O autoconhecimento é matéria de qualquer arte ou filosofia que busca o desenvolvimento humano. Por ser comum, há uma visão geral sobre o que seria ter ou estudar este particular. Por isso, vejo um contrassenso, já que, embora o conhecimento possa ser apreendido, o que se aprende é diferente para cada indivíduo. Mais complexo ainda fica quando este conhecimento se depara com o sufixo “auto”, ou seja, voltado para si. O que reforça o argumento. Ou seja, é válido o argumento do autoconhecimento, e vejo benefícios em ser comum. O problema é a maneira como se abordam as estruturas que prometem o aprofundamento deste saber.
Por exemplo, ao se falar da procrastinação, que é um problema comum, propõem-se algumas técnicas para lidar com isso, em geral, e aqui reside o problema, técnicas iguais para indivíduos diferentes. A procrastinação é o problema da moda, mas existem outros, como o transtorno de ansiedade, por exemplo.
Mas não só isso, existe a pessoa com Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade, o famigerado TDAH. O curioso é que este diagnóstico é feito em crianças. Falando só sobre a hiperatividade, imagino que hajam maneiras de se identificar essa questão, mas certamente não poderia ser uma criança de 5 anos não suportar ficar sentada e prestando atenção a um assunto de desinteresse por mais de 5 minutos. Fora isso, temos um outro grande problema, o rótulo.
No dia a dia, é comum encontrarmos adultos se valendo de um diagnóstico, eventualmente mal feito, para justificar sua fragilidade na atenção, isso se vale pelo acelerar dos movimentos ou determinada letargia. Por isso, fica a pergunta: se já sabe o problema, o que falta para resolver?
Voltamos então à questão do autoconhecimento, que me parece fundamental para lidar com qualquer tipo de questão. Mesmo assim, é importante estar atento às soluções da moda e aos rótulos impostos por autoridades, ou não, no assunto. Ou seja, é preciso ter à mão ferramentas que são capazes de nos proteger e, ao mesmo tempo, verdadeiramente nos convidar às profundezas de nosso ser. Falo precisamente sobre a arte marcial.
Dispositivos de Atividade Marcial. Despedindo-me do Si Fu e do meu irmão Kung Fu.
Há alguns anos, tenho que lidar com consequências prejudiciais decorrentes de casos específicos de transtorno de ansiedade. Esses casos seguem um padrão, que são sutis, mas identificáveis. Dada a sutileza dos sintomas, sua percepção é possível apenas através de um conhecimento profundo do meu próprio corpo, mas também sobre a forma como lido com situações.
Para compreender melhor todo este processo, precisei procurar por alguns médicos, fiz uso de alguns fármacos, inclusive. Sem dúvida, a orientação profissional e a regulação química me ajudaram a lidar com o problema. Mas não resolveram. Lembro que o que me fez deixar de usar o remédio foi uma conversa com a médica, disse que não queria mais usá-lo, queria me experimentar sem apoio. Sua resposta foi que a decisão seria minha e me deu mais algumas receitas para caso eu mudasse de ideia. Não mudei.
Essa decisão foi crucial no sentido de percepção. Estou bem mais consciente do que me desestabiliza, a ponto de ter condições de atuar antes da situação sair do controle. Até então, ciente dos sintomas, eu achava que o que os desencadeavam era a ação do outro. Incomodava-me a necessidade de esperar pela opinião do “grupo” para tomar decisões em questões de trabalho ou lazer. Mas então, por que esperava?
Em mais um momento de decisões, e já sentindo as pontadas de desconforto peculiares, fiz contato com Si Fu comentando sobre o que chamei de “letargia” do grupo. E de novo surgiu a pergunta:
“Por que espero?”
Dispositivos de Atividade Marcial. Yam Chá com Si Fu e irmãos Kung Fu.
A resposta é simples: Espero que decidam por mim, espero também, caso dê errado, que eu não seja responsabilizado pelo prejuízo, já que outros tomaram a frente. Espero poder responsabilizar o alheio, neste caso, nem precisa ser outra pessoa, pelas mazelas de minha própria vida. Espero, por fim, que vivam por mim, pelo medo único de não ser capaz.
A conversa com Si Fu foi rápida, mas anos de experiência marcial te ajudam a extrair de pouco, todo o sentido. Quem sabe, foi apenas todo o investimento que Si Fu fez em minha experiência que só agora está fazendo sentido. Experiência esta absolutamente individualizada e zelosa, sempre buscando um sentido marcial.
Pude perceber então o que para mim hoje é a verdade mais preciosa; a responsabilidade sobre meus processos e minha vida é absolutamente minha, independente e/ou justamente por conta dos diagnósticos e vivências do passado. Vem aí um momento muito importante para minha carreira, pretendo fazer deste um grande marco. Tenho muito medo de que dê errado; às vezes, esse medo se manifesta em sonhos e me atrapalha o sono. Mesmo assim, em respeito a meu mestre e a todo o investimento que fizemos em meu Kung Fu, garantirei que seja o melhor que já fiz até hoje.
Representação de uma árvore genealógica através de seu DNA
O DNA é a base molecular que explica a hereditariedade e a transmissão de características genéticas de pais para filhos. Em uma família, os membros compartilham uma parte significativa do seu DNA, o que explica as semelhanças físicas e predisposições genéticas
Uma representação visual das relações familiares e linhas de descendência é chamada de árvore genealógica. Ao mapear uma árvore genealógica, é possível rastrear como o DNA e as características genéticas foram passados de uma geração para outra. Assim, o estudo do DNA pode ajudar a confirmar parentescos e a compreender melhor a história genética de uma família.
Em geral, a relação entre praticantes de artes marciais também é baseada em uma estrutura familiar, onde as características daquela família podem ser facilmente reconhecidas, já que estes membros também compartilham parte significativa de seu DNA. Neste caso, como nem todos fazem parte da mesma tipagem sanguínea, ou seja, são parentes, o DNA é chamado de DNA cultural.
Viagem dos Líderes da família Moy Jo Lei Ou aos EUA.
Fazendo parte da linhagem Moy Yat, nosso compromisso é a transmissão pura e integral do Sistema Ving Tsun. Isso significa que tudo o que for transmitido deste sistema será sua essência, sem interpretações distorcidas ou desvios; para mim, isto significa a pureza. Quanto à integralidade, é a garantia do aprendizado de todos os seis domínios, do Siu Nim Tau ao Baat Jaam Do, sem ausências ou inclusões.
Assim sendo, é possível entender que a prática de um sistema marcial possui princípio, meio e fim. De fato, é isto. Mesmo assim, nota-se que, após a conclusão do sistema, os discípulos continuam seguindo seu mestre e assim se desenvolvendo. Isso acontece porque a prática do sistema possibilita o desenvolvimento do Kung Fu, que é material, por ser expresso através de pessoas, e infinito, já que não está limitado à condição física delas.
Para aprofundar o entendimento, o que chamo de Kung Fu é justamente a expressão pessoal do líder de família na execução, transmissão e tradução daquela arte. Ou seja, a técnica do sistema é comum, mas a forma como se aborda aquela técnica ou se extrapola seu sentido é individual a cada núcleo familiar. Eis, portanto, uma representação do que meu Si Fu chama de DNA cultural.
Minha primeira foto Si To. Herança Cultural
Como somos uma escola de Kung Fu e não uma escola de um sistema marcial, é necessário que nossa expressão marcial extrapole o ambiente do Mo Gun, que é o espaço idealizado para o aprendizado do sistema e desenvolvimento do Kung Fu. Por isso, a todo momento, somos convidados a experienciar o sistema fora do ambiente ideal. Isto pode ser desgastante em diversos níveis. Para mim, uma explicação para o desgaste é a dificuldade de entender que o conteúdo marcial pode ser percebido nas ações corriqueiras do dia a dia; quanto mais comum, melhor. Fazendo desta forma, o que acontece é o desenvolvimento de um novo tipo de inteligência.
Como é desgastante, é crucial que exista um grupo coeso e disposto a se desenvolver e se apoiar mutuamente nos momentos de fraqueza; esta é a árvore genealógica, ou seja, a família Kung Fu.
Em nosso caso, na família Moy Jo Lei Ou, entendo que todo o aprendizado se desenrola para um fim muito específico e maior que qualquer leitura superficial. Para mim, o apoio é o principal registro de nosso Si Fu e, portanto, a expressão de seu próprio Kung Fu. Não à toa, e há muita sabedoria e experiência marcial nisso: Seguir juntos!
Receber um convite para tomar alguma coisa pode estar relacionado a um momento de pausa. Nessas horas, o esperado é sair do ambiente em questão e desfrutar do descanso e de uma boa conversa com amigos. Às vezes, não é necessário que a pausa esteja relacionada com a bebida; basta sair do ambiente para se desconectar.
De fato, momentos de pausa contribuem para uma melhor absorção do aprendizado ou como um refresco para situações críticas. De toda forma, quando falamos em estratégia, percebemos que é mais útil descomprimir em vez de desconectar. Porque a desconexão aponta para o abandono, momentâneo ou não, do cenário anterior, enquanto, na verdade, e na maioria das vezes, a necessidade é de tempo para uma interpretação mais adequada. Desta forma, é possível entender melhor determinados aspectos da experiência marcial que, por vezes, são nebulosos e, por falta de tempo e descompressão, mal interpretados.
Por exemplo, Yam Cha (飲茶) literalmente significa tomar chá. Como é comum na China o consumo de chá, ele está presente em qualquer momento do dia, seja no café da manhã, almoço ou jantar. Além disso, o convite para Yam Cha não está necessariamente relacionado ao consumo do chá ou à necessidade de refeição; neste caso, como eu disse, pode ser apenas uma desculpa para a descompressão ou mesmo uma mudança estratégica de cenário.
Entenda que uma das formas de se reconhecer uma pessoa é investigando sua conduta diante de cenários diversos do dia a dia. Sobretudo em momentos e necessidades de sobrevivência, como é o caso da alimentação. É curioso perceber que a sociedade, de maneira geral, ocupou-se de criar mecanismos de observação de conduta através do que se chama etiqueta, que é, em definição simples, um conjunto de regras e normas de comportamento social consideradas apropriadas. Há, por exemplo, maneiras apropriadas para se comportar à mesa, que envolvem a ciência do uso de talheres, manejos e trejeitos, e assim por diante. Há também o que chamarei de conduta marcial à mesa. Por fim, para mim, cabe entender como ambas podem se complementar e assim podemos nos tornar seres humanos completos.
Sobre a origem da chamada conduta marcial, conto a seguinte lenda:
Para ser aceita no monastério, a criança era deixada à porta de entrada por seus pais. As razões podem variar, mas o que é aceito de forma geral é que os pais, ao fazerem isto, objetivavam garantir um futuro digno a seus filhos, uma vez que lá, no monastério, era garantido acesso a alimentação, trabalho e estudo. Então, a criança que conseguia passar alguns dias à porta, lidando com as intempéries do tempo e a fome, era enfim convidada a adentrar ao recinto. Lá chegando, deparar-se-ia com uma longa mesa onde era convidada a se sentar e aguardar. Imagino aqui o tamanho de sua surpresa ao perceber que na mesa estava disposta uma xícara e um biscoito um tanto duro, mas milagrosamente disponível. Então, considerando a fome e todo o cansaço, não é difícil supor que esta criança, de imediato, ignorava a presença da misteriosa xícara e também a recomendação de aguardo, e se servia daquele alimento que provavelmente era o único em tantos dias, dado o momento no qual se encontrava, tão pouco importava seu sabor ou condições. Bem, lamento informar, mas, tal qual o tempo de espera, o biscoito e a xícara também eram um teste.
Passados alguns momentos, reunia-se aos neófitos um monge que ali era o mais antigo. Este se sentava à mesa e então era servido o chá. A criança, embora com o estômago um pouco mais forrado, ainda faminta, de imediato estendia sua xícara e só então percebia ser esta sem fundo. Atônita, olhava para o monge mais antigo e compreendia a razão: ele recolhia seu próprio biscoito, postava embaixo da xícara para que fizesse as vezes de fundo e então tinha condições de sorver seu chá. Em seguida, com o biscoito amolecido por conta da bebida quente, poderia comê-lo. Assim, surge o costume que temos de sempre aguardar o mais antigo, considerando que este, através de seus exemplos, será capaz de instruir a melhor conduta.
Yan chá com Mestre Senior Julio Camacho, 2010.
Por isso, muitas vezes nossas práticas acontecem em restaurantes. Lá, desenvolvemos o arcabouço necessário para expandir a experiência marcial para qualquer cenário. O estudo da conduta marcial em restaurantes chineses é particularmente interessante, uma vez que precisamos aprender novas maneiras e entender como adaptar antigas.
Por exemplo, ao fazer uma análise sobre a disposição de mesas em restaurantes chineses, percebemos claramente três círculos. Do todo para a parte, notamos a mesa em si, que é redonda. Essa disposição propõe a integralidade do grupo, uma vez que favorece os membros da mesa a se olharem, já que não há quinas e pontas. Outra questão: para saber quem é o líder da mesa, é preciso estar particularmente atento, já que não existe em tal cenário uma posição central.
O segundo círculo diz respeito a comida que fica disposta em um outro circulo, pouco menor que a mesa, giratório. Então, ao se servir, é necessário considerar todos os participantes já se corre o risco de na tentetiva de trazer determinado prato para si, retirar do outro a oportunidade de se servir. Outro ponto a se observar é que, em geral, não há pratos individuais, o que indica que o pedido é sempre para a mesa, ou seja, para todos.
Por último, temos os pratos. Estes representam o círculo pessoal. Notem que este é o único círculo onde as condicionantes são pessoais. Não é por acaso que ele é o último dos círculos e também o menor; mesmo assim, também é importante e, portanto, representado. Simbolicamente, o registro primário é de que o mais importante é o maior, a mesa, por seu tamanho. Quero dizer, é maior pois comporta mais, muito mais que a necessidade individual, mas a necessidade coletiva.
Contudo, o último lugar no sentido da importância é perfeitamente mutável, já que este é, em sim, um indicativo de olhar, não uma ordem. Portanto, se para a pessoa, o mais importante seja o círculo pessoal, o prato, à rigor, não há problema. Ela é como a criança do conto, necessitada de cuidado e incapaz, ainda, de pensar para além de si. Neste caso, cabe ao mais antigo notar e cuidar. Portanto, não existe aqui uma relação de primasia, apenas, praticantes de de artes marciais fazendo seu melhor.
Yan chá com Mestre Senior Julio Camacho, 2024.
Nota-se, portanto, que a descompressão é uma dinâmica importante para o desenvolvimento marcial. Contudo, em alguns casos, é preciso tempo para que o praticante desenvolva essa consciência. Todo o conteúdo marcial que compartilho nesta página é de alguma forma oriundo do meu mestre, seja direta ou indiretamente. Abaixo segue um aprendizado direto que tive há alguns anos, e que até hoje reverbera a ponto, inclusive, de escrever este texto.
Há alguns anos, Grão Mestre Leo Imamura, que é o mestre do meu mestre, estava no Rio, em visita à família Moy Jo Lei Ou. Em uma pausa para o almoço, decidimos levá-lo a um restaurante chinês. Era, inclusive, a primeira vez que eu teria a oportunidade de comer em um. Ciente dos preceitos da experiência marcial, me achando incapaz de atendê-los, com fome e cansado, pensei ser mais prudente sentar afastado de Si Fu e Si Gung a fim de não envergonhar meu Si Fu diante do Si Fu dele e, quem sabe, simplesmente comer em paz. Naquele contexto, era óbvio que minha necessidade pessoal era maior que todo o contexto. Como sempre digo, a todo momento, a Vida Kung Fu nos propõe uma atitude objetiva e discreta. Mas nem sempre estamos atentos a ela. A escolha do lugar foi curiosa. Minha estratégia era ver onde Si Gung iria sentar; Si Fu certamente sentaria próximo, assim, eu poderia escolher um local um pouco mais distante. Acontece que, quando entrei no restaurante, estava próximo demais de Si Fu e Si Gung. Como eles rapidamente se sentaram, ficou uma cadeira vaga exatamente ao lado de Si Fu e na frente de Si Gung. Um pouco desconfortável, eu sentei; não havia outra coisa a se fazer.
Em seguida, a comida chegou e todos se serviram. Eu estava tão tenso que estava travado; me questiono se, inclusive, respirava. Com muita naturalidade, Si Fu serviu Si Gung e a si mesmo. Como eu ainda estava travado, ele me serviu. Achei o gesto dele estranho, mas me serviu de alerta: eu precisava me destravar e viver aquela experiência. Logo em seguida, servi chá para Si Fu. Ele ficou me olhando, mas eu não tinha entendido. Rapidamente, ele pegou o bule de chá e serviu Si Gung.
Pensei: Agora entendi.
Passado um tempo, servi chá a Si Gung e me voltei para meu prato. Si Fu me deu uma sutil joelhada. Mais uma vez, olhei sem entender. Outra vez, rapidamente, ele pega o bule e agora serve a si mesmo. Pronto! Agora tinha de fato entendido. Eu precisava estar atento ao Si Gung e ao Si Fu. Deste momento em diante, não deixei de servir os dois. Estava até satisfeito comigo mesmo.
Passado outro momento, sinto um beliscão na coxa esquerda. Olho para Si Fu com cara de bobo; ele continua comendo. Noto que os dois estão bem servidos. O que será que houve? Talvez percebendo que eu não tinha entendido, ele pergunta:
“Gui, você não vai comer?” Só então notei que meu prato estava intocado. Simplesmente esqueci de mim; a fome tinha passado.
É evidente que eu poderia ter me escondido e não seria um grande problema, além do prejuízo à experiência, mas há tempo, sempre há. Mesmo assim, tive a sorte de ser incapaz, no sentido de estratégia, de fugir. Somente assim pude notar algo fundamental: servir é um ato de grande maturidade emocional e precisão. Portanto, se a experiência for bem conduzida, todos, o tempo todo, estão se servindo. Como meu Kung Fu à época era tão imaturo, Si Fu precisou redefinir protocolos para me ajudar a voltar à experiência. Desta vez, Si Fu deixou explícito o cuidado que tem para com seus discípulos.
À medida que estes vão amadurecendo, seu cuidado é cada vez mais sutil. Portanto, para balancear, devemos ampliar nossos cuidados com ele. Afinal, se nosso entendimento é que devemos apenas servir chá, entendemos algo sobre o desenvolvimento marcial, mas absolutamente nada sobre Kung Fu.
Então, é necessário entender que toda a vivência do cenário marcial é em si incompleta. É preciso expandir o cuidado a ponto de além de exímio praticante, tornar-se um ser humano completo.
Entendo a unidade como uma reunião de várias partes que compõem um todo. A construção de uma unidade é essencial para criar sistemas eficientes e funcionais. Falando sobre o corpo, existem segmentos diversos que possuem especialidades bem definidas. Por exemplo, as pernas têm o papel de proporcionar sustentação e deslocamento. Já os braços têm a especialidade de interagir e manipular o ambiente. Devido à sua especialidade proposta, as pernas possuem mais força e capacidade de explosão, enquanto os braços têm destreza e amplitude de movimento.
Falei, portanto, da parte como o todo. Sobretudo em sentido marcial, ambos, braços e pernas, possuem o dever de proteger o corpo. Saber usá-los em conjunto pressupõe habilidade, que origina, a posteriori, a capacidade de uso em separado. Separados na forma, mas em conjunto em seu conteúdo.
Chi Sau com Mestre Senior Julio Camacho
No sistema Ving Tsun, na trilogia fundamental, período que compõe os três primeiros níveis do sistema, percebe-se uma construção bastante coerente com a proposta de criar uma estrutura forte e, aos poucos, variá-la. No Siu Nim Tau, primeiro nível do sistema, nota-se uma preocupação grande com a construção de padrões. Por exemplo, a linha central e o posicionamento frontal. Neste domínio, o praticante não faz deslocamento das pernas, percebendo, portanto, as nuances e necessidades para se manter de pé. Em seguida, no estudo do Cham Kiu, o praticante explora a linha central e o posicionamento frontal a partir do deslocamento da base. Por fim, nesta fase do sistema, temos o Biu Je, onde o praticante desenvolve a capacidade de, ao perder a linha central, retornar a ela de forma rápida e precisa.
Aos praticantes do sistema Ving Tsun, creio que as percepções compartilhadas acima não sejam novidades. Contudo, ainda seguindo a proposta de unir partes para construir o todo, e, em sequência, desconstruir o todo para perceber as partes, pergunto-me o quanto, nesse estudo, é considerada a movimentação da cabeça; por fim, e me parecendo menos percebido ainda, como seria o trabalho e o estudo do uso dos olhos. Quero dizer, perceber o trabalho de grandes segmentos como braços e pernas é simples, por conta de sua perturbação visual. Perceber os menores detalhes já requer uma atenção mais aguçada.
De todo jeito, antecipo já aqui uma proposta de estudo com os olhos. Basta seguir os mesmos princípios exigidos pelos domínios aos segmentos maiores. Ou seja, em Siu Nim Tau, os olhos estão estáticos e relaxados, fitando o horizonte e percebendo o máximo de nuances possíveis. Em seguida, no Cham Kiu, os olhos acompanham o movimento, portanto, se movem, e é exigida a necessidade de foco na parte. Já no Biu Je, como o que há de mais leve e rápido no corpo, eles são os primeiros a chegar e, portanto, dão a direção para onde o corpo irá se mover.
Mestre Senior Julio Camacho e seu simbolismo familiar
Portanto, da mesma forma como é possível trabalhar especificamente partes estratégicas do corpo, é possível transmutá-las e fazer com que assumam papéis diversos, de acordo com a necessidade e habilidade manual. Propus um estudo dos olhos inserindo-os no contexto marcial proposto pelo Sistema Ving Tsun. Em uma escala mais ampla, vale extrapolar a capacidade deles, me refiro ao estudo proposto antes, e dar a eles uma acuidade mais refinada e simbólica. Em outras palavras, ao se deslocar, primeiro vão os olhos, depois o restante do corpo. Em estratégia, antes de se expor a qualquer cenário, é crucial ver onde se está se inserindo; apenas a partir de então, deslocar-se sem medo. Estes olhos podem, em uma escala mais refinada, ser representados pelas mãos. Ou seja, com as mãos é possível “ver” onde está o oponente, portanto, não é necessário olhar para ele, apenas senti-lo.
Assim, extrapolamos a capacidade de olhar, passando pela habilidade de ver e chegando ao ponto último que é perceber. Em uma foto, por exemplo, é possível olhar uma série de imagens; isto não significa que elas serão vistas. Menos ainda, que todas as nuances daquela imagem serão percebidas. Por isso, seja pelos olhos, pernas ou mãos, o que mais vale é a capacidade de transmutar a experiência para qualquer cenário do dia a dia. Talvez assim, em caso de algum tipo de desconforto no cenário marcial, seja possível ver com outros olhos a mesma experiência para, a partir daí, perceber outras coisas impossibilitadas pelo eventual amargor do cenário marcial.
A cada dia, desenvolvo com meu Si Fu a capacidade de trabalhar a precisão em diversos níveis. Como praticante de artes marciais, meu estudo inicia pelo corpo. Se o processo for bem conduzido, é comum que essa mesma precisão, iniciada pelo estudo do corpo, passe a ser espelhada para outros aspectos da vida. Então, temos o Kung Fu, que é a capacidade de desenvolver aprendizado e excelência em qualquer aspecto do escopo humano.
Para entender o que vem a ser humanidade, gosto de adotar a definição do idioma chinês, que considera que, para uma pessoa ser considerada humana, ela precisa se relacionar com outra pessoa. Isso se justifica pela relação dos caracteres que definem humanidade: o caráter pessoa (人) mais o caráter dois (二). Notem que o que está implícito é a necessidade de relação entre duas pessoas, representada pelos caracteres dois e pessoa, e não simplesmente a existência de duas pessoas.
Uma maneira de se relacionar é através da linguagem e suas variações, sendo a escrita uma delas. Por isso, neste texto, relaciono o desenvolvimento do Kung Fu através da palavra preconceito.
Sobre o preconceito, segue uma breve explanação:
O preconceito é um julgamento ou opinião preconcebida sobre uma pessoa ou grupo, que geralmente é baseado em estereótipos, desinformação ou falta de conhecimento. Esse fenômeno pode se manifestar de várias formas, incluindo atitudes negativas, discriminação e tratamento injusto, e é frequentemente dirigido contra características como raça, gênero, orientação sexual, religião, classe social e outras identidades.
Sabe-se que esta definição é a mais atual da palavra. Fazendo uso da experiência marcial, ou seja, a busca da precisão através do corpo, fui atrás do significado mais profundo ou original, desenvolvendo, portanto, meu Kung Fu, e me deparei com a seguinte definição:
O termo “preconceito” vem do latim praeiudicium. Prae- significa “antes”. Iudicium significa “julgamento”. Portanto, praeiudicium significava literalmente “julgamento antecipado”. Esta era uma palavra usada nos meios jurídicos.
Concluí, portanto, que o grande mal do preconceito não é o resultado em si, como a discriminação, mas seu julgamento antecipatório.
Reunião de Pré evento da terceira imersão na Vida Kung Fu da família Moy Jo Lei Ou
Por exemplo, há um aforismo no Kung Fu que diz: “esvazie a xícara”. Esse aforismo é utilizado quando a pessoa se direciona ao Si Fu repleta de desejos e preconcepções, em outras palavras, preconceito. Este preconceito pode ser de ordem prática e técnica do sistema ao qual se estuda ou não. Então, quando o Si Fu diz “esvazie a xícara”, ele sugere ao praticante que permita que seu recipiente seja preenchido com saberes outros e mais importantes para o momento daquela pessoa.
É importante esclarecer que a passagem da xícara vazia indica que o mais importante para a xícara é seu esvaziamento, ou seja, beber do líquido que ali está disponível para absorção e, sobretudo, digestão. Só então a pessoa estará pronta para absorver o próximo conteúdo. Para mim, isto indica que toda ciência prévia deve antes estar bem consolidada e desenvolvida. Na prática, nem sempre isto é possível, daí a relevância do Si Fu.
Ontem, eu estava bastante empolgado com determinada situação. Como há tempo para sua realização, planejei uma série de propostas em minha cabeça e as expus ao Si Fu sem refinamento, apenas as minhas concepções prévias. Como a proposta considerava uma pequena parte de todo o processo, Si Fu comentou que preferia não opinar e que eu visse com meus irmãos de Kung Fu, que estão no mesmo processo, qual o melhor caminho a seguir. Claramente, o que me aconteceu foi o evento da xícara cheia ou, para os termos deste texto, preconceitos.
Com Mestre Senior Julio Camacho, Junho de 2024.
Acontece que, muitas vezes, as associações oriundas das experiências do Kung Fu advêm da capacidade do praticante, sobretudo à medida que vamos nos tornando mais maduros no processo. Ou seja, o aforismo citado, de fato, faz parte do cenário. Contudo, sua evidência não deve partir do Si Fu, cabendo ao discípulo fazer as interpretações condizentes e se refinar sempre.
Após a experiência com o Si Fu, pus-me a refletir sobre o porquê de sua resposta. Todo o texto trata da reflexão oriunda da experiência que pude fazer e agora compartilho. Ele não me falou sobre o aforismo de esvaziar a xícara, fui eu que associei. Fiz isso como um método de desenvolvimento marcial que aprendo com ele, que é a capacidade de trabalhar profundamente toda e qualquer questão, inserir a opinião alheia aos nossos processos particulares e entender como isso pode nos favorecer, e, sobretudo, tomar cuidado com as certezas. Estas são as principais causadoras de frustrações diante dos cenários da vida e muitas vezes nocivas ao todo que está em volta. Portanto, esvaziar a xícara é uma maneira útil, certamente não a única, de lidar com o preconceito
Meditação, um processo que auxilia o ” silenciar a mente”
A essência das artes marciais é contrariar o consenso. Esta é uma afirmação poderosa e requer um entendimento aprofundado para se ter acesso à sua essência. Contrariar é ir contra, em sentido oposto. Contudo, o sentido marcial propõe o contrário a partir da oposição da lógica, um novo caminho, em vez do embate. Por exemplo, no sentido de pensamento, em geral, a ordem comum é a partir de níveis onde o nível 1 é inferior ao 2, que é superior ao 1 e inferior ao 3, e assim vamos. Portanto, claramente é notada uma escala de superioridade. Nas artes marciais, a busca é entender os processos através de uma abordagem diferente, que eu chamo de pensamento lateral. Neste caso, a busca pelo saber acontece a partir do cenário onde estamos envolvidos.
Observe que a primeira abordagem, a mais socialmente conhecida, baseia-se no acúmulo de conhecimento, considerando apenas o indivíduo, sua capacidade cognitiva e o nível ao qual ele pertence. A segunda abordagem proposta pressupõe o uso da inteligência alheia, já que se desconsidera qualquer saber prévio para o fim de se aprender algo novo. Neste caso, usar outras inteligências é crucial para o bom andamento do processo.
Portanto, contrariar o consenso, no sentido marcial, diz respeito a mudar a lógica de pensamento dominante e aprender uma nova maneira de pensar, tornando-se assim mais inteligente, já que, neste caso, usar a inteligência alheia é fundamental. E não há mistério em entender as razões que justificam porque duas cabeças pensam melhor que uma.Portanto, ao falarmos de meditação, por exemplo, devemos entender que o estado meditativo exige do praticante sua capacidade máxima de presença, já que é imperativo que ele considere o tempo todo o ambiente ao redor e tenha, portanto, a capacidade de se atualizar constantemente. Por extensão, entende-se que a meditação deve ser considerada uma prática para além da capacidade interna ou pessoal, mas um instrumento de desenvolvimento da humanidade, humanidade esta que é definida pela conjunção de no mínimo duas pessoas.
Aula de Fundamentação, Núcleo Barra.
Podemos inclusive, nos apoiando no contrário do consenso, redefinir a ideia de tensão. Tensão, nos termos marciais, diz respeito a ligeira intensão. Isto significa que existe uma intensão fraca e sutil. Está intenção podemos nomear de energia de preenchimento. É ela que permite o avanço do movimento sempre para frente, como sua intenção é fraca, é inviável avançar a todo custo, portanto, o avanço advém a partir do cenário que se está inserido.
A primeira vez que ouvir falar sobre a energia de preenchimento foi com meu Si Fu. Na época, ele usou o exemplo da água armazenada em uma sacola de plástica. Ele dizia que a água fazia uma pequena pressão, o que gerava a forma da sacola, uma forma arredondada. Como era uma intenção fraca, não havia risco de estouro da sacola. Mas, caso se fizesse um furo na sacola, imediatamente a água por ali escorreria, indicando a energia de penetração.
Ou seja, a intenção sempre existe no ambiente marcial, no caso do Ving Tsun, essa intenção é ocupar o meio, especificamente, o ponto de referência. Contudo, ela é propositalmente fraca, apenas o suficiente para permitir que escorra, sempre que houver a possibilidade. Aprofundando a reflexão, podemos entender a necessidade de conformidade. Ou seja, adaptar-se ao cenário pressupõe habilidade de altíssimo nível. Em última análise, adaptar jeitos e maneiras de se portar, vestir ou agir, para mim, é o verdadeiro entendimento do que é expressão marcial. Portanto, ser como a água.
Aula Master com Mestre Sênior Julio Camacho
Repare que tudo o que foi dito sobre a água, a própria água não sabe. Ela é pelo simples fato de ser, pela sua natureza. Ela não pensa em intenção fraca ou em se conformar; ela simplesmente é assim. Neste sentido, creio que o que mais se poderia aprender com a água é seguir sua própria natureza.
Daí a relevância das artes marciais, suas práticas como a meditação e outras, e sua proposta diferenciada sobre inteligência. Tudo o que se deve fazer é seguir o fluxo natural, não intervir ou atrapalhar. Ser pleno em sua própria natureza. Fazer uso da humanidade de maneira profunda e ativa, mesmo assim, de forma suave. E lembrar, sobretudo, que tudo o que sabemos, ou achamos que sabemos, foi imposto por alguém. Portanto, talvez não seja o caminho que gostaríamos de trilhar para nos sentirmos plenos.
O entendimento sobre limites depende da condição pessoal, seja física, imaginativa ou de outra natureza. Em geral, sobretudo nas artes marciais, é comum percebermos o uso exagerado dos dispositivos estratégicos, ou seja, a transposição irresponsável dos limites. O problema é que esse tipo de postura pode gerar lesões graves e muitas vezes irreversíveis. Por isso, cabe considerar a seguinte definição de limite:
Limite pode significar a quantidade máxima ou mínima que algo pode alcançar.
Ou seja, caso exista algum tipo de restrição, é esperado que a pessoa considere essa restrição na execução dos movimentos. Por exemplo, quando há necessidade de agachar e, se por acaso houver alguma restrição muscular, o limite desse agachamento será a capacidade máxima do músculo das pernas. Por extensão, podemos trabalhar também os limites que definem, por exemplo, a zona de conforto. Veja, é absolutamente prazeroso e comum que, uma vez estando nesta condição, se deseje permanecer nela. Nestes casos, o que se sugere é a ampliação da zona de conforto; ou seja, em vez de ultrapassar os limites para se sentir mais desafiado, a estratégia é, aos poucos, aumentar a zona de conforto. Portanto, no exemplo sugerido, em vez de exigir do músculo a capacidade máxima de imediato, o importante é fazer com que, com o tempo adequado, este se torne mais elástico.
Portanto, o que vale é ampliar seus limites, até porque, por definição, limites não podem ser ultrapassados.
Mestre Senior Julio Camacho em conversa com seus discípulos.
Uma estrutura interessante para definir o estudo de limites, seja físico ou de interpretação/imaginativo, é o Mo Gun (武館), “salão marcial” ou “salão de guerra”. Perceba que, ao traduzir, é indicado o entendimento de salão, ou seja, um espaço físico limitado. O que limita o espaço seriam suas paredes e seu uso. Então, vale a interpretação de que o espaço físico do Mo Gun é o local onde se desenvolverá a experiência marcial. Mesmo assim, não me surpreendi ao ouvir do Si Fu, em nossa última conversa, que nosso Mo Gun era um banco de uma praça onde estávamos reunidos. Neste caso, o que é necessário fazer é expandir a capacidade imaginativa. Um salão, ou seja, um espaço físico limitado, é uma desculpa para se trabalhar a marcialidade. Uma desculpa, não a única. Portanto, é mais adequado entender que qualquer local é um bom local para chamarmos de Mo Gun, desde que naquele ambiente estejamos com a intenção de nos desenvolver enquanto seres humanos.
Despedida de Mestre Senior Julio Camacho. Junho de 2024.
Pessoalmente, gosto de traduzir o Mo Gun também como casa. Para mim, a minha casa é o local onde descanso e me preparo para os desafios do dia a dia. Sendo capaz de fazer do Mo Gun a minha casa, será possível expandir enormemente minha zona de conforto, uma vez que farei tudo o que é preciso para relaxar ou me recompor, mas sempre considerando a perspectiva marcial. Aliás, o Mo Gun é a casa de qualquer praticante de Ving Tsun. E cada um investe o tempo e a dedicação que julga necessária ou possível. Hoje, como sempre foi, mas em um contexto diferente, dedico o máximo de tempo possível para meu desenvolvimento pessoal em casa.
Confúcio, nome latino de Kong Fuzi, foi um renomado filósofo, pensador e político chinês cuja influência persiste até os dias de hoje. Confúcio acreditava que a sociedade se organizaria de maneira harmoniosa se as pessoas cumprissem seus papéis e responsabilidades com dedicação e moralidade. Ele propôs que cada indivíduo tivesse uma missão específica, baseada em suas capacidades e posições sociais. Ao inserir atividades e atribuir missões adequadas a cada pessoa, Confúcio acreditava que a ordem e a justiça prevaleceriam, promovendo um ambiente de respeito e prosperidade. A ênfase no autocultivo, na educação e no cumprimento dos deveres era vista como essencial para o desenvolvimento de uma sociedade estável e bem-ordenada. Além de suas contribuições filosóficas, Confúcio também deu importância à estrutura familiar e ao respeito pelos antepassados.
Todos esses preceitos também foram responsáveis pela formatação das bases para a prática das artes marciais, sobretudo, quando tratamos da contribuição do pensador ao que diz respeito a família Kung Fu. Portanto, há nestas famílias, de modo geral, uma definição muito clara de posições a qual cada membro deva ocupar. Como diz Confúcio, isso facilita a organização e a estabilidade daquela sociedade.
Outra discussão relevante para o propósito do texto trata do entendimento de como foi fundada as bases da hierarquia. Por exemplo, nas religiões, pode-se entender que aquelas figuras ou criaturas mais próximas da divindade específica de determinada crença possuem maior asernal de poderio mágico e autoridade espiritual. Portanto, toda autoridade advém da proximidade com Deus.
Jiu Paai da Família Moy Jo Lei Ou.
Imagino que a sociedade contemporânea, sobretudo a ocidental, tenha se baseado nestes princípios para se organizar e constituir-se como tal. Aqui também me refiro ao Mo Lan, ou seja, as famílias Kung Fu. Contudo, é importante um olhar cauteloso sobre a perpetuação destes saberes uma vez que há o risco real de em se repetindo a forma, perder-se a essência.
Um Si Fu, é o líder máximo de qualquer família Kung Fu. Portanto, toda a formatação fica a critério dele e de suas crenças, respeitando, claro, o que for essencial ao sistema. No caso da minha família, Si Fu costuma compartilhar as decisões com seus discípulos fazendo com que o direcionamento da família fique a critério deste grupo. Então, neste contexto, faz sentido entender que quanto mais próximo ao líder, maior poder, pessoalmente, prefiro o termo: responsabilidade de decisão, haverá. Mesmo assim, é importante compreender que não há nada de divino nesta articulação social.
Na família Moy Jo Lei Ou nós temos três programas para acesso ao sistema Ving Tsun e, portanto, ato sequente, ao Kung Fu. São eles: Fundamental, Experiencial e Tradicional. Dos três, o programa que mais gera acesso ao Si Fu é o último, o tradicional, justamente o que é reservado aos membros vitalícios, ou seja, discípulos. Além disso, Si Fu assume papéis diferentes de acordo com o grau relacional envolvido. Quero dizer, ele pode ser Si Fu(師傅) que significa “mestre” ou “professor”, denotando alguém com habilidades técnicas ou artísticas avançadas que ensina outros. Este termo pode ser usado em uma variedade de contextos, incluindo artes marciais, culinária, caligrafia, etc. Ou Si Fu(師父) que Significa “pai mestre” e tem uma conotação mais pessoal, muitas vezes usada em um relacionamento mestre-aprendiz que é familiar.
Portanto, é inviável relacionar o papel de um Si Fu e seus discípulos à divindades uma vez que os discípulos estão mais próximos por questões circunstâncias muitas vezes e Si Fu tem papéis distintos. Algo absolutamente impensável no caso de divindades afinal Deus sempre será o mesmo Deus e em qualquer circunstância.
Novos Mestres Autorizados da Família Moy Jo Lei Ou.
Com relação a uma especificidade a teoria de Confucio, a família Kung Fu usa a regra de definição de posições claras. Uma delas, é a relação Si Hing – Daai(師兄弟). Que compõe a relação “Si Hing” (師兄) que significa irmão mais velho,”Si Daai” (師弟) significa irmão mais novo. Basicamente, essa divisão é definida pela ordem de ingresso na família Kung Fu.
Curiosamente, o ideograma Si(師), de irmão mais velho ou mais novo significa a mesma coisa, ensinar e aprender. Essa definição é particularmente importante se considerarmos que toda pessoa, independente de idade, círculo social ou condição de vida em qualquer sentido, possui em si uma grande bagagem de aprendizados. Portanto, sendo mais velho em vida antes ou enquanto praticante do Kung Fu, sempre haverá o que ensinar. E o que para mim é o mais importante, independente de ter muita ou experiência nenhuma, sempre haverá o que aprender. Portanto, vejo que o que rege em definitivo a relação entre os pares é a humildade, companheirismo e camaradagem nos desafios do dia a dia. Portanto, embora tenhamos posições claras, elas não são fixas. Aliás, imagino que justifique o termo que ouvi há muitos anos do Si Fu que era, se bem entendi, “Si Hing circunstancial.”
Despedida da última visita de Mestre Senior Julio Camacho. Março de 2024
Suponho que a proposta de Confucio sobre a definição de posições seja bem mais profunda do que normalmente se tenha acesso. Por isso, meu entendimento é que definir posição não significa congelar pessoas. Ou seja, uma pessoa mais antiga é definida como tal pela circunstância do momento. Quero dizer, sobre o cenário que esta sendo visto, se está pessoa não tem experiência é melhor que outra pessoa, ainda que mais nova, tome as rédeas da situação, desde que já esteja familiarizada com o momento.
Em meu caso, sempre tive uma relação próxima com Si Fu. Ficamos juntos no Mo Gun em diversos momento, já passei dias na casa dele trabalhando meu Kung Fu em outras tantas oportunidades. Mesmo assim, há pessoas, bem mais jovens que eu que já visitarem ele nos EUA. Portanto, quando eu for, e se algumas dessas pessoas estiver presente, é óbvio que ela assumirá a frente. Esse eu for esperto vou conseguir aprender com ela para então, entendendo o fluxo, eu poder assumir o que for preciso, não por necessidade de marcar posição, mas por condição real. Para mim, este é um bom exemplo sobre o que é a figura do Si Hing circunstancial, em outras palavras, a essência das relações nas artes marciais.
Kung Fu é um termo abrangente, frequentemente explicado pela tradução de seus ideogramas. De fato, entender seu significado através de traduções da escrita é uma maneira útil e comum de apreciá-lo. Mesmo assim, pretendo me valer de alguns de seus dispositivos práticos, por entender que a experiência do dia a dia é mais descritiva e melhor associada à vida de seus praticantes.
O termo “Kung Fu” (功夫) é frequentemente associado às artes marciais chinesas, mas seu significado vai além disso. Literalmente, “Kung Fu” significa “trabalho duro” ou “esforço habilidoso” e pode se referir a qualquer disciplina ou habilidade desenvolvida através de prática intensa e dedicação ao longo do tempo. Aprofundando um pouco mais seu entendimento teórico, afirmo que a prática regular e disciplinada do Kung Fu possibilita ao praticante a capacidade de executar qualquer ação de forma estratégica. A necessidade e a execução do trabalho árduo são pré-requisitos para que a ação final seja a execução de qualquer tarefa, valendo-se da sabedoria — ou seja, de um esforço que culmina no resultado de não se fazer força, mas simplesmente permitir que o resultado aconteça por si.
No contexto das artes marciais, Kung Fu engloba uma variedade de estilos e técnicas que combinam disciplina mental e princípios filosóficos. Os praticantes de Kung Fu treinam para desenvolver força, flexibilidade, velocidade e resistência, além de cultivar a concentração, a paciência e o equilíbrio emocional. Vale lembrar que o Kung Fu pode ser inserido em qualquer contexto, não apenas nas artes marciais. Por isso, é possível e absolutamente correto afirmar que tudo é Kung Fu, ou que, em qualquer ação, podemos ter mais ou menos Kung Fu. Para mim, o que definiria essa proficiência como maior ou menor reside na capacidade de associar as habilidades do Kung Fu em uma coisa só. Ou seja, o praticante não possui apenas habilidade em Kung Fu; em alto nível, há ou não Kung Fu. Portanto, a força, a velocidade, a concentração e outros requisitos não são buscas isoladas de habilidades, mas sim, mecanismos prévios componentes de algo muito maior, quase que por sua capacidade atômica, no sentido literal.
Para finalizar a introdução, esclareço que as associações comuns a animais, quando se fala de técnica, consideram também o ser humano como um de seus representantes. Neste caso, falamos especificamente do sistema Ving Tsun.
Dignatarios do Sistemas Ving Tsun.
O monastério Siu Lan, Shao Lin em mandarim, originou e abrigou diversos estilos marciais de Kung Fu. Dentre eles, o que mais tarde seria conhecido como Ving Yim Tsun Kuen, ou Ving Tsun, estilo composto por seis domínios e três fases distintas: Estruturada, Semi Estruturada e Não estruturada. A primeira etapa permite que o praticante tenha acesso a técnicas específicas do sistema que potencializam o entendimento e estudo do próprio corpo. Ato sequente, dispensa as técnicas e deixa a encargo do praticante seu próprio modo de agir, fases semi e não estruturadas. Por ser o último instrumento, ou estilo, de estudo nas câmaras do monastério, este era reservado a pessoas mais experientes e também de grau mais elevado dentro da instituição. Por mais experientes, refiro-me também a pessoas mais velhas; portanto, é razoável supor que este estilo dispensa movimentos que exigem alto vigor físico, valendo-se apenas de movimentos naturais ao homem e suas capacidades. Assim, criam-se mecanismos teóricos, uma vez que se valem da capacidade humana, mas que, sobretudo, devem ser inseridos na prática. Portanto, em última análise, é importante entender que toda reflexão necessita de sua execução em ação.
Por exemplo, respirar, em seu amplo sentido, é uma necessidade de qualquer ser vivo. Desta forma, no caso do ser humano, foi possível desenvolver uma técnica onde esta necessidade básica fosse transformada em instrumento de estudo. Temos, portanto, a habilidade intitulada Chi Kung (气功), que consiste em artificializar a respiração para que se perceba melhor a entrada e saída do ar e seu resultado no corpo. Como eu disse, esta é uma necessidade básica, e como instrumento é utilizada no sentido de entender e utilizar melhor o corpo. Portanto, é ilusório supor que é possível controlar a respiração completamente. Em vez disso, a orientação é que, por meio da percepção, o praticante entenda como ele é ou não afetado por experiências externas ou inesperadas. Neste sentido, apenas lembrar-se de respirar e, em um nível posterior, ser capaz de adequar a respiração ao cenário que se vive pode trazer um conforto maior e clareza na tomada de decisão. Entenda que a respiração, por ser uma necessidade básica, independe da vontade; aliás, é assim que se morre afogado. Portanto, resumindo, considero que o trabalho de Chi Kung consista apenas em se manter atento à necessidade específica do momento. Aliás, a todo momento, é sobre isso que trata o Kung Fu.
Com mestre Senior Julio Camacho, Março de 2024.
Disse no início do texto que uma forma eficaz de desenvolver o Kung Fu é através de sistemas marciais, mas há outras maneiras. Minha escolha pela via marcial diz respeito à principal maneira difundida do estudo, por filmes e livros, por exemplo, e também associada a um pouco de sorte. Não sabia antes de iniciar minha própria prática, mas há uma característica muito mais esclarecedora do porquê o Kung Fu ser mais conhecido pelas vias marciais.
Acontece que, no sentido de necessidade de se despir de qualquer tipo de máscara ou caricatura pessoal, a expressão marcial é a que mais rapidamente permite que o indivíduo tenha acesso à sua essência. Como esta essência muitas vezes não é agradável de se perceber, já que o praticante muitas vezes se percebe medroso, mesquinho e com outras características ditas negativas, a marcialidade propõe de forma imediata que o contato com estas características desagradáveis seja o que faz com que a pessoa se torne alguém melhor. Veja, se eu sou medroso, por exemplo, não é a máscara social que me fará deixar de ser assim, ou qualquer tipo de profissão. Estas possibilidades apenas mascaram o ser. Neste caso, o medo sempre estará presente, ainda que muito bem escondido. Portanto, admitir-se medroso é o que fará com que o praticante possa ter contato com as questões que assim o traduzem, permitindo que o mesmo possa trabalhá-las de forma a melhor lidar com elas. E isto acontece de forma muito simples:
Apesar de simbólica, há a experiência de morte no contexto das artes marciais; o fato de ser simbólica não faz diferença ao cérebro. Portanto, um soco sempre vai representar um risco real à vida, então, sua ação diante disto estará de acordo com esta necessidade, a de defender a vida. Considerando que a vida é o bem mais precioso que se possui, aí reside a relevância da expressão marcial na prática do viver pleno.
Prática do Siu Nim Tau.
Por fim, concluo reforçando o que foi dito no início. É imperativo entender que Kung Fu é o mais alto grau de desenvolvimento humano que eu conheço. O que justifica esta afirmativa é entender que só faz sentido se ele for pleno. Portanto, é reducionista entender que Kung Fu se traduz apenas pela habilidade de lutar, respirar melhor, desenvolver o corpo a seu potencial máximo, ou a uma arte marcial. Tudo é Kung Fu. E outra vez me valho do sistema Ving Tsun para exemplificar esta necessidade:
Quando iniciei minha prática, Si Fu explicou que a primeira sequência de movimentos iria me apresentar tudo o que era preciso para que eu me desenvolvesse no sistema. Não ficou claro na época, mas avançando pude notar, em termos práticos, como todo o sistema se conecta para permitir que a semente de tudo que seria aprendido fosse plantada no primeiro dia. Ou seja, dos seis domínios, no primeiro, já se pode desenvolver todo o restante.
É claro que para se atingir essa percepção é necessário galgar todos os degraus do sistema de forma a apreciar as sementes que foram plantadas já no início por diversos ângulos. É justamente por isso que fica evidente que o sistema tem seu Kung Fu, ou seja, de fato é necessário aprender o sistema completo para que se extraia o potencial máximo do instrumento. Mas, entende-se também que suas divisões podem ser consideradas didáticas para o fim de uma melhor apreciação de toda a sua estrutura. Mesmo assim, é necessário expandir o olhar de forma a apreciar esta mesma lógica fora do sistema. Por exemplo, quando cozinho, nitidamente percebo nuances do sistema que podem ser utilizadas no preparo da comida. Não vejo razão para valer-me de socos e chutes neste cenário, mesmo assim, lá reside a essência da arte; por isso, quando executo gestos marciais ou faço qualquer outra coisa, se consigo conectar tudo o que tenho para realizar a tarefa da forma mais íntima e estratégica possível, eu trabalho o meu Kung Fu.
Última Visita Oficial de Mestre Senior Julio Camacho ao Brasil. Março de 2024.
O sistema Ving Tsun de Kung-Fu é uma abordagem que busca desenvolver habilidades marciais e pessoais, dividida em três fases distintas: fase estruturada, fase semi-estruturada e fase não-estruturada. Cada uma dessas fases possui abordagens peculiares, permitindo que o praticante se desenvolva de forma integral e independente.
A meu ver, a fase estruturada possibilita que o praticante desenvolva um profundo conhecimento sobre si mesmo, desde suas limitações até suas habilidades, valendo-se de abordagens específicas do sistema Ving Tsun, como a Linha Central, por exemplo.
Considerações sobre o uso do bastão aos presentes. Ano de 2019.
Após dominar a fase estruturada, os praticantes avançam para a fase semi-estruturada. Nesta etapa, o entendimento dos limites do próprio corpo é expandido para incluir o uso de objetos externos, como instrumentos ou armas. Essa fase é crucial para o desenvolvimento de habilidades avançadas de Kung-Fu, pois exige que o praticante integre a coordenação e a capacidade corporal com a manipulação precisa de ferramentas externas. O estudo nesta fase envolve o uso de bastões e facas, além de práticas que simulam a utilização de objetos cotidianos como extensões do corpo. O objetivo é que os alunos desenvolvam uma compreensão intuitiva e prática de como interagir eficazmente com o mundo ao seu redor, usando objetos como parte de sua técnica marcial.
Estudo do Nível Superior Final
A fase final do sistema Ving Tsun é a fase não-estruturada, onde os praticantes aplicam o entendimento sistêmico adquirido nas fases anteriores para situações do dia-a-dia. Essa fase reconhece que as situações cotidianas são absolutamente imprevisíveis, exigindo uma adaptação rápida e eficaz das habilidades marciais desenvolvidas. A meu ver, nesta etapa o praticante tem profundos conhecimentos sistêmicos, de maneira que a expressão marcial está incluída no menor gesto. Aqui, um instrumento não é entendido mais como algo externo, a partir do momento que o praticante deste nível toca algo para além de si, este passa a ser sua propriedade, no se tudo de continuação do próprio corpo.
O curioso é que não é preciso estarmos estudando qualquer fase em questão para termos experiências daquele momento do saber. Por exemplo, eu tenho acesso a fase semi estruturada do sistema, mas, estudando está fase e a anterior através das listagens, pude perceber um padrão que tenho que atrapalha meu dia.
Notei de forma sutil, como estou suscetível a pequenas distrações que interrompem meu raciocínio, sejam elas internas ou externas a mim, ou me tiram completamente da tarefa que estava fazendo. Ou seja, mais de uma vez, me flagrei executando a sequência do Siu Nim Tau enquanto pensava em problemas pessoais ou afazeres posteriores. Isso não se reflete apenas enquanto trabalho o sistema Ving Tsun, se não estou atento, acontece em qualquer momento.
Futebol em Família Kung Fu.
Por isso, a conclusão do meu entendimento é de que o sistema Ving Tsun de Kung-Fu, com suas três fases distintas, oferece um caminho claro e progressivo para o desenvolvimento completo do praticante. Desde a compreensão dos limites do próprio corpo na fase estruturada, passando pela interação com o mundo externo na fase semi-estruturada, até a aplicação prática em situações imprevisíveis na fase não-estruturada, o Ving Tsun promove uma evolução contínua e integrada. Ao concluir esse percurso, o praticante não só alcança uma alta maestria nas artes marciais, mas também desenvolve a capacidade de enfrentar e superar os desafios da vida com calma, eficiência e sabedoria, tornando-se uma pessoa mais equilibrada e resiliente.