
Desenho icônico do Livro ” O Pequeno Príncipe.”
A imagem acima muitas vezes é confundida com um chapéu, mas o desejo do desenhista é representar uma Jiboia que acaba de engolir um Elefante. Eu vejo um gatinho caçando uma bola e encoberto por um pano. A rigor, a interpretação “certa” talvez seja a que o artista quis representar, contudo, e esta reflexão é inspirada pelo livro, a realidade, ou perspectiva, individual sugere o entendimento da figura, em alto nível, sabe-se que todas as interpretações podem ser corretas, se sairmos de nossa limitação visual. Como já se sabe que contrariar o consenso é a essência das Artes Marciais, do mesmo modo, olhar para além do óbvio, ou do que é proposto, para mim, traduz um nível de inteligência importante para viver a vida além do mesmo; isto é, em suma, sinônimo de uma vida rica.
É preciso estar atento para não confundir; contrariar o consenso e ser um crítico desmedido. Ser como uma criança, como diz o livro, parece um caminho importante a ser retomado. Criança, no sentido exposto, é aquele pequeno ser encantado e crente de tudo, ela pode pensar diferente, mas é capaz de absorver o novo com uma fé inabalável, e se for muito diferente do que seu pequeno mundo é capaz de apresentar, sim, ela sabe, de alguma forma, sem ter consciência, que seu pequeno mundo é apenas uma realidade dentre tantas outras, ela percebe os verdadeiros milagres. Ou Seja, “há mais coisas entre o céu e a terra do que supõe sua vã filosofia.”

Almoço com meu Si Fu, Mestre Senior Julio Camacho.
É curioso observar como o diferente eventualmente ofende, justamente pela certeza que devemos ter ao nos tornarmos adultos, daí, qualquer coisa que faça ruir as certezas causa medo, esta é, para mim, a razão de atitudes estúpidas em seu sentido literal.
Certa vez, tínhamos à mesa uma senhora chinesa que comentou que sal fazia muito bem a saúde. Creio que seja possível intuir o mal estar que esta afirmação gerou em algumas pessoas, ao ser questionada sobre a razão da afirmação, ela responde que é porque obriga a tomar água. Sempre que me lembro desta história fico impressionado com a genialidade da afirmação; a questão é a ação indireta, ou seja, há um benefício por traz de um vilão que tanto faz mal a sociedade, mas repare, não faz mais mal que a incapacidade de contrariar o consenso. Como seria possível aprender se sabemos tantas coisas?

Aulas Master com Mestre Senior Julio Camacho.
No caso da prática marcial, luta, em geral, é a busca fundamental das pessoas que nos procuram, de certa forma, eu próprio trabalho, hoje bem menos do que já foi, por este viés. Quero dizer, mais de uma vez me vi com dificuldade de fazer movimentos simples, não que fossem fáceis, mas simples, e me vi frustrado. É que de alguma forma, quando o outro me golpeava eu me ofendia, portanto, como um “homem feito” não podia não ser capaz de responder. E ai era o problema, eu atuava como o “homem feito” que acreditava, disseram-me que eu era, ou queria ser, em vez de deixar vir a criança que ainda mora em mim, a criança que se encanta, que vibra, e que é capaz de aprender com tudo.
Por sorte, meu Si Fu é bem atento ao desenvolvimento marcial de seus discípulos e então, munido de toda sua ciência, estudo e contato conosco, consegue traduzir, através de nossa própria linguagem, a abordagem diferenciada que só um verdadeiro artista marcial consegue extrair de gestos de combate.
Por fim, creio que em breve seremos uma família de crianças, não no sentido de infantis, estes já são os adultos, muito pelo contrário, no sentido de pessoas encantáveis e portanto encantadoras.