Sobre Seguir Junto!

Mestre Senior Julio Camacho em estudo de Baat Jaam Do.

Há posturas que não precisam ser orientadas, basta observar o cenário. Por exemplo, à exceção das crianças bem pequenas, pessoas sabem que facas devem ter a ponta direcionada para o objetivo fim, a inobservância desta simples necessidade certamente causará grandes prejuízos.

Por esta lógica, não seria necessário o uso deste instrumento ser facultado apenas a membros mais experientes, os chamados “sêniores; ” mas é esta a orientação. Em minha experiência, entendo que esta necessidade diga respeito ao Kung Fu.

Objetivamente, as facas são peças de, ou que geram, a morte; sendo assim, é preciso um nível de excelência comum apenas à pessoas que verdadeiramente, seguindo seus próprios critérios e orientações de seu Si Fu, buscam transmutar a natureza de arma em instrumento daquele objeto.

Penso que em qualquer cenário, a palavra deva ser a chancela do que foi combinado. Por isso, chegar no horário em compromissos, fazer o que se prometeu e garantir o desenvolvimento favorável àquilo que se faz não deve ser tratado como um grande feito já que é básico. Muito parecido com o exemplo primário de uso das facas exposto acima, e, para atestar um pouco mais o supracitado, pessoas que não são capazes de fazer isto, podem ser consideradas “crianças muito pequenas. “

Há em outro extremo situações onde indivíduos, por razões diversas, não podem cumprir com determinados compromissos; quando se fala de potência, necessariamente se fala de Kung Fu.

Com Mestre Senior Julio Camacho, 2018.

Fazer o básico não significa que vá ser fácil, significa que não é necessário alaridos. Nestes casos, é comum que os sujeitos ao redor exijam mais de você. Parece-me óbvio, quando mais se entrega, mais demandas devem aparecer; acho que assim deve ser.

Contudo, há um limite. Seja no sentido de habilidade em executar todas as tarefas ou tempo hábil, disponibilidade ou mesmo vontade. Nestes casos, observe o exemplo:

“Naquele dia eu estava exausto. É muito raro me sentir desta forma, mas foi um dia em que falei para mim que não tinha condições, precisava descansar. Como já estava desperto fui tomar banho, no chuveiro, reforcei o que já sabia, não ia conseguir. A roupa de trabalho já estava pronta, resolvi me vestir. Já que estava vestido, que tal ir até o carro?

Aos tropeços, fui bem sucedido. Bem, a derradeira tentativa, vou começar a dirigir. A poucos metros do trabalho, notei que seria muita cara de pau não ir até minha sala estando tão perto, já na sala, não havia porque não trabalhar.

Ao longo do dia, fiz o que pude me desafiando ao mínimo, isso me ajudou a acumular, aos poucos, mais energia. Em seu fim, já estava tão carregado de energia que me pus a cortar a grama do quintal de casa. Aquele foi um dia rico. “

Aula Master, 2019.

As aspas usadas no parágrafo acima sinalizam a experiência de uma outra pessoa. Espero assim ter deixado claro que apesar desta história eu ter ouvido do Si Fu, exponho o que eu entendi do que ele disse, não necessariamente suas palavras Espero também ter deixado claro o que quero dizer quando falo sobre Kung Fu ou potência.

É que Kung Fu também diz respeito a trabalho duro, mas não somente a isto. O sentido que tento dar ao texto é sobre o Kung Fu maduro, aquele esperado dos membros sêniores, ou, o que é facilmente percebido na expressão pessoal de um Si Fu.

Mais especificamente, aquele que potencialmente é desenvolvido na expressão pessoal de um discípulo, enquanto possibilidade, ou o que potencialmente é exposto por meu Si Fu, no sentido de poder.

Não sou capaz de expressar o quanto lamento o início deste meu dia, de forma tão incapaz, não posso dizer o quanto lamento minha falta de Kung Fu para lidar com determinadas situações. Ao mesmo tempo, o potencial legado a mim ainda sobrevive e está em desenvolvimento, sou grato por existir alguém que possa me inspirar, somente assim fui capaz de levantar da cama no dia de hoje.

É por isso que com o calor e a alegria que ainda restam em mim, faço questão de agradecer a meu Si Fu por toda a experiência, em alguns casos tão dura, vivida por ambos, que me permitem, ainda que manco, ser capaz de caminhar.

Graças a nossa dedicação, Si Fu, para este dia, eu ainda não morri. E pela questão que faço em honrar nosso nome e toda a experiência vivida, tenho absoluta certeza de que em pé chegarei a seu fim, muito embora talvez não seja capaz de cortar grama.

Transmutação de Símbolos.

Finalização de Prática, 2022.

A capacidade de se expressar é crucial para o bem viver em sociedade. Sabendo disso, muitas escolas disponibilizam técnicas que prometem desenvolver tal habilidade, em tempo recorde, inclusive. A partir destas técnicas, o aluno terá condições de lidar com seus anseios.

Sabendo disto, pessoas que se entendem tímidas ou possuem alguma dificuldade na matéria, buscam os métodos prometidos como se fossem o próximo gole de ar pós grande tempo sem respirar. É pelo desespero que buscam o desenvolvimento da habilidade, não necessariamente, pela busca da habilidade em si.

Eu acredito que a capacidade de se expressar vá além, de por exemplo, falar em público. Creio que a análise seja uma grande ferramenta no quesito potência de expressão. Repare como o termo se explica: analisar, significa separar em partes; por isto, a pessoa que tem disposição em mergulhar neste tipo de saber se torna perito em si, não em técnicas. Minha intenção não é desfavorecer a técnica, mas sim, favorecer a possibilidade de se envolver em desafios buscando lidar com a, ou, as questão(es) em si, não fora.

Explanação sobre como foi a prática, antigo Núcleo Meier, 2008.

Isso já foi um desafio para mim. Quando mais jovem, já tinha determinada habilidade em fala e escrita já que tive a oportunidade de estudar em colégios suficientemente bons que me prepararam para os desafios de uma prova, ou um português bom o suficiente para poder conversar; ainda assim, falar em público era para mim uma questão.

Muito embora na época do colégio eu já tivesse que apresentar trabalhos, a gagueira e o tremer das pernas eram companheiros comuns, independente do meu saber sobre o tema. Para caraterística que me incomodava, resolvi adotar a expressão timidez, e tudo ficaria explicado a partir de então.

O problema, é que analisar a timidez não é uma tarefa comum. Em uma rápida reflexão, não identifico autores, sobretudo os mais lidos atualmente, que tratem do tema com o que acredito ser a devida profundidade. Em geral, cria-se “palavras de poder” e a raiz é ignorada.

Nas reuniões com Si Fu, minhas amigas, gagueira e tremer de base, mostraram- se cada vez mais forte, claro, era preciso “ter Kung Fu”; fiquei confuso sobre o que isto poderia estar dizendo, na época, pouco afeito a análise, optava por me esconder, torcendo para que não perguntassem minha opinião; não era o que acontecia.

Muito rapidamente, fui convidado a despir a máscara que usava, para finalmente encarar a situação. Pasmem, minha questão não é timidez, descobri que na realidade não sou nem um pouco tímido, a questão foi sobre o medo e a ansiedade.

O medo, relaciona-se diretamente com algo observável por exemplo o medo de falar em público, que não tem relação necessária com a timidez, diz respeito a um aspecto específico do sujeito, portanto, possível de trabalho. A ansiedade, diz respeito a desejo, o querer que determinada situação logo aconteça é um traço desta característica. Para mim, isto corrobora o que disse, qualquer característica só deve ser nomeada diante de profunda análise!

Cerimonia Tradicional da Família Moy Jo Lei Ou, 2012.

Esta análise, de inicio, foi – me proposta pela busca do Kung Fu. Fazia minha prática uma vez por semana e tinha o resto dos dias para digeri-la. Mais tarde, comecei a me disponibilizar mais e as responsabilidades se apresentavam. Desta vez, tinha menos tempo para digerir os desafios que são cada vez maiores; lidar com qualquer situação, valendo-me do que tenho, suficiente ou não, era a grande questão.

Neste quesito, desenvolvi alguma habilidade em me virar, mas o medo de vir uma situação pior e eu sucumbir era enorme.

Em um segundo momento, foi-me sugerido a busca da análise propriamente dita. Apesar da resistência inicial, resolvi tentar. E pude então entender aspectos que me geram tanto medo e vergonha, a ansiedade é apenas um sintoma, um efeito colateral de algo que é realmente mais sério.

Em busca das minhas verdades, pude perceber que tanto quando pude, as vezes, quando era inviável, tentei me esconder, tinha muito medo de errar, e não percebia que o problema maior não era o erro, era o querer fugir de mim.

Então, a capacidade simbólica reascendeu; aos poucos, mudando meus entendimentos sobre a experiência marcial, e sobre o que faço questão de enfrentar, falando em um aspecto mais inconsciente, não mais me abalo com tremor de base que ainda acontece, sei que é absolutamente natural ter medo, o que há de diferente é o desejo que tenho de um dia ter a coragem de lidar com meus demônios da forma que Si Fu lida com sua vida; provavelmente com medo, mas sobretudo com sensatez e Kung Fu. Assim sendo, independente da dificuldade, é possível sair bem sucedido!

Liderar

Apresentador Formal, “Gaai Siu Yan. ” Barra da Tijuca, 2016.

Creio que o ato de apresentar englobe cenários diversos. Saber o que é adequado ou relevante falar é um indicativo, inclusive, de sucesso. Afinal, ao apresentar, sua disponibilidade é direcionada ao outro; seja este o apresentado ou a pessoa para a qual se apresenta. Então, tudo que é dito, necessariamente, deve cumprir este fim.

Por isso, a orientação geral do Si Fu é que a apresentação seja escrita por duas mãos; o apresentado deve participar do que será dito sobre ele e isto é crucial, apenas desta forma se evita situações muitas vezes constrangedoras.

Posso dizer, que ao menos para mim, este é o protocolo de toda apresentação; isto por conta de razões bem objetivas, eu próprio, já criei situações embaraçosas neste processo, mas, por esta lógica, não fui só eu.

Costumava pensar que a apresentação era um ato de liderança, de fato o é, as diretrizes que fazem um líder que eram um pouco confusas para mim. No passado, acreditei que liderar significava fazer todas as coisa em nome do desenrolar do processo me apoiando nos saberes que eu tinha sobre os ritos, algumas vezes maiores que os saberes do apresentado, e sem considerar qualquer apontamento dele(a).

Exatamente o contrário do que o Si Fu orienta, a consequência imediata disto era que, caso a apresentação saísse mal feita, eu tinha a desculpa, muitas vezes usada, de dizer que “havia coisas demais para fazer” ;além disto, caso o apresentado não gostasse de algo que foi dito, simplesmente a culpa era do outro e tudo bem para ele(a).

Eis um pouco do que entendo, absolutamente baseado na minha experiência com Si Fu, sobre liderança: Liderar é usar de maneira mais adequada o que o outro, o cenário, ou qualquer coisa, interna ou externa ao líder, da melhor maneira possível. E o que vai garantir o que é adequado, outra vez, dependerá do outro, do cenário, ou de qualquer coisa, interna ou externa ao líder. Espero que tenha entendido que a raiz do que quero dizer está relacionada com o zelo. Atente também ao fato de que me refiro ao Líder do processo, não da cerimônia ou da família, este, sem dúvida, é o Si Fu.

Lideranças do Núcleo Barra da Tijuca, 2019.

Continuando, gostaria de explicar sob que lógica eu afirmo que liderar diz respeito a zelo.

Estar atento e cuidado, diz respeito ao que, em nossa família, chamamos por zelo; ou seja, para ter zelo é preciso ser capaz de observar e ter condições de atuar direta ou indiretamente, sobre o outro. Isto eu venho aprendendo, mais ou menos da seguinte forma:

Em uma cerimônia de Baai Si, fui escolhido para ser o apresentador formal de um irmão Kung Fu mais jovem que eu, aceitei com um caloroso sim, e, não podia ser diferente, de forma obsequente, além de disposto a cumprir meu papel à altura.

No dia da cerimônia, ao começar minha preleção, notei o Si Fu desconfortável em sua cadeira, mexia-se de forma incomum. Certo de que algo estava errado, busquei manter meu discurso e ao mesmo tempo espreitar qualquer sinal indicativo do suposto problema.

Em dado momento, enquanto eu falava, Si Fu, que estava com as mãos para baixo, juntava e em seguida separava- as dando a impressão de liberdade, neste momento, notei que estava com as mãos no bolso, não tinha certeza sobre o que ele estava falando, mas resolvi retirá-las, ao mesmo tempo, Si Fu adotou uma postura mais descontraída, por isso, interpretei que o problema era a posição das minha mãos.

Repare, é possível e relativamente fácil criar protocolos listando todos os procedimentos e maneiras de executá-los, contudo, sempre esbarraremos em algum problema. Somente a atualização, baseada na atenção constante, é capaz de garantir o sucesso de qualquer atividade.

Orientações pós prática, 2019.

Eventualmente, vejo alguns membros perguntando sobre como aguçar a percepção, ou, tentando entender qual o “truque” que usamos para obter estas percepções. Não há truque algum, estes potenciais são desenvolvidos no momento de Vida Kung Fu. Basta estar disposto, dia após dia, para este tipo de experiência.

Um detalhe importante, este tipo experiência, em minha opinião, pode ser vivenciada apenas com o Si Fu. A relação Si Hing Daai tem o papel de dar acesso ao sistema, mas, o Kung Fu é desenvolvido apenas com o Si Fu.

Portanto, embora não exista truque, proponho uma técnica. Invista em sua relação Si To. Busque seus irmão Kung Fu, mas não deixe de concluir a experiência com seu Si Fu. Sobre cançaso, desconforto, ou medo, invista na relação com Si Fu; inclusives, pois estes são grandes materiais para desenvolver o que de fato importa!

Siu Nim Tau, refinamentos

Foto Si To. Núcleo Barra Blue Sky, 2008

Siu Nim Tau, pode ser entendido como uma ação, portanto, um verbo. Esta ação, é traduzida em nossa família como a ação de esvaziamento. Nim Tau, pode ser lido como desejo, este desejo é identificado em algumas culturas como a razão, e, se bem entendi, o que se espera da vida que é o sofrimento.

Siu, considerando o que foi falado, trata de apequenar; neste caso, o desejo. Portanto, relaxe, você vai sofrer! contudo, o nível de sofrimento que haverá na vida diz mais respeito a sua capacidade de Siu Nim Tau que a pressupostos.

A expressão coloquial “sair da zona de conforto” se insere de forma ímpar ao que está sendo dito. Um ser humano, em sã consciência, tem prazer e busca, naturalmente, por conforto. Esta expressão é um indicativo do exagero da máxima budista: “Você irá sofrer.”

A orientação de meu Si Fu, é que a busca seja a ampliação da zona de conforto; ou seja, respeitando o tempo particular, tornar-se confortável no ambiente que outrora causou desgaste.

Domar o desejo, Núcleo Barra. 2020

Ao realizar a listagem, percebe-se pontos que podem gerar desconforto. Talvez este seja o clímax, se é que há apenas um, da listagem. Ir até o final é o esperado de quem inicia qualquer processo, então, deixe fluir. Muito embora os primeiros desafios possam, isto não é regra, vai depender do praticante, parecer insuperáveis, apenas pelo ato de ir até o final, neste caso, estamos lidando com o desejo eventual de desistência, será por si um grande avanço e a ampliação da chamada zona de conforto.

Muito embora eu seja capaz de compartilhar através de palavras as minhas experiências, sou absolutamente convicto de que nada que possa dizer é capaz de compartilhar a vivência das coisas que digo. Sei bem disso, inclusive, porque Si Fu me falou sobre por diversas vezes; então, o que se sugere fazer?

Creio que Si Fu diria: Siu Nim Tau. Uma dificuldade comum na época que iniciei minha pratica, era esperar desenvolvimentos objetivos pela mecânica do movimento. Esperava, sem razão valida para tal, que eu ficasse “muito bom” no Kung Fu. Nesta época eu praticava bastante e via um desenvolvimento técnico, mas, apesar de feliz, não me sentia totalmente contemplado. Somente quando Si Fu sugeriu: ” Siu Nim Tau pela manhã, o melhor que você puder, e a noite, o mais relaxado possível, ” pude me sentir em paz.

Seung Chi Sau, Downtown Barra da Tijuca, 2022

Sentir-me em paz era um duro desafio. Na ocasião em que Si Fu me fez essa sugestão, eu reclamava com ele sobre minha dificuldade em manter o foco nas minhas ações e da dificuldade em me conectar com pessoas, e por isso eu sofria. Executando a listagem, pude aos poucos entender como me conectar, primeiro comigo, com os demais e com meus trabalhos.

Creio que a razão de ter dado certo, tenha sido a falta de perspectiva com relação ao ato. Fiz pura e simplesmente porque Si Fu orientou, não questionei a razão, tampouco tentei entender o que estava por de trás de seu pedido, somente faço.

Creio que o objetivo de se fazer algo apenas para atender alguma sugestão, tenha um poder curativo muito simples. Como não há obrigação ou objetivo a ser atingido, o próprio ato de caminhar faz o caminho. E, aos poucos, finalmente nos encontramos ou nos olhamos com outros olhos simplesmente. Sei que a pressão causada pela prática constante, claro, quanto mais se está inteiro, mais inteiro se estará, traz certo desânimo e vontade de desistir; sobretudo nestes momentos, como diz Si Fu: ” Siu Nim Tau. “

Valores e Preços

Aula Master Remota, 2022.

Por estes dias, estava conversando com algumas pessoas e falávamos sobre situações que são capazes de mover o humano. O Exemplo citado, foi uma ocasião onde determinada pessoa, ao ver um papel no chão, por exemplo, não o recolhe com o discurso de que existem pessoas que ganham dinheiro para fazer isso. A pergunta que fica é: o que move estas pessoas é o dinheiro?

Considerando o cenário onde nós crescemos e onde somos educados, a escola, por exemplo, é bem possível entender que sim. Aliás, por essa lógica, somente passando no vestibular, concurso ou qualquer outro local onde se promete ganho imediato justificado pela falácia da segurança. Então, é natural pensar que o profissional da limpeza urbana cumpre sua missão apenas pela promessa de ganho, ou, a pessoa que não recolhe o lixo encontrado pois “não ganha para isso”, mas, muitas vezes, esta mesma pessoa é aquela que suja a cidade; diante disto, para mim, não faz sentido a mesma desculpa.

Parece-me que as bases apresentadas não são sólidas o suficiente para justificar a não ação ou o desleixo cometido, pelo exemplo dos indivíduos citados, ou por qualquer outro pessoa. É fato que a responsabilidade pelo o bem estar de uma sociedade é de responsabilidade de todos, havendo ou não o ganho através de moedas e seus símbolos.

Comitê de Discípulos da Família Moy Jo Lei Ou, Barra da Tijuca, 2020

Além das moedas, os símbolos fazem uso de outros mecanismos para mostrar suas facetas. Por isso, creio que a capacidade de variar entre o máximo possível destas facetas é o que definiria se determinado indivíduo teve ou não uma vida rica. Repare, rico, neste exemplo, não é quem tem muito dinheiro.

Lembro que pouco antes do Si Fu ir morar nos E.U.A, fizemos uma grande celebração. Precisávamos aproveitar ao máximo sua presença física, também por isso, neste dia, houveram diversas cerimônias e pudemos experimentar o kung Fu sob várias óticas. Alguns meses depois, entramos em esquema de restrição total por conta da covid19 e tivemos de fazer aulas apenas pela internet. A mudança do modo de viver foi bem clara e objetiva; certamente, para todos que vivemos este momento se pode dizer que a experiência foi rica. Claro, restringir a liberdade de circulação é uma experiência sem precedentes para a maioria de nós.

Neste texto, você consegue perceber que o que traz experiências significativas não diz respeito a dinheiro especificamente? No caso, bastou estar vivo;

Há no entanto pessoas que se aproveitam de determinados símbolos para, respeitando sua atribuição fim, direcionar o foco para a direção desejada.

Assim que Si Fu manifestou o desejo na compra de uniformes, ele tinha fechado um acordo com determinada empresa que não atendeu nossa necessidade de forma satisfatória. Na ocasião, a representante da empresa disse que era necessário um aporte financeiro maior para finalizar o pedido, pois além dos não entregues, foram compradas mais peças. Lembro que achei o pedido estranho, achei que Si Fu pediria que antes a empresa entregasse o que faltava. Não foi assim que aconteceu, ele deu o aporte.

Fiquei confuso com a decisão do Si Fu, mas, em vez de perguntar, decidi observar para ver até onde iria a história. Algum tempo passou e não obtivemos procura da empresa. Quando entramos em contato, a “mágica” aconteceu. Qual argumento teria a empresa para não entregar o combinado? simplesmente, o cenário estava tão a favor de nós que não cabia qualquer argumento diferente da entrega do combinado, já que, de nossa parte, fizemos bem mais do que era preciso. Não me lembro qual foi o desfecho da história, se os uniformes foram entregues ou não, mas ela me marcou bastante.

Neste caso, percebi o uso do dinheiro de maneira inteligente. Não era o caso de “como há alguém que ganha para isso, não vou fazer; já que ela já havia recebido os valores devidos e mais. E também, conhecendo o Si Fu, acho que a preocupação não era o dinheiro, já que podia ter se recusado a entregar por não ter recebido o combinado anterior, mas sim, a execução do serviço a contento. Veja, a preocupação do Si Fu era a resolução do problema, talvez ele tenha pensado que entregando o dinheiro garantiria não só a entrega dos uniformes antigos, mas, ao mesmo tempo, as novas aquisições poupando assim tempo.

Dinheiro é importante, mas é preciso cautela para lidar com ele. Certamente este exemplo é uma demonstração do uso maduro de uma ferramenta.

Adaptações

Yam Chá Shopping Barra Square, Barra da Tijuca. 2014.

Penso que o desenvolvimento humano seja nada mais, talvez por isso tão complexo, do que a habilidade de retirar o excesso, ou jogar fora o que não interessa. Daí, a relevância da Arte Marcial. Como disse em outros textos, o simbolismo da expressão “esvazie a xícara ” explica este processo.

Considerando que só é necessário esvaziar a xícara quando ela está cheia, e, para esvaziar, é preciso beber do conteúdo, temos a razão de ser deste texto. Acontece que, quando iniciamos qualquer movimento novo, estamos cheios de expectativas e precisamos, de alguma forma, diminuí-la para apreciar melhor a pratica a que se submeteu.

No caso do Ving Tsun, entendo que os protocolos sejam o conteúdo, a priori, da xícara; pois ajudam os novos membros a se orientarem no atendimento de seu desejo, aproveitando-se, da melhor forma, do que aquela escola apresenta por currículo. Por isso, vejo que aos poucos, todos nós, os praticantes, devemos nos libertar dos protocolos para ter acesso somente ao objetivo fim que é tão subjetivo, o Kung Fu.

Estudo do Nível Superior Final, Barra da Tijuca. 2019.

O último nível da fase semiestruturada do sistema é um indicativo do que foi dito. Por exemplo, a lógica da linha central tão comum ao logo de todo o sistema é elevada ao máximo de sua potência a partir do uso deste instrumento.

Outro exemplo:

É corriqueiro apresentarmos as pessoas ao Si Fu, no Mo Lan, em vez do contrário. Isso acontece pois se espera que a pessoa já conheça o Si Fu, aliás, este é um dos trabalhos dos discípulos; e muito embora o Si Fu já tenha ouvido falar da pessoa, é possível que ele não conheça ainda seu rosto. Então, em geral, quando esta pessoa se aproxima Si Fu aguarda as apresentações.

Nestes casos, além de falar o nome, aprofundamos as apresentações com alguma história ou característica da pessoa, de modo a associa-la a alguma memoria do Si Fu, ou iniciar uma relação que eles irão construir entre si a partir dali.

Por isso, espera-se que o discípulo tenha algum conhecimento sobre o novo praticante, de outra forma, este processo se complica. Este é um procedimento comum, talvez até, possa chamá-lo de protocolo.

Eis que certa vez, estava sentado ao lado do Si Fu e chegou um novo praticante para falar com ele, eu próprio não o conhecia ainda, por isso, optei por não falar nada, embora tenha ficado constrangido. Esta pessoa falava naturalmente, e dava a entender que conhecia bem o Si Fu; contudo, também não se apresentou. Neste caso, Si Fu precisou perguntar o seu nome.

Condomínio Riviera, Barra da Tijuca. 2023.

A leitura que faço desta história, é que por estar preso ao procedimento, deixei que algum irmão Kung Fu que tivesse mais contato com a pessoa tomasse a dianteira; afinal, não havia o que falar, e, por outro lado, não há mal algum na espera estratégica; contudo, não foi o caso, o que fiz vou passar a responsabilidade para outro. Como ninguém assumiu a função, Si Fu tomou a dianteira.

Não há, objetivamente, nenhum mal em Si Fu tomar a dianteira, pensando em aspectos mais simbólicos, é como se eu tivesse morrido, morrido no sentido de me aproveitar da experiência, de me aproveitar de um procedimento simbólico para, a despeito de não usá-lo, criar o mesmo fim, e, além disto, me libertar do protocolo.

Até porque, não encontro razão que justifique o fato de eu mesmo não ter perguntado seu nome.

Mestria

Comitiva da Família Moy Jo Lei Ou. Angola, 2017

Um entendimento comum sobre o termo “vestir a camisa, ” é assumir a todo o custo os valores de determinada área, local ou pessoa. Quando se usa o termo se referindo a alguém, quer dizer que aquele indivíduo assumiu para si todos os protocolos, e se preocupa com o desenvolvimento e bem desenrolar deles.

Pense em um exemplo literal; neste caso, creio que você tenha imaginado alguém vestindo a camisa de outra pessoa; então, se ela for mais alta, baixa, gorda ou magra, certamente ficará estranho. O mesmo vale para o caso de uma empresa, basta os valores locais serem diferentes dos seus.

Até então, fala-se de uma postura passiva, mas não é esta a regra. Quem “veste a camisa” tem, junto com todos, a responsabilidade de fazer a peça vestir bem em si, ou, propor ajuste em protocolos já concretizados.

Foto Si Fu – Todai, Barra da Tijuca, 2008

Na ocasião de uma das minhas entrevistas de emprego, conversei bastante com o Si Fu, tinha algumas dúvidas quanto a postura e maneiras de falar; em determinado momento da conversa, ele me perguntou sobre meu calçado. Eu só tinha um par, então, ele resolveu me dar o dele. Aquele emprego eu não consegui, mas creio ter sido o momento onde, de alguma forma, comecei a “vestir a camisa. ” não por ser uma camisa, mas, de alguma forma, uma peça de roupa.

Si Fu sempre disse que é preciso ter Kung Fu. Mas, o que exatamente significa isso? esta afirmação foi um tanto vaga para mim, aos poucos ela foi fazendo sentido. Ao calçar seu sapato, fiquei mais parecido com ele. E, a despeito de termos estaturas diferentes, o sapato ficou muito bem em mim. Quero dizer, não precisei me esforçar para ter alguma semelhança, apenas aconteceu. Além de sapatos, Si Fu me deu casacos, camisas e calças. Se eu pegasse tudo o que ele me deu ao longo dos anos e colocasse no meu guarda roupa, certamente se passaria pelo dele sem dificuldades.

Assim foi, até cheguei a um momento em que estava tão parecido, seja for maneira de agir ou forma de falar, que meus irmãos Kung Fu brincavam comigo “Parece o Si Fu. “

Visita a casa de Rafael Machado, 2020

Acho que é comum repetir os atos de pessoas que se admira. Então, o caminho seguido pode ser considerado natural. Mas não é disto que trata o momento da Vida Kung Fu.

Ao calçar o seu sapato, não só fiquei parecido, mas demonstrei bom gosto. Si Fu sempre se veste muito bem, e o que ganhei não foi qualquer sapato. Sobre a fala, Si Fu sempre se preocupa, por exemplo, com o tom de voz. Ele é capaz de encantar ou assustar somente por seu timbre.

Os gestos, em geral demonstram precisão, é difícil explicar, mas basta ele falar sobre foco e fazer um gesto de mão que se percebe o quanto o foco está presente no movimento é uma explicação prática. Por isso, minha busca hoje é seguir exatamente os caminhos dele . Em outras palavras, que meu Kung Fu tenha o mesmo nível como de meu Si Fu, ou seja, a mestria.

“Good Job”

Whiplash, 2015.

Um dos filmes que mais gosto, e não canso de assistir, conta a história de um baterista que sonha ser um grande músico, e de seu professor que sonha mostrar ao mundo mais um grande músico. A trama, desenvolve- se entre tombos, sangue e suor. Acontece que o professor, de nome Terence Fletcher, é altamente exigente e não mede esforços para tirar de seu aluno, Andrew Neiman, o seu melhor; de modo que é seriamente correspondido.

Em algum nível, esta experiência lembra minha relação com meu Si Fu já que ele sempre declara total apoio ao meu desenvolvimento e eu busco devolver da melhor maneira que posso.

Um dos filmes que mais gosto, e não canso de assistir, conta a história de um baterista que sonha ser um grande músico, e de seu professor que sonha mostrar ao mundo mais um grande músico. A trama, desenvolve- se entre tombos, sangue e suor. Acontece que o professor, de nome Terence Fletcher, é altamente exigente e não mede esforços para tirar de seu aluno, Andrew Neiman, o seu melhor; de modo que é seriamente correspondido.

Em algum nível, esta experiência lembra minha relação com meu Si Fu já que ele sempre declara total apoio ao meu desenvolvimento e eu busco devolver da melhor maneira que posso.

Um dos filmes que mais gosto, e não canso de assistir, conta a história de um baterista que sonha ser um grande músico, e de seu professor que sonha mostrar ao mundo mais um grande músico. A trama, desenvolve- se entre tombos, sangue e suor. Acontece que o professor, de nome Terence Fletcher, é altamente exigente e não mede esforços para tirar de seu aluno, Andrew Neiman, o seu melhor; de modo que é seriamente correspondido.

Em algum nível, esta experiência lembra minha relação com meu Si Fu já que ele sempre declara total apoio ao meu desenvolvimento e eu busco devolver da melhor maneira que posso.

Cerimônia de Acesso e Promoção, 2014.

Existe no filme, uma camada invisível que acho sensacional. Tal como é comum em nossa família, parece-me que o filme sugere um nível de precisão que não faz parte do senso comum.

Há uma passagem onde professor e aluno conversam. Nela, Fletcher comenta sobre sua preocupação com relação a maneira que eventualmente as pessoas se relacionam. Como exemplo, ele cita a história onde determinado músico, irritado e ofendido, lança um prato de bateria em direção do homem que errou uma nota musical. Por sorte, para ele apenas, o segundo homem desvia e não é decapitado.

Continuando a história, Flecher diz que o resultado deste quase assassinato trouxe para o mundo, por volta de um ano depois, o maior solo de sax que o planeta teria ouvido até hoje. Por fim, traz o questionamento: O que teria acontecido, se em vez de quase ser morto ele tivesse sido consolado? “No Bird, ” ele se responde.

É claro, há uma responsabilidade jurídica no ato, e pelo que entendi do filme, a proposta não é incentivar qualquer tipo de violência, mas sim, fazer uma analogia sobre o desgaste e castigo físico comum no filme, com a maturidade atingida através dela.

Reunião sobre a Semana de Imersão em Vida Kung Fu, 2023.

Trazendo para o Kung Fu, vejo que este nível de preocupação é exatamente o que fazemos em nosso dia a dia. Quero dizer, com relação a elogios proferidos no Mo Lan é preciso parcimônia; o cuidado, refere-se a observar o elogio da mesma maneira que uma eventual chamada de atenção, apenas como uma oportunidade de refinamento.

A partir disto, vamos ao que eu chamo de “próximo nível. ” É que creio ser muito difícil se livrar as afetações oferecidas pelo dia a dia. Por isso, falo tanto desta necessidade, um tanto para a plateia, mas em geral, mais para mim. Faço de forma que este seja um desejo diário a ser lapidado e atingido um dia.

Bem, se de fato se atinge desta forma o “próximo nível” e considerando a radicalidade das palavras, quando se ouve ” bom trabalho”, creio ser importante se perguntar, sem afetações ou vaidades mas a titulo de refinamento, porque o trabalho foi categorizado como bom e não excelente? Inclusive, excelência também é uma tradução para Kung Fu.

Arte Marcial

Treinamento Físico

Noto que há confusão com relação ao que chamamos de experiência marcial. Inclusive, há também dúvidas. Quero dizer: será que é possível determinar quais são as bases da dita experiência?

Certamente, esta não é uma resposta simples. Seria preciso, por exemplo, estudar a postura de cada ancestral de todos os estilos para intuir qualquer coisa neste sentido. Ainda assim, devemos considerar que o Si Fu, portanto, a autoridade daquela família, pode a qualquer tempo mudar seu foco. Por isso, acredito ser muito difícil, talvez impossível, criar diretrizes para as artes marciais. Mas, podemos observar por outra ótica.

Repare que nos filmes, a experiência marcial é muita vezes representada apenas pela habilidade de luta. Portanto, até para ficar bem na tela, a plasticidade do movimento é crucial. Em uma perspectiva mais imediata, creio ser esta a razão de cada movimento exigir por si um condicionamento físico fora do comum. Daí, o entendimento geral de que a experiência marcial deva ser desgastante e sofrida de todas as maneiras, esta seria uma diretriz.

Cerimônia tradicional da Família Moy Jo Lei Ou. Barra da Tijuca, 2023

Em meu caso, também inspirado por filmes, mas sobretudo pela maneira que aprendi a lidar com a vida, tornei minha experiência um pouco mais desgastante do que necessário, para ambos os lados, claro.

Bem, o fato é: como não é necessário atributos físicos prévios para praticar uma arte marcial como o Ving Tsun, da mesma maneira não é preciso considerar que a experiência, necessariamente, será desgastante. E ai chegamos ao ponto máximo, da experiência marcial.

Perceba que arte pressupõe expressão pessoal. Portanto, a experiência da arte marcial diz respeito muito mais a expressão do indivíduo que a conceitos prévios. Lembro que certa vez, Si Fu comentou comigo sobre a capacidade de realizações. Claro, Kung Fu diz respeito a executar qualquer ação em alto nível, portanto, a arte marcial é um instrumento, extremamente útil, para se atingir a maestria em qualquer cenário. Contudo, até este nível é preciso trabalho. Foi quando Si Fu me disse, considerando meu Kung Fu pouco amadurecido, algo em torno de:

Em vez de fazer apenas uma coisa extremamente bem, faça várias mais ou menos e trabalhe para que um dia, tudo esteja em alto nível.

Aula Master sobre o Nível Superior Inicial. Atividade Remota, 2020

Não ouvi o que Si Fu me sugeriu. Na realidade, o que aconteceu foi que trabalhei em coisas de naturezas diferentes e usei o trabalho como desculpa para justificar o fracasso. Claro, a resposta recorrente era que eu estava muito cansado e que havia muita coisa para fazer.

Fato! efetivamente estava cansado e era muito o que fazer. Mas veja, neste texto falo sobre a expressão “arte marcial”; então, o objetivo prático era que eu me expressasse através da minha melhor forma sob um cenário de crise. Como o cansaço e a quantidade de coisas eram o que mais me incomodavam na época, cabia a mim fazer o melhor dentro daquele cenário.

Por isso, concluo que de fato minha experiência marcial foi demasiadamente desconfortável, a razão disso, era a minha habilidade de justificar minhas fraquezas em vez de lidar com elas; em uma camada mais profunda, colocando-me como alguém injustiçado enquanto Si Fu tentava de forma absolutamente cansável, claro, hoje não creio mais que só eu cansava ou tinha muitas demandas, e que nunca deixou de ser dedicada em me mostrar o que já sabia e por isso mesmo não queria contato.

Sau, Poh, Lei. Refinamentos

Núcleo Ipanema, 2021

Quando se está diante de um adversário, ou seja, um adverso, aquele que se encontra em posição contrária, é preciso entender que não necessariamente ele é um inimigo. Desta forma, aproveitar – se das habilidades alheias é um mecanismo crucial para o desenvolvimento humano. Mas, suponhamos que quem está contrário é de fato um inimigo. Não faz diferença já que, em alto nível, é possível usar da única técnica que efetivamente aniquila as hostilidades: Torná-lo amigo!

Seja como for, tudo o que eu disse é baseado no que chamamos, não sem razão, de Kung Fu. Agora, com a intenção de tornar mais simples o entendimento, tentarei esmiuçar uma parte do conteúdo, veremos se serei bem sucedido.

Imagine que você tenha por volta de 5 anos. Nesta idade, é provável que você esteja nas primeiras séries do colégio e toda a sua estrutura de aprendizado tende a ser tátil ou, de alguma forma, vibrante. E o mais importante, apesar dos questionamentos serem comuns, é o momento de apenas absorver o conteúdo e, no melhor sentido da palavra, obedecer.

Eis que seu professor está ensinando sobre as leis de trânsito. Sobre o sinal, ele explica: Se vermelho, pare, amarelo, atenção e verde pode seguir. Não é necessário discutir sobre a razão das cores, apenas aprender que é assim; por isso, temos o que pode ser chamado de etapa “Sau”

Brasília, 2017

Você, um pouco mais crescido, já entendeu a lógica do sinal e sabe usar bem. Em uma ocasião, está diante do sinal vermelho, mas, ao olhar para os lados, percebe que não há carros, neste caso, decide atravessar e se sai bem; este é um exemplo de como trabalhar na etapa “Poh”.

Entendo que nesta etapa, justamente por ter aprendido o momento anterior, é possível analisar e tomar alguma decisão sobre isto, mesmo que seja contrária ao que foi aprendido. Isso porque, neste caso, você entendeu que a razão do sinal é evitar acidentes, portanto, já que não há o potencial causador do problema, é possível atravessar com segurança.

Em outro momento, há a etapa “Lei”. Está etapa costuma ser caracterizada por falta de estrutura. Veja o exemplo:

Mais velho, você está se dirigindo a uma entrevista de emprego; é claro que não quer chegar atrasado ao local da entrevista, no outro lado da rua. Não há sinal e você percebe há alguns quilômetros de distância uma passarela. Não haverá tempo de cobrir a distância de ida e de volta. Eu não recomendaria, mas você decide atravessar a rua por onde está, expondo-se à todo tipo de perigo que este tipo de decisão gera.

Bem, não importa se nosso personagem tem 20 ou 16 anos, ao avaliar os riscos, e por opção, decidir confrontá-lo, ele se porta como adulto, afinal, há melhor definição para adulto do que se responsabilizar por seus atos?

Sessão Master para Membros Seniores, Barra, 2019

Acho que existe no Kung Fu uma linha etária. Quando recém nascido, momento da admissão à família, você aprende o básico, portanto, mais importante que é, no melhor sentido da palavra, obedecer. Apenas com o real aprendizado deste processo, é possível galgar as etapas do sistema de forma simples.

Se considerarmos tempo de prática, hoje, eu seria um adolescente no Kung Fu. Mas exposto como estamos a vida Kung Fu, entendo que não há razão para não me portar como adulto, até porque, é preciso, se de fato quero me desenvolver enquanto ser humano.

Uma das primeiras vezes que ouvi do Si Fu sobre “Sau, Poh e Lei”, ele usou um exemplo sobre a pintura de uma parede. Esse exemplo faz todo sentido para mim. Em certa ocasião, tive a oportunidade de palestrar para meus irmãos Kung Fu e Si Fu estava presente; procurei usar exatamente os mesmos exemplos reproduzindo até as palavras. Quando terminei, Si Fu comentou que o exemplo só fez sentido para mim pois quando ele usou adaptou o discurso a plateia. Então, era o caso de eu próprio apreender o recurso não no sentido de ser capaz de repeti-lo, mas me inspirar.

Espero que desta vez eu tenha deixado mais claro meu entendimento!

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