Chi Sau

Patriarca Moy Yat e Grão Mestre Léo Imamura

No Ving Tsun existe um exercício que podemos traduzir como mãos aderentes, Chi Sau. Um dos objetivos deste exercício é a percepção da energia do adversário para, a partir disto, canalizarmos o que foi percebido de maneira que nos seja favorável.

Para mim, este é o melhor exemplo do uso da energia do outro. Em sua essência, este exercício é muito simples, mas, ai está o problema, a simplicidade. O único desafio, acreditem, de fato é o único, é tomar como o hábito uma atitude de reatividade, portanto, receptiva.

Em outras palavras, é a partir do entendimento de que uma intenção negativa pode ser convertida em algo positivo, percebemos como é simples a proposta da prática. Para isto, basta estar “aberto” a experiência.

Meu Si Fu, Mestre Senior Julio Camacho, conta que certa vez estava com Patriarca Moy Yat, meu Si Taai Gung, termo que pode ser associado a bisavô. Si Taai Gung fez um desenho de uma pessoa e um quadrado dentro . O tamanho da pessoa representada no quadro falava da capacidade de suportar sentimentos conflituosos dentro de si, o quadrado representava os próprios sentimentos.

O quadrado poderia ser um pontinho, mas, se a pessoa fosse pequena viamos que tinha coisa demais dentro, por outro lado, se a pessoa fosse maior, este mesmo quadrado poderia representar quase nada.

Esta capacidade de “aguentar coisas” é uma habilidade de um Artista Marcial medíocre já que com os anos, portanto, ficando maior, tal qual representado pelo desenho, qualquer problema se dilui. Saber converter este problema em algo positivo, esta, é a habilidade de quem entende e de fato estuda o Chi Sau.

Núcleo Barra, Janeiro de 2020

A possível tradução para Chi Sau, mãos aderentes, me faz pensar na seguinte associação:

Podemos, por assim dizer, fazer Chi Sau em qualquer ou com qualquer tipo de situação, assim o fiz.

Hoje, eu e alguns irmãos Kung Fu tomamos café juntos. Si Fu havia informado que não poderia estar com a gente. Rapidamente fiz um roteiro, em minha cabeça, sobre como seria o desenrolar do desjejum.

Era fácil, Si Fu tinha compromisso conosco às 09:00h no Núcleo. Por isto, faltando quinze minutos para o horário eu pagaria a conta e todos subiríamos.

Acontece que, sem aviso, Si Fu nos encontrou pouco tempo depois de nossa chegada ao restaurante. Como a atividade no Núcleo era com ele e não tinha certeza de toda a sua agenda, não sabia, por exemplo, se ele tinha algum compromisso fora das atividades do Mo Gun, ou a que horas gostaria de se direcionar ao Núcleo.

É comum, como proposta de experiência marcial, os discípulos cuidarem de todo o transcorrer de um evento de maneira a dar o “tom” da atividade. Está é uma atividade relativamente simples quando se tem tudo combinado com Si Fu, como ele apareceu de repente não fazia ideia do que fazer.

De maneira sutil alguém perguntou o que ele iria comer, disse que tomaria apenas um suco, imediatamente entendi que estava com pressa, se não estivesse não teria pedido apenas o suco. De fato, não passou pela minha cabeça que já poderia ter tomado café, então, entendi que o desenrolar daquele momento deveria ser rápido.

Esperei que tomasse seu suco, comecei a me mover no sentido de encerrar a conta mas Si Fu falava tranquilo, tratava de todos os temas propostos com leveza. Entendi, então, que havia entendido de maneira errada, ele não estava com pressa.

Me despreocupei, participei da conversa com tranquilidade, em dado momento, achando que seria um bom timming perguntei se alguém da mesa iria pedir mais alguma coisa, Si Fu respondeu por todos, imediatamente: “Pode encerrar”.

Fiquei preocupado, será que ele estava com pressa, pois, pela minha lógica, se não estivesse poderia ter esperado as pessoas responderem.

Encerrei a conta com rapidez, mas resolvi ler mais o cenário, aos poucos todos se levantaram, nos direcionamos para o Núcleo.

No Núcleo, assim que chegamos, Si Fu pediu que os presentes fizessem Chi Sau. Sem explicar nada, apenas propôs que fosse dinâmico. Com o tempo, mantendo o dinamismo, Si Fu pediu que trocássemos os pares.

Foi exaustivo, cada vez mais eu tinha menos ar nos pulmões. Mas isto não importava, o objetivo era continuar, dentro da proposta criada na hora, por cada praticante, a aula.

Com Mestre Senior Julio Camacho

A pratica do Chi Sau, quando mal aproveitada é cansativa e desestimulante. Praticá-lo por algumas horas com com pessoas diferentes, foi difícil.

Mas, não posso dizer que meu Chi Sau foi apenas no âmbito físico, já no café, tive uma experiencia significativa de Chi Sau com Si Fu. Entender qual era sua ideia sem perguntar é desafiador. Sobretudo, se lembrarmos que no café, não usamos os braços como meio de nos aproximar.

O que aconteceu foi uma conexão muito mais sutil que se desenvolve com o tempo de prática, é uma conexão invisível que não se sabe de onde vem, apenas sabemos que está presente. Saber aproveitar esta conexão é o alto nível do Kung Fu, portanto, também de Chi Sau.

Refletindo sobre o café da manhã, entendi que ele respondeu por todos os presentes pois este era o “espírito marcial” do momento. Caso não respondesse, era possível que alguém se dispusesse a pedir algo mais e aí quebraria todo o fluxo, pois, já que queria algo, porque não pediu antes?

A habilidade de de tomar atitudes coerentes com o cenário ao qual estamos envolvidos é um exemplo interessante do que é a perspectiva marcial

Esta experiência com Si Fu me fez lembrar que não somos um grupo de amigos que se reuniram para comer, isto não justifica o uso do tempo de cada um. Somos pessoas atentas ao refinamento constante, e, como tal, precisamos ser atentos ao nosso posicionamento. Chi Sau.

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