Conduta Marcial

Mestre Senior Julio Camacho. 2020

Kung Fu diz respeito a fazer bem o que nos propomos a fazer, independente do que seja. Mesmo que seja o caso de não dominar a tarefa a ser executada.

Desta maneira, podemos perceber que a Arte Marcial está para além dos gestos de combate, ainda que os tenha.

O Hábito que temos em nossa família de comer juntos exemplifica o que digo. De início, devemos entender que o ato de se alimentar é puramente marcial, pois, trata de vida ou morte. O ser humano possui um limite de tempo que suporta ficar sem alimento.

Bem, já que, como na luta, a alimentação por si imprime a marcialidade, o papel do Si Fu está em criar processos que nos auxiliem a explorar este cenário da melhor maneira.

Kung Fu Panda, Filme

Como eu disse, o ser humano possui um período de tempo em que pode ficar sem alimento. Mas, é comum vermos pessoas antes deste momento, que pode ser de dias, já darem sinais de desconforto ou mau humor.

Então, antes deste período crítico, qual seria o limite de tempo possível para se manter em jejum?

Certa vez, estava em um restaurante com Si Fu e um irmão Kung Fu. Já era noite e eu estava desde a manhã no Mo Gun, naquele dia, eu havia apenas tomado café da manhã.

Este Si Hing, irmão mais velho, havia chegado mais tarde pois tinha saído de seu trabalho e foi encontrar o Si Fu. A conversa estava animada entre eles, mas eu estava desatento. Chegar ao restaurante despertou a minha fome do dia inteiro, pensava apenas no momento em que a comida chegaria.

Como eles não se mexiam no sentido de decidir o que iriam comer, resolvi, pegar o cardápio; tinha a esperança de que vissem minha aflição e se decidissem. Não deu certo, na verdade, na hora em que peguei o cardápio pareceu que Si Fu ficou mais interessado na conversa, pontuava algumas questões e perguntava, oferecendo mais ponte para o desenrolar do assunto, resolvi esperar.

Após, o que para mim pareceu um século, Si Fu e Si Hing deram sinais que iriam fazer o pedido. Animado, passei o cardápio aos dois e pela primeira vez pude interagir naquela noite.

A comida veio rápido, o que me deixou bem feliz. Feliz ao menos no início

A comida estava disponível, mas, ninguém além de mim dava sinas de se importar. Eu, na presença do Si Fu e do Si hing não quis iniciar o jantar. É interessante iniciarmos juntos.

Por isso, resolvi atuar. Discretamente, abri as bebidas de ambos e servi, minha intenção era fazê-los começar a comer. Fui ignorado; achando que a minha descrição tivesse sido exagerada, peguei o copo de meu Si Hing, fiz um longo gesto e o posicionei na frende dele outra vez.

Quando pousei o copo na mesa Si Fu se virou para mim e perguntou: “o que você está fazendo?”

Servindo meu Si Hing, respondi. Si Fu disse: ” e você acha que ele não viu?” Na tentativa de enrolar comecei a dizer que era possível que ele não tivesse visto pois estava atento a conversa.

Sabemos que minha atitude não teve zelo algum. O que aconteceu foi que tentei justificar minha atitude egoísta através de um gesto nobre.

Si Fu ainda me disse: “Se você está com fome pode comer, mas, se veio só para isso não sei porque está aqui. Seria bem mais fácil, barato e confortável para você comer na sua casa”.

Com Mestre Senior Julio Camacho

Claro que desde o início Si Fu percebeu que eu estava com fome, entendo que, inclusive, foi por isso que me convidou para participar do jantar. Mas, notando minha atitude frágil, ele, através da marcialidade, mostrou-me que em momento nenhum se baixa a guarda, sobretudo quando estamos frágeis.

Uma frase que ouço com recorrência quando vamos a um restaurante é: não estamos aqui para comer, apesar de ser possível, e, desejável, que nos alimentemos. Da mesma maneira ouço que Ving Tsun não é para lutar.

Neste dia, uma lição de grande relevância para mim foi sobre a quantidade de horas que se pode passar sem comer. Garanto-te, se for por um dia, você não morre.

É possível, talvez, passar até mais de um dia, mas isto, é outra história.

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