguns dias, então, sobre este aspecto, estou certo de uma coisa: sobre resiliência, não entendo absolutamente nada.

“Seung Chi Sau” com Mestre Senior Julio Camacho

Nunca foi fácil, viver não é. A série de atravessamentos ao qual estamos todos submetidos faz com que a vontade seja testada. Até onde, munido apenas do desejo, somos capazes de ir?

Penso que não muito longe. Não há desejo que condicione qualquer processo, a rigor, trabalhar no invisível, preparar o cenário, e esperar, são as atitudes daqueles que atingem algum sucesso. Por tanto, se por definição já se sabe que a vida não é fácil, é necessário coragem e perícia para transformá-la. Este processo se chama Kung Fu.

Eu falava sobre uma grande decepção vivida, era um sonho preparado com carinho, mesmo assim, diante do resultado, questiono-me se houve algum nível de profissionalismo, embora não tenha dúvidas sobre seu caráter amador. O fato, é que derrotado em determinada intenção, vi-me envolvido em melancolia, e em lágrimas insistentes que não vieram a cair, apenas sufocaram meu grito de revolta.

Sim, foi um sufoco. Não demonstraria a quem não fosse interessar a dor lancinante que corrói todo um ser, além de desmoronar um sonho implantado há anos. Aliás, já repararam quanto tempo os preparativos para um sonho leva para se formar, e em quanto tempo eles se dissolvem? A razão é inversa.

Assim que pude, comentei com Si Fu o resultado fatídico de nossos planos, ao mesmo tempo, sugeri nosso próximo passo, afinal, lembrei de quem sou, e o que já fiz para chegar onde estou e por isso não iria desistir, lembra da definição primária sobre a resiliência?

Surpreendi-me quando Si Fu disse não. Não tentaríamos daquela forma, e para meu absoluto terror, os planos se tornaram muito maiores.

“Yam Chá” com Mestre Senior Julio Camacho

Curioso o medo que sinto. Provavelmente, é porque desta vez, intimamente, eu saiba que nossa nova forma de agir é o que preciso fazer para dar certo. Percebam, sou perito em insistir no que se sabe não haver resultado, por anos invisto em relações que me causam mal estar sob o signo de não querer desistir; eventualmente, por insistência, tenho algum sucesso, mas bem sei que não é exatamente o que consigo que reflete todo o meu potencial. Si Fu me disse há alguns anos, em determinada ocasião que me parece bem similar, se não a mesma em seus aspectos mais profundos:

Isso é um processo de autossabotagem, é grave, e só você pode resolver.

Tão habituado em repetir os erros, talvez para me provar que eu tinha razão, ou seja, não daria certo mesmo, entendi que resiliência tratava de simplesmente insistir. Na realidade, pode ser que a resiliência diga respeito a se desprender de invólucros passados e lançar mão de novas habilidades, aí sim, faz sentido continuar. Esta é a camada de Kung Fu que me parece faltar, tentar outra vez para fazer dar certo é bem diferente de continuar a tentar simplesmente, existem ajustes necessários a se fazer, estar atento a eles e aprender é necessário. Neste caso, o “ponto” de ruptura com um passado infeliz, é o refinamento constante, independente do resultado.

Bem, eu estou desorientado, é o momento de realinhar. Como início, eu penso que talvez existam potencias ainda não explorados em mim, e é justamente sobre eles que Si Fu propões os trabalhos. Sendo assim, o caminho é tentar. Aqui nasce, talvez, uma nova definição sobre resiliência.

Siu Ye

Desenho icônico do Livro ” O Pequeno Príncipe.”

A imagem acima muitas vezes é confundida com um chapéu, mas o desejo do desenhista é representar uma Jiboia que acaba de engolir um Elefante. Eu vejo um gatinho caçando uma bola e encoberto por um pano. A rigor, a interpretação “certa” talvez seja a que o artista quis representar, contudo, e esta reflexão é inspirada pelo livro, a realidade, ou perspectiva, individual sugere o entendimento da figura, em alto nível, sabe-se que todas as interpretações podem ser corretas, se sairmos de nossa limitação visual. Como já se sabe que contrariar o consenso é a essência das Artes Marciais, do mesmo modo, olhar para além do óbvio, ou do que é proposto, para mim, traduz um nível de inteligência importante para viver a vida além do mesmo; isto é, em suma, sinônimo de uma vida rica.

É preciso estar atento para não confundir; contrariar o consenso e ser um crítico desmedido. Ser como uma criança, como diz o livro, parece um caminho importante a ser retomado. Criança, no sentido exposto, é aquele pequeno ser encantado e crente de tudo, ela pode pensar diferente, mas é capaz de absorver o novo com uma fé inabalável, e se for muito diferente do que seu pequeno mundo é capaz de apresentar, sim, ela sabe, de alguma forma, sem ter consciência, que seu pequeno mundo é apenas uma realidade dentre tantas outras, ela percebe os verdadeiros milagres. Ou Seja, “há mais coisas entre o céu e a terra do que supõe sua vã filosofia.”

Almoço com meu Si Fu, Mestre Senior Julio Camacho.

É curioso observar como o diferente eventualmente ofende, justamente pela certeza que devemos ter ao nos tornarmos adultos, daí, qualquer coisa que faça ruir as certezas causa medo, esta é, para mim, a razão de atitudes estúpidas em seu sentido literal.

Certa vez, tínhamos à mesa uma senhora chinesa que comentou que sal fazia muito bem a saúde. Creio que seja possível intuir o mal estar que esta afirmação gerou em algumas pessoas, ao ser questionada sobre a razão da afirmação, ela responde que é porque obriga a tomar água. Sempre que me lembro desta história fico impressionado com a genialidade da afirmação; a questão é a ação indireta, ou seja, há um benefício por traz de um vilão que tanto faz mal a sociedade, mas repare, não faz mais mal que a incapacidade de contrariar o consenso. Como seria possível aprender se sabemos tantas coisas?

Aulas Master com Mestre Senior Julio Camacho.

No caso da prática marcial, luta, em geral, é a busca fundamental das pessoas que nos procuram, de certa forma, eu próprio trabalho, hoje bem menos do que já foi, por este viés. Quero dizer, mais de uma vez me vi com dificuldade de fazer movimentos simples, não que fossem fáceis, mas simples, e me vi frustrado. É que de alguma forma, quando o outro me golpeava eu me ofendia, portanto, como um “homem feito” não podia não ser capaz de responder. E ai era o problema, eu atuava como o “homem feito” que acreditava, disseram-me que eu era, ou queria ser, em vez de deixar vir a criança que ainda mora em mim, a criança que se encanta, que vibra, e que é capaz de aprender com tudo.

Por sorte, meu Si Fu é bem atento ao desenvolvimento marcial de seus discípulos e então, munido de toda sua ciência, estudo e contato conosco, consegue traduzir, através de nossa própria linguagem, a abordagem diferenciada que só um verdadeiro artista marcial consegue extrair de gestos de combate.

Por fim, creio que em breve seremos uma família de crianças, não no sentido de infantis, estes já são os adultos, muito pelo contrário, no sentido de pessoas encantáveis e portanto encantadoras.

Dever versus Desejo

Duty versus Desire

Miamoto Musashi, Artista Marcial japonês.

Miamoto Musashi, Japanese Martial Artist.

A possibilidade de busca pelo refinamento humano é uma constante; a partir desta necessidade, surgiram diversos meios e maneiras que orientavam aqueles que possuíam tal desejo; como exemplo, temos as Artes Marciais. Contudo, o nosso exemplo, ou qualquer outro, não nasce na humanidade pronto e capaz de orientar o humano, ele próprio tem seu tempo de maturação e constância de refinamento, ou seja, o processo de orientação ocorre a medida que ele, o orientador, é orientado. É por isso que independente da habilidade específica, o foco principal é o desenvolvimento da humanidade, é importante não perder o foco!

The possibility of searching for human refinement is a constant; From this need, several means and ways emerged that guided those who had such a desire; as an example, we have Martial Arts. However, our example, or any other, is not born in humanity ready and capable of guiding humans, he himself has his time of maturation and constancy of refinement, that is, the guidance process occurs as he, the guide, is oriented. That’s why regardless of the specific skill, the main focus is the development of humanity, it’s important not to lose focus!

Por isso, é como acredito, que qualquer sistema deva ser analisado para além de suas aplicações específicas, em outras palavras, qualquer dispositivo tem o potencial, cabe ao usuário esta exploração, de ser fonte inspiradora de proveito em qualquer cenário.

Therefore, it is as I believe, that any system must be analyzed beyond its specific applications, in other words, any device has the potential, it is up to the user to explore it, to be an inspiring source of benefit in any scenario.

Assim sendo, entendemos que o papel do Si Fu seja o de transmissor não apenas de um conjunto de técnicas e suas possibilidades, mas também de um legado, ou seja, a maneira como aquele conjunto de técnicas é explorado diz muito da cultura de uma família Kung Fu, é justamente esta a base que faz desenvolver a habilidade marcial que culmina na humanidade. A partir disto, a cadeia de desenvolvimento acontece passando por várias gerações e indica o quanto aquele sistema é maduro; entenda, maduro por ser antigo e por a “arvore que hoje gera frutos” ter sido um dia virtual.

Therefore, we understand that the role of Si Fu is to transmit not only a set of techniques and their possibilities, but also a legacy, that is, the way in which that set of techniques is explored says a lot about the culture of a family. Kung Fu, this is precisely the basis that develops the martial skill that culminates in humanity. From this, the development chain takes place through several generations and indicates how mature that system is; understand, mature because it is ancient and because the “tree that bears fruit today” was once virtual.

Recebimento dos Broches da Família Moy Jo Lei Ou.

Receipt of Moy Jo Lei Ou Family Brooches.

Por conta do exposto, é esperando entender que a maneira de se transmitir o legado difere entre as famílias, e isto é absolutamente bem vindo, uma vez que justifica a relação única entre mestre e discípulo e permite com que o legado seja passada adiante por mais de uma forma de entendimento.

Due to the above, it is expected to understand that the way of transmitting the legacy differs between families, and this is absolutely welcome, as it justifies the unique relationship between master and disciple and allows the legacy to be passed on for more in a way of understanding.

Sobre a relação com meu Si Fu, Mestre Senior Julio Camacho, entendo que um dos aspectos fundamentais é a honestidade, esta não só no sentido moral, mas também no sentido de coerência de ação; veja a história:

Certo espadachim, tendo ganho um duelo, obteve o direito de matar seu adversário; neste caso, ele poderia optar por matar ou não. Dado momento, o derrotado cuspiu no rosto do vitorioso, o que gerou raiva no primeiro. A partir do momento da raiva, o direito da decisão entre vida e morte foi interrompido; ciente disto, o espadachim guarda sua arma e vai embora. Esta conduta, diz respeito ao caminho do guerreiro, a ação por impulso ou raiva não é facultada a um artista marcial.

Regarding the relationship with my Si Fu, Senior Master Julio Camacho, I understand that one of the fundamental aspects is honesty, not only in the moral sense, but also in the sense of coherence of action; see the story:

A certain swordsman, having won a duel, obtained the right to kill his opponent; in this case, he could choose to kill or not. At one point, the defeated man spat in the victor’s face, which angered the former. From the moment of anger, the right to decide between life and death was interrupted; aware of this, the swordsman puts away his weapon and leaves. This conduct concerns the path of the warrior, action based on impulse or anger is not permitted for a martial artist.

” Mão Livre Vai a Frente,”

“Free Hand Goes Forward,”

Uma conduta valorizada por meu Si Fu, por exemplo, é a pronta resposta a questionamentos, sobretudo os de WhatsApp. Acho que isso se deve a cultura, que beira a falta de educação, que é ignorar mensagens que se julga não serem importantes. Há uma falha estratégica grave aí, talvez não seja importante para quem recebe, mas, certamente é importante para o emissor, caso contrário, este não teria se dado ao trabalho.

A conduct valued by my Si Fu, for example, is the prompt response to questions, especially those on WhatsApp. I think this is due to culture, which borders on lack of education, which involves ignoring messages that are considered not important. There is a serious strategic flaw there, perhaps it is not important for the recipient, but it is certainly important for the sender, otherwise they would not have bothered.

Então, quando precisei fazer contato com um irmão Kung Fu e fui de todas as formas possíveis ao WhatsApp ignorado, imediatamente ativei o modo “Si Hing.” Quero dizer, achei que a partir de então eu deveria dar uma lição de moral no sujeito uma vez que aquela atitude não condizia com os “protocolos” da família Kung Fu.

So, when I needed to make contact with a Kung Fu brother and went in every possible way to ignored WhatsApp, I immediately activated the “Si Hing” mode. I mean, I thought that from then on I should teach the guy a moral lesson since that attitude was not in line with the “protocols” of the Kung Fu family.

Curiosa esta minha disposição, não sei precisar quantas vezes eu próprio deixei de responder mensagens ou mesmo deixar de cumprir combinados com Si Fu, aliás, deixar de cumprir combinados não é uma maneira de ignorar?

This disposition of mine is curious, I don’t know how many times I myself stopped responding to messages or even failed to fulfill agreements with Si Fu, in fact, isn’t failing to comply with agreements a way of ignoring?

Ciente da raiva que me acometia e um tanto envergonhado, optei por não fazer nada com relação ao outro, e investir no meu próprio Kung Fu; aliás, para o meu entender, Si Fu sempre deixou claro que a melhor forma de orientar é através do exemplo, e sei que hoje como exemplo sou um pouco limitado ,então, tanto melhor investir na minha relação Si To e desenvolver minha humanidade, a dar lição sobre uma moral que ainda não adquiri. Certamente assim, aprendido efetivamente a ser honesto com meu Si Fu, poderei um dia efetivamente transmitir seu legado.

Aware of the anger that was affecting me and a little ashamed, I chose to do nothing about the other person, and invest in my own Kung Fu; In fact, in my opinion, Si Fu has always made it clear that the best way to guide is through example, and I know that today as an example I am a little limited, so all the better to invest in my Si To relationship and develop my humanity, the teach a lesson about a morality that I have not yet acquired. Surely in this way, having effectively learned to be honest with my Si Fu, I will one day be able to effectively transmit his legacy.

Da atenção e cuidado ao Zelo.

Hung Bau, símbolo da materialização da sorte.

Como preposição, a atenção é capaz de garantir que o cuidado chegue de maneira concisa; portanto, o limite que determina e justifica a ação. Por sua vez, o cuidado distende a capacidade da atenção, a ponto de se fazer valer e materializar seu esforço; O justo meio de ambas, é o Zelo. Apoiado na experiência do Kung Fu, nota-se, e não só neste caso, que o fim mais que justifica os meios, é um produto oriundo de um preparo bem fundamentado e beneficiador do cenário ao qual se encontra.

Como mecanismo de encadeamento de sua construção, e logo mais, do seu benefício, estar-se em si, em outras palavras, considerar-se no local onde se esta e apenas inverter o objeto ou a ação fim em beneficio alheio, ou seja, não empático, é suficiente para que o zelo aconteça.

Como nota, esclareço que em minha opinião, a empatia exige condição impossível ao ser humano, ou a pessoa ao qual se tem o fim de causar bem. Visto que, para tal, é necessário quase que sentir o quer o outro sente, algo impossível, vez que o interpretar de sensações divergem absurdamente entre todos os indivíduos.

Por isso, zelo, ou seja, Kung Fu, propõe que de sua posição, seja possível direcionar ao outro o cuidado, sem, portanto, invalidar a condição pessoal. Eis, talvez, a razão que indique porque dizem que ” O Zelo é a maneira correta de amar.”

Cerimônia de Baai Si, 2011.

Há em algumas culturas, no que diz respeito a casamento, o hábito de se fazer o chamado casamento arranjado. Em geral, o que ocorre é que a família, em especial os pais, decidem com quem seus filhos irão casar; este é ,em última instância, um gesto de amor já que se considera que os pais, por conta de sua experiência, tem mais condições de sugerir os caminhos que seriam favoráveis ao desenvolver de uma nova família.

Sobre aspectos mais viscerais, certa vez, ouvi uma história. Nela se contava que em períodos de frio intenso, os filhos mais jovens eram os primeiros a deitar na cama de seus pais, para o fim, ate onde entendi exclusivo de aquece-la. Desta maneira, as crianças eram educadas a cuidar do outro mesmo diante de eventuais desconfortos.

Em aspectos onde o simbolismo é mais aprofundado, entendo que esta ação se relacione intimamente com o zelo, já que a criança não deixa de ter o seu papel de filho, ou seja, submetido a necessidade de atenção, apenas experimenta possibilidades além de sua condição imediata e amadurece para quando chegar a vez em que o outro dependerá efetivamente de sua ação.

Em outros símbolos, o cuidado se mantem de forma objetiva e absolutamente dependente da atenção, como é o caso do Hung Bau. O desejo exposto, bem como o valor inserido no envelope, materializa a ação que se objetiva. Para isso, é crucial considerar o adverso, uma vez que toda a organização objetiva o beneficio dele(a). A todo momento, todos estes aspectos são vividos no Kung Fu.

Cerimônia de Reafirmação Discípular, 2019.

Em meu caso, logo de início, foi apresentado ao Hung Bau. Aquele curioso e bonito envelope vermelho, dizia-se, era para presentear alguém, no caso, meu Si Fu. Pela falta de entendimento do símbolo, fiquei perdido. Queria agradá-lo, mas não fazia ideia de que tipo de desejo ou valores seriam adequados.

Com relação aos devidos fins, é simples entender. Basta observar, por exemplo, de que maneira entrega-se o Hung Bau. A escrita deve estar voltada para o recebedor, de forma a viabilizar a leitura, duas mãos na entrega são um dos indicativos de que a ação é de veras importante, entre outras aspectos subjetivos.

Quanto a subjetividade do símbolo, entenda que este aspecto é rigorosamente voltado para o entregador. Por isso, não há razão para nervosismos, todo o processo, apesar da justificativa sugerir o bem estar do outro, trata de benefício pessoal. Diante disto, e de todo o restante do texto, entende-se, espero, mais do que bem para qual fim os dispositivos de relação da Vida Kung Fu direcionam.

Muitas vezes, flagrei-me tremendo as bases em ocasiões de cerimônias, reuniões, falas, e qualquer ação que pusesse meu Kung Fu à prova; nestes momentos, eu tinha certeza que se houvesse qualquer equívoco ou erro, Si Fu chamaria minha atenção com a contundência devida a um artista marcial; claro, a exemplo dos pais que deixam os filhos aquecerem seu colchão para o fim de aprenderem sobre zelo, quando Si Fu nos envolve em cenários complexos e ou desconfortáveis, é para o fim único do zelo que tem para as pessoas que somos, e para as pessoas que nos tornaremos um dia.

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