Yam Chá

Yam Chá

Existe um conto no Kung Fu, que diz que devemos esvaziar nossa xícara.

Mas, ao mesmo tempo, somos estimulados a manter a xícara cheia.

Claro, as duas propostas são apresentadas em cenários distintos. Ao mesmo tempo, acredito que elas estejam interligadas.

Mestre Senior Julio Camacho serve chá a Senhora Helen Moy, Líder de nossa instituição

Servir chá é uma atitude de cuidado e treino para atenção. Saber ser invisível e objetivo é crucial para executar esta atividade.

Certa vez, vi um filme onde o Mestre dizia a seu discípulo, enquanto enchia sua xícara, que ele deveria esvaziá-la.

Inocentemente, o discípulo jogou o chá fora. Impaciente, O Si Fu se retirou para as montanhas, deixando o discípulo sozinho.

Há um simbolismo muito interessante nesta história, uma vez que foi Si Fu quem serviu o chá, não o contrário, como é o comum.

Demonstração Com Mestre Senior Julio Camacho, Núcleo Ipanema. Observados por meu Irmão Kung Fu André Guerra

O chá representa conhecimento, por isso, na passagem acima, Si Fu serviu seu discípulo. Materializando a ideia de transmissão.

Por algum tempo, achei que a xícara vazia significava a disponibilidade do discípulo em receber o conhecimento. Mas, o que fazer depois que a xícara estivesse cheia?

Si Fu tentou me explicar, entendi da seguinte maneira:

Você deve beber. Somente degustando o chá, portanto, o conhecimento, você será capaz de outra vez esvaziar a xícara, xícara esta que tornará a beber. Assim se desenvolve o Kung Fu,

No exercício constante de ora encher, ora esvaziar. Em alguns momentos, encher e esvaziar ao mesmo tempo.

Kuen Yau Sam Fat

Jing Choi, Soco de batalha.

O que é preciso para obter um soco forte?

Alguns dirão que esta habilidade advém do trabalho muscular, Treino. Em outras palavras, a repetição ajudará o jovem praticante a desenvolver a habilidade de golpear forte.

Contudo, se houver na repetição a execução de movimentos errados, o praticante estará refinando a habilidade de fazer errado. Portanto, nunca haverá chance de desenvolver o potencial máximo do soco.

Por isto, digo: o melhor soco é mecânico, em outras palavras, respeita a dinâmica do próprio corpo.

Patriarca Moy Yat, Jing Choi

Há uma razão para este soco ser chamado de “Soco de Batalha”. Basicamente, a recomendação quando se estuda este dispositivo é apenas uma. Ir e voltar.

Não importa se você irá uma ou dez vezes. Sempre que avançar, é importante retornar ao ponto de partida.

Este tipo de estrutura simula uma guerra, já que ao entrar em campo, é importante ir até o final, não importa o quão cansado, ou “ferido” você possa estar.

Mestre Senior Julio Camacho faz algumas considerações sobre o Bastão.

Certa vez, Si Fu me contou que, após meu Sitaai Gung, Patriarca Moy Yat, ter um derrame, seus discípulos organizaram um seminário.

Por conta do derrame, sua movimentação no lado direito do corpo ficou bastante comprometida. Mas, ainda assim, ele decidiu fazer um seminário sobre o bastão do Ving Tsun, Luk Dim Bum Gwan.

Como eu disse, um bom soco respeita a a dinâmica do corpo, o uso do bastão, segue o mesmo preceito.

Por isso, mesmo debilitado, Sitaai Gung fez o seminário de forma que sua condição física não interferiu.

A partir disto, entendo que, mais que entender a dinâmica do corpo, um bom soco precisa ter “espírito marcial”. Por isso, ele parte do coração.

Sau, Apoiar e Lei

Foto de parte da obra realizada por Patriarca Moy Yat intitulada Ving Tsun Kuen Kuit”

O sistema Ving Tsun é dividido de diversas maneiras. Existem níveis, fases, momentos, entre outros.

Cada divisão tem seu sentido, e nos ajuda no desenrolar da prática.

Creio que isto aconteça, por conta destas divisões serem um tipo de guia. Assim, não importa o quanto não dominamos qualquer prática ou estejamos inseguros.

Sempre haverá um “norte”, melhor dizendo, uma linha central para nos orientar.

Sabemos, já que falamos de Kung Fu, que esta perspectiva funciona para além da prática de técnicas.

Patriarca Moy Yat e Mestre Senior Julio Camacho. Perspectiva Kung Fu

Antes do início do isolamento fisico, eu estava bastante preocupado. Por ser uma situação nova, fiquei bastante angustiado.

Conversei com Si Fu a respeito, ele me ouviu sem expessar reação alguma no primeiro momento.

Me deixou falar tudo que eu precisasse. Em seguida, começamos um processo de diálogo, onde ele continuava me ouvindo mas pontuava sua opinião em alguns momentos.

Com Mestre Senior Julio Camacho. Perspectiva Kung Fu

Ao fim da conversa me percebi mais calmo. Me flagrei me questionando o que eu faria a partir dali.

Uma das divisões que aprendemos no estudo do sistema é “SAU”, “POH” e “LEI”. Em meu entendimento, o mesmo que “Aderir, Apoiar, e Propor.

Quando Si Fu me ouviu no inicio da conversa sem reação alguma, era seu jeito de aderir, ou seja, iniciamos pela fase “SAU”.

Em seguida, o seu discurso a todo momento se apoiava no meu, não deixando de ter sua opinião, como sugere a fase POH”

Finalizamos a conversa sem concluir nada. O que eu deveria fazer? este vazio, atribuo a fase “LEI”.

Os pilares da família Moy Jo Lei Ou são: aderir, apoiar e propor. Assim iniciamos e finalizamos nossa conversa.

Instrumentos

Mestre Senior Julio Camacho demostrando a sequência do Muk Yan Jong

Sabemos que o Sistema Ving Tsun possui três fases; São elas: fase estruturada, fase semi estruturada e fase não estruturada.

A fase semi- estruturada, apresenta ao praticante os instrumentos utilizados neste estilo de arte marcial.

O termo utilizado para identificá-las, representa a importância, e a necessária maturidade para que se absorva o real aprendizado contido em cada etapa desta fase.

Por isso, falamos instrumentos não armas.

Bastão do Ving Tsun, Luk Dim Bun Gwan

Existem várias razões que explicam porque não usamos o termo “armas”. A mais simples, é seu uso.

Por arma, entendo como item de uso para ataque ou defesa. Nós não esperamos ter de atacar ninguém, ou mesmo nos defender, ainda que possa, caso seja necessário.

Portanto, seu uso está atribuído ao aprendizado marcial, em outras palavras, usar um elemento externo como molde de aperfeiçoamento do próprio corpo.

Então, temos um boneco de madeira, “morto”, cabe ao praticante dar ” vida” a ele.

Ou um bastão extremamente pesado e longo, onde logo se percebe que não é possível carregá-lo debaixo do braço, fazendo movimentos descuidados. O próprio ato de carregá-lo é suficientemente complexo.

Grão Mestre Leo Imamura fazendo uso do Baat Jaam Do

Por último, temos o Baat Jaam Do. Este instrumento de corte tem como uma das funções o corte.

Por estranho que possa parecer, não é obvio. Ou é comum vermos praticantes de arte marcial usando seus instrumentos de pratica para cortar bolo?

Entender a natureza dos instrumentos nos ajuda a imprimir uma natureza nova, caso seja necessário.

O rigor com uso dos termos aprendi e aprendo com meu Si Fu, Mestre Senior Julio Camacho.

Com ele, também aprendi que a partir da experiência com os instrumentos do Sistema Ving Tsun, qualquer coisa em sua mão pode ser usado como arma. Não importa se é uma faca ou um livro.

Portanto, usar qualquer coisa como instrumento, é muito mais estratégico que o uso por sua própria natureza.

Confiança

Relação Si To, relação de confiança

É comum, no inicio do estudo das artes marciais o praticante ter um roteiro em sua mente.

Este roteiro, diz claramente onde ele deve chegar e em quanto tempo.

Por isso, é comum o praticante se frustrar. Em nosso caso, uma das razões é a expectativa do praticante em chegar ao fim, sem aproveitar o caminho.

Outra razão, é a perspectiva mal elaborada do que vem a ser arte marcial.

Demonstração de praticantes de artes marciais.

Lembro de certa vez, em que estava no Mo Gun com Si Fu e alguns outros praticantes. Si Fu falava da habilidade de relaxar na crise.

Em dado momento, Si Fu pegou uma faca antiga e sem ponta de cozinha e explicou que o que faz a faca penetrar é a resistência.

Para dar exemplo, Si Fu soltou a faca no chão, que era de madeira e ela ficou fincada ali.

Então ele disse:

“Por outro lado, se não houver resistência a faca não penetra”.

Pediu-me que deitasse no chão e levantasse a camisa. Enquanto eu estava deitado, Si Fu apontou a faca para minha barriga e soltou.

Imediatamente após me tocar a faca tombou. Sem me causar nenhum tipo de machucado.

Demonstração com Mestre Senior Julio Camacho

Graças a este tipo de experiência com meu Si Fu, aprendi desde muito cedo que o “poder” da arte marcial reside nas coisas simples e cotidianas.

Falávamos daquela vez sobre relaxamento, mas o outro aprendizado que me vem a mente é confiança.

Creio que minha confiança no Si Fu me permitiu relaxar a ponto de não me machucar.

Confiar, seja no outro ou em si mesmo é crucial na pratica marcial.

De outra maneira, como seria possível se desenvolver através de dispositivos corporais de combate simbólico se estamos com medo?

Por isso, praticar sem perspectiva alguma, aproveitar o momento, e absorver o que for capaz e confiar é o que nos ajuda a desenvolver o que precisamos.

Assim, se inicia o desenvolvimento enquanto praticante.

Coerência

Grão Mestre Leo Imamura e Mestre Senior Julio Camacho apresentam os temas teóricos do Programa Fundamental

Todos sabemos que para se apresentar é preciso preparo.

Este preparo pode ser de um dia ou de meses, não importa. O fato é que sempre há preparo.

Preparar algo para alguém é um excelente exercício de Kung Fu, já que é preciso considerar a expectativa da audiência.

Desta forma, o palestrante, professor, mestre, seja quem for, adapta seu discurso. Refina e se desenvolve no assunto.

Por isso, é de suma importância considerar a perspectiva do outro. Mas, há um risco: o de aprender a se desenvolver apenas pelo olhar externo.

Patriarca Moy Yat executando. o Siu Nim Tau. Primeiro Nível do Sistema Ving Tsun

Por diversas vezes, tive a oportunidade de conversar com Si Fu sobre vestimenta. Em boa parte delas, entendi que a vestimenta depende do contexto.

Caminhar de terno e gravata na areia da praia é desconfortável, o contrário, participar de uma reunião de sunga, é inadequado. Por isso, a perspicácia para entender o contexto chamamos de Kung Fu.

Mas, esta especie de régua caiu por terra quando estamos em casa, sozinhos.Pois, nesse momento, é comum afrouxarmos o olhar. Ai reside o perigo.

Patriarca Moy Yat e Mestre Senior Julio Camacho, Vida Kung Fu.

Como nos apresentamos quando ninguém está vendo é o que realmente somos.

Por isso, é importante mantermos nosso postura quando estamos sozinhos, de outra maneira, seremos uma farça.

Claro, raras serão as vezes onde haverá necessidade de andar de calça e sapato social dentro de casa. Contudo, o básico, por tanto mais importante, precisa acontecer.

Por isso, checar nossa postura a todo momento é crucial. Desta forma, vamos perceber o quanto que o discurso condiz com nossa prática.

A Arte Vem do Vazio

Arte de Patriarca Moy Yat

Certa vez, ouvi de meu Si Fu, Mestre Senior Julio Camacho, que qualquer obra de arte existe antes mesmo de ser trabalhada.

Entendo que na pintura, por exemplo, basta saber ligar os pontos. Na escultura, tirar excessos.

Mas, como no exemplo destas artes, ou de qualquer outra, o primeiro passo é o vazio. A tela, a pedra ou o ser humano estão vazios.

Estão o que o olhar menos atento pode perceber: pedra, papel ou corpo.

Isto é perfeito, pois é desta forma que o artista encontra espaço para sua expressão.

Mestre Senior Julio Camacho demonstra a sequência do Muk Yan Jong

O sistema Ving Tsun é como o nome diz, um sistema. Lembro de há muito tempo me questionar como deveria me chamar.

Por exemplo, o praticante de capoeira é Capoeirista, Caratê, Carateca; e o de Ving Tsun?

Por muitos anos fiquei sem resposta. No fundo, a questão é simples: o praticante de Ving Tsun é praticante de um sistema, em outras palavras, um caminho que possui inicio, meio e fim.

Esta pessoa é um praticante do sistema Ving Tsun.

Estudo do Bastão, ao lado, um quadro que representa o sistema Ving Tsun

Contudo, as pessoas que criaram esse sistema ou, a bem dizer, interpretaram, tal qual uma obras de arte, foram sábias.

Saber usar as ferramentas oferecidas de forma desenvolver o corpo, ou usá-las de maneira estratégica, de modo que se adapte as condições do praticante é arte.

Por isso, criou-se o sistema Ving Tsun como um caminho, este, trilhado por cada um a sua maneira.

Por ser finito, há um momento em que as ferramentas terminam. A partir daí, o que resta é o vazio.

Neste momento, temos arte. Em outras palavras, nossa expressão pessoal.

Atitude Mental em Guarda

Mestre Senior Julio Camacho. A arte de Lutar pela vida

A guarda está presente em todas as artes marciais, cada uma dentro de suas características.

Apesar das diferenças, há algo em comum. Posição de guarda é diferente de atitude mental em guarda.

Por isso, em alto nível, não sabemos quem de fato tem o Kung Fu desenvolvido. Uma vez que esta pessoa não fica demonstrando sua técnica por ai.

Com Mestre Senior Julio Camacho, extensão da guarda

A guarda, no nível mais básico é uma posição. Um pretexto para que se caminhe por onde se almeja com mais segurança.

Em alto nível, a posição de guarda não precisa ser executada.

O espírito que os anos de pratica ajudou o estudante a desenvolver, chamamos isto de atitude mental em guarda, é o que precisa desabrochar.

Por isso, podemos entender que a atitude mental em guarda serve para qualquer coisa, não só para luta.

Certa vez, fiz com Si Fu, e alguns irmãos Kung Fu, uma filmagem para as redes sociais. A proposta era demostrar o Ving Tsun de maneira “técnica”.

Tínhamos um roteiro simples, a ideia era ter um ponto de partida, mas não um caminho todo mapeado.

Trabalhei algumas demosntrações com Si Fu até que ele disse:

“Gui, você não está em guarda. Por favor, deixe outra pessoa demonstrar comigo e trabalhe isto.”

Assumi a câmera, após alguns quadros, Si Fu foi ver o que eu tinha gravado.

Por conta da dinâmica, diversas vezes Si Fu saiu de foco e, como não havia percebido, eu não ajustei.

” Gui, você precisa entrar em guarda. Vem demonstrar comigo.”

Ele caminhou alguns passos, se virou e golpeou, tomei um susto tremendo, simplesmente levantei a mão e fiz o que dava para me “defender”. Não havia necessidade, ele estava fora da distância.

Em seguida Si Fu questionou:

“Quem filmou isto?”

Nenhum dos meus irmãos Kung Fu filmou, em outras palavras, naquele momento, ninguém estava em guarda.

Encontro Tematico Remoto com Mestre Senior Julio Camacho

Refleti diversas vezes sobre a guarda. No episódio acima, lembro que meu pensamento era identificar nas sequências dos domínios onde ela se apresentava.

A consequência disto, foi não estar presente no momento. Somente quando Si Fu questionou se alguém havia gravado a segunda demonstração comigo que percebi.

A questão não é a posição dos braços, mas sim, a atitude de fazer o que há de se fazer, muitas vezes sem aviso prévio ou simulações.

Hoje, um grande desafio para mim é trabalhar minha atitude mental nos encontros on line com Si Fu.

Certamente este é um grande instrumento para trabalhar minha atitude mental, não pelo instrumento em si, mas pelo artista que quero ser e pelo dinâmica do próprio Si Fu.

Hung Bau, parte 2

Hung Bau, envelope da sorte

Na maioria das vezes, quando entregamos presentes, nossa proposta é agradar. Por isso, conhecer a pessoal é crucial para que este presente seja bem recebido.

Na cultura chinesa, a entrega de Hung Bau, envelope vermelho, é um meio interessante de se entregar um presente.

Neste caso, mais que um presente, se entrega a boa sorte.

Por isso, entender o simbolismo que está por trás da confecção e entrega do Hung Bau se faz crucial.

Minha cerimônia de Acesso ao Baat Jaam Do. Com Mestre Senior Julio Camacho, setembro de 2017

Hung Bau pode ser entregue em diversas ocasiões. É comum o primeiro acesso dos praticantes ao Hung Bau acontecer em razão da celebração de uma cerimônia.

Em outras palavras, a possibilidade de entender o simbolismo do Hung Bau acontece muito cedo na jornada Kung Fu, e, acompanha o praticante por toda sua história.

Sempre que entregamos o Hung Bau, entre outras coisas, posicionamos o que esta escrito de forma que fique fácil a leitura por parte do receptor.

Desta forma, somos treinados a, por exemplo, considerar a perspectiva do outro.

Isso me lembra uma história:

Certa vez, estava com Si Fu no Mo Gun e fui servir chá. Cuidei com muito capricho de vários detalhes, deste o tipo de xícara a temperatura da água e sabor.

Si Fu estava cuidando da pratica de seus irmãos Kung Fu. Sem aviso, entrei na sala, fiquei na frente dele e mostrei a xícara.

Neste momento, todos pararam o que faziam e me observavam.

Si Fu agradeceu, continuou me olhando mas não pegava o chá. Depois de alguns segundos ele me perguntou:

“Gui, o que você espera que eu faça com a xícara?”

Ele estava com as mãos ocupadas e não havia nenhum aparador por perto. Com uma intenção boa, sem querer, atrapalhei seu trabalho.

Com Mestre Senior Julio Camacho, Núcleo Barra.

Hoje, passados alguns anos dessa história, sigo retirando aprendizado. Perceber o fluxo é crucial para execução de qualquer ação.

Certamente Si Fu estava com sede, mas sua prioridade, naquele momento, era continuar a prática.

Não há duvida de que minha intenção era boa, mas a maneira como foi conduzida fez com que tivesse sido uma decisão errada.

Como na entrega do Hung Bau, entregar chá é uma arte. É preciso saber fazê-lo com maestria e, sobretudo, considerando a perspectiva do outro.

Aprendi com as experiências vividas com meu Si Fu que Hung Bau é uma excelente ferramenta de desenvolvimento marcial.

Tal qual qualquer outra, basta que você seja um artista.

Relação Discipular

Com Mestre Senior Julio Camacho, meu Baai Si, 2011.

A relação discipular, em minha opinião, diz respeito a entrega. A todo momento, Si Fu e Todai se entregam.

Seja tempo, dedicação, conhecimento, etc.

Entregar-se honestamente a experiência, ou o mais próximo disto que o momento pessoal permitir é a chave parta o desenvolver da relação discipular, portanto, do Kung Fu.

Com Mestre Senior Julio Camacho, observados por meu Si Hing William Franco, Angola

Em alguma postagem antiga, comentei como iniciei minha prática. Resumindo, iniciei aos 17 anos, na época, meu responsável financeiro era meu pai.

Critico ferrenho das artes marciais, tive muita dificuldade em iniciar meu processo.

Mas, o fato é que apesar de meu início conturbado, ou por causa dele, anos depois, fiz com a família Kung Fu minha primeira viagem internacional. Fomos à Angola.

Antes da viagem, já tinha autorização para iniciar o Baat Jaam Do, mas ainda não havia visto nada da sequência.

Comentei com Si Fu sobre meu desejo, ele dizia, “ok, vamos fazer.”

A viagem se aproximava, mas ele efetivamente não me dava acesso, certa vez ele brincou:

“Porque quer tanto aprender o Baat Jaam Do? por acaso pretende matar um leão?”

Certamente, não era essa minha intensão. Mas, de alguma forma, eu entendia àquela viagem como um sucesso para minha carreira, e, queria iniciá-la de forma “completa”.

Chegou a data do embarque, eu já havia desistido de aprender, havia a possibilidade de ter acesso lá em Angola, mas, achava não teria tempo.

Nesta viagem, ficamos em atividade em torno de 18h por dia, passamos cerca 5 dias lá. Certa noite, Si Fu resolveu fazer mais uma demonstração comigo.

A proposta era que eu ficasse em guarda, ele iria me golpear. Eu deveria me deslocar o mínimo necessário, apenas o suficiente para golpeá-lo.

Havia um detalhe, desta vez ele realmente golpeava.

Em dado momento, ele comentou:

“Gui, levanta a guarda, vai acabar quebrando o nariz.” Os que conhecem o sistema de saúde de Angola conseguem entender minha preocupação.

Passou-se o que para mim foi uma eternidade, mas não pelo desconforto, que foi real. Mas pelo o desdobrar desta experiência, que foi bem mais forte.

Com Mestre Senior Julio Camacho e meu Si Hing, Claudio Teixeira. Conhecendo Angola

Ir a Angola me reforçou um grande aprendizado; muito cedo, com Si Fu, aprendi a deixar de acreditar em jargões sociais.

Ter dinheiro ou não ter dinheiro não define o quanto você é capaz de fazer algo ou não, o que define é seu desejo, e sua atitude a partir dele.

A sequência do Baat Jaam Do não vai além de simples movimentos se você não incluir atitude marcial.

Sem saber nada da listagem, tive a oportunidade de viver o principal, levantar a guarda, sobretudo em momentos de desânimo ou morte, seja esta simbólica ou não.

O mais importante, esta viagem me fez lembrar a importância da entrega.

Desde os 17 anos, aprendo a confiar no Si Fu. Aos vinte e poucos, aprendi a continuar confiando e que poderia cruzar o oceano.

Hoje, aos 30, continuo confiando no Si Fu. Em todo esse tempo de convivência, percebi que existem pessoas com Kung Fu muito melhor que o meu, mas, de forma alguma, troco meu Kung Fu pelo de ninguém.

Aprendi com meu Si Fu, sem pretensão alguma, a confiar em mim.

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