Contrariar o Consenso

Go against the consensus

Cena da série Marco Polo da Netflix, 2014.

Scene from the Netflix series Marco Polo, 2014.

“Uma mão mente, enquanto a outra fala a verdade. ”

“One hand lies, while the other speaks the truth.”

Segundo “cem olhos, ” personagem criado para representar um mestre, esta é a maneira de lidar com os movimentos das Artes Marciais. Faz sentido no contexto, inclusive, justificava a chamada “Finta, ” que é um movimento ilusório que objetiva confundir o oponente, e traria como resultado, o acerto do alvo. Embora no desenrolar da trama tenha algum sentido, há grave problema: Nesta afirmação, não se considera a habilidade alheia, afinal, como seria possível garantir que o outro será ludibriado?

According to “one hundred eyes,” a character created to represent a master, this is the way to deal with Martial Arts movements. It makes sense in context, including justifying the so-called “Finta,” which is an illusory movement that aims to confuse the opponent, and would result in hitting the target. Although in the unfolding of the plot it makes some sense, there is a serious problem: In this statement, the other’s ability is not considered, after all, how would it be possible to guarantee that the other will be deceived?

Meu mestre, certa vez compartilhou sua própria versão sobre como se reflete a pratica que envolve finta; reforço que compartilho meu entendimento do que foi dito, não necessariamente sua opinião; em um ambiente de efetivo Kung Fu. Seu comentário foi que os praticantes de Ving Tsun são inocentes, neste sentido, jamais ludibriados; caso aconteça a intenção de movimento a frente, ainda que blefe, é o suficiente para o praticante de Ving Tsun se aproveitar do cenário e “ocupar o meio.” Seu próprio Mestre, meu Si Gung, comentou que a essência das artes marciais é “contrariar o consenso”, visto deste modo, o contrário ao consenso pode tão refinado a ponto de o contrário ser o próprio consenso e o consenso seu oposto, como exemplificado pelos comentários acima.

My master once shared his own version of how practice involving feints is reflected; reinforce that I share my understanding of what was said, not necessarily your opinion; in an environment of effective Kung Fu. His comment was that Ving Tsun practitioners are innocent, in this sense, never deceived; if the intention of forward movement happens, even if it is a bluff, it is enough for the Ving Tsun practitioner to take advantage of the scenario and “occupy the middle.” His own Master, my Si Gung, commented that the essence of martial arts is to “contradict the consensus”, seen in this way, the contrary to the consensus can be so refined to the point that the contrary is the consensus itself and the consensus its opposite, as exemplified by the comments above.

Por isso, vejo como faz sentido quando Si Fu, por exemplo, machucado, lesionado ou recém operado, busca à sua maneira fazer movimentos. Não se trata de rebeldia, mas sim da apropriação do cenário, no caso, de seu corpo. Afinal, quantas pessoas no mundo são mais especialistas em determinado corpo que a própria pessoa da qual se trata?

Therefore, I see how it makes sense when Si Fu, for example, injured, injured or recently operated, seeks in his own way to make moves. It is not about rebellion, but about appropriating the scenery, in this case, her body. After all, how many people in the world are more experts in a given body than the person it is about?

Esta reflexão eu desenvolvo há alguns anos, ela passou por algum momentos, compartilharei com vocês.

I have been developing this reflection for some years now, it went through some moments, I will share it with you.

Sobre a habilidade de abrir mão, ou, as mãos,2021.

On the ability to let go, or, the hands,2021.

Preconceitos existem, creio que o maior problema sobre isto seja a falta de percepção sobre ele. Com relação ao atendimento em saúde, por exemplo, as maiores vítimas são as ciências que buscam o cuidado com o cérebro e/ou os pensamentos. A Análise e a psiquiatria são vistas muitas vezes como um mal necessário, quando na verdade, o mal de fato é a discriminação por elas sofrida.

Prejudices exist, I think the biggest problem about this is the lack of perception about it. With regard to health care, for example, the biggest victims are the sciences that seek care for the brain and/or thoughts. Analysis and psychiatry are often seen as a necessary evil, when in fact, the evil in fact is the discrimination they suffer.

Quando tive meu mais incomodo problema com o transtorno de ansiedade, minha analista se viu em situação de me intimar a busca por tratamento médico sob a pena de impossibilitar a continuidade da análise. Escapei enquanto pude, na realidade, não deveria, mas assim o fiz. Em paralelo, buscava Si Fu com a esperança de que ele me desse acesso a saberes do Kung Fu que pudessem me proteger e aniquilar o mal que vivia. Seu comentário, como já vinha sendo em meses anteriores, era que a procura por auxílio médico certamente me ajudaria a continuar meu caminho.

When I had my most uncomfortable problem with anxiety disorder, my analyst found herself in a position to order me to seek medical treatment under the penalty of making it impossible to continue the analysis. I escaped while I could, really I shouldn’t have, but I did. At the same time, I was looking for Si Fu with the hope that he would give me access to Kung Fu knowledge that could protect me and annihilate the evil that lived. His comment, as it had been in previous months, was that seeking medical help would certainly help me to continue on my path.

Lutei mais um pouco, claro! é que para mim, até então, Si Fu não precisava de médicos, bastava a habilidade em Kung Fu, então porque eu, seu discípulo, precisaria?

I struggled some more, of course! it’s just that for me, until then, Si Fu didn’t need doctors, Kung Fu skill was enough, so why would I, his disciple, need it?

Embora tenha demorado a me demover de crenças que tinha adquirido sob a suposta “bandeira do Kung Fu, ” aos poucos, fui seguindo as orientações.

Although it took me a while to change the beliefs I had acquired under the supposed “Kung Fu flag,” little by little, I followed the guidelines.

A arrogância, trata sobre a incapacidade de pedir, pude naqueles tempos me ver arrogante como jamais pude em outro cenário. Já aceitando minha derrota, consegui desviar da desculpa recorrente de que não estava encontrando o profissional, e, pedindo ajuda, rapidamente me foi apresentada uma médica que se propôs a me apoiar. No dia de hoje, completam-se alguns meses sem uso da medicação indicada na época.

Arrogance, about the inability to ask, I could see myself in those times arrogant as I never could in any other scenario. Already accepting my defeat, I managed to deviate from the recurring excuse that I was not finding the professional, and, asking for help, I was quickly introduced to a doctor who proposed to support me. Today, a few months have passed without the use of the medication indicated at the time.

Apresentação de Nomes Kung Fu, 2014.

Presentation of Kung Fu Names, 2014.

Fiz algumas confusões ao longo dos anos, entendi que o Kung Fu era o atingir máximo de todo o ser humano, isto feito, não se precisaria de nenhuma outra conquista. Estou muito longe de “atingir” o Kung Fu, e questiono se existe algum lugar a se chegar. Hoje em dia me parece que o dito “tem Kung Fu, ” significa que determinada pessoa atuou da melhor maneira possível a ela na situação em específico, isso obriga a estar atento, já que não existe garantia de que o cenário se repita da mesma maneira; e, mesmo que repetisse, a atenção não deve perder lugar.

I made some confusion over the years, I understood that Kung Fu was the maximum achievement of every human being, that done, no other achievement would be needed. I am a long way from “achieving” Kung Fu, and I question whether there is any place to go. Nowadays it seems to me that the saying “has Kung Fu,” means that a certain person acted in the best possible way for him in the specific situation, this forces you to be attentive, since there is no guarantee that the scenario will be repeated in the same way ; and even if you repeat it, your attention must not lose its place.

Outro ponto, a minha afirmação de que Si Fu não precisa de médicos cai no primeiro questionamento mais aprofundado, afinal, ele não se operou. O que foi feito, e aí reside o desenvolvimento marcial, foi se aproveitar do saber médico, pós cirúrgico, e adaptá-lo a necessidade de seu próprio corpo. Absorvendo o conhecimento médico e ao mesmo tempo fazendo uso de seu corpo, ele aprendeu mais sobre medicina e sobre si. Então, como um médico, ele estudou sobre aspectos específicos da medicina e faz uso de si, em vez de um corpo morto ou alheio, por fim, auxiliou os primeiros a zelarem por sua recuperação.

Another point, my statement that Si Fu does not need doctors falls into the first deeper questioning, after all, he did not undergo surgery. What was done, and this is where martial development resides, was to take advantage of medical, post-surgical knowledge and adapt it to the needs of your own body. By absorbing medical knowledge and at the same time making use of his body, he learned more about medicine and about himself. So, like a doctor, he studied specific aspects of medicine and makes use of himself, instead of a dead or someone else’s body, finally, he helped the first ones to see to their recovery.

Creio que agora eu tenha entendido melhor a postura do Si Fu. Antes de parar o uso da medicação, estava junto da médica em uma espécie de “imersão guilhermística”; especializados como nos tornamos, fomos juntos entendendo o funcionamento do meu corpo e aumentando ou reduzindo as doses de acordo com minha necessidade. Hoje, o mal estar ainda existe, não como já foi, mas de certa forma, ainda presente; conversei muito com minha psiquiatra sobre a pausa no uso, ouvindo uma serie de apontamentos e me valendo da possibilidade oferecida de decidir se continuo ou não, optei por parar.

Another point, my statement that Si Fu does not need doctors falls into the first deeper questioning, after all, he did not undergo surgery. What was done, and this is where martial development resides, was to take advantage of medical, post-surgical knowledge and adapt it to the needs of your own body. By absorbing medical knowledge and at the same time making use of his body, he learned more about medicine and about himself. So, like a doctor, he studied specific aspects of medicine and makes use of himself, instead of a dead or someone else’s body, finally, he helped the first ones to see their recovery.

” Contrariar o consenso” vejo aí minha camada de Kung Fu. Quero dizer, Aproveitando-me das experiências do Si Fu, entendi que a questão não é querer, seja parar ou não, sair do hospital ou não, mas sim, a partir da observação de todas as variáveis e me apropriando de todas as consequências e benefícios, tomar uma decisão e banca-la.

” Contrary to the consensus” I see my Kung Fu layer there. I mean, Taking advantage of Si Fu’s experiences, I understood that the question is not wanting to stop or not, leaving the hospital or not, but rather, from the observation of all the variables and taking ownership of all the consequences and benefits, make a decision and stick to it.

E caso não seja mais possível continuar caminhando sozinho, basta me lembrar de uma habilidade simples e super útil, bastará rogar por auxílio, e, passo a passo, recomeçar a imersão acompanhada, e me apropriando do saber alheio, aprendo mais sobre mim. Talvez, em minha história, este possa ser o maior exemplo experimentado sobre o que efetivamente seria o Kung Fu.

And if it is no longer possible to continue walking alone, just remember a simple and super useful skill, it will be enough to ask for help, and, step by step, restart the accompanied immersion, and appropriating other people’s knowledge, I learn more about myself. Perhaps, in my history, this could be the greatest experienced example of what Kung Fu would actually be.

Três minutos.

Encontros de Excelência, 2023.

A palavra “proatividade” indica uma ação acontecida antes da atividade em si, traz um sentido de antecipação. Contudo, é preciso estar atento ao cenário, caso contrário, o sentido pode se transformar em precipitação ocasionando retrabalhos e perda de tempo, algo absolutamente indesejável. Ainda que no extremo oposto, a palavra “receptividade” solicita os mesmos cuidados; neste caso, como benefício, é indicativo de uma pessoa disposta a aprender e trazer resultados a partir da condição de um cenário já iniciado, por outro lado, pode motivar a ideia de espera não estratégica. Esta espera termina em paralização o que, aos poucos, justifica – se pela dependência da ação alheia para enfim resultar no mesmo estado de coisas, ou seja, nada mudou.

Mesmo diante de um estilo pessoal, seja a “proatividade” ou a “reatividade”, estar adequado ao cenário quando se busca lograr êxito parece-me o mais importante. Por isso, como ponto de equilíbrio para ambas as possibilidades vejo a necessidade de coerência com o todo, não com as partes. Quero dizer, a habilidade pessoal é bem vinda, mas jamais deve ser utilizada como força motriz já que por melhor que seja, eventualmente apenas pareça, poderá ser insuficiente diante do todo. Então, em alto nível, não existe a pessoa pró ou reativa, mas sim, as que se questionam qual o cenário.

Acesso ao Nível Superior Final, 2017.

Sempre que há uma demonstração a se fazer diante do Si Fu, noto algumas dificuldades recorrentes e associadas com os parágrafos acima, além do desejo. Acontece mais ou menos assim:

Inicia-se o movimento, a pessoa que demonstra, eu inclusive, achando que já entendeu o que é para ser feito ou desejosa de por em prática o que foi dito, precipita situações, o membro adverso, em geral, também imbuído com o mesmo sentido, impõe suas conclusões ao exercício a partir da precipitação anterior, no fim, todos terminam sem “se falar.” A falta de conexão é a “máxima” destes momentos já que a base destes estudos, o que não deveria ser, é o discurso decorado que se buscar repetir não o exercício pleno da proposta de nosso Si Fu. Portanto, perde-se tempo demais com a busca do que é simples e deveria estar disposto já no início de nossa chegada ao Mo Gun, quando se busca desenvolvimento marcial. Creio que por isto existam alguns dispositivos que possam parecer desconexos ou perda de tempo, mas que, na realidade, visam alinhar os pensamentos para se atingir o que importa já no primeiro toque.

Certa vez, um praticante que morava em uma cidade distante de seu Si Fu, atendendo ao chamado dele, dirigiu algumas horas para encontra-lo, a razão do pedido estava relacionava ao acesso a um dos componentes do nível básico. Este praticante, ao encontrar seu Si Fu, segue com ele mais algum tempo para o restaurante mais próximo do Mo Gun para Yam Chá; algumas horas mais tarde seu Mestre pede para ser levado ao Mo Gun e chegando lá, ao que parece ter sido o máximo de 3 minutos, o praticante toma acesso ao dispositivo e é logo em seguida convidado para levar seu mestre a outro restaurante, era a hora de almoçar.

Parte da Comitiva Oficial de Visita a Angola.

A questão que sempre fico às voltas é: O que é preciso demonstrar? muito rapidamente me respondo, nada!

Não somos uma vitrina para seduzir o olhar. Por isso, creio que conceitos como Proatividade, Reatividade, Desejos, e outros, precisam ser muito bem trabalhados em escala pessoal, apenas desta forma seremos capazes de distinguir se toda a ação que fazemos está relacionada com o desenvolver pessoal, ou o entendimento de conceitos da moda que agradam a visão da maioria e por isso provocam sua repetição; a rigor, Si Fu não quer que façamos o que ele pede, o que ele sugere é o bom desenvolvimento da família, e isto passa longe de exibicionismos pessoais, creio até, que ele propõe uma maneira de se construir esta caminho:

Estávamos chegando no aeroporto, havia uma tensão no ar. Não queríamos chegar atrasado de forma alguma. Lá chegando e por conta de estudos prévios, acertamos o terminal de embarque e Si Fu já estava fazendo os Check In. Achei estranho, devia ser um dos discípulos a faze-lo, não tive tempo para questionar, a passos rápidos, em meu caso, quase corridos, chegamos ao portal de embarque, voo e horário confirmados, todos com passaportes e passagens a mão e uma lojinha com lugar para sentar bem próximo. Mudança absoluta de fluxo, a passos lentos, Si Fu foi em direção a lojinha, sorriso a mostra e a fala mansa, com um ligeiro esbarro que quase me levou ao chão, não fui capaz de ver a mudança repentina de fluxo e recuperando-me imediatamente, andei mais devagar…

Demorei para entender, mas tudo era uma experiência marcial com uma resultante possivelmente dramática; perder aquele voo seria um problema grave. Por isso, acho, que ao fazer o check in Si Fu garantiu que não ficássemos a mercê de minha falta de experiência, então, preferiu ele próprio fazer, meu aprendizado poderia aguardar, o voo não. Vejo na experiência com Si Fu uma história as avessas da contada, mas rigorosamente nutrida da mesma fonte. Haveria tempo para falarmos bobagens, conversar sobre processos não entendidos ou até tomar uma aula com ele, caso eu quisesse fazer. Mas, naquele momento, rigorosamente falando, da saída do ponto de encontro até o portão de embarque, foram os 3 minutos mais longos da minha vida.

O Pior dos obstáculos.

Olimpíadas de Atenas, 2004. (Athens Olympics, 2004.)

Os jogos olímpicos de Atenas revelou uma honraria até então desconhecida por mim, a medalha “Pierre de Coubertin, ” condecoração máxima oferecida pela comunidade olímpica sob a alcunha “humanitário-esportivo, por seu elevado espírito olímpico. ” A razão da honraria foi o fato de o corredor brasileiro, Vanderlei Cordeiro de Lima, apesar de atrapalhado por alguém do público, ter concluído a prova sabendo que tinha perdido a oportunidade de ganhar a medalha de ouro.

The Olympic Games in Athens revealed an honor unknown to me until then, the “Pierre de Coubertin” medal, the highest decoration offered by the Olympic community under the nickname “humanitarian-sports, for its high Olympic spirit.” that the Brazilian runner, Vanderlei Cordeiro de Lima, despite being hindered by someone from the public, concluded the race knowing that he had lost the opportunity to win the gold medal.

Ainda que feliz com o resultado já que eu acreditei que aquela medalha viria para o Brasil, não no sentido de viver por estas terras somente, mas, quase como uma conquista da nação portanto minha também; o fato é que nunca vi esta medalha, tampouco o ocorrido é repetido ou mesmo sei onde se encontra hoje o esportista. Foi um momento de euforia intensa que findou, bem parecido com o ” grito às margens do rio Ipiranga ” ou as justificativas dadas as cores da bandeira do Brasil; com o tempo, percebe-se que não aconteceu como explicado nas primeiras séries da escola e por fim se descobre que a razão de tal alegação é a criação de um “espírito patriótico.

Although happy with the result since I believed that medal would come to Brazil, not in the sense of living in these lands only, but, almost as an achievement of the nation, therefore mine too; the fact is that I have never seen this medal, nor is the incident repeated, nor do I even know where the athlete is today. It was a moment of intense euphoria that ended, much like the “cry on the banks of the Ipiranga River” or the justifications given for the colors of the Brazilian flag; over time, it is realized that it did not happen as explained in the first grades of the school and finally it is discovered that the reason for such an allegation is the creation of a “patriotic spirit”.

Bem, não creio em fantasmas, mas o sentido para espíritos sugerido me parece adequado, quero dizer, trata-se de algo imaterial e pairante na cultura, informe de todas as maneiras, mas perfeitamente perceptível. Então sim, cria-se uma ideia de patriotismo por conta deste espírito; aproveitando-me de cultura outra… se considerarmos que a guerra tem duas faces, creio poder chamar esta face de “grande guerra”, quero dizer, a guerra entre os povos. Então, fala-se o que for e jamais teremos todas as peças para analisar o contexto.

Well, I don’t believe in ghosts, but the suggested meaning for spirits seems adequate to me, I mean, it’s something immaterial and hovering in culture, formless in every way, but perfectly perceptible. So yes, an idea of ​​patriotism is created because of this spirit; taking advantage of another culture… if we consider that war has two faces, I think I can call this face the “great war”, I mean, the war between peoples. So, whatever is said and we will never have all the pieces to analyze the context.

As olímpiadas, copa do mundo, mundiais e outros, são disputas entre nações. Portanto, vale-se da capacidade pessoal com o fim de homenagear o todo, ainda que este todo seja apenas o Vanderlei, mutretas políticas ou famílias que não se relacionam comigo. Há, no entanto, uma outra via que me parece muito mais aproveitável e se apresenta como a segunda face dos aspectos de guerra, chama-se “pequena guerra. ” Neste caso, os valores da batalha se baseiam na altivez, moral, espírito pessoal, ou ausência destes e de outros atributos. Isto é crucial! Entenda que ao representar uma nação não se fala por si, ela é soberana a partir dos “espíritos elevados” de seu povo que, para os olhos estrangeiros sobretudo, não pode parecer negativo; o que, em minha opinião, inspira a demagogia. É por isso que a pequena guerra é mais importante, justamente por não ter que fazer pelo outro que existe a oportunidade de se enxergar aprofundadamente e sem preconceitos.

The Olympics, World Cup, World Cups and others are disputes between nations. Therefore, he makes use of his personal ability in order to honor the whole, even if this whole is just Vanderlei, political tricks or families that do not relate to me. There is, however, another route that seems to me to be much more profitable and presents itself as the second face of the war aspects, it is called “small war”. , or absence of these and other attributes. This is crucial! Understand that when representing a nation it does not speak for itself, it is sovereign from the “high spirits” of its people which, for foreign eyes especially, cannot appear negative; which, in my opinion, inspires demagoguery. That’s why the little war is more important, precisely because you don’t have to do it for the other that there is an opportunity to see yourself in depth and without prejudice.

Estudo do Nível Superior Medial, 2019.

Desde jovem eu pratico corrida, não me recordo quando corri pela primeira vez, mas sei que iniciei e interrompi a atividade em vários momentos, quando da última interrupção, a questão era o exagero de impacto, e por isso teria que usar o tênis x ou y, não adepto a gastos monetários que julgo subjetivos, e um tanto assustado com a possibilidade de lesão, decidi por interromper. Na corrida, é necessário ter disciplina e um nível de atenção bem especial. Atribuo à corrida a necessidade de atenção por conta de risco de lesão grave ou morte, não respeitar limites, de maneira geral, mas principalmente neste esporte, é absolutamente irresponsável.

I’ve been running since I was young, I don’t remember when I ran for the first time, but I know that I started and stopped the activity at various times, when the last interruption was the issue was the exaggeration of impact, and therefore I would have to use sneakers x or y, not adept at monetary expenses that I consider subjective, and a little scared by the possibility of injury, I decided to interrupt. In the race, it is necessary to have discipline and a very special level of attention. I attribute to running the need for attention due to the risk of serious injury or death, not respecting limits, in general, but especially in this sport, is absolutely irresponsible.

Acontece que enquanto parei de correr eu sentia falta de praticar esporte, então, desde Dezembro passado retomei este hábito. Acho que esta pausa foi crucial, para hoje, em meu retorno, sentir-me beneficiado pelo esporte em níveis mais profundos que os estéticos ou de performance. Veja, estou bem mais velho que quando iniciei, e, exatamente por isso, mais seguro e protegido, protegido, inclusive, dos assaltos de profissionais de saúde. Os tênis indicados na época, hoje não são mais comercializados para este fim por conta de avanços tecnológicos e dos conhecimentos sobre o corpo humano, o que me leva a crer que em 10 anos, mais ou menos, a história irá se repetir; por esta razão, prefiro consultar a opinião destas pessoas sem me limitar a elas.

It so happened that while I stopped running I missed playing sports, so since last December I’ve taken up this habit again. I think this break was crucial, so that today, on my return, I feel benefited by the sport on deeper levels than aesthetics or performance. You see, I’m much older than when I started, and, precisely because of that, safer and more protected, even protected from assaults by health professionals. The sneakers indicated at the time are no longer marketed for this purpose today due to technological advances and knowledge about the human body, which leads me to believe that in 10 years, more or less, history will repeat itself; for this reason, I prefer to consult the opinion of these people without limiting myself to them.

Há, em contrapartida, um saber que me sugere um olhar melhor adaptado ao cenário, este saber, trata da observação do próprio corpo trabalhada ao extremo em sistemas como o Ving Tsun. Vou além, não só pala ciência do meu corpo desenvolvida a partir do estudo do sistema, mas também, pelo desenvolvimento intelectual ocorrido. Por exemplo, vejo neste, a corrida, um cenário perfeito para a percepção do que trabalho na prática pela experiência marcial, a pequena guerra.

There is, on the other hand, knowledge that suggests a look better adapted to the scenario, this knowledge deals with the observation of one’s own body worked to the extreme in systems like Ving Tsun. I go further, not only through the science of my body developed from the study of the system, but also through the intellectual development that has taken place. For example, I see in this, the race, a perfect scenario for the perception of what I work in practice through the martial experience, the little war.

No desenvolver das corridas, minha preocupação gira em torno do meu momento atual; primeiro; necessito estar certo de até onde posso ou quero ir. Aliás, um parênteses, Poder e querer são coisas absolutamente diferentes. O querer, em geral, está apoiado em expectativas além das pessoais ou inspirada em outros atletas; o poder trata de potência, portanto, diz exclusivamente da capacidade individual. Creio que o Vanderlei tinha o poder de ganhar a medalha de ouro, sendo atrapalhado, ganhou algo além, talvez, de suas próprias aspirações, mas não capacidades. Note que quando afirmo que ele poderia ganhar a medalha de ouro, não me refiro apenas a um objeto circular de preço valorizado, mas potencialmente esquecido, falo de sua capacidade de começar e ir até o fim. Eu não lembrava do nome da medalha que deram a ele, mas, jamais vou esquecer que ele cumpriu o que se comprometeu a fazer que foi iniciar e terminar a corrida.

In developing the races, my concern revolves around my current moment; first; I need to be sure of how far I can or want to go. By the way, a parenthesis, Power and wanting are absolutely different things. Wanting, in general, is supported by expectations beyond personal ones or inspired by other athletes; power deals with potency, therefore, it speaks exclusively of individual capacity. I believe that Vanderlei had the power to win the gold medal, being clumsy, he gained something beyond, perhaps, his own aspirations, but not capabilities. Note that when I say he could win the gold medal, I’m not just referring to a prized but potentially overlooked circular object, I’m talking about his ability to start and see it through. I didn’t remember the name of the medal they gave him, but I will never forget that he fulfilled what he committed to do, which was to start and finish the race.

Núcleo Barra CEO, 2017.

Isso tudo se reflete de forma na relação com meu Si Fu. A exigência do corpo ou do espírito, no sentido do texto, requer um nível de aprofundamento pessoal quando submetida à perspectiva Kung Fu onde não cabe vaidade, meias palavras, desejos ocultos, promessas ou comparações, o que não se relaciona em nada com a prática esportiva da corrida, já que é inclusive um esporte de competição.

This is all reflected in the relationship with my Si Fu. The requirement of the body or spirit, in the sense of the text, requires a level of personal deepening when submitted to the Kung Fu perspective where vanity, mincing words, hidden desires, promises or comparisons are not allowed, which has nothing to do with the practice sport of running, since it is also a competitive sport.

No meu caso, o Si Fu pode representar o quilometro final da corrida tanto pela exigência da conclusão da tarefa, quando pelos cenários muitas vezes impostos. Por exemplo, fazer Chi Sau com Si Fu é uma experiência potencialmente divertida ou dramática, depende apenas da proposta que se faz ao tocá-lo. Caso o desejo seja maior em golpear ou não ser golpeado do que aproveitar a experiência, certamente se cria aí um cenário onde se é golpeado em demasia, e não se pode culpar o Si Fu, este foi o cenário escolhido, então, é importante se responsabilizar. E uma vez iniciado, é imperativo chegar até o fim.

In my case, Si Fu can represent the final kilometer of the race both due to the requirement of completing the task and the scenarios often imposed. For example, doing Chi Sau with Si Fu is a potentially fun or dramatic experience, it just depends on the proposal you make when playing it. If the desire is greater to hit or not to be hit than to enjoy the experience, a scenario is certainly created where one is hit too much, and one cannot blame the Si Fu, this was the chosen scenario, so it is important to hold accountable. And once started, it is imperative to see it through to the end.

Em níveis mais aprofundados, com relação a corrida, apoio-me na experiência do bastão, ou seja, se começo, termino; mas entenda, há uma camada de refinamento especial, não termino porque quero terminar e eventualmente me machuco por conta disto, termino pois minha capacidade de projeção e consciência do corpo é tamanha que antes de iniciar a corrida, já sei até onde sou capaz de ir. Neste sentido, não me apresento como atleta, mas sim, um Artista Marcial.

At deeper levels, with regard to running, I rely on the experience of the baton, that is, if I start, I finish; but understand, there is a special layer of refinement, I don’t finish because I want to finish and eventually get injured because of this, I finish because my projection capacity and body awareness is such that before starting the race, I already know how far I am capable of going . In this sense, I do not present myself as an athlete, but a Martial Artist.

Há, em outro cenário, uma percepção mais relevante, já que não depende do corpo no sentido técnico, quero dizer, iniciei um processo de visita ao Si Fu onde ele mora atualmente, já que iniciei, baseando-me em minha pequena guerra, sei que não posso deixar de ir. O mais bacana disto é que não há nenhum tipo de alarde ou espírito inflamado, não há questão de honra familiar, o que poderia ser considerado representativo da grande guerra, o que há é apenas um discípulo tentando cumprir suas palavras; como no caso do corredor Vanderei Silva, não é necessário medalha ou apoio de uma nação, esta luta é minha e comigo mesmo.

There is, in another scenario, a more relevant perception, since it does not depend on the body in the technical sense, I mean, I started a process of visiting Si Fu where he currently lives, since I started it, based on my little war, I know that I can’t let go. The coolest thing about this is that there is no kind of fanfare or inflamed spirit, there is no question of family honor, which could be considered representative of the great war, what there is is just a disciple trying to fulfill his words; as in the case of runner Vanderei Silva, a medal or support from a nation is not necessary, this fight is mine and with myself.

Ciclo sem fim

Estudo do Nível Superior Final, 2021.

Com relação a abordagens de sistema, gostaria de falar sobre duas possibilidades. A primeira foi desenvolvida por Jean Piaget; um do mais influentes pensadores do século 20. A teoria dele é em geral mais próxima da forma como os ocidentais percebem o mundo, já que foi, e ainda é, inclusive, o modo de pensar onde se baseou o processo educacional do ocidente. Lev Vygotsky foi um pensador Russo, que a exemplo de Piaget, também teve sua contribuição sobre o processo educacional, neste caso, é melhor aproveitado no chamado oriente.

Piaget entende que o conhecimento deve ser seriado e homogêneo; propondo que o saber tenha sua transmissão para pessoas que possuem a mesma maturidade emocional, por exemplo.

Já Vygotsky entende que estímulos diferentes são as melhores possibilidades, sendo assim, propõe que pessoas em momentos distintos de vida se relacionem, sobretudo, em sistemas educacionais. Não é novidade falar que cada abordagem tem suas vantagens, mas, no que se refere a Kung Fu, neste texto, vamos notar que o pensamento orientador privilegia Vygotsky.

Pessoalmente, creio que a experiência marcial deva ser plural, ou seja, quanto mais variações houver, melhor aproveitada, até porque, é nestes cenários que se desenvolve a habilidade de se adaptar a situações sem dificuldade. Ou, mesmo quando não se é capaz de se adaptar tão facilmente, é possível fazer análises de alta qualidade que ajustam os meios para, quem sabe, chegar-se aos fins.

Comitiva da Família Moy Jo Lei Ou, Angola, 2017.

Lembro que no início da minha prática, ainda era comum determinados acessos do sistema serem reservados. Então, encontrando uma porta fechada já se sabia que o desejo dos que ali estavam era não ser incomodado. Por isso, qualquer coisa que acontecesse do lado de fora era de responsabilidade dos que não participavam das sessões Master. Ali se criava uma divisão. Os Seniores de um lado e os mais jovens, aguardando o momento de ser chamado para fazer sua aula, do outro.

Entendo que esta configuração tenha como potencial o desenvolvimento do Kung Fu, veja como é simples entender: os mais jovens tinham uma oportunidade ímpar de fazer o que quisessem, a depender apenas de sua criatividade. Não há em nenhuma abordagem educativa, que eu conheça, cenário mais rico. Contudo, apesar de existir uma orientação inicial, era difícil os mais jovens entenderem que a ideia era que se mexessem, deixando a encargo de pessoas mais experientes o próprio aprendizado, nada mais limitador.

Por outro lado, os mais antigos em momentos de prática pouco trocavam com os demais no sentido humano. Quero dizer, via-se uma diferença muito clara entre aqueles que transmitiam e os aprendizes, via-se professores, não pessoas em busca de evolução, que é a razão de ser dos chamados “Si Hing”, tal qual os “Si Daai. “

Sobre este assunto, ainda não tive oportunidade de aprofundar com Si Fu, de modo que o que compartilho refere-se apenas a minha experiência prática, deixando talvez passar aspectos mais sutis de direcionamentos de meu mestre; seja como for, segue o que chamo de próximo passo na família Moy Jo Lei Ou.

Em 2018, fundamos o chamado Programa Fundamental. Este programa, a meu ver, tem por fim oportunizar aos praticantes iniciantes a experiência que eles acreditam que deve ter do estudo de uma Arte Marcial, ao mesmo tempo em que se faz uso dos membros da família, e de outros dispositivos, para que, aos poucos, este aspirante a membro possa ingressar na dimensão Kung Fu. Em paralelo, Si Fu cria um filtro, não limitativo, para o programa que seu próprio Si Fu fundou, meu Si Gung Leo Imamura. Além de poder apresentar as pessoas mais experientes uma perspectiva de prática diferente da já habituada; ou seja, o programa não é restrito a determinados membros, todos podem praticar igualmente, e a seu modo e munido das orientações do instrutor, experimentar o Kung Fu.

Por não limitativo, o que quero dizer é que o aspirante a membro não está impedido de acessar o próximo programa, ao contrário, ele é bem vindo. A questão é: caso queira! Desta forma, protegemos o programa experiencial de pessoas que não estão interessadas em ter aquele acesso e preferem participar de uma dinâmica marcial muito parecida com a de uma academia, o que não é problema algum.

A partir do momento em que o aspirante a membro faz seu acesso à família, é apenas questão de tempo para ter o próximo momento, o Programa Experiencial.

Yam Chá em Família, 2013.

Este programa, o experiencial, parece-me que tem por base o preparo dos próximos discípulos. Neste momento, a relação Si Hing Dai acontece de forma natural, inspirada no Programa Tradicional e já experimentada de forma sutil no programa anterior.

É preciso frisar, no Programa Fundamental não existe relação Si Hing Dai, o que existe, são pequenas inserções sugestivas do que poderia ser.

Apesar de o termo usado para o mais antigo ser Tutor, em geral, este é um discípulo, portanto, nas entrelinhas traz à aula de experienciação a postura orientada pelo nosso Si Fu no programa tradicional, onde a experiência é absolutamente Si Hing Daai.

Outro ponto, o chamado membro ativo tem acesso ao Si Fu. O que falta ali é desenvolver a relação de ambos, apoiado por um irmão Kung Fu mais experiente. É importante iniciar o contato, viver historias e se conhecerem mutuamente. O critério para o convite para o “Baai Si, ” cerimônia de discipulado, é absolutamente reservada ao Si Fu, embora tenha ciência disto, creio que o que foi citado compõe os critérios. Ao menos foi para mim.

Como discípulo, ao mesmo tempo que não muda nada, muda-se tudo. Este membro já teve acesso a dois programas, portanto, está muito mais experimentado sobre o que seria o programa tradicional, quero dizer, é certo que os termos ou qualquer outro saber parecerá menos diferente. Ainda que saibamos que novas histórias irão acontecer pela frente, é chegado o momento de não só fazer uso a experiência marcial, mas sim, penetrar o espírito da família, este é o que por vezes chamo de Kung Fu. Apenas vivenciando o cerne de toda a construção do Kung Fu de nosso Si Fu, é possível estreitar a relação ao máximo, de modo que em todo contato tenha por base a construção da experiência marcial.

Falando de minha experiência, a primeira vez que fiz uma viagem internacional foi com meu Si Fu. Por isso, pude aproveitar o momento para além de turismo, já que não era nossa intenção, então, consegui imergir no cenário forma bem especial, e o turismo aconteceu como plano de fundo e foi bem aproveitado.

Eu gostaria de dizer, que por essa e outras experiências que eu já teria me “capacitado ” para dizer que entendi o cerne da experiência de vida Kung Fu de meu Si Fu, considerando que ele comenta muitas vezes que já percorreu o mundo com o seu. Mas, nunca me senti mais longe; este comentário não trata de uma perspectiva depreciativa de mim ou do que vivi, mas sim uma percepção.

O que acontece é que pela primeira vez que fui a Angola, eu estava louco para iniciar minha prática do Baat Jaam Do, meu acesso foi no mês anterior a viagem. Naqueles tempos insisti bastante com Si Fu neste começo, baseando – me unicamente em seus comentários sobre viagens com Si Gung e determinado acesso que teve do Nível Superior Final em um hotel; quis repetir a história. Acontece que Si Fu percorreu o mundo inteiro com seu Si Fu, eu visitei apenas um país e em uma perspectiva bem diferente da que certamente ele viveu.

Quando olho para trás vejo o longo caminho que já percorri, eu me orgulho. Realmente vivi muita coisa, se olho para frente, não vejo nada, não há limite algum, apenas o vazio absoluto esperando ser percorrido. Gostaria de poder olhar para minha história e ter a certeza de que por tudo que foi vivido sou imparável, muito embora tenho vivido muita coisa, se olho para frente, impressionado, percebo que a realidade não poderia ser mais diferente.

Para um discípulo em busca de seu mestre para o fim de aprender a viver melhor sua própria vida, qual é o limite exato de para onde deve ir ou quantos passos é capaz de caminhar?

A experiência de vida Kung Fu não tem fim! mesmo longe do Si Fu, não significa que eu tenha parado de praticar, mas, o fato de não fazer este viagem certamente é um sintoma de a minha história obstruiu meus olhos. Olhando muito para o que tive, acho que me esqueci de que devo seguir em frente.

Inspiração

Aula Master com Mestre Senior Julio Camacho, 2023.

Considerando como regra do exercício da humanidade a necessidade de duas pessoas, no mínimo; em nossa família, por detrás desta maxima se percebe dispositivos outros para viabilizar o contato. Parece-me que esta necessidade é essencial, já que pessoas são muito diferentes entre si e cenários são diversos.

Conceitos como zelo, família Kung Fu e outros, são alguns exemplos destes dispositivos que podemos chamar de associados. Neste caso , ao exercício da Humanidade.

O Sistema Ving Tsun, em escala macro, no sentido de maior que ele próprio, também pode ser considerado “apenas”, e não há demérito algum no termo, mais um instrumento. Repare que neste texto, trato do Sistema Ving Tsun como composição técnica. Portanto, além dos instrumentos citados, incluo “Taang Sau, Bong Sau, e todos os demais.

Assim sendo, gostaria de apresentar a seguinte reflexão:

O Sistema Ving Tsun é um dispositivo associado que conecta dispositivos, técnicos, onde é sugerida a possibilidade de uso através de perspectiva puramente técnica, portanto, possibilita a prática objetiva da humanidade que resulta no Kung Fu.

Ao chegarmos neste momento,no Kung Fu, há modificação de percepção que julgo ser crucial. Entendo ser impossível marcar no tempo a origem exata da capacidade ímpar do ser humano que é chamada Kung Fu. Aprofundando-me, gostaria de afirmar que não há um fim em seu desenvolvimento, e por não ser técnico, é impossível se submeter a qualquer questionamento que não o do próprio artista. Ou seja, não pode ser avaliado à maneira de criticas direcionadas a componentes técnicos, mesmo nos casos mais subjetivos, como a humanidade.

Portanto, é imperativo que cada praticante desenvolva a sua própria maneira de demonstrar seu Kung Fu. Há, sem dúvida, uma grande dificuldade nesta ação àqueles que não possuem todo o conhecimento técnico do sistema em questão. Neste caso, a solução última, talvez a única, que vejo é apoiar-se no Kung Fu de sua própria família, sendo mais específico, de seu Si Fu,para no futuro ser capaz de representar o seu próprio. Em minha opinião, assim se forma um mestre!

Visita Oficial de Mestre Senior Julio Camacho e Senhora Márcia Moura Camacho,2021.

Na última aula master que pude participar, Si Fu trabalhava o componente “Lap Da, ” em resumo, este componente visa a manutenção da linha central possibilitando, ocasionalmente, a capacidade de golpe.

Sugiro cautela na imagem mental que certamente está acontecendo enquanto me lê, golpe é consequência, jamais o fim. Em caso de não ser oportuno o evoluir da determinada consequência, o golpe, naturalmente se passa a outra. Caso o movimento técnico seja bem feito, a outra a que me refiro é o retorno a manutenção da linha central. Veja que para se evoluir tecnicamente através desta proposta do Si Fu, é imperativo a conexão com o outro. O que sugere o próximo dispositivo técnico, a humanidade.

Lembre-se, a relação humana, como acredito exige o trabalho entre dois seres humanos no mínimo. Sendo estes capazes, mas sobretudo, intencionados em refinar sua habilidade humana é fácil tirar proveito do que o adverso propõe. Como instrumento que sugere facilidade, Si Fu orienta como início de tudo, ainda nos baseando no dispositivo técnico citado, que o toque inicial seja de percepção.

Primeiro, toca-se o outro com a maneira máxima de capacidade em não permitir que qualquer desejo, anseio ou vontade participe do movimento. Eu fico fascinado em observar como está simples orientação é capaz de fazer com que o movimento seja “limpo. “
Baseando-se no que foi desenvolvido pela capacidade inicial de toque, ou seja, ouvindo o adverso a ponto de entender o que é proposto, sabe -se qual o próximo movimento preciso. Tecnicamente, este é “o caminho das pedras, ” ou seja, aquele que é proposto pelo meu Mestre a se seguir.

Mestre Senior Julio Camacho se apropriando da condição de Mestre.

Por este meio, tem- se acesso aí ao caminho do Kung Fu. Como dito, o do Si Fu, que tento executar como se fosse o meu próprio, na busca de inspiração para, ocasionalmente, inserir minha experiência. Nesta tentativa, mais uma vez, seguindo orientação direta, busquei em meio a irmãos Kung Fu a tentativa de execução do mesmo estudo sem supervisão.

Veja como o exercício da humanidade é complexo; ao propor o estudo, talvez eu não tenha percebido a necessidade individual de cada um, ou seja, iniciei meu movimento de maneira absolutamente egoica . Ora, não é possível iniciar um movimento sem o combinado, absolutamente subjetivo, de que iremos faze-lo. No passado, para mim era mais fácil, muito embora também não lograsse sucesso, já que minha justificativa em continuar o estudo era: Si Fu mandou, então, temos que fazer!

Está perspectiva ainda existe em mim de maneira muito natural, em geral, não me importa a fome, cansaço, ou falta de desejo em seguir determinada ordem do Si Fu, por isso, apenas faço. Ao mesmo tempo, não vejo no próprio Si Fu o desejo de que seja seguido “a risca, ” ou mesmo, que suas orientações sejam entendidas como ordem, mas
sim, que seja desenvolvido o Kung Fu. Portanto, este necessidade de seguir é muito mais uma questão minha que a proposta de nosso líder. Simbolicamente, apesar de estar bem atento ao exercício proposto e buscar segui-lo, deixei minha maneira natural acontecer independente do cenário, por isso, “morri. ”

Creio ser esta pontual falta de atenção que faz com que, por exemplo, eu não participe da próxima comitiva que vai visitá-lo agora em Agosto. Claro, autocentrado como estou nestes momentos, fico preso de tal maneira a minha condição, na realidade na falta dela, que me limito ao poder ou não poder, em vez de buscar maneiras outras para conseguir o mesmo intento.

Será, sem dúvida, um momento ímpar em nossa família, reservado às pessoas que quiseram estar disponíveis. No momento, algo que posso fazer é desejar boa sorte, para os próximos, mais que querer, devo ir. Note que este último independe da vontade. Eis parte do Kung Fu de meu Si Fu que quero seguir a ponto de torná-lo meu.

Reativo

Meditar.

A busca pelo “estado contemplativo” é cada vez mais comum. Exatamente por isso, não é raro ver propagandas de estudos e práticas que prometem este fim. Advindo daí, vejo uma questão que pode se tornar problemática.

Baseando-se no potencial da situação, ou seja, a busca de pessoas pelo assunto, e o acesso facilitado que a internet possibilita, gera-se, com certa facilidade, cada vez mais conteúdo; o problema, é buscar dentre todos os saberes o que vai efetivamente traduzir a experiência do indivíduo para a busca pessoal.

Por isso, é necessário atingir algum grau de maturidade no sentido de entender sobre o aspectos basilares do saber em si. Apenas entendendo do que efetivamente trata a experiência, quais os saberes fundadores, e a dedicação de seus transmissores é possível, e mesmo assim, não garantido, seguir seu caminho sem desvios desnecessários.

Com relação a meditação, por exemplo, sua origem sugere o desenvolver da capacidade de “impenetração”, em outras palavras, a busca de postura contemplativa e absolutamente reativa, através de cenários muitas vezes caóticos e desconfortáveis, o que se perde em algumas escolas. Talvez daí, o senso comum de que é necessário “sair do zona de conforto. ” Digo isto, pois minha percepção sobre as demais escolas é de que para ter qualquer nível de contemplação mais intima é preciso se isolar e criar características específicas.

Ora, entenda que para a lógica da cultura onde me apoio para as afirmações, é costume explicar que as coisas acontecem através de movimentos, jamais estados. Por isso, não existe estado contemplativo, apenas contemplação, ou meditação. Há um termo que acredito que explique melhor esta característica, Siu Nim Tau.

Presença e Momento, 2017.

Para mim, a genialidade do sistema Ving Tsun consiste na maneira como é apresentada sua estrutura; primeiro, Siu Nim Tau. Sabe-se que uma das razões para isto é o fato de se apresentar logo de início o que é mais importante daquele saber, assim, facilita-se a absorção do conhecimento sem mesmo perceber, uma vez que ainda sem ciência do praticante todos os fundamentos ou sementes são praticados; há outras.

Em uma situação de assalto, por exemplo, discurso comum é de que “aconteceu do nada. “

Não foi!

O que acontece é que a mente tende a flutuar em situações corriqueiras, o que gera o poder místico dos assaltantes. Penso que pelo fato de haverem demandas mal distribuídas em nossos cérebros, e nenhuma resolvida – sempre em vias de -, todas elas se apresentam ao mesmo tempo, ocasionando a falta de foco por conta de eventual inabilidade.

O caminho é fácil de identificar; veja:

Nem bem entendida a primeira demanda, passa-se a seguinte, sob o signo de pro atividade e assim se vai. Em geral, começar pela demanda mais simples é um bom caminho, esta afirmação é inspirada no Sistema Ving Tsun. “Siu Nim Tau” é a listagem onde os movimentos são mais simples, não fáceis, por isso, é possível ali desenvolver a habilidade de foco de forma simplificada. Como sistema, a aprendizagem anterior não é descarado, então, ao acessar o próximo domínio, além de aprender novos conteúdos, é possível absorve-los através da ótica anteriormente proposta ao mesmo tempo que se disponibiliza à habilidade aprendida um novo cenário.

Em resumo, o que eu digo é que foco, em Kung Fu, não significa analisar individualmente qualquer coisa, mas sim, iniciando por uma, desenvolver a habilidade de separar em partes mais de uma coisa, todas ao mesmo tempo. Separar é um processo interessante, sobretudo quando a experiência esta mal digerida, ou pessoalmente se está indisposto.

Certa vez, estava me dividindo entre os afazeres do Mo Gun e determinada manutenção na casa do Si Fu, exausto, estava com dificuldade em manter foco nas duas atividades. Como não tive condições de manter a qualidade mínima para as atividades, Si Fu me chamava a atenção. Bastante cansado e magoado, tive dificuldade em ouvir o que Si Fu pontuava e optei por justificar.

Justificar qualquer erro, é o maior exemplo de fraqueza emocional, Si Fu não deixou passar desapercebido, uma vez que tinha notado minha desistência em tentar, expulsou-me de sua casa dizendo que se eu quisesse descansar, era melhor ir embora, e fez questão de deixar claro que não era para eu estar mais ali.

Não lembro de outra situação que tenha me deixado mais irritado. Naquele momento, decidi desistir da prática do Kung Fu, e, apenas para não chegar no Mo Gun, onde ia buscar minhas coisas, com o rosto molhado e emocionalmente afetado, sentei-me em um pouco e contemplei o vazio.

Nada mais vazio do que a forma como me sentia, acho que por poucos momentos realmente consegui não pensar em nada. Voltei ao Mo Gun e, muito mais por birra do que desejo, resolvi ficar; enquanto rezava baixinho para que Si Fu não me expulsasse quando retornasse.

Decidido a ficar independente de possivelmente ser expulso, e mesmo se a possibilidade acontecesse, fiquei surpreso quando Si Fu me encontrou e não comentou nada.

Efetivamente estava decidido a discutir, nenhum outro dia me senti tão frustrado.

Presença, 2020.

Sabendo que Si Fu não iria me dar atenção, resolvi fazer algo de útil, foi então que, formalmente, nosso irmão Kung Fu Carlos Antônio iniciou sua prática no Programa Fundamental, tornando-se discípulo alguns meses depois.

Não posso dizer que Carlos hoje é discípulo por conta de meus atos, creio que não; mas posso dizer que ele não deixou de ser discípulos pelos meus atos. Isso é grande coisa, na época, muita coisa saia errado por conta de minhas atitudes.

A partir desta experiência, houveram vários ressignificados:

É esperado que em momentos de desespero, pessoas tenham posturas infantis, mesmo assim, nem sempre o que é esperado é benéfico. Entenda, ao “sair da zona de conforto” há a falácia da decisão. Ou seja, de alguma forma, se está disposto a viver aquela experiência, mas só um “pouquinho” ou o “quanto aguento. ” Claro, o praticante normal acredita que a experiência marcial acontece quando chega ao Mo Gun, sabe o horário da “aula, ” o conteúdo a ser desenvolvido, e, os mais arrogantes, meu caso, creem poder ditar como irá acontecer.

Quando tentei justificar meus erros ao Si Fu, no fundo, eu estava dizendo que saiu da minha previsão a experiência, neste caso, o melhor a se fazer é ir para casa, como Si Fu ordenou. De verdade, sobre este aspecto, o que há em mim é um sentimento de gratidão, pois pude perceber o quão fraco ou forte eu posso ser, dependendo apenas de minha intenção, e da real experiência marcial que acumulei ao longo dos anos.

Sobre a intenção, a que é trabalhada no momento programado da aula, é pobre, Kung Fu de verdade é o que acontece quando não se espera, refino-me; Kung Fu, ou a falta dele, de fato, é o que acontece quando você toma uma decisão baseada em cenários que não se esperava e está afetado.

“E agora, é a hora de ir ou de ficar? “

Se decido ir, que eu vá sem culpa, se decido ficar, que aguente. O que não pode acontecer é responsabilizar pessoas outras sobre minha incompetência ou eventual imbróglios da vida.

E agora aqui, no último parágrafo, escondido para ninguém mais ver, reflita comigo:

Mesmo sobre esta intenção última, creia que não depende só de você, o cenário é absolutamente componente, basta segui-lo. Eu certamente não teria condições de ficar se Si Fu não tivesse me provocado tanto, certamente, a questão se traduz em obedecer.

DESenvolver-se.

Busca pelo Desenvolvimento.

A busca pela evolução é inerente ao ser humano; não por acaso, estamos envolvidos por uma série de saberes que prometem a realização desta necessidade, na maioria das vezes, de forma metafísica. É que o pensamento mágico caminha lado a lado com a evolução da humanidade.

Ora, basta ver o jogador entrar em campo e fazer determinado sinal tocando o gramado, entenda que este não é qualquer sinal, não só pela força ritualística que carrega, baseando-se na lógica do sofrimento, mas, sobretudo, pela fé que aquele indivíduo deposita no ato. Eis então, a meu ver, um exemplo de pensamento mágico, e a criação de um símbolo.

Falando em sofrimento, podemos nos valer também de uma das verdades budistas, aquela que diz: “você vai sofrer! ” Associando a máxima ao símbolo de tortura dos mais absurdos de que se tem história, a cruz, parece-me lógico entender que o desenvolvimento está submetido a dor.

Isto me explica. Toda a forma como manejo minha própria vida tem como base, ” clausula pétrea, ” o sofrimento. Sim, cristão como sou, ainda que por osmose.

Mesmo assim, há alguns anos venho desenvolvendo outras abordagens para a busca que sempre fiz mas jamais estive tão perto ou, ao menos, na trilha em vez de trilhos.

Início das Restrições por conta da pandemia do Covid19 no Brasil. 2020

Todos sentimos medo, a diferença é a maneira de lidar com ele. Isto pode ser um critério identificativo de pessoas maduras e as demais. A três anos atrás, eu estava apavorado, não me lembro de sentir tão próximo a possibilidade, ou a morte propriamente dita.

Diversas pessoas tombaram a meu lado, eu, por azar, fui absolutamente atingido, ainda que não diretamente. Todas as minhas crenças espirituais foram postas a prática naquele período, estava decidido a retomar minha fé.

Em determinado momento, o pai de uma amiga adoeceu do covid, após internado, ele teve menos de uma semana. No dia fatídico, da morte propriamente dita, pus-me em posição de suplica e clamei aos céus, quem sabe, eu finalmente seria atendido. Pelo que percebi, as estrelas apenas me fitaram de volta, alheias a minha existência.

Neste período, conversei bastante com Si Fu. A cada novidade, entenda que novidade significa algo novo, não necessariamente favorável, eu atualizava. Por alguma razão, de toda a conversa que tivemos, a resposta que mais me marcou foi uma figura representativa da guarda. Eu ainda não sabia, mas precisaria demais de me manter em guarda mais adiante.

Pouco tempo depois, para mim, parece ter sido no mesmo dia, Si Fu precisou ser internado às pressas. Sobre o que senti, não sei o que dizer. Prefiro compartilhar o que aprendi.

Passado o momento crítico, Si Fu estava novamente de pé e fazendo o que tinha que fazer da maneira que podia. Não se ouvia lamúrias, apenas brincadeiras bem humoradas que geravam boas risadas. Muito embora tenha faltado muito pouco para ele morrer, não morreu; parece-me que é este o registro que busca deixar.

Entenda que Kung Fu não é a salvação eterna ou o Nirvana. É a construção desenvolvida por homens que buscam estar vivos ainda que após a morte, não por maneiras sobrenaturais, mas por memória. Neste caso, somente as melhores fazem diferença.

Portanto, a busca do desenvolver me parece, dentre todos os saberes, a mais adequada no sentido literal da palavra. Desenvolver, significa abrir mão do invólucro onde muitas vezes nos valemos por medo. Desenvolver, diz respeito a deixar de ser envolvido pela cultura que, em casos específicos, pode não fazer sentido.

É óbvio que cada ser humano tem a possibilidade de se desenvolver de acordo com seus valores, em meu caso, busco me desenvolver de certos valores que a mim não cabem. Como instrumento, uso, acompanhando meu Si Fu, aquele a qual chamamos Kung Fu.

Barra da Tijuca, 2018

É critico tomar decisões baseadas em valores alheios, sobretudo, os já consolidados. Pense no jogador que faz o sinal da cruz, em alguns casos, nem mesmo percebe o que está fazendo. Caso ele seja consagrado, o pior dos mundos. Certamente haverá um garoto que vai copiar; e, talvez pelo sinal, ou pela sorte, este garoto também se tornará um expoente, eis a cultura daqueles que fazem sabe-se lá o que com o objetivo único de fazer. Cria-se então a cultura, para que? talvez nunca pensemos.

A tomada de consciência é a chave elementar do Kung Fu, a razão é simples: Ele não está pronto. É apenas uma trilha que você pode seguir ou não, pode-se tomar outro caminho e legar saberes outros a quem quiser te tomar de exemplo. E caso ninguém queira, não há problema, se faz sentido para você ótimo, o Kung Fu é seu, sem grandes promessas ou fins.

Provavelmente, este é meu grande problema com a espiritualidade. Lá eu acreditei ter o poder de ser superior ao que mais temo, a morte. A lógica dos milagres era perfeita para o jovem, e hoje adulto, temeroso. Creio ser responsabilidade das instituições a falta de orientação, mesmo assim, faltou-me tempo. Desenvolver-me do seu senso de poder, que logo passou a ser meu, era crucial, não foi lá que achei poder ser bem sucedido.

Creio ter sido abençoado por ser discípulo de meu Si Fu. Pelo nosso convívio, e o apreço que desenvolvi, a partir dele, pelo uso das palavras, finalmente vejo a possibilidade de deixar o caminho da dor. Hoje eu creio que somente deixando de me envolver com a morte eu possa viver da melhor forma a vida. E quando ela chegar, desprendo-me da necessidade da vida, só porque assim é o jogo, sem milagres ou promessas tardias, apenas morrer sabendo ter feito o melhor que pude quando é para fazer, em vida!

4 de Julho

Patriarcas Ip Man e Moy Yat.

Há na humanidade um sistema dividido em seis domínios, três fases e gerações de adeptos, aspirantes e apaixonados por ele. Este sistema, de nome Ving Tsun Kuen, mais conhecido como Ving Tsun, é o único fundado por uma mulher e tem sua origem no monastério Siu Lan, na China, há centenas de anos.

Por sua excelência, não bastou à arte limitar-se a seu território de origem se expandindo pelo mundo, de modo que hoje não está submetida a ser apenas uma “pratica chinesa”, mas sim, um patrimônio cultural intangível da humanidade.

Como patrimônio cultural, herda uma série de características de seu berço, como intangível e da humanidade, agrega valores de diversas culturas e povos. Para chegar aos tempos atuais foi necessário passar pelas mãos de grandes homens e mulheres especialmente preparados para este fim; como benefício, legou a seus transmissores capacidades impares para, por exemplo, desenvolverem seus potenciais e dos que estavam a seu lado.

Conta a lenda, que um homem de conduta refinada e caráter ilibado foi consultado em determinada ocasião por uma mulher que buscava a cura para seu filho, este sofria de mal grave no joelho. Ao ceder a consulta, o homem receitou ao menino, doce.

Lembrando da origem da nossa história, sabe-se que tal cultura preza o trabalho de maneira indireta, buscando o resultado fim por meios, as vezes, tangenciais a situação necessária. Como pagamento, tal homem disse que aceitaria apenas a visita regular de seu jovem paciente, desta maneira, cedia a ele seu remédio, este mestre se chama Ip Man.

Esbalda-se da mesma cultura outro homem, parecidíssimo, com o primeiro. Disposto a seguir com seu aprendizado, transformou à maneira correta que aprendeu em maneira correta de ensinar possibilitando ao mundo acesso ao maravilhoso e adaptável método. Por tamanho seu sucesso, tantos outros, de igual distinção, o seguem. Seu nome, Moy Yat.

Patriarca Moy Yat, Grão Mestre Leo Imamura e Mestre Senior Julio Camacho.

Com o tempo, soube-se do imperativo da adaptação ao outro lado do mundo, depois disto, mais uma Obrigação; é que para sobreviver, teria de ser reforçado, transmitido a legítimos legatários e protegido. Daí a caixa onde se apresenta ao mundo um outro nome: “Ving Tsun Experience. ” Entenda que o nome sugerido em idioma bastante conhecido, não foi mero preciosismo.

Foi por pouco que o pedido do Mestre tenha chegado as oiças de um dos seus discípulos de nome Leo Imamura, pouquíssimo mesmo. Contudo, foi por muito, muito fazer, muito dedicar, muito refinar, que a missão se cumpre até hoje com sucesso.

Acontece que por ouvir, diz- se muito mais sobre obedecer, executar a tarefa de maneira exemplar e ímpar. Percebo deste, o que já é comum na ancestralidade para mim, a capacidade de ouvir é requisito do bom discípulo. Ainda assim, ele é genial, não apenas por si, mas pelo exemplo a ser seguido.

Grão Mestre Leo Imamura e Mestre Senior Julio Camacho.

Que o benefício gerado por nossos antecessores deve ser aproveitado, não é novidade. Contudo, um destes expoentes legatários procura inspirar sempre a apropriação adequada de todos os usos.

Apropriar-se, diz respeito a tomar para si a responsabilidade de um processo. Tomar para si, sugere ser dono.

Seguindo com rigor o conteúdo disponibilizado por seu mestre, meu Si Fu entendeu, reproduzindo seu exemplo, de forma impar, a melhor maneira de uso.

O Ving Tsun Experience, entende o Si Fu, é um patrimônio de nosso clã. Por esta lógica, nasce o Programa Fundamental. A experiência que o aluno tem é muito similar a de uma academia. Há mensalidades, horários específicos, e instrução direta e objetiva. Aos poucos, é apresentado a este possível membro da família noções do Kung Fu em seu mais puro sentido.

Caso se interesse, esta pessoa pode galgar o próximo degrau, tornando-se um membro de nosso clã. Si Gung usou o nome do programa em inglês por razões específicas, segue seu exemplo meu Si Fu. Como intenção estratégica, o objetivo é difundir a arte, também por similaridade, a proteção do programa posterior.

Em linhagem direta, sou eu o próximo desta lista. Estou absolutamente ciente da responsabilidade, de igual maneira, absolutamente tranquilo. Percebo que a grande habilidade de todos os meus ancestrais foi se aproveitar do movimento anterior, de igual maneira, assim farei.

Não preciso de forma alguma ser criativo, preciso apenas, o que não é pouco, ter Kung Fu; e mesmo no caso de não ter o suficiente no momento preciso, há muitos em quem ou em que, como disse no início, o sistema é maravilhoso, inspirar-me.

Para mim, este o verdadeiro sentido do legado.

Nem para esquerda ou à Direita, em frente.

Deusa Têmis, deusa Grega da Justiça.

A representação da Justiça, no caso dos ocidentais, é baseada na Cultura Grega. Por esta cultura, a meu entender, diz-se que para ser justo é necessário estar cego, ou seja: não deve haver qualquer tipo de olhar apaixonado ou censurador a qualquer uma das partes;

É imperioso, saber pesar o que for exposto em razão direta a seu contrapeso, além de ser vital ter poder, no sentido do moral e conquistas prévias, para determinar qualquer ordem.

Todas estas prioridades são representadas pela venda, balança e espada; além da própria figura que é representada por uma mulher, mas que não vou me ater agora.

Trazendo para a realidade da experiência marcial, vejo algumas possibilidades semelhantes; A guarda, é o ponto de equilíbrio e ponderação entre pessoas adversas, estas ponderações são relevantes já que é por elas que chegaremos a representação de poder, o golpe.

Por último, os olhos bem abertos, principalmente no “momento derradeiro” que é quando há o toque. Isto ocorre, pois em um embate justo, no sentido de justeza, não existe equidade das partes; o que se busca é a desigualdade, vence quem tem mais Kung Fu, é este o esperado.

Repare que as possibilidades acima vistas não dependem de nenhuma habilidade prévia, mesmo técnica. O importante é como, naquele momento, “tendo razão” ou não, apresenta-se a própria verdade.

Para se vencer, em termos mais adequados a minha realidade “ocupar o meio, ” é obrigatório fazer desvios para esquerda ou à direita jamais esquecendo o resultado final, “energia para frente, Chung Chi, ” que é representada pelo soco, por exemplo. Há vários pontos que eu poderia associar a meu entender sobre a justiça, mas, neste ponto específico, energia para frente, creio que não só as pessoas responsáveis pela justiça, mas também toda a sociedade poderia e deveria se valer.

Restaurante Chon Kuo, 2016

Sobre os desvios necessários, usei termos como direita e esquerda, a razão disto foi usar determinada maneira de falar, para tratar do assunto. A rigor, quanto mais criativo e experiente somos, percebemos novas possibilidades de desvios; por exemplo: retroceder, em diagonal ou simplesmente não se mover.

Há na sociedade certo desconforto que me parece desnecessário com relação a palavra, e sua orientação, retroceder. Mesmo na experiência marcial, vi praticantes fazerem movimentos sem sentido pela justificativa de: “no Ving Tsun, não se anda para trás. ” Deixe-me propor uma reflexão sobre este isto:

Certa vez, em um restaurante com Si Fu, achando que estava trabalhando a energia para frente, pedi ao garçom água com gás e um limão espremido para ele antes mesmo de se sentar a mesa; claro, eu vi ele fazendo estas combinações de bebidas em determinada ocasião e achei que era uma regra.

Bem, não era o caso, quando o pedido chegou ele me perguntou porque eu havia pedido aquilo, justifiquei que ele sempre bebeu. Sua resposta foi:

“Eu bebo porque você sempre pede, faço isso por zelo a você, que tal você começar a prestar atenção em mim? “

Checar com Si Fu o que ele quer beber antes de pedir é um desvio no Chung Chi; minha intenção foi boa, mas acabei atropelando o processo. A partir de então, comecei a perceber que “no Ving Tsun”, as vezes, é preciso recuar; o ponto de confusão é que quando se recua, ou vai para qualquer outro lado que não em frente, faz-se apenas para criar condições de seguir adiante, nada mais.

Partida de Mestre Senior Julio Camacho e Senhora Márcia Moura Camacho para os EUA, 2020.

A devida atenção aos detalhes é fundamental para o desenvolvimento da cultura. Desvios sempre acontecerão, saber se aproveitar do melhor daquele desvio e entender como se desvincular tão logo seja necessário ou possível e sem paixões exibem um alto nível de Kung Fu.

Mais importante, é entender que o todo, necessariamente, vem antes da parte. Por isso, ainda que se discorde eventualmente de qualquer ponto, caso seja benéfico ao todo e maléfico apenas ao próprio ego, faz- se necessário abrir mão da individualidade para o bem que é maior, não deixando de se aproveitar, ainda que de maneira egoísta, do que a proposta diferente tem de favorável a oferecer.

Concluo dizendo que se aproveitar do que está avesso é sinal de inteligência, abrir mão da individualidade pelo todo, de maturidade, criar um cenário outro, não comtemplado pelas visões opostas mas exatamente a partir delas é o estado de arte.

Afinal, seja no Kung Fu, justiça, política ou outro cenário, é importante entender que desvios pela esquerda, à direita, ou qualquer outro são facilitadores, e não paralisadores do que é mais importante que é seguir em frente!

Vestimenta

Exemplo de Vestimenta Chinesa.

O ser humano, como um animal simbólico, tem habilidade de criar signos diversos para um mesmo objeto. As roupas, além de seu uso objetivo que é o de proteger o corpo contra eventos externos, pode identificar estatus, personalidade, estilo, ou adequação do indivíduo ao todo.

Dada a relevância de seu uso, acima expresso tanto a necessidade de sobrevivência portanto sua relevância biológica, quanto a de potencial ,neste caso, social ou subjetiva. Nós casos últimos, note que bastando divergência da cultura ou troca de pessoas a regra muda drasticamente.

Outro ponto que destaco é que embora separe a chamada relevância biológica das demais, a escrita da palavra “uso”, refere-se ao aproveitamento de seu potencial em qualquer das situações.

Por isso, gostaria de afirmar que a roupa pode contar uma história sobre seu usuário, quanto mais hábil o personagem, mais fidedigno será seu conto.

Cerimônia de Reafirmação Discípular, 2019 .

Na cerimônia de discipulado, é recomendado que o cerimoniando use ao menos uma peça de roupa nova. Eu entendo que sua razão seja a preparação do início de um novo momento e muito embora exista essa orientação, é possível notar que não se direciona a tipos específicos de roupa, aí entra certo nível de criatividade. Contudo, caso o personagem seja tão criativo a ponto de se destacar do todo, obviamente ele perceberá que está inadequado!

Basicamente, o que está sendo dito é que todas as pessoas tem liberdade de viver de acordo com seus valores, e, ao mesmo tempo, é importante observar e cumprir a regra geral. Para mim, este é o ponto mais incrível abordado no Kung Fu já que, a meu ver, é o verdadeiro indicativo de uma certa camada artística, muitas vezes associada a criatividade.

Nestes momentos, lembro o quanto Si Fu exige de mim uma adequação, entre outras, a vestimenta. Não é apenas pela posição ocupada, que claro, é importante ser observada, mas ao desenvolver de minha expressão pessoal absolutamente associada ao todo.

Savana Africana, Angola. 2017.

Há ainda determinado aspecto que é absolutamente importante, imagino que por poder passar despercebido.

Certa vez, quando eu finalmente achei que tinha acertado a vestimenta, e de fato estava bem vestido, Si Fu perguntou como estava a condição de uso de minhas meias; eu não soube responder, obviamente não tinha pensado já que acreditava que por não aparecerem não eram importantes; foi isto que respondi ao Si Fu. Claro que este tipo de resposta mostra apenas a falta de observação sobre si, Si Fu não queria saber de minhas meias, queria saber sobre o quanto eu estava atento ao processo como um todo.

Em uma perspectiva mais profunda, este tipo de observação é capaz de mostrar como nos apresentamos quando ninguém nos vê. No caso, claramente expus que se não sou monitorado por outros eu não me importo sobre a adequação de meu agir.

Ainda sobre o assunto, reflito: o que há de mais intimo na vestimenta de um ser humano são as peças intimas. Considerando que apenas o usuário tenha ciência de suas condições, e usando tais peças por uma perspectiva simbólica, pergunto- me o quanto sou capaz de fazer o meu melhor mesmo quando ninguém me vê, ou, se sou narcísico, no sentido de me expor sempre da melhor maneira ao outro e esquecendo que o melhor deve ser apresentado em qualquer cenário.

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