
Em minha adolescência, antes de iniciar minha prática no Kung Fu, já tinha um modelo de como deveria ser. Si Fu seria um homem idoso, que viveria no alto de uma montanha, e, teria poderes sobrenaturais.
Saber voar, dar saltos com nomes excitantes, mortais, por exemplo, e viver a vida através do desenvolvimento físico, este era o meu objetivo de vida.
Nesta época, eu não sabia da existência do Ving Tsun, toda minha idealização advinha dos livros que eu lia e da minha criativa imaginação.

Já praticante, ainda influenciado por meus pensamentos, fiquei maravilhado ao ver o bastão do Ving Tsun. Logo quis entender como manejá-lo.
Talvez, percebendo este desejo, meu Si Fu, Mestre Senior Julio Camacho, me pediu, se valendo de um momento de pratica do Zelo no Núcleo Barra, para lixá-lo. Fiquei em êxtase, claro que isto não significava que eu estivesse tendo acesso formal ao Bastão, mas, só o fato de fazer algo com ele já era suficiente para mim.
Lixei com afinco, cada detalhe, era visto com rigor. As vezes, em busca de uma melhor posição eu tentava mudá-lo de direção.
A questão é que este bastão é enorme, pesado, e, eu não estava sozinho no Mo Gun, outras pessoas também trabalhavam. Após espetar por acidente dois Si Suk que coordenavam os trabalhos, Ursula Lima e Diego Guadelupe, achei melhor eu próprio mudar de posição em vez de mudar o bastão.
Si Fu viu esta cena, e, sutilmente me questionou porque demorei tanto para entender que era mais fácil eu me adaptar ao bastão em vez do contrário. Sorri para ele, e, continuei o trabalho.
Ainda neste momento ele se abaixou, tocou a ponta do bastão e me alertou:
“Gui, cuidado. Você está lixando bem demais este bastão. A ponta dele está demasiado afiada. Sempre que tocar em instrumentos do Kung Fu, lembre-se que ele será usado contra pessoas.”
De fato, não havia iniciado o estudo do bastão, não formalmente.

Já na minha primeira experiência com o bastão, pude notar que seu uso não é através de movimentos mirabolantes ou complexos. Mas a experiência não ficou por aí.
Dias atrás, tantos anos depois desta experiência, e já ciente da não necessidade da força, tive outra experiência marcante:
Nosso Daai Si Hing, Leonardo Reis, emprestou para o Núcleo Barra, um bastão de uso pessoal. Ele parece ter uns 30cm a mais que outros bastōes que já tive contato e, mais 30% do peso.
Quando toquei nele parecia impossível levantar, mas, aos poucos, recebendo as orientaçōes de meu Si Hing e escurando cada parte do meu corpo fui capaz de levantá-lo, e, com um pouco de dificuldade, dispará-lo.
Aos poucos o bastão ganhou vida, parecia que ele tinha vontade própria, sua energia vital e seu meio de existência era eu. A rigor, não sei dizer se é correto dizer ele e eu. Talvez nós seja mais adequado.
Com o passar dos anos refinei meu entendimento sobre o desenvolvimento corporal. Hoje, para mim, desenvolver o corpo diz respeito a usá-lo de maneira estratégica, portanto, com Kung Fu.
Força é momentânea, certamente ela irá acabar, mas o uso adequado do corpo uma vez aprendido jamais se esquece. A partir daí, é possível fazer o que se entende como extraordinário mas que na verdade é obvio.