
O autoconhecimento é matéria de qualquer arte ou filosofia que busca o desenvolvimento humano. Por ser comum, há uma visão geral sobre o que seria ter ou estudar este particular. Por isso, vejo um contrassenso, já que, embora o conhecimento possa ser apreendido, o que se aprende é diferente para cada indivíduo. Mais complexo ainda fica quando este conhecimento se depara com o sufixo “auto”, ou seja, voltado para si. O que reforça o argumento. Ou seja, é válido o argumento do autoconhecimento, e vejo benefícios em ser comum. O problema é a maneira como se abordam as estruturas que prometem o aprofundamento deste saber.
Por exemplo, ao se falar da procrastinação, que é um problema comum, propõem-se algumas técnicas para lidar com isso, em geral, e aqui reside o problema, técnicas iguais para indivíduos diferentes. A procrastinação é o problema da moda, mas existem outros, como o transtorno de ansiedade, por exemplo.
Mas não só isso, existe a pessoa com Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade, o famigerado TDAH. O curioso é que este diagnóstico é feito em crianças. Falando só sobre a hiperatividade, imagino que hajam maneiras de se identificar essa questão, mas certamente não poderia ser uma criança de 5 anos não suportar ficar sentada e prestando atenção a um assunto de desinteresse por mais de 5 minutos. Fora isso, temos um outro grande problema, o rótulo.
No dia a dia, é comum encontrarmos adultos se valendo de um diagnóstico, eventualmente mal feito, para justificar sua fragilidade na atenção, isso se vale pelo acelerar dos movimentos ou determinada letargia. Por isso, fica a pergunta: se já sabe o problema, o que falta para resolver?
Voltamos então à questão do autoconhecimento, que me parece fundamental para lidar com qualquer tipo de questão. Mesmo assim, é importante estar atento às soluções da moda e aos rótulos impostos por autoridades, ou não, no assunto. Ou seja, é preciso ter à mão ferramentas que são capazes de nos proteger e, ao mesmo tempo, verdadeiramente nos convidar às profundezas de nosso ser. Falo precisamente sobre a arte marcial.

Há alguns anos, tenho que lidar com consequências prejudiciais decorrentes de casos específicos de transtorno de ansiedade. Esses casos seguem um padrão, que são sutis, mas identificáveis. Dada a sutileza dos sintomas, sua percepção é possível apenas através de um conhecimento profundo do meu próprio corpo, mas também sobre a forma como lido com situações.
Para compreender melhor todo este processo, precisei procurar por alguns médicos, fiz uso de alguns fármacos, inclusive. Sem dúvida, a orientação profissional e a regulação química me ajudaram a lidar com o problema. Mas não resolveram. Lembro que o que me fez deixar de usar o remédio foi uma conversa com a médica, disse que não queria mais usá-lo, queria me experimentar sem apoio. Sua resposta foi que a decisão seria minha e me deu mais algumas receitas para caso eu mudasse de ideia. Não mudei.
Essa decisão foi crucial no sentido de percepção. Estou bem mais consciente do que me desestabiliza, a ponto de ter condições de atuar antes da situação sair do controle. Até então, ciente dos sintomas, eu achava que o que os desencadeavam era a ação do outro. Incomodava-me a necessidade de esperar pela opinião do “grupo” para tomar decisões em questões de trabalho ou lazer. Mas então, por que esperava?
Em mais um momento de decisões, e já sentindo as pontadas de desconforto peculiares, fiz contato com Si Fu comentando sobre o que chamei de “letargia” do grupo. E de novo surgiu a pergunta:
“Por que espero?”

A resposta é simples: Espero que decidam por mim, espero também, caso dê errado, que eu não seja responsabilizado pelo prejuízo, já que outros tomaram a frente. Espero poder responsabilizar o alheio, neste caso, nem precisa ser outra pessoa, pelas mazelas de minha própria vida. Espero, por fim, que vivam por mim, pelo medo único de não ser capaz.
A conversa com Si Fu foi rápida, mas anos de experiência marcial te ajudam a extrair de pouco, todo o sentido. Quem sabe, foi apenas todo o investimento que Si Fu fez em minha experiência que só agora está fazendo sentido. Experiência esta absolutamente individualizada e zelosa, sempre buscando um sentido marcial.
Pude perceber então o que para mim hoje é a verdade mais preciosa; a responsabilidade sobre meus processos e minha vida é absolutamente minha, independente e/ou justamente por conta dos diagnósticos e vivências do passado. Vem aí um momento muito importante para minha carreira, pretendo fazer deste um grande marco. Tenho muito medo de que dê errado; às vezes, esse medo se manifesta em sonhos e me atrapalha o sono. Mesmo assim, em respeito a meu mestre e a todo o investimento que fizemos em meu Kung Fu, garantirei que seja o melhor que já fiz até hoje.
Muito bom o texto Si hing. Entendo de forma muito profunda quando você fala sobre a ansiedade. O kung fu tem me ajudado muito até cheguei a reduzir bastante minha medicação. Espero em breve zerar. Sei que isso só é possível graças ao compromisso que assumimos pelo aperfeiçoamento humano e marcial.
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