Apoiar

Filme Kung Fu Panda, representação de como tomar apoio

No primeiro filme da franquia “Kung Fu Panda”, vemos o desafio de um mestre de Kung Fu que tinha a missão de treinar um pupilo totalmente fora do estereótipo do Artista Marcial.

Com o tempo, este mestre percebe que sua dificuldade era justamente tentar enquadrar seu pupilo em um estereotipo que não tinha relação alguma com seu condicionamento fisico ou perspectiva marcial.

Atento, mesmo que a contra gosto, ao desenvolvimento deste jovem praticante, o mestre percebe que o que estimula o protagonista da história a se mexer é justamente o que o tira do estereótipo supracitado, sua fome.

Baseando-se nesta percepção, o mestre desenvolve um treinamento específico que ajuda no desenvolvimento do praticante, e o permite aprender sem nem sequer ter a percepção de que está aprendendo, em resumo, Kung Fu.

Com meu irmão Kung Fu, Antônio Correa. Chi Sau, exercício fundamental do Sistema Ving Tsun

Se apoiar no potencial da situação é crucial para o desenvolvimento marcial, somente assim, temos condições de, através da percepção do cenário, desenvolver a melhor estratégia.

Chi Sau, é um dos primeiros exercícios do Ving Tsun a nos oferecer esta abordagem. Isto acontece pois, somente através da conexão adequada entre as energias, Chung Chi, podemos entender como nos apoiar e, finalmente, estar na posição em que golpeamos mas não podemos ser atingidos.

Contudo, o exercício de conexão materializado pelo Chi Sau não possibilita apenas o desenvolvimento na prática do Chi Sau, mas também pretende dar a base para desenvolver a capacidade de se apoiar em qualquer cenário.

Seguindo os passos do Si Fu

Lembro de certa vez, em que estávamos organizando um evento. Uma proposta de programação havia sido feita, nossa trabalho era refinar o que já estava escrito.

Passamos duas semanas discutindo a programação, diversas ideias e problemas foram apresentados, mas nada mudou.

Si Fu, se apoiando em nossa dificuldade, pegou a programação, e, conosco, refinou toda ela, na hora, sem rodeios. Da maneira que Si Fu conduziu o processo, todas as questões foram pontuadas, como já havia ocorrido.

O que havia de diferente era que, desta vez, os comentários de todos participantes era de em vez de apontar o problema, sugerir uma solução.

Sem notar, todos nós estávamos aprendendo a nos apoiar, e, justamente por isso, em menos de 20 minutos tínhamos uma programação nova, muito mais refinada com relação a anterior.

Particularmente, gosto muito de animações. No geral, me fazem pensar bastante. Mas, somente no contado diário com meu Si Fu, Mestre Senior Julio Camacho, eu de fato desenvolvo meu Kung Fu.

Desenvolvimento corporal

Apresentação de Arte Marcial

Em minha adolescência, antes de iniciar minha prática no Kung Fu, já tinha um modelo de como deveria ser. Si Fu seria um homem idoso, que viveria no alto de uma montanha, e, teria poderes sobrenaturais.

Saber voar, dar saltos com nomes excitantes, mortais, por exemplo, e viver a vida através do desenvolvimento físico, este era o meu objetivo de vida.

Nesta época, eu não sabia da existência do Ving Tsun, toda minha idealização advinha dos livros que eu lia e da minha criativa imaginação.

Luk Dim Bun Gwan, bastão do Ving Tsun

Já praticante, ainda influenciado por meus pensamentos, fiquei maravilhado ao ver o bastão do Ving Tsun. Logo quis entender como manejá-lo.

Talvez, percebendo este desejo, meu Si Fu, Mestre Senior Julio Camacho, me pediu, se valendo de um momento de pratica do Zelo no Núcleo Barra, para lixá-lo. Fiquei em êxtase, claro que isto não significava que eu estivesse tendo acesso formal ao Bastão, mas, só o fato de fazer algo com ele já era suficiente para mim.

Lixei com afinco, cada detalhe, era visto com rigor. As vezes, em busca de uma melhor posição eu tentava mudá-lo de direção.

A questão é que este bastão é enorme, pesado, e, eu não estava sozinho no Mo Gun, outras pessoas também trabalhavam. Após espetar por acidente dois Si Suk que coordenavam os trabalhos, Ursula Lima e Diego Guadelupe, achei melhor eu próprio mudar de posição em vez de mudar o bastão.

Si Fu viu esta cena, e, sutilmente me questionou porque demorei tanto para entender que era mais fácil eu me adaptar ao bastão em vez do contrário. Sorri para ele, e, continuei o trabalho.

Ainda neste momento ele se abaixou, tocou a ponta do bastão e me alertou:

“Gui, cuidado. Você está lixando bem demais este bastão. A ponta dele está demasiado afiada. Sempre que tocar em instrumentos do Kung Fu, lembre-se que ele será usado contra pessoas.”

De fato, não havia iniciado o estudo do bastão, não formalmente.

Demonstração de Kung Fu

Já na minha primeira experiência com o bastão, pude notar que seu uso não é através de movimentos mirabolantes ou complexos. Mas a experiência não ficou por aí.

Dias atrás, tantos anos depois desta experiência, e já ciente da não necessidade da força, tive outra experiência marcante:

Nosso Daai Si Hing, Leonardo Reis, emprestou para o Núcleo Barra, um bastão de uso pessoal. Ele parece ter uns 30cm a mais que outros bastōes que já tive contato e, mais 30% do peso.

Quando toquei nele parecia impossível levantar, mas, aos poucos, recebendo as orientaçōes de meu Si Hing e escurando cada parte do meu corpo fui capaz de levantá-lo, e, com um pouco de dificuldade, dispará-lo.

Aos poucos o bastão ganhou vida, parecia que ele tinha vontade própria, sua energia vital e seu meio de existência era eu. A rigor, não sei dizer se é correto dizer ele e eu. Talvez nós seja mais adequado.

Com o passar dos anos refinei meu entendimento sobre o desenvolvimento corporal. Hoje, para mim, desenvolver o corpo diz respeito a usá-lo de maneira estratégica, portanto, com Kung Fu.

Força é momentânea, certamente ela irá acabar, mas o uso adequado do corpo uma vez aprendido jamais se esquece. A partir daí, é possível fazer o que se entende como extraordinário mas que na verdade é obvio.

O Caminho da Maestria

Patriarca Ip Man e seu Discípulo, Bruce Lee. Chi Sau

Chung Chi é um tipo de energia. Em meu entender, esta energia diz respeito a estar pronto, a espera do momento certo.

Certa vez, ouvi do Si Fu a ilustração do que seri Chung Chi. Ele pediu que imaginássemos uma sacola com água, se espetássemos a sacola com uma agulha e retirássemos a agulha devagar, aos poucos, toda a água escorreria pelo furo.

Desta maneira, podemos entender que a água exerce uma ligeira pressão na sacola, então, ao encontrar o caminho livre não há o que fazer além de fluir.

“Seja como a água”, esta é uma frase comum no jargão marcial.

Com o Baat Jam Do Andre Guerra e eu “enfrentamos” os Gwan de Pedro Correia e de nosso Si Hing Roberto Viana

A exemplo da sacola plástica, o Chi Sau, exercício fundamental no sistema Ving Tsun, que auxilia na percepção da energia do adversário devido aos braços estarem aderidos, possui contato constante; a rigor, ele necessariamente inicia em contato.

O estudo dos níveis superiores, portanto, havendo o uso de instrumentos, propõe um grau a mais de dificuldade, neste momento, partimos de contato zero com nosso oponente, neste cenário, precisamos identificar as brechas ou “furos” em sua guarda para assim, simplesmente, fluir.

Em outras palavras, a vitória é ofertada pelo adversário, não adianta insistir em qualquer situação basta estar pronto e esperar o momento certo.

Há um detalhe crucial, se a disputa for em alto nível, seu adversário estará fazendo a mesma coisa que você, ou seja, preparado e atento as oportunidades, e, se por alguma fração de segundo você afrouxar a atitude mental, imediatamente você será golpeado. Este, é um ótimo estímulo para se manter o Chung Chi.

Ving Tsun Kuen Kuit. Registro em pedra do Sistema Ving Tsun

O Sistema Ving Tsun possui três fases, estas são:

Fase estruturada, que compõe a primeira trilogia do sistema,

Fase semi estruturada, que compõe a segunda trilogia do sistema

E, a fase não estruturada, que compõe o último momento do sistema. Cada fase possui uma característica, do início do texto até aqui propus um entendimento de duas fases, a primeira e a segunda.

Com relação ao último momento do sistema, como o próprio nome diz, não há estrutura.

Portanto, não há nele, dispositivo associado ou técnica a ser aprendida. Entende-se que, neste momento, você tem todo o aparato técnico do sistema, e, justamente por isto, você deve se desprender dele, para assim, construir seu próprio Kung Fu. Acima de qualquer coisa, fazer uso.

Propus no texto alguns entendimentos do que poderia ser Chung Chi, considerando as primeira e segunda fases do sistema, existem outros.

O registro de pedra do sistema Ving Tsun, Ving Tsun Kuen Kuit, é uma obra de arte. A pedra é um material de longa duração, portanto, todo esta história estará disponível por muitas gerações.

Mais que isto, insculpir em pedra exige habilidade e, não poderia ser diferente, Chung Chi. Qualquer erro, por menor que seja, faz com que todo o trabalho seja desperdiçado.

Sem dúvida, Si Taai Gung sabia que a pedra não iria golpeá-lo se, por acaso, ele se precipitasse, ou não tivesse controle do instrumento que usava para insculpir. Mas, sutilmente iria alertá-lo. Esta, é a luta de um mestre.

Entendo também que outro nível de Chung Chi, equivalente a terceira fase do sistema Ving Tsun, seja sua busca sem o estímulo externo.

Permita-me explicar melhor, diante de um oponente, ou você levanta a guarda ou o golpe entra. Simples assim.

Entendo que, para o Si Taai Gung, executar sua obra tenha sido uma riquíssima experiência marcial, ainda que não houvesse risco algum de se machucar fisicamente.

Até porque sabemos que o maior perigo não é a dor física, mas sim, a dor de ter perdido a oportunidade de construir algo grandioso.

O processo de escrever regularmente sobre minha experiência marcial tem sido grandioso para mim, manter a frequência é um desafio pelo simples fato de que, caso eu não o faça não há consequência grave.

Contudo, hoje me veio a seguinte reflexão: se a última fase do sistema é reservada aos mestres, por que eu, que ainda não fui titulado por meu Si Fu, Mestre Senior Julio Camacho, não poderia ter atitudes digna de tal título?

Manter meu Chung Chi sem estímulo externo, tal como fez Si Taai Gung, talvez me torne um mestre no que eu gosto de fazer, que é trabalhar com o Ving Tsun.

De maneira alguma estou tentando igualar meu Kung Fu ao de Si Taai Gung, mas, tentando seguir seus passos; exatamente como fez meu Si Gung, fazendo uso de Chung Chi, ao trazer o Ving Tsun de nossa linhagem para a América Latina, ou meu Si Fu, levando nosso Grande Clã de volta a sua terra natal.

Eu, humildemente, e sem titulação, estou tentando, do meu jeito, e, dentro das minhas possibilidades, trilhar o caminho dos grandes mestres.

Magnetismo

Mestre Senior Julio Camacho. Miami, EUA

As vezes fico imaginando como Si Fu se sente ao se deslocar por diversos países do mundo.

Cada país é uma cultura a parte, mesmo quando utiliza o mesmo idioma de sua terra natal.

Sem dúvida, é um exercício precioso de Kung Fu.

Mas, apesar de muitas vezes ser prazeroso, viajar não é simples.

Mestre Senior Julio Camacho, Buenos Aires, Argentina

Mesmo não sendo simples, acredito que a experiência marcial contribua positivamente com as viagens. Isto se deve ao fato de, no próprio Mo Gun, a todo momento sermos convidados a explorar ambientes que não estamos acostumados.

Ou, o que não é raro, explorar ambientes que estamos acostumados mas não dominamos, seja por insegurança ou falta de dedicação àquele cenário.

Lembro de certa vez, quando Si Fu me orientou a fazer contato com nossos membros. Tínhamos um evento as vésperas de sua realização e poucos membros sabiam de sua existência.

Eu, rapidamente criei um aviso. No sentido de informação o texto estava muito bom, mas foi escrito de maneira fria não tinha empolgação alguma.

Si Fu após ler a mensagem perguntou:


” Na sua opinião, porquê as pessoas teriam interesse em participar deste evento?” Não soube responder.

Então, ele disse: “Você precisa ser um comunicador, cada palavra que usar precisa ter efeito em quem a recebe. Transmitir uma informação não é difícil, agora, transmitir o espírito do que quer tratar em poucas palavras é Kung Fu; lembre-se, palavras tocam glândulas, o que você disser pode fazer uma pessoa sorrir ou chorar. Use seu magnetismo pessoal.

Depois desta conversa fui a diversos dicionários buscando entender o que era o tal do magnetismo pessoal, não obtive sucesso.

Mestre Senior Julio Camacho. Luanda, Angola

Escolhi ao acaso, como sempre faço, a primeira foto deste post. Pesquisei por outras e notei que Si Fu sempre viaja, mas nunca está sozinho.

Em qualquer lugar do mundo parece que há alguém para recebê-lo ou acompanhá-lo.

Parece que Si Fu atrai as pessoas que estão a sua volta, ou, deixa algo de bom em alguma cidade que visitou ou em algum praticante que há muito não vemos.

De modo que, estas pessoas sabendo de sua visita imediatamente buscam encontrá-lo, não importa o quão atarefada possa está sua agenda.

Talvez, este seja o magnetismo pessoal que Si Fu tentou me mostrar. Cativar as pessoas é uma arte sutil que acho que todos devemos experimentar. Cativar as pessoas talvez seja a grande ferramenta de quem sabe de liderar.

Conexão

Caminhando Com Mestre Sênior Julio Camacho, exercício de conexão.

Certa vez, estava saindo do almoço com Si Fu quando decidimos caminhar antes de retornar aos nossos afazeres no Núcleo.

Eu estava com o passo preguiçoso, me arrastando. Si Fu a todo momento acelerava a velocidade e diminuía.

Eu me sentia desconfortável, não entendia porquê Si Fu caminhava daquela maneira.

Ao mesmo tempo que caminhávamos de um jeito, a meu ver, estranho, falávamos sobre assuntos do Núcleo; era difícil coordenar meu desconforto em caminhar, a conexão entre nossos passos e a manter foco no assunto.

Com muita dificuldade consegui aos poucos entrar no ritmo proposto por Si Fu.
Após alguns minutos de caminhada, rápida e lenta ao mesmo tempo, retornamos ao Núcleo.

Mestre Senior Julio Camacho e Patriarca Moy Yat. Os primeiros passos

Assim que chegamos, Si Fu me contou que, certa vez, estava em Nova York com meu Si Taai Gung, Patriarca Moy Yat.

Si Fu andava um pouco depressa, Si Taai Gung acelerou o passo passando por ele.


Si Fu achando que Si Taai Gung queria andar na frente, se deixou ficar bem atrás.
Patriarca Moy Yat direcionou a ele um olhar bravo, Si Fu acelerou o passo e, quando, mais uma vez, ia passar à frente do Si Taai Gung, foi impedido por um leve toque no ombro.

Este toque, acredito, era o sinal que Si Fu precisava. Si Taai Gung queria caminhar junto.

Siu Nin Tau. Exercícios e percepção do corpo

O Sistema Ving Tsun utiliza o corpo como ferramenta de refinamento. Já que tudo que o ser humano faz é uma atividade física, em outras palavras, Faz uso do corpo, qualquer cenário é um local para refinamento.

A história contada me ajudou nesta semana, quando retomei um hábito que gosto bastante, a corrida.

Baixei alguns aplicativos e me pus a estudá-los. Notei que todos recomendavam mais ou menos o mesmo tempo de corrida para quem era iniciante ou, estava retomando após algum tempo parado.

A proposta era intercalar a corrida, em ritmo forte e, caminhada também em ritmo também forte.

Comecei pela corrida, Estava me sentindo muito bem, o ritmo estava forte. Nos primeiros 5 minutos meu joelho começou a doer bastante.

Decidi, em vez de seguir o aplicativo, ou a minha vontade de correr mais, seguir meu corpo.

Aos poucos diminui o ritmo, em alguns momentos não sentia mais dor, voltava a correr mais forte e, quando passava do ponto o Joelho estava ali, para me lembrar.
Desse jeito segui orientação do aplicativo mas não pelo tempo, mas sim, pelo meu corpo.

Essa inconstância de velocidade me vez lembrar a caminhada com Si Fu, saber acelerar ou desacelerar sem perder a atenção é uma arte.

Lembro-me também da máxima “esporte é saúde”. Sem dúvida, isto é questionável. Basta observar a quantidade de lesões que os atletas sofrem, muitas vezes, irreversíveis.

Lembro do Si Fu uma vez comentar sobre limite; ele dizia:

“Limite, por definição, é intransponível. O que devemos fazer é trabalhar da melhor maneira possível dentro dele.”

Não é raro ouvirmos no esporte a proposta de que devemos superar nossos limites.

Certamente, se assim eu tivesse feito, não conseguiria mais correr durante um bom tempo.

Sistema Marcial

Mestre Senior Julio Camacho e Patriarca Moy Yat, Manifestando Arte Marcial

Si Fu conta que certa vez, Patriarca Moy Yat, meu Si Taai Gung, termo similar a bisavô, fez uma pintura e pediu a opinião de meu Si Gung, termo similar a avô.

Si Gung disse que estava muito bom e recebeu uma reprimenda de seu Mestre. Ele teria dito: “Léo, não está bom. Mas, mais importante que a estética é o fato de estar pronto.

Boa parte de minha vida acreditei que arte era sinônimo de algo belo. E, que qualquer manifestação artística adivinha de um talento nato, portanto, para poucos.

Aos poucos entendi que arte é expressão pessoal. Neste sentido, o que define um bom artista é sua capacidade de se expressar de maneira genuína dentro do instrumento escolhido.

Contudo, o Kung Fu, enquanto arte marcial, vai além disto. Marcial lembra guerra, portanto, necessariamente, fala de um cenário desconfortável. Expressar-se genuinamente em um cenário crítico é o alto nível do Kung Fu.

Com Mestre Senior Julio Camacho, Manifestando a Arte Marcial

O que define um cenário crítico é particular. Para mim, escrever foi um problema. A primeira vez que Si Fu sugeriu que fizéssemos os registros orientados fiquei muito empolgado.

Adoraria falar das minhas experiências, tinha inclusive um roteiro pronto para redigir. Confesso que não consegui construir um parágrafo sequer. Minha principal dificuldade foi transformar em palavras qualquer experiência vivida.

Estava tudo comigo, foi triste saber que possivelmente toda experiência morreria também comigo.

Sucumbi diante desta dificuldade, escondi-me. Em vez, de tratar dela ou escrevendo ou pedindo ajuda, resolvi dizer que tinha muita coisa para fazer; o que é verdade, e que, por isso, não tinha tempo para escrever. No fundo, a questão da falta de tempo não convence a mim, tenho certeza que também não convence aos outros.

Fazendo referência a prática física, cada vez que sentava diante da tela de um computador, me sentia de frente de um oponente que me zombava . Sabia que tinha potencial, meu medo, me fazia fugir dele. Cada investida era um golpe que eu tomava.

Fugi por alguns anos, mas o fantasma permanecia ali. A cada oportunidade ele aparecia cada vez mais feroz, ou, pior ainda, rindo de minha fraqueza.

Mais uma vez fazendo referência a prática física, notei que o oponente, no caso, a escrita, era apenas um espelho; uma amostra do que eu sou.

Por sorte, meu Sitaai Gung é uma pessoa de Kung Fu. Transmitiu a meu Si Gung sua perspectiva marcial.

Também por sorte, Si Gung teve sabedoria para apreender seu ensinamento, e, mais uma vez, transmitiu a seus discípulos.

Si Fu, por sua vez, teve a habilidade de guardar esta história por alguns anos, e, nos contou no momento propício. Esta história “me caiu como uma luva”, última ferramenta necessária para que de fato, feito um artista marcial, eu me enfrentasse.

“Léo, não está bom. Mas, mais importante que a estética é o fato de estar pronto”.

A partir desta frase, notei que quando escrevia eu não estava me expressando ou preocupado com o resultado final, mas sim, estava procurando vaidosamente me promover.

Pensava, ” e se o que eu escrever não for lido ou apreciado? como faço para que o texto fique perfeito? estes pensamentos invadiam minha mente, e, pior, congelavam minha ação.

Primeiro Colóquio Remoto do Clã Moy Jo Lei Ou. Em diferentes cenários, manifestando a Arte Marcial

Certa vez, ouvi Si Fu dizer que diferente de outras expressões artísticas, a arte marcial é a única que a medida que você se desenvolve na arte em si, necessariamente você se desenvolve enquanto ser humano.

Hoje, minha dificuldade em me expressar através da escrita é quase nenhuma, graças ao trabalho constante em minha página, e, auxiliado por Si Fu, posso dizer que sou um ser humano menos vaidoso.

Claro, a estética, que na verdade prefiro entender como refinamento, sempre está presente. Mas, hoje me permito, sem medo, ouvir das pessoas seus comentários e, a partir daí, me refinar enquanto escritor, e, ser humano.

No fundo, mais que saber se gostou ou não dos meus escritos busco, caro leitor, saber como que, através deles, pude contribuir com sua expressão pessoal. Se é que fui capaz de tal feito.

Outra frase do Si Fu que me ocorreu foi:

“Todos nós, que praticamos um sistema marcial, somos praticantes de um sistema marcial. Se somos artistas marciais, em outras palavras, se estamos dispostos a enfrentar nossas dificuldades e a nos expressar genuinamente através delas é outra história.

Entendo que, cada dia que deixamos de nos refinar, independente do “saldo” positivo ou negativo do dia, fracassamos. O que não necessariamente é um problema, desde que, o fracasso do dia anterior seja o estopim para a vitória, ou, em minha opinião, refinamento para dia seguinte.

Hábito

Com Mestre Senior Julio Camacho e Mestre Thiago Pereira. Então Unidade Méier

Lembro que antes de iniciar minha prática do Ving Tsun acompanhei Si Fu em diversas palestras. Tinha muita vontade de iniciar a prática mas pouca condição, sobretudo, financeira.

Na época, eu fazia natação por recomendação Médica, e, meu pai, meu responsável financeiro na época, estava muito resistente em financiar as duas práticas, por isso, decidi que iria parar de nadar para praticar Kung Fu.

Esta decisão não fui bem aceita em casa. Então, com meus dezessete anos, considerei este feito um exercício de Kung Fu. A partir deste dia me senti especial, simplesmente porque tinha conseguido o que queria, e, sobretudo me posicionado.. Se eu era capaz de praticar Kung Fu eu era capaz de qualquer coisa.

Visita a Patriarca Moy Yat, EUA

Entendo que, para Si Fu iniciar sua própria prática também não foi simples. Uma das razões, é o fato de seu Si Fu, Grão Mestre Léo Imamura, morar em outra cidade.

Já ouvi algumas vezes Si Fu contando que morou seis meses na Rodovia Presidente Dutra, fazendo referência a quantas vezes foi a São Paulo encontrar seu Si Fu.

Imagino que, por conta disso, Si Fu tenha desenvolvido a habilidade de tirar proveito de qualquer situação, mesmo as mais desfavoráveis. E, assim me orienta em minha jornada.

Alguns meses depois de meu inicio no Ving Tsun meu pai decidiu que não iria mais investir na minha prática. Este foi um momento estranho, realmente não sabia o que poderia fazer.

Mais uma vez tentei negociar o preço do Ving Tsun, mas, desta vez, eu não tinha nenhum valor para investir. Comecei a tentar negociar maneiras de contribuir com o Mo Gun sem ter que necessariamente fazer qualquer acerto financeiro.

Mas, nenhuma de minhas propostas fariam de fato diferença. Um dia, conversando com Si Fu ele me disse: ” Duas coisas não vão acontecer, uma é você não praticar porquê não tem dinheiro, a outra, é você não pagar porquê não tem dinheiro.

Esta foi a frase que me convidou a, de fato, iniciar minha jornada marcial. Entendi que quando ele diz que não preciso parar de praticar quis dizer que o Núcleo está disposto a investir em mim; quando disse que não vou deixar de pagar, me deixou desconfortável, me alertou que de maneira alguma posso ficar preguiçoso, achando que sempre teria aquela condição.

Neste dia entendi que a vida é repleta de ajustes, e, somente estando disposto a vivê-los somos capazes de ter a vida que queremos.

Despedida dos Líderes do Clã Moy Jo Lei Ou, inicio da família Moy Jo Lei Ou nos EUA

Um exercício mental que gosto de fazer é tentar imaginar como Si Fu se sentia indo ou vindo de São Paulo, de ônibus. Não há como saber com exatidão, mas suspeito que muitas vezes estava assustado, outras alegre e confiante. Imagino que, com o tempo, a única coisa que ele fazia era ir. Independente do sentimento, ele só ia. E assim, chegou até hoje.

Muito do Kung Fu do Si Fu foi construindo em momentos de viagem. E, graças a estas viagens Si Fu é responsável por introduzir em solo americano o Grande Clã Moy Yat Sang.

Esta é parte da história de um discípulo que não tinha como pagar sua prática, e hoje é Diretor Adjunto de dois Núcleos no Rio de Janeiro, e, de seu Si Fu, que possivelmente, somente pelo fato de morar longe de seu Mestre recomeça seu trabalho em outro país.

“Se você acha que pode ou não pode, em ambos os casos você tem razão”. Kung Fu me ensina a acreditar todo dia que posso. No fundo, a questão é o hábito.

Reposição

Primeira Foto oficial de Meu Si Fu, Mestre Senior Julio Camacho como Representante de Núcleo. Ano de 1994

Quando meu Si Fu iniciou sua prática, havia, na então família Moy Yat San, a figura do Representante de Núcleo.

Esta pessoa era responsável pela Moy Yat Ving Tsun, no caso do Si Fu, no Rio, em nome do meu Si Gung, Grão Mestre Léo Imamura.

Atualmente, nos Núcleos do Clã Moy Jo Lei Ou há os Diretores de Núcleo. Em minha opinião, um refinamento do conceito de Representante de Núcleos.

Com Mestre Senior Julio Camacho, Diretor e Diretor Adjunto do Núcleo Barra, André Guerra e Guilherme Farias

A função dos Diretores, como era de se esperar, é garantir o bom andamento e desenvolvimento de seu Núcleo.

Mas, esta função não é meramente executiva. As pessoas que se dedicam a esta atividade estão na verdade fazendo um exércicio de Kung Fu.

A exemplo da relação Si Hing – Dai, irmão mais velho e mais jovem, a estrutura da Direção de Núcleo, Diretor e Diretor Adjunto não se baseia na hierarquia.

Baseia-se em um conceito prático do Sistema Ving Tsun, a Guarda. Isto pois, somente entendendo como trabalhar as duas mãos de maneira coordenada podemos dizer que de fato estamos em guarda e não somente em posição de guarda.

Em outras palavras, o trabalho em equipe, tão necessário entre as mãos no momento do golpe, mais uma vez se revela crucial.

Em nossas reuniões, a palavra de mais valor é aquela que absorve melhor o que foi ponderado por todos, não simplesmente a de quem disse, como nos casos em que se valoriza a hierarquia.

Estudo de Gestão através de dispositivos corporais de combate simbólico

Acredito que todo o desenvolvimento marcial deve ser direcionado para qualquer situação do dia a dia.

Daí a importância de, no Mo Gun, nos envolvermos em mais de uma tarefa.

Isto facilita o entendimento de que o aprendizado, seja qual for, pode ser útil em qualquer situação.

Por exemplo, através da condição de Diretor Adjunto que acreditei ser secundária por um tempo, pude desenvolver minha capacidade de ser irmão mais velho e/ou mais jovem.

O “Si” é o mesmo para Si Hing e Si Dai, diz respeito a capacidade de ensinar e aprender. Ou, em meu entendimento, de estar atento a relação.

Então, já que o objetivo é estar atento a relação, certamente esta capacidade não é necessária ou útil apenas no Mo Gun.

Entrega

Despedida das Lideranças do Clã Moy Jo Lei Ou, Mestre Senior Julio Camacho e Senhora Marcia Moura Camacho

Nesta Quarta, dia vinte e nove de janeiro, tivemos um evento marco em nosso Clã, a despedida de nossos líderes. Eles partiram para os EUA, e, juntos, continuarão o projeto de internacionalização de nossa família.

Si Fu nos últimos dias antes de sua viagem falou muito sobre a riqueza cultural que todo este processo traria. Dois países, línguas diferentes, modo de pensar particular.

Além disso, vejo esta atitude como inspiração. Si Fu, com mais de 20 anos de carreira consolidada no Brasil inicia uma nova jornada. E, deixa o que construiu sob o cuidado de seus discípulos.

Lembro de certa vez, estava no carro do Si Fu e paramos em uma farmácia; ele precisava comprar um remédio.

O local era desconhecido pelos dois e bastante escuro, o pouco som que se ouvia era o ruído de motor dos carros, que passavam com raridade . Si Fu saiu do carro, pegou seu computador e disse que já voltava. Deixou o carro ligado e sua porta aberta.

Como não sabia se deveria acompanhá-lo decidi permanecer no carro. Gastei tempo demais decidindo o que fazer, por isso, perdi-o de vista. Pouco tempo depois, me aparece uma figura por trás, que entra no carro, fecha porta, deixa um embrulho em meu colo e da partida. Por sorte, era o Si Fu.

Ele me pergunta: ” O que você está fazendo aqui dentro? olhei para ele incrédulo, achando que já sabia a resposta, mesmo assim respondi. ” Te esperando”

” E se eu fosse um ladrão? ” Resisti bravamente ao impulso de dizer que, por instantes, eu achei que era.

” É muito importante, a todo momento, sua conduta ser marcial. Deixei a chave de propósito no carro para você trancá-lo após sair. Mas, você preferiu ficar preso dentro desta “caixa”, sem capacidade de reação alguma.

Levei meu computador justamente porque sabia que você não sairia do carro, assim, evitava uma perda”.

“Mas e o carro, perguntei, você não se preocupa em perdê-lo?”

“Claro que sim, mas, por muitos anos eu vivi sem ele. Não seria um problema tão grave. Com trabalho, serei capaz de recuperá-lo, também por isso levei o computador. O mais importante é o trabalho, não o bem gerado por ele.”

Ele não falou nada sobre minha segurança, também não perguntei, mas, pelo tempo que passou na loja entendo que se preocupou em fazer rápido o que tinha se proposto, evitando assim um assalto, por exemplo.

Pela maneira que retornou ao carro, suspeito que entendeu que eu o tinha perdido de vista, portanto, o tempo todo estava de olho em mim e onde eu estava.

Daquele dia em diante, percebi que Si Fu valoriza mais o trabalho do que as conquistas. No Fundo, acho que as conquistas, para ele, são consequências de um trabalho bem executado, portanto, possíveis.

Check In. Sempre Juntos

Esta história aconteceu há muitos anos, de certa forma, pude revivê-la. Mas, tenho hoje outro entendimento.

Parece-me que Si Fu busca sempre fazer uma entrega, como uma tradição. De alguma maneira, ele convida as pessoas a sua volta a construirem coisas com ele.

E, como será entregue, Não há necessidade de posse. Não devemos nos apegar, mas sim, construir para entregar. Assim, nos tornamos seres humanos mais produtivos.

Entendo esta viagem também como uma “passagem de bastão”, a partir de agora, a família Moy Jo Lei Ou sediada no Brasil está principalmente sob cuidado dos seus discípulos.

É claro que Si Fu está nos apoiando, mas, entendo que nossa missão é cuidar daqui para que Si Fu tenha condições plenas de iniciar nosso trabalho nos EUA.

Na ocasião da morte de Sitaai Gung Moy Yat, Si Fu comenta que um dos discípulos presentes falou da sabedoria de seu Si Fu, pois, ele não teria entregue todo seu saber ao discípulo mais antigo ou ao mais próximo.

Mas sim, deixou um pouco para cada. Por isso, o único jeito de ter acesso a toda a sabedoria dele era permanecerem juntos.

O direcionamento que Família Moy Jo Lei Ou deve ter, creio, é seguir este mesmo princípio.

Também por isso, a frase, sigamos juntos, me parece antiga, e ao mesmo tempo atual.

Nosso cenário é bem diferente, nosso Si Fu está, apenas, distante fisicamente. Mas, com a tecnologia que temos hoje, isto não será um problema. Digo isto, pois, Moy Jo Lei Ou é o nome de uma pessoa. Portanto, o melhor jeito de representar esta pessoa é, seguindo seus princípios.

Em outras palavras, seguindo juntos entre nós, discípulos, e, dele, nosso Si Fu.

Despedida de Meu Si Fu, Mestre Senior Julio Camacho, e de minha Si Mo, Senhora Marcia Moura Camacho. 25/1/20

Na última Quarta Feira, no aeroporto, recebi mais um ensinamento do Si Fu.

Em momentos de despedida, é comum as pessoas chorarem. Nunca entendi bem porque isto acontece, mas é comum, inclusive comigo.

A questão é que, quando há lágrimas, o ambiente tende a ficar melancólico e a despedida passa a ter um tom pesado.

Em nossa despedida, o Tom foi muito leve, os abraços foram felizes e fortes, como um símbolo de aproximação, não de afastamento, como é comum em momentos de despedida.

Por isso, convido a todos os nossos membros a entenderem este afastamento físico como um símbolo de aproximação. Afinal, para este símbolo se concretizar depende apenas de nós.

Sigamos sempre, como propôs Si Taai Gung Moy Yat, Si Fu e Eu, juntos.

To Dai

Com Mestre Senior Julio Camacho. Vida Kung Fu após a prática

Si Fu uma vez comentou comigo que todo processo possui 3 momentos.

O primeiro é chamado SAU, que significa obedecer de maneira integral, sem questionar ou pré conceitos.

Em sequência, temos a etapa POH, que significa partir, analisar.

Por último, temos a etapa LEI, que significa separar. Gosto também da interpretação que diz respeito a rompimento.

O que exemplifica pra mim este processo é, por exemplo, um sinal de trânsito.

Quando estamos na escola, aprendemos que quando o sinal está vermelho para o pedestre não devemos atravessar, em hipótese alguma.

Fixada esta lição podemos passar para a próxima etapa que é a de análise do cenário.

Quando o sinal está vermelho e não há nenhum carro, talvez não seja preciso esperar.

Por último, chegamos ao momento do rompimento.

Onde, por exemplo, decido romper com a primeira lição e atravessar sem o sinal me autorizar.

Ou mesmo, atravesso a rua fora da faixa de pedestres, com o sinal vermelho e com carros vindo em minha direção.

Claro, a recomendação é sempre atravessar quando o sinal para pedestre está verde, e, respeitando a faixa.

Contudo, se a pessoa de fato respeitou os momentos anteriores ela deve se tratar como adulta, isto significa que deve tomar suas decisões baseadas em sua própria experiência.

E, sobretudo, arcar com as consequências.

Relação Si To. Trabalhando Juntos

Não poderia ser diferente, a relação Si To, Si Fu – To Dai segue o mesmo paradigma.

Eu mesmo, no processo das publicações pude vivenciar esta experiência.

Aconteceu da seguinte maneira:
Na terça feira, dia 07, Si Fu me pediu para escrever.

Queria o material pronto no mesmo dia.

Escrevi e enviei. Ele leu e me orientou no sentido de melhorar a abordagem e a escrita.

Na hora, fiz os ajustes e reenviei. Ele me respondeu pedindo para que eu escrevesse mais uma publicação,e, me sugeriu um tema.

Queria pronto ainda naquele dia, assim foi feito.

Quando leu minha segunda postagem, mais uma vez me orientou e pediu que eu publicasse no dia seguinte, sugerindo ainda um outro tema para a próxima postagem.

No dia seguinte, disponibilizei a publicação e entreguei pronta a que tinha feito com o terceiro tema sugerido.

Me sugeriu mais um, o quarto tema. A partir daí não me sugeriu mais. Desde então estou escrevendo.

Entendi que, quando Si Fu me pediu para escrever duas publicações em um dia ele estava me mostrando que era possível fazer, a despeito dos meus compromissos com o Mo Gun.

Pergunto-me o que teria acontecido se eu simplesmente não obedecesse.

Design a site like this with WordPress.com
Get started