Invisível

Com Mestre Senior Julio Camacho, Núcleo Barra, 2019

“Zelo é a maneira correta de amar”. Este aforisma de patriarca Moy Yat me acompanha há alguns anos.

Há pouco tempo, tive uma leitura um pouco melhor absorvida por mim. O fato é que no ano de 2018, iniciamos o programa fundamental, instrumento exclusivo do Clã Moy Jo Lei Ou. Ao menos, até o momento. Este programa carrega como conteúdo um momento que chamamos de parte teórica.

Então, ouvi uma leitura do Si Fu sobre o que é zelo. Foi bom ouvir a tradução em palavras de uma ação tão sutil. Em geral, sou pouco chegado a sutilezas, de forma a fazer com que meus cenários de aprendizado sejam sempre complexos. Mas, será que é isso mesmo?

Cena do Filme Karate Kid, 1984

A construção sobre o que dizia respeito as artes marciais, onde me apoiei, iniciou antes mesmo de eu ter nascido. O mito de um jovem acompanhando um senhor em jornadas de aprendizado me fez conceber pensamentos sobre a maneira ideal de abordagem do Kung Fu.

Sempre me imaginei ao lado de um senhor muito velhinho que eu deveria ajudar a se mover, a se alimentar e que viveria no alto de uma montanha mística qualquer. Lá desbravaríamos todos os segredos do Kung Fu.

O fato não poderia ser mais diferente. Deparei-me com uma pessoa que ainda hoje, após todos os anos de convívio, não está nem perto dos 60 anos. Bem, frustrei-me por não encontrar o velhinho, mas, por sorte, resolvi seguir.

É claro que na vida Kung Fu a todo momento sou convidado a estar atento ao que há de mais corriqueiro, justamente pelo alto risco de distração. E a maneira de me chamar à atenção que Si Fu usa sempre é contundente e inconfundível, não há meio termo, ou estou disposto a vida kung Fu ou não.

Por isso, muitas vezes pude experimentar o cansaço físico ou o medo, ou, o que é para mim o maior desconforto, o vazio. É comum Si Fu não dar respostas e deixar que decidamos o melhor caminho, desta forma, naturalmente somos convidados a nos responsabilizar; quando não dá certo a consequência se apresenta na medida que deve ser. Como disse no início, acho que em geral tendo a tornar minha vida mais complicada que deveria ser, mas, retomo a pergunta, será?

Casamento do Si Fu, Dezembro de 2018

Acontece que me é mais fácil traduzir o aspecto visível que invisível. As sutilizas carregadas nas coisas que não se vê, e nem por isso deixa de estar presente, costumam ser altamente subjetivas, e, sobretudo, não vistas.

Ao casar, duas pessoas combinam um compromisso que durará o tempo de vida, muitas vezes também póstumo, do casal. Por todo este período se tem a oportunidade de conhecer um ao outro, então, mais que o amor, estas pessoas tem a oportunidade de experimentar o cuidado sem expectativa de retorno. Apenas cuidam, pois assim se vive melhor.

Lembro de um momento, onde mais uma vez estava cansado, mal alimentado e aos tropeços tentava desenvolver meu Kung Fu. Si Fu chegou de carro, pediu-me para descer pois tinha algo que queria que eu levasse “para cima”.

Disposto, apesar de cansado, outra vez desci o mais rápido que pude, claro, não queria que Si Fu ficasse me esperando, e, sem perguntas, direcionei-me para a traseira do carro. Alguns segundos se passaram e nada aconteceu. Finalmente, percebendo a estranheza da situação, voltei-me para o lado do motorista. Só então notei que Si Fu estava com o braço para fora e um embrulho na mão.

Si Fu fez questão de frisar, ” Si Mo mandou para você”. Naquele embrulho, havia o espaguete mais saboroso que provei em minha vida.

Zelo é o ato de estar atento e a capacidade de cuidar. Não é difícil notar o zelo quando uma faca está em seu pescoço e mesmo assim não causa lesão, mas, as características sutis são ainda mais empolgantes.

De minha parte, o ato de descer veloz demonstrou exatamente o oposto do que eu queria, já que apesar de ação ter sido estrategicamente veloz, não teve relação alguma com o cenário apresentado.

Por essa e outras diversas razões, pergunto- me: quantas vezes na minha vida fui incapaz de perceber a sutileza do cuidado com relação a mim?

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