O Trabalho como Forma de Refinamento Pessoal

Work as a Form of Personal Refinement

Ideogramas da Palavra Kung Fu.
Ideograms of the Word Kung Fu

O termo Kung Fu (功夫) pode ser traduzido literalmente do chinês como “trabalho habilidoso”, “esforço realizado” ou “tempo e dedicação aplicados a uma habilidade”. Ele é composto por dois caracteres:

The term Kung Fu (功夫) can be literally translated from Chinese as “skillful work,” “effort made,” or “time and dedication applied to a skill.” It is composed of two characters:

功 (Kung): significa “trabalho”, “mérito” ou “realização”.

功 (Kung): means “work,” “merit,” or “achievement.”

夫 (Fū): originalmente refere-se a “homem” ou “indivíduo”, mas em conjunto com o primeiro caractere, ganha o sentido de “tempo gasto”.

夫 (Fū): originally refers to “man” or “individual,” but when combined with the first character, it takes on the meaning of “time spent.”

Neste sentido, busca-se explicar toda a amplitude do termo, traduzindo, portanto, uma proposta para seu fim. Ou seja, Kung Fu é: “trabalho habilidoso, esforço realizado ou qualquer outra tradução que o valha”. Pessoalmente, apesar de usar traduções literais, prefiro entender que, na realidade, a melhor maneira de se apreciar o termo é fazendo seu uso. Em um primeiro momento, faz-se necessária a ajuda de um sistema, então, através de conexões com o dia a dia.

In this sense, the aim is to explain the full breadth of the term, thus translating a proposal for its purpose. In other words, Kung Fu is: “skilled work, effort exerted, or any other translation that applies.” Personally, despite using literal translations, I prefer to understand that, in reality, the best way to appreciate the term is through its application. Initially, the assistance of a system is necessary, and then it connects to everyday life.

Por exemplo, certa vez ouvi meu Si Fu, Mestre Sênior Julio Camacho, comentar que Kung Fu diz respeito a trabalho árduo. Por isso, passei a executá-lo como um trabalho dedicado e entendi que, no fim, o que desenvolve é a mestria. Por este pensamento, concluí que o que de fato se pratica é o trabalho, seja ele árduo, dedicado, meritório e realizável. A consequência disso é o nascimento de uma pessoa madura, “homem”, e se tem os frutos do tempo gasto. Mesmo porque, no que chamo de mundo prático, aquele similar ao mundo das coisas, de Platão, o que um trabalho de alto nível gera é mais trabalho, já que dá trabalho trabalhar. A mestria ou excelência ficam em volta a questões subjetivas ou alinhadas à capacidade de percepção e experiência individual.

For example, I once heard my Si Fu, Senior Master Julio Camacho, comment that Kung Fu pertains to hard work. Therefore, I began to approach it as dedicated work and understood that, in the end, what it develops is mastery. Through this line of thinking, I concluded that what is truly practiced is the work itself, whether it is arduous, dedicated, meritorious, or achievable. The consequence of this is the emergence of a mature person, a “man,” and the fruition of time well spent. After all, in what I call the practical world, akin to Plato’s world of things, high-level work generates even more work, as working takes work. Mastery or excellence revolves around subjective matters or is aligned with one’s capacity for perception and individual experience.

Visita de Mestre Sênior Julio Camacho ao Núcelo Barra
Senior Master Julio Camacho’s Visit to the Barra Training Center

Em um dos encontros que fizemos no Mo Gun com o Si Fu, ficou claro para mim como o trabalho dedicado está presente de todas as formas e em todos os lugares. Basta haver o desejo de vivenciá-lo.

In one of the meetings we held at the Mo Gun with Si Fu, it became clear to me how dedicated work is present in all forms and everywhere. It only requires the desire to experience it.

Entrando no Mo Gun, Si Fu mapeava os cômodos de forma discreta. Absolutamente seguro da adequação do espaço para o momento que viveríamos naquela manhã, eu próprio tinha coordenado sua organização no dia anterior, fui pego, com certa surpresa, quando ele apontou o primeiro refinamento. Um dos itens de reverência à ancestralidade estava desalinhado com o centro da mesa. Imediatamente fiz o ajuste. A partir disso, simplesmente não paramos mais. Si Fu, a cada oportunidade, comentava sobre um item fora de lugar ou que carecia de refinamento. Em pouco tempo, tive dúvida sobre minha própria capacidade de percepção e mesmo da organização que havia realizado de forma pregressa. O auge de minha derrocada foi quando ele notou uma planta, que tinha o fim de representar um símbolo de cuidado, morta. Por um bom tempo, não soube o que dizer ou fazer.

Upon entering the Mo Gun, Si Fu discreetly assessed the rooms. Absolutely confident in the adequacy of the space for the moment we were about to experience that morning, I had personally coordinated its organization the previous day. I was caught somewhat off guard when he pointed out the first refinement. One of the items meant to honor the ancestors was misaligned with the center of the table. I promptly made the adjustment. From that point onward, we simply didn’t stop. Si Fu, at every opportunity, commented on an item that was out of place or needed refinement. Before long, I began to doubt my own ability to perceive details and even the thoroughness of the organization I had previously carried out. The height of my downfall came when he noticed a plant—intended to symbolize care—was dead. For a good while, I didn’t know what to say or do.

I Cerimônia de Concessão de Título da Família Moy Jo Lei Ou
“First Ceremony of Title Granting of the Moy Jo Lei Ou Family”

Então, a mestria. Situações de desconforto no ambiente marcial são comuns e até mesmo esperadas; elas são usadas, em geral, como cenários para fortalecimento do caráter e da resiliência. Nestas ocasiões, o melhor a se fazer é continuar o trabalho, neste caso, de refinamento pessoal.

So, mastery. Situations of discomfort in the martial environment are common and even expected; they are generally used as scenarios for strengthening character and resilience. In these moments, the best course of action is to continue the work, in this case, of personal refinement.

Note que esta reflexão trata da mestria. Ou seja, mestre é aquele capaz, independente da situação ou contexto, de extrair algum benefício e aprendizado. Como disse no início do texto, a parte que cabe ao ideograma 夫 (Fū) é subjetiva, por isso, é provável que você tenha uma conclusão diferente. Contudo, o que nos une, estimado leitor, não está no título ou na subjetividade do termo. Afinal, havemos de convir que o que faz com que o cuidado com o Mo Gun, ou qualquer outro, seja melhor realizado é justamente a continuidade de seu cuidado. Em outras palavras, de novo, o trabalho nos convida a trabalhar. Desta vez, profundamente atravessado pela experiência anterior.

Note that this reflection is about mastery. In other words, a master is one who is capable, regardless of the situation or context, of extracting some benefit and learning. As I mentioned at the beginning of the text, the part related to the ideogram 夫 (Fū) is subjective, which is why it’s likely that you may come to a different conclusion. However, what unites us, dear reader, is not the title or the subjectivity of the term. After all, we must agree that what makes the care of the Mo Gun, or any other, better carried out is precisely the continuity of its care. In other words, once again, the work invites us to work. This time, deeply influenced by the previous experience.

Por isso, sigo meu caminho, não só como mestre, mas praticante. Afinal de contas, se hoje tenho um título, é porque sigo meu caminho de trabalho. Este trabalho árduo e dedicado precisa ser leve e divertido. A ideia não é ficar obcecado, focado, simplesmente. Sobretudo agora que me encontro só. Afinal de contas, quando estamos sozinhos é, talvez, nosso momento de maior autenticidade. Então me desafio a ser autêntico e absolutamente adequado.

Therefore, I continue my path, not only as a master but also as a practitioner. After all, if today I hold a title, it is because I follow my path of work. This arduous and dedicated work must be light and enjoyable. The idea is not to become obsessed or simply focused. Especially now that I find myself alone. After all, when we are alone, it is perhaps our moment of greatest authenticity. So, I challenge myself to be authentic and absolutely appropriate.

E assim, sigo em frente, buscando, dia após dia, uma mestria que se reinventa e se aperfeiçoa a cada momento, porque, no fim, é o trabalho constante que nos faz verdadeiramente crescer.

And thus, I move forward, seeking, day by day, a mastery that reinvents and perfects itself with each moment, because, in the end, it is the constant work that truly allows us to grow.

O Caminho do Despertar

The Path of Awakening

Siu Nim Tau por Patriarca Moy Yat.
Siu Nim Tau by Patriarch Moy Yat

Um aforismo do patriarca Moy Yat traduz a importância do estudo diligente das artes marciais. Pelo meu entendimento, ele disse:

“Siu Nim Tau deve ser executado quando se há vontade; para que haja vontade, deve ser realizado todo dia.”

(An aphorism by Patriarch Moy Yat conveys the importance of diligent study in martial arts. As I understand it, he said:
“Siu Nim Tau must be performed when there is willingness; for there to be willingness, it must be done every day.”)

Considerando que o movimento mais difícil é o que inicia o próprio movimento e que, a partir dele, por inércia, o corpo tende a se manter ativo, entendo que o patriarca Moy Yat explicava, por esta frase, o caminho mais simples e eficaz do desenvolvimento da postura marcial, ou seja, a partir da imobilidade, gerar desenvoltura.

(Considering that the most challenging movement is the one that initiates itself and that, from it, the body tends to remain active due to inertia, I understand that Patriarch Moy Yat was explaining, through this phrase, the simplest and most effective path to developing martial posture—namely, generating fluidity from stillness.)

Ao gerar a frase, suponho que a intenção tenha sido exemplificar o movimento físico, usando como ferramenta um dispositivo específico do Sistema Ving Tsun, que é a listagem Siu Nim Tau. De toda forma, este princípio pode ser expandido para aspectos que transbordem os limites do próprio sistema. Aliás, falamos sobre Kung Fu, e não apenas de técnicas do Kung Fu. Assim, avalio que todo planejamento, pensamento ou qualquer postura que prepare o movimento deve contar com algum tipo de dispositivo prático e físico para, então, passarmos da estagnação total para o movimento.

(In crafting this phrase, I assume the intention was to exemplify physical movement, using a specific tool from the Ving Tsun System—the Siu Nim Tau sequence. In any case, this principle can be expanded to aspects beyond the boundaries of the system itself. After all, we are talking about Kung Fu, not just Kung Fu techniques. Thus, I consider that every plan, thought, or posture preparing for movement must include some kind of practical and physical mechanism to transition from total stagnation to motion.)

Meu Si Fu, Mestre Sênior Julio Camacho, compartilhou com seus discípulos uma prática bastante semelhante. Ele nos incentivou a praticar o Siu Nim Tau todo dia pela manhã. A proposta era que esta fosse a primeira atividade do dia. Para mim, isto foi bastante útil, já que associei a prática ao processo de estagnação e movimento. Executando a listagem do Siu Nim Tau assim que acordasse e antes de qualquer atividade, eu exigiria do corpo o despertar total e absoluto. A partir disso, o dia de fato teria começado.

(My Si Fu, Senior Master Julio Camacho, shared a very similar practice with his disciples. He encouraged us to practice Siu Nim Tau every morning. The proposal was for this to be the first activity of the day. For me, this was very helpful since I associated the practice with the process of stagnation and movement. By performing the Siu Nim Tau sequence as soon as I woke up and before any other activity, I demanded a complete and absolute awakening from my body. From that point, the day truly began.)

Siu Nim Tau por Mestre Senior Julio Camacho
Siu Nim Tau by Senior Master Julio Caamcho


4o mini

Quando iniciei esta prática, tive dificuldade em estar totalmente envolvido nos primeiros dias. Eu tinha muita dificuldade de me levantar pela manhã. Por conta disso, minha estratégia foi posicionar o despertador vários minutos mais cedo para evitar atrasos. Com a nova proposta do despertar, entendi que precisava acordar ainda mais cedo. Desta forma, a preguiça prevaleceu até o momento em que decidi que, uma vez de pé, me disponibilizaria a fazer o melhor que pudesse. Assim, após algum tempo e todos os dias, a preguiça diminuiu, e aprendi que não era mais necessário acordar tão cedo, uma vez que a atitude mental de fazer o melhor que podia assim que levantasse me trouxe um nível de eficácia jamais experimentado anteriormente. Desta forma, sigo até hoje.

(When I began this practice, I struggled to fully commit in the first few days. I had a lot of difficulty getting out of bed in the morning. Because of this, my strategy was to set the alarm clock several minutes earlier to avoid being late. With the new wake-up plan, I realized I needed to wake up even earlier. Thus, laziness prevailed until the moment I decided that, once I was up, I would commit to doing the best I could. Over time and with daily effort, laziness diminished, and I learned that it was no longer necessary to wake up so early since the mental attitude of doing my best as soon as I got up brought me a level of effectiveness I had never experienced before. This is how I continue to this day.)

Assim, entendo que pratiquei, a partir do que Si Fu propôs, o que o patriarca Moy Yat sugeriu. Isto foi particularmente especial, pois eu sempre achei a frase de meu Si Taai Gung genial, mas ela não me ajudava a evoluir, uma vez que eu não praticava o que foi dito ou não pratiquei tempo suficiente para fazer sentido. A partir desta experiência, entendo as oportunidades que tenho de perceber o mesmo processo acontecendo com os demais: qualquer coisa dita sobre o Kung Fu, baseada em uma experiência sólida e legítima, será genial, embora infrutífera se não posta em prática. Assim, entendo os olhos brilhando de praticantes ao ouvirem uma explicação e, algumas sessões depois, a frustração impressa na voz, acompanhada da frase: “não evoluí nada”. Quase sempre, nestes casos, a resposta é óbvia, embora não devidamente observada.

(Thus, I understand that through what Si Fu proposed, I practiced what Patriarch Moy Yat suggested. This was particularly special because I always found my Si Taai Gung’s phrase brilliant, but it did not help me evolve, as I either did not practice what was said or did not practice it long enough for it to make sense. From this experience, I understand the opportunities I have to notice the same process happening with others: anything said about Kung Fu, based on solid and legitimate experience, will be brilliant but fruitless if not put into practice. In this way, I understand the shining eyes of practitioners when they hear an explanation, and then, a few sessions later, the frustration in their voice accompanied by the phrase: “I haven’t improved at all.” In most cases, the answer is obvious, though not properly acknowledged.)

II Evento Solene de Nomeação, Investidura e Fundação de Família Kung Fu, agosto 2024.
II Solemn Ceremony of Naming, Investiture, and Establishment of the Kung Fu Family, August 2024.

Há, a partir da experiência pregressa, reflexões diversas. O que mais me deixa feliz com estas reflexões é a capacidade de realizar o que se pensa. Com a proposta do Si Fu, passei a exercitar a habilidade de estar pronto ao levantar e não me manter em estado de letargia para efetivamente despertar após o café da manhã ou ao chegar no trabalho, como fazia. Entendi que o que faz as horas serem produtivas não é ter mais ou menos tempo, mas sim a disposição de usá-las da melhor maneira. Em sentido mais subjetivo, a importância de se cumprir o que se determina, independente da ação ou resultado externo. Claro, há vezes em que durmo mal, estou doente ou simplesmente sem vontade, mas o exercício do Kung Fu propõe fazer o melhor, mesmo diante destas situações; e isto é algo fisicamente realizável, não é apenas conversa. Por fim, compreendi que a responsabilização pela própria vida é pessoal e absolutamente factível.

(There are various reflections arising from past experience. What makes me happiest about these reflections is the ability to carry out what one envisions. Through Si Fu’s proposal, I began to exercise the ability to be ready upon waking and not remain in a state of lethargy to only truly wake up after breakfast or upon arriving at work, as I used to do. I understood that what makes hours productive is not having more or less time but the willingness to use them in the best way possible. On a more subjective level, it is important to fulfill what one sets out to do, regardless of the action or external result. Of course, there are times when I sleep poorly, feel sick, or simply lack motivation, but the practice of Kung Fu encourages doing one’s best, even in such situations; and this is something physically achievable, not just talk. Finally, I understood that taking responsibility for one’s own life is both personal and entirely feasible.)

I Cerimônia de Concessão de Titulo de Mestre, dezembro de 2024.
I Ceremony of Master Title Concession, December 2024.

No último fim de semana, foi concedido a mim e a outros oito irmãos Kung Fu o título de Mestre, outorgado pelo Instituto Julio Camacho de Ving Tsun Kung Fu. Na ocasião, além da alegria e da honra em receber tal título, seguiu-se a reflexão sobre o que seria ser um mestre e qual o meu papel a partir de então. A rigor, o entendimento é de grande responsabilidade, já que, como mestre, tenho a possibilidade de inaugurar minha própria família Kung Fu e, a partir de então, guiar pessoas pelo caminho das artes marciais. Contudo, meu pensamento foi um pouco mais profundo. Faço parte do seleto grupo que inaugura as diretrizes de outorga de mestres da família Moy Jo Lei Ou, portanto, estamos juntos trilhando um caminho inexplorado, onde meu Si Fu tem a oportunidade de compartilhar com sua família, e como consequência no círculo marcial, sua maneira de transmissão e as diretrizes dessa outorga. No fundo, meu papel como mestre não se diferencia muito do que sempre foi como discípulo: seguir meu mentor no caminho das artes marciais e, juntos, desenvolver meu Kung Fu e o das pessoas que desejarem seguir o mesmo caminho, seja tornando-se discípulas do meu Si Fu ou, mais à frente, meus discípulos.

Portanto, tal qual a maneira em que desenvolvemos nosso Siu Nim Tau, acompanho.

(Last weekend, the title of Master was granted to me and eight other Kung Fu brothers by the Julio Camacho Institute of Ving Tsun Kung Fu. On that occasion, in addition to the joy and honor of receiving such a title, I reflected on what it means to be a master and what my role would be from then on. Strictly speaking, the understanding is one of great responsibility, as a master, I now have the possibility of founding my own Kung Fu family and guiding people along the path of martial arts. However, my thoughts went a bit deeper. I am part of the select group inaugurating the guidelines for the granting of masters within the Moy Jo Lei Ou family. Together, we are forging an unexplored path where my Si Fu has the opportunity to share with his family—and consequently within the martial circle—his unique way of transmission and the principles of this process.

At its core, my role as a master is not much different from what it has always been as a disciple: to follow my mentor on the martial arts path and, together, develop my Kung Fu as well as that of those who wish to follow the same path, whether by becoming disciples of my Si Fu or, in the future, my own disciples.

Thus, in the same way that we develop our Siu Nim Tau, I follow along.)

A Guarda e a Coordenação do Kung Fu

Jong Sau- Guarda do Ving Tsun

Correto é o que está em alinhamento com a reta. Metaforicamente, a reta pode ser entendida como algo que direciona e conduz.

Por isso, baseado no meu entendimento a respeito das diretrizes de meu Si Fu, entendo que é correto afirmar que o Kung Fu é o resultado da extrapolação de qualquer sistema para além de seu aspecto técnico.

Por exemplo, a guarda se refere ao alinhamento da atitude mental e à capacidade de reposição. Portanto, entende-se que os membros distintos devem trabalhar em harmonia, com o objetivo de apoio mútuo. Essa é, para mim, a principal explicação para o que é o corpo.

Mestre Senior Julio Camacho – Núcleo Barra

Extrapolando esse conceito, meu Si Fu há tempos fala sobre a necessidade de vanguarda e retaguarda, assim como a guarda no sistema Ving Tsun. Ou seja, segundo sua orientação, todo processo deve contar com o mínimo de dois pontos de apoio, seja ele individual, no sentido de embate físico, ou coletivo, como em uma cerimônia, por exemplo.

Dessa forma, qualquer processo possui uma coordenação com dois coordenadores. Jamais essa orientação havia ficado tão clara para mim como agora, durante a centésima vigésima primeira cerimônia do clã Moy Jo Lei Ou.

Em parte, essa clareza se deve ao desafio que assumi de executar o processo com o máximo de excelência. Em parte, à responsabilidade de coordenar e, portanto, inspirar outros no mesmo processo.

Impressiona-me perceber o quanto o processo se torna simples quando é bem dividido e as informações transitam sem interrupções. Isso me leva a questionar quanto tempo perdi ao não levar tão a sério o que o Si Fu propôs, repetindo assim os mesmos erros básicos.

Outro ponto vital é a confiança na própria capacidade. Sempre me considerei uma pessoa de boa memória, mas, seguindo a orientação de meu Si Fu, passei a anotar tudo o que precisava fazer. Isso ajuda a centralizar a mente e a definir prioridades. Mais uma vez, essa percepção não se deu apenas pela minha capacidade de obedecer ao Si Fu, mas também por ter passado as mesmas orientações aos meus irmãos mais novos, sendo eventualmente ignorado, e percebendo, de fora, os mesmos erros bobos

Com Mestre Senior Julio Camacho – Estudo do Nível superior Final

Assim como a guarda, a interação entre pessoas — ou seja, a coordenação dos coordenadores — se desenvolve por meio de protocolos simples, que, quando bem aplicados, tornam-se extremamente eficazes. Tal qual a linha central, não?

Por fim, e vejo isso como o mais importante, assim como a vanguarda e a retaguarda, não há membro mais importante. Portanto, se hoje sou o mais antigo no processo, até o momento, não cabe a mim ensinar, mas aprender. Os demais, com sorte e com o tempo e dedicação adequados, terão a mesma oportunidade.

Ou seja, quando coordeno qualquer processo, estou investindo ainda mais em minha própria prática, reconhecendo nos outros problemas que são bastante característicos meus.

Energias Físicas no Trabalho do Kung Fu

Patriarca Ip Man

Um dos principais aspectos do Kung Fu, é o trabalho de energia. Trabalhar a energia, significa acumular, como forma de carregamento da ação, e canalizá-la por via específica. Desta forma, tende-se a extrair o potencial máximo possível do movimento. É possível dividir, para fins didáticos, o trabalho de energia através de 4 movimentos distintos: posicionamento, tempo, distância e a própria energia. É importante reforçar que a divisão é meramente didática, uma vez que, para o uso correto do trabalho de energia, é fundamental que todos os aspectos apresentados como passo a passo ocorram simultaneamente e com igual qualidade.

Sabe-se, também, que a via corporal é a principal maneira que todo ser humano adquire conhecimento e se desenvolve no dia a dia. Mesmo quando sentado, ou em atividade intelectual, é possível afirmar que há ali uma atividade física, uma vez que para se manter sentado é necessária matéria física, corpo, e a atividade intelectual necessita do cérebro, que também faz parte do corpo. Por isso, afirmo que o trabalho de energia é uma atividade puramente física, e expansiva para além do próprio físico, da forma como pretendo explicar a seguir.

Recepção dos Líderes da Família Moy Jo Lei Ou

Quando fomos receber os líderes da família Moy Jo Lei Ou, em agosto passado, por conta de um erro de planejamento, tomei uma condução que demoraria muito mais tempo que o previsto para chegar ao aeroporto. Ciente deste equívoco, ainda que tarde, fiquei na dúvida se deveria retroceder o caminho e recomeçar a viagem. Entre mudanças constantes de opinião, resolvi contatar meu irmão Kung Fu a respeito do que ele achava. Si Fu e Si Mo ainda não haviam aterrissado, portanto, talvez houvesse tempo, embora não garantido. Neste sentido, e para evitar qualquer erro novo, tomei a decisão de permanecer da forma como estava e seguir o fluxo.

A associação da prática de um sistema marcial, como o Ving Tsun, e o seu desenvolvimento natural, o Kung Fu, me gera algumas reflexões: Por exemplo, penso que os sistemas utilizados para o desenvolvimento do Kung Fu, são maneiras de trazer materialidade a ele. E mais, estes sistemas de “materialização,” não necessariamente são marciais. Mesmo assim, sou convicto de que a marcialidade seja nossa principal via, já que por ela explora-se o potencial máximo do corpo do indivíduo, e, a partir disto, se extrapola a experiência para a condução de uma vida mais plena e eficaz.

Por exemplo, o conceito de Vanguarda e Retaguarda, ou seja, guardas de apoio mútuo foi explorado na história que contei acima. O que acontece, é que quando se vive uma experiência marcial por um sistema como o Ving Tsun, é de suma importância entender que o uso do corpo deve estar integrado. Portanto, a noção de lado melhor do corpo, seja por ser mais rápido, forte ou por se ter mais domínio, mostra-se ineficaz. Veja, na história, tanto eu quanto meu irmão Kung Fu podemos ser entendidos como Vanguarda e Retaguarda no processo de recepção dos Líderes da família, da mesma forma que usamos o corpo todo na hora de lutar, ou seja, qualquer golpe deve ter condições de ser continuado pelo próximo. No caso, como me atrapalhei com o horário, mas o Thiago Silva estava disponível, no fim, meu atraso não atrapalhou o todo.

II Evento de Nomeação, Investidura e Fundação de Família Kung Fu

Extrapolar a experiência marcial específica do sistema com as experiências marciais vividas no dia a dia, estas sem estrutura alguma, é a conduta de um mestre. Mas veja, eu próprio busco fazer isto antes mesmo de ser nomeado. Portanto, a atitude de um mestre não me parece acontecer quando este tem o título. Parece-me que se pode reconhecer um mestre quando este é capaz de se libertar da linearidade sistêmica e sua expressão marcial ocorre em qualquer cenário e efetivamente de qualquer maneira.

Ainda sobre energia, a história que eu contava seguiu seu fluxo natural, ou seja, o erro foi inserido no contexto para que seu desenvolvimento tivesse o resultado esperado ou o mais próximo disso possível, que era encontrar Si Fu, Si Mo e meu irmão Kung Fu no aeroporto. Para este fim, baseado no sistema, fiz uso de um conceito que chamamos de energia de preenchimento, que é a habilidade de seguir adiante, mesmo diante dos obstáculos e desvios. Como não retrocedi, ou seja, optei por não voltar, e com o apoio do Thiago, que negociou com Si Fu e Si Mo a minha espera, consegui encontrá-los, mesmo com alguns minutos de atraso.

Não é simples trazer a excelência dos movimentos para situações do dia a dia. Embora possamos associar a história à noção de Vanguarda e Retaguarda, sendo rigoroso, notamos que houve erro. A Vanguarda e Retaguarda precisam ter condições de atuação direta e simultânea; caso acontecesse algo ao Thiago, o objetivo fim, o traslado de Si Fu e Si Mo, seria prejudicado, já que demorei a chegar. Portanto, o que aconteceu, se quisermos trazer a cena para o cenário de luta, é que meu movimento não foi eficaz. E a única coisa que impediu que eu fosse metaforicamente golpeado foi a sorte, sorte por eles poderem e quererem esperar por mim.

Respeito como Aspecto Marcial

Cumprimento à maneira oriental.

Há várias maneiras de se demonstrar respeito. Uma forma de percebê-lo é observar como as pessoas se tratam. Assim, conhecendo a cultura local e vendo o emprego de seus costumes, pode-se entender o quanto determinada relação é ou não respeitosa. No entanto, essa percepção me parece limitada, dada a diversidade cultural humana. Portanto, a menos que se objetive o conhecimento profundo de todas as culturas, o que me parece inviável, acredito ser relevante encontrar um ponto comum, onde todos possam se apoiar.

A palavra “respeito” vem do latim respectus, que significa “olhar para trás” ou “consideração”. Esse termo é derivado do verbo respicere, que é formado pela junção do prefixo re- (de novo, para trás) e specere (olhar, observar). Considerando os sentidos como a forma básica de nos relacionarmos com o mundo, creio que a visão é o mais importante para o ser humano. Por isso, digo que respeitar tem de se valer da visão, ou seja, respeitar significa, literalmente, “olhar novamente” ou, por extensão de significado, “revisitar”.

Essa ideia dialoga diretamente com o zelo, pois, para cuidar, é necessário diligência e precisão, habilidades adquiridas pelo esmerado trabalho sobre si e pelo constante refinamento. Por isso, lembro da frase icônica que meu Si Fu sempre diz: “Entrega mais quem tem mais.”

Atividades Práticas com Mestre Senior Julio Camacho

É por isso, que os adultos devem cuidar das crianças, uma vez que tiveram tempo para o profundo exercício de gerar em si, capacidades inesperadas para uma criança.

Certa vez, estava praticando uma das minhas atividades físicas favoritas, que é correr. Estava em um bom ritmo, quase atingindo minha meta de correr uma distância maior em menos tempo. Um pouco à frente, notei um senhor com uma criança pequena no colo atravessando a rua. Pela velocidade, logo me impediriam de manter o meu “pace” desejado. Pensei em acelerar; se assim fizesse, eles teriam que esperar mais tempo para atravessar. No segundo seguinte, desacelerei totalmente e dei passagem. O que acontece é que, mesmo distante, havia um carro vindo, e percebi que estava em minhas mãos a possibilidade de diminuir riscos.

Diminuir o “pace” é algo que qualquer corredor experiente evita, e qualquer situação que atrapalhe o objetivo gera um grande nível de irritação. Mesmo assim, fiz aquilo de bom grado. Juntei-me àquele senhor no cuidado com um ser tão indefeso. Naquele momento, eu tinha mais condições de garantir a segurança. Como dito: “Entrega mais quem tem mais.”

Passada a cena, retomei minha corrida já em um ritmo mais lento e pude refletir sobre o ocorrido. Lembrei-me de uma conversa transformadora que tive com meu Si Fu no dia anterior. Falávamos sobre a organização de um evento, e ele chamou minha atenção para alguns erros. Relembrar essa experiência foi uma maneira de respeitar o momento que tivemos. Percebi que agi com respeito em relação ao senhor, não por ter desacelerado e dado passagem, mas por, de início, ter intencionado passar primeiro e, logo em seguida, ao voltar ao momento, optar por dar passagem.

Nomeação, Investidura e Fundação de família Kung Fu

No dia 31 de agosto, fui nomeado mestre. Dois dias antes, como mencionei, meu Si Fu me chamava a atenção por conta de erros. Acredito que a mestria não significa não cometer erros. Para mim, a mestria trata da habilidade de assumir a responsabilidade pelas ações e ter a dignidade de aparar as arestas e seguir trabalhando, sempre objetivando o melhor. Esta é, de maneira geral, a verdadeira postura de um mestre.

Ainda não penso em meus discípulos, pois não conheço seus rostos ou objetivos, e, portanto, não sei como apoiá-los. De toda sorte, mesmo que não existam, sigo me preparando. Para mim, a mestria não trata de concluir nada, apenas de um novo começo. E, como já inicio a jornada dessas pessoas que ainda não conheço à frente delas em experiência marcial, cabe a mim entender que o melhor jeito de fazer meu trabalho, tanto com meus futuros discípulos quanto com meu Si Fu, é através do respeito.

Entre o Profissional e o Amador: Uma Jornada nas Artes Marciais

Vôo para a Argentina

No senso comum, os termos “profissional” e “amador” carregam uma distinção clara em relação à qualificação e competência. O “profissional” é visto como alguém que possui treinamento formal, experiência comprovada e realiza sua atividade com eficiência, sendo remunerado por seu trabalho. Ele segue padrões e normas estabelecidos, sendo referência em sua área. Já o “amador” é frequentemente associado a alguém sem qualificação, um iniciante ou incapaz de executar a atividade com precisão. Essa visão coloca o amador como alguém que, embora tenha interesse na atividade, ainda não atingiu o nível de conhecimento ou habilidade necessário para ser reconhecido como competente.

Um fato é que o entendimento adequado da linguagem e seu uso ampliam os horizontes, permitindo a possibilidade de viver uma vida plena. Em outras palavras, refiro-me ao sentido de viver de acordo com seus próprios valores e crenças, considerando que existem opiniões e possibilidades diferentes — e, em casos extremos, opostas ao que se acredita. Ainda assim, não é necessário invalidar-se ou sentir-se inútil diante de uma sociedade superficial, que não busca o aprofundamento do próprio ser.

Penúltima Visita de Mestre Senior Julio Camacho ao Brasil

Há alguns anos, eu conversava com Si Fu a respeito do profissionalismo nas artes marciais. Ele comentava como foi o início de sua carreira e o nível de preparo geral à época. Disse que, por ser um cenário tão precário, nosso grande clã, liderado por Grão Mestre Leo Imamura, era visto de forma jocosa por alguns de seus pares, já que meu Si Gung havia introduzido uma camada de profissionalismo a essa carreira.

Ao falar de profissionalismo, refiro-me ao uso refinado de palavras, gestos e vestimentas. Mesmo com as dificuldades naturais de introduzir qualquer processo novo, uma cultura foi reinventada. Hoje, sabe-se que é perfeitamente possível — e até esperado, a meu ver — que as pessoas que trabalham com artes marciais tenham uma postura refinada em qualquer situação. Veja, é preciso entender que ser refinado diz respeito ao uso adequado e preciso das ferramentas de trabalho. Se, em nosso caso, é o punho, é claro que contundência é essencial, assim como a possibilidade de lesões graves, por exemplo. Mas a possibilidade não se relaciona com a regra, e contundência não está ligada à violência, muito pelo contrário.

E talvez justamente por ter feito parte do grupo que trabalhou na construção dessa cultura, meu Si Fu refinou-se a tal ponto que entendeu como o uso correto e o entendimento dos termos podem, de fato, elevar a prática das artes marciais. No desenvolvimento do Kung Fu, ele se descreve como um “profissional amador”.

É preciso considerar que, na origem da palavra “amador”, o entendimento correto é “aquele que ama”. Ou seja, alguém que desempenha sua função por amor, em contraste com o entendimento de “profissional”, que é “aquele que desempenha sua função a partir de competência técnica”.

Para mim, o trabalho que Si Fu exerce com seus discípulos está inserido no contexto profissional, mas, sobretudo, no amador.

Com meu irmão Kung Fu, mestre Thiago Silva

Há alguns dias, eu me perguntava por que deveria viajar para o exterior. Seria um investimento grande em diversos sentidos, e eu não tinha certeza se estava disposto e pronto para encarar essa experiência.

Os motivos eram claros: junto com meu irmão Kung Fu, Thiago Silva, eu deveria trazer com segurança os Jiu Paai, confeccionados com esmero por meu Si Suk, Leandro Godoy, e fazer uma palestra para o público argentino. Quanto à palestra, seu tom era puramente profissional.

Posso afirmar que trazer os Jiu Paai e palestrar em espanhol, apesar de não dominar o idioma, não foi nada difícil. Eu e Thiago desenvolvemos bons planos, alguns até improvisados na hora. Quanto à palestra, falei de maneira que penso ser espanhol e, pelo olhar das pessoas e pelo que compreendi de suas falas, fui bem-sucedido. Missão cumprida. Mesmo assim, já de volta, meu incômodo persiste: “O que fui fazer lá?”

Uma das palavras que mais me encantam na língua portuguesa é “vocação”. Com seu sentido de convocação ou chamado, ela também indica inclinação natural ou talento. Vale a pena entender que esse chamado nem sempre vem de fora, às vezes vem de dentro. A convocação é íntima e pessoal. Portanto, sempre que estou em dúvida, busco seguir “o chamado que vem do meu coração”. E assim, chego à resposta da minha pergunta:

O que fui fazer lá foi atender ao meu chamado, minha vocação, que não podia ser diferente, pois foi inspirada no Si Fu. Acredito que a maneira correta de viver é viver por amor. Desta forma, fica muito simples entender por que o público foi capaz de me compreender. Não se trata apenas do esforço em falar seu idioma, mas da humanidade envolvida.

Imprimi em cada palavra, gesto ou roupa que usei todo o amor que tenho pelo que escolhi fazer. Quando isso é feito, tenho certeza de que não passa despercebido e também não precisa ser traduzido. Esta linguagem é universal.

Com Mestre Senior Julio Camacho. Inspirações para a Vida

Há, contudo, a necessidade de um pequeno refinamento. Apesar de crer que o amor é uma linguagem universal, o profissionalismo não é. Seu tecnicismo exige o entendimento de todas as possibilidades que envolvem o trabalho. Em relação às técnicas do sistema, creio ter o suficiente para me considerar um profissional, mas, no sentido mais amplo do trabalho, ainda não.

Si Fu foi claro: ele disse para eu ir à Argentina, fazer um belo trabalho e — o que faltou — divulgar. Atualmente, a maneira como nos posicionamos na internet ajuda na construção e qualidade do profissionalismo. Tenho sérios problemas com postagens nas redes sociais, mas entendo que, para atender cada vez mais ao meu chamado, nesse sentido, preciso me tornar muito mais profissional.

Estudo Etimológico e Desenvolvimento Marcial

Mestre Senior Julio Camacho em sessão especial.

Historicamente, há confusões sobre termos e seus usos. Por exemplo, a palavra “aluno” é equivocadamente traduzida como “aquele que não tem luz”, quando, na verdade, deriva do verbo “alere”, que significa nutrir ou alimentar.

O mesmo ocorre com “professor”. Embora o termo se refira àquele responsável por inspirar e trocar conhecimento, muitas vezes é confundido com “profeta”, que significa “aquele que fala por outro” ou “porta-voz”.

Embora ambos professem, o professor se dedica à “profecia” do saber e à criação do conhecimento, enquanto o profeta age como porta-voz de uma mensagem divina, com uma autoridade que não se aplica ao professor. Por isso, é comum a confusão entre os dois papéis.

Essa confusão pode ser problemática quando o professor, devido a um entendimento equivocado, assume o papel de transmitir “verdades” absolutas.

O papel fundamental da experiência marcial é desenvolver o ser humano. Todos passamos pelas mãos de professores, e é essencial distinguir o papel de cada um e decidir a quem ouviremos. Devemos evitar ser influenciados por falsos profetas e entender o que é necessário para nosso desenvolvimento no momento apropriado.

Palestra sobre Sau, Poh e Lei

Transmitir conhecimento, ou professar, é crucial para o amadurecimento, tanto no aspecto específico do conhecimento quanto no pessoal. Para se expressar legitimamente, é fundamental reconhecer que as verdades individuais não devem ser impostas como absolutas além de si mesmo. Cada um tem seu próprio caminho, e o compartilhamento desses caminhos é o que gera o verdadeiro aprendizado.

Por isso, em nossas aulas de fundamentação, o termo “instrutor” é preferido ao de “professor”. “Instrutor” tem um sentido mais específico e evita o entendimento equivocado do primeiro termo, protegendo tanto o aluno quanto o instrutor. O instrutor, no programa fundamental, tem um objetivo técnico, enquanto, no Sistema Tradicional, ele assume o papel de irmão mais velho, e o aluno, o de irmão mais novo, promovendo uma troca de conhecimentos e desenvolvimento mútuo, com um claro sentido de “professar”.

Apresentação de Nome Kung Fu.

Aprendi sobre a etimologia das palavras com meu Si Fu, que é muito interessado no tema. A análise das palavras ajuda a entender o pensamento e a melhorar as interações. Suspeito que a atenção dele ao significado das palavras vai além do conteúdo, refletindo sua expressão marcial. Saber exatamente o que e como dizer é crucial para a prática marcial.

Revisitar experiências passadas e compreender o que se pode aprender delas é um exercício valioso de aprofundamento marcial. Escrever é uma forma de fazer isso.

Recentemente, um praticante mais novo fez uma sugestão que inicialmente recusei. Ao refletir sobre minha resposta, percebi que minha recusa se baseou mais em um desejo pessoal do que em uma avaliação justa da proposta. Esse episódio me lembrou da importância de evitar comportamentos hipócritas e manter a mente aberta para o aprendizado.

Faço minha parte voltando ao tema e refletindo sobre a responsabilidade de minhas ações, bem como sua precisão no sentido de estar de acordo com os aprendizados que tenho com Si Fu, como por exemplo, o estudo etimológico. Torço para que este irmão mais novo possa perceber o equívoco e, no melhor sentido da palavra “aluno”, se nutrir de saberes construtivos. Que, a partir disso, possamos nos desenvolver juntos, assim como desenvolvo com ele, inspirados por nosso Si Fu, o Kung Fu.

Reflexões sobre Inteligência e Genialidade.

Santos Dumont, patrono da aeronáutica brasileira.

Refletindo sobre as interpretações da inteligência, deparei-me com algumas afirmações interessantes.

A primeira estava relacionada à palavra genialidade e sua raiz:

  • Latim: A palavra “genial” deriva do latim genialis, que significa “pertencente ao gênio” ou “relacionado ao espírito protetor”. No contexto romano, genius referia-se a uma espécie de espírito guardião ou força divina associada a uma pessoa, lugar ou coisa.
  • Gênio: O termo genius no latim está relacionado a gignere, que significa “gerar” ou “produzir”. O genius era visto como uma força que inspirava criatividade e proteção, responsável pelo talento e inspiração de um indivíduo.

Com a palavra “genial” vindo de “gênio”, é compreensível a associação com atividades metafísicas e extraordinárias. Portanto, é esperado que esta definição esteja atrelada apenas àqueles cujos feitos compõem esse quadro, como a criação do avião, espaçonaves e afins.

Contudo, o uso dessas tecnologias há muito se tornou corriqueiro e, de maneira geral, ordinário. Metafísicas, essas realizações jamais foram; muito pelo contrário…

Assim, cativa-me o entendimento de que a genialidade é a inteligência exercida. Todos têm grandes ideias, mas poucos são capazes de realizá-las. Quanto à raiz da palavra “genial”, metaforicamente, vejo-a como um “espectro”: algo intangível e quase fantasmal, que se manifesta como inspiração.

Líderes da Família Moy Jo Lei Ou. Mestre Senior Julio Camacho e Senhora Márcia Moura Camacho.

A associação de grandes feitos, em geral, está atrelada a pequenos grupos que realizaram grandes momentos — momentos que geram benefícios para a humanidade. Não posso deixar de refletir sobre tantos outros homens e mulheres que também realizaram pequenas ações. Neste caso, pequenas se comparadas a outras, mas grandiosas quando observadas em si mesmas.

O certo é que aquilo que é pequeno ou grande está atrelado ao seu referencial. Por ser maior que a formiga, posso afirmar que ela é pequena; se considerarmos o dia a dia dela, talvez não fosse assim.

Portanto, vejo como um grande passo, talvez não para a humanidade em geral, mas para a família Kung Fu, se estivermos atentos aos nossos ancestrais.

Por exemplo, é certo que, para minha Si Mo, Senhora Márcia Moura Camacho, foi um grandioso passo sair de sua terra natal e morar em outros estados da federação.

Assim como para meu Si Fu, que, para atender a um pedido de seu mestre, se organiza para mudar de país.

Para ambos, Si Fu e Si Mo, estou certo de que morar nos EUA, a despeito de todas as dificuldades enfrentadas no Brasil ou lá, e ainda assim continuarem a seguir em frente, e seguir juntos, mostra-me na prática o que é a genialidade.

Processo de Reafirmação Discipular.

Neste aspecto em particular, no que diz respeito a realizar sonhos, há para mim uma interrupção. Acredito demais no Kung Fu. Por isso, proponho-me há anos a viver cada segundo da minha existência transpassado por essa lente, a “lente Kung Fu”. É por isso que, para mim, a lógica é:

Se quero viver com Kung Fu, não existe outro jeito senão estar próximo à sua fonte. Para mim, é fundamental também me mudar. Eis que, neste aspecto, há um empecilho; ainda não posso.

Portanto, e por enquanto, resta-me o sentido espectral da genialidade: a inspiração que vem de ambos, Si Fu e Si Mo, de alguma forma me ajuda a manter as forças que sustentam a minha inteligência. Transmutar isso em genialidade é uma questão de tempo. Estou certo de que vai acontecer.

Afinal,

“Se você acha que pode ou que não pode, em ambos os casos, tem razão.”

Concentração: Prática e Desenvolvimento Pessoal

Jong Sau, a guarda do Sistema Ving Tsun

A concentração é um elemento essencial em diversas práticas e disciplinas, desempenhando um papel crucial tanto no desenvolvimento pessoal quanto na eficácia de sistemas de treinamento. No Sistema Ving Tsun, a concentração pode parecer se manifestar de formas distintas, mas, se bem exploradas, é possível adquirir um entendimento mais profundo e holístico do sistema.

Em primeiro lugar, a concentração é entendida no seu sentido mais conhecido: a capacidade de foco mental. No Sistema Ving Tsun, esse foco é cultivado para aprimorar a atenção, a precisão e a eficácia dos movimentos. A prática regular das técnicas exige um estado de presença mental, onde o praticante deve concentrar-se intensamente no movimento, na respiração e na intenção.

Contudo, quando falamos da via por onde o Sistema Ving Tsun se manifesta, o corpo, apesar de ser possível separar para efeitos de estudo, o correto entendimento é de que ele se manifesta como uma coisa só. Portanto, a concentração no sentido de “trazer para o centro” desempenha um papel simbólico e prático no Ving Tsun. Este sistema enfatiza o uso da linha central do corpo, tanto como uma área a ser protegida quanto como uma via de ataque eficaz. Em última análise, a concentração se dá também no sentido de tornar ações distintas em uma só, aumentando eficácia e precisão. Portanto, o uso da linha central e a concentração permite o entendimento de que não há diferença entre se defender ou atacar; no fim, o importante é agir concentrado.

Extrapolando o conceito de Concentrar

É por isso que explorar a guarda é um excelente estudo para aprender não só o sistema, mas também como usar o corpo de forma mais inteligente e unificada, fazendo com que os movimentos possuam potência e precisão sem a necessidade de treinamentos específicos. De fato, basta usar o corpo de forma inteligente.

Em um aspecto mais subjetivo, também é possível explorar o mesmo entendimento, já que concentrar, ou seja, trazer para o centro, significa, na prática, alinhar os aspectos divididos e tratá-los como um conjunto de coisas que apontam para a mesma direção, sendo estas coisas de mesma natureza ou não.

Por exemplo, lembro-me que, em um passado não distante, eu trazia para o Si Fu meu desconforto em relação à quantidade de coisas a serem feitas em nossa escola. Muitas vezes, nem havíamos terminado a demanda anterior, e já se manifestava uma nova.

Na época, em geral, Si Fu me respondia com uma pergunta. Ele dizia:

“O que você já fez?”

Minha resposta era que não havia iniciado nada, já que, antes mesmo de começar algo, já havia mais a se fazer. Então, ele respondia que eu deveria iniciar por alguma.

Hoje, noto que a dificuldade era minha capacidade de me concentrar na atividade. O cenário, meus contemporâneos, ou questões pessoais, tudo era componente e, a bem da verdade, uma desculpa para não fazer nada e justificar o estado das coisas que não mudavam.

A partir do momento em que trouxe para mim o desafio de simplesmente fazer e concluir as atividades, uma a uma, notei que elas possuíam pontos em comum. Se não em sua natureza, às vezes eram coisas diferentes mesmo, mas tinham o mesmo objetivo final, que era, por exemplo, o desenvolvimento marcial.

Neste momento, passei a me desafiar a executar tudo que era proposto, já que minha justificativa era evoluir como pessoa. Não me importava muito com o que os demais pensavam; apenas fazia o meu melhor.

Esse tipo de postura me trouxe a segurança de executar as tarefas de acordo com a minha capacidade e, portanto, me senti seguro para tentar mais. Aqui, segue o próximo desafio.

Com Mestre Senior Julio Camacho

Há coisas que não sou capaz de fazer, seja por não ter tempo ou habilidade técnica. Então, surge a pergunta: por isso devo não fazer?

A resposta não é simples. Isto depende de uma série de aspectos pessoais, sobretudo os que regem a pessoa no momento. Para mim, cujo objetivo é me tornar uma pessoa mais eficaz e, portanto, desenvolver meu Kung Fu, a resposta é não.

O que acontece é que, não havendo tempo, é possível ajustar os horários e tentar necessitar de menos tempo para concluir a tarefa. Em caso de não ter a habilidade técnica, posso pedir ajuda e aprender com outros; assim, me torno um ser humano mais completo.

Até porque, muitas vezes, mesmo tendo a oportunidade de aprender, ainda posso não desenvolver bem o conteúdo. Neste caso, torno-me um líder. Ou seja, focado no objetivo final, conduzo aqueles que têm mais habilidade, gerando benefícios a todos. Para mim, este é o verdadeiro sentido de concentrar.

A base da Pedagogia

Representação do Efeito do Ensino.

No final da década de 1970, a banda britânica Pink Floyd apresentou ao mundo um de seus maiores sucessos, a música intitulada “Another Brick in the Wall”. Sua letra trata de como a banda entendia o processo de educação à época.

Tantos anos depois, embora existam avanços, pergunto-me: “O que de fato mudou?”

Basicamente, o principal trabalho da pedagogia é criar melhores modelos, refinar os obsoletos e corrigir o que já se entende como inútil. Isto tudo ocorre nas instituições de ensino. Portanto, apesar dos avanços, podemos entender que, em essência, nada mudou.

O problema é que a palavra ensinar, em sua raiz, traz a ideia de deixar uma marca. Então, mais importante que ajudar a desenvolver capacidades reflexivas ou críticas, é imprimir uma verdade pessoal nos estudantes, presumindo que isso os tornará bem-sucedidos e, portanto, felizes. Como essa marca pessoal é oriunda da cultura em que vivemos, onde o sucesso está frequentemente ligado ao dinheiro, o discurso é que os estudantes devem ter boas profissões, para isso, é fundamental prestar vestibulares ou concursos.

Dependendo da profissão escolhida, é possível ser bem-sucedido no sentido exposto, mas é difícil saber, ante essa máquina de moer gente, para onde realmente aponta nosso coração. Não só a escola, mas a cultura que a escola e seu método de ensino ajudam a reproduzir, influencia isso.

Se pensarmos bem, quem mais prospera são os donos de universidades e cursos preparatórios. Cursos de extensão e outras áreas do ensino também estão em alta; todos querem deixar sua marca, curiosamente, a mesma.

Então, como viver plenamente se temos uma perspectiva diferente?

É preciso DESenvolver. Nesse sentido, a prática marcial é crucial.

Primeira Foto Si To.

Há 17 anos, pratico o Sistema Marcial Ving Tsun. Tecnicamente, me sinto preparado para os desafios do dia a dia. Mesmo assim, esses desafios exigem o uso altamente refinado das técnicas. Não basta saber aplicar um soco; é preciso entender sua origem e destino, calcular sua intensidade e relevância. Muitas vezes, nota-se que é melhor nem mesmo golpear.

É por isso que não basta saber a técnica; entender seus fundamentos é crucial. Saber desdobrá-las em uma camada mais profunda é o retorno para a maior das inteligências. Em outras palavras, é necessário retirar as camadas impostas que não deveriam estar ali, como o sentido de vencer o oponente.

Isso se expande para a educação formal, onde também foram criadas camadas que dificultam o entendimento do que poderia ser feito naquele ambiente. Isso é facilmente identificado quando notamos que o principal método de avaliação é feito por notas individuais, o que inibe a troca de conhecimento.

Isso resulta na “criminalização” de práticas como a “cola”, que poderia ser um meio de cooperação. Em uma sociedade que valoriza a colaboração, colar poderia ser visto como uma troca de conhecimentos.

Colar, em uma sociedade que visa a cooperação e o crescimento de todos, deve ser bem visto. Nesse caso, a cola seria a troca de conhecimentos e informações, apoio mútuo. Um mecanismo de solução que considera mais de um instrumento capaz de resolver o problema. Afinal, “duas cabeças pensam melhor que uma”. Imagine isso aplicado a toda uma turma, colégio e, como utopia, em escala social.

Direção de Núcleo

Minhas reflexões vêm das experiências com meu Si Fu, que me mostrou que o verdadeiro aprendizado vai além da técnica, permitindo um entendimento mais profundo. O conceito de Vanguarda e Retaguarda ilustra essa ideia: mais importante do que saber algo é saber compartilhar e fazer o conhecimento circular.

Além disso, é mais importante aprender do que ensinar. Portanto, o foco sai da instituição e se volta para o principal interessado: o aluno. O que se faz é transmitir o conhecimento com base no oferecimento de cenários frutíferos para que o aluno seja capaz de compreender por si mesmo, em vez de repetir jargões e, portanto, não contribuir para o desenvolvimento da humanidade, que é, a meu ver, o que o ensino propõe.

Neste contexto, e baseado em minha experiência com Si Fu, a proposta é a transmissão, que visa o compartilhamento de um saber. Sobre este saber, o aprendiz faz o que for capaz de fazer. E, caso ele esteja bem aparelhado, ou seja, em condições de se experimentar e refletir criticamente sobre suas ações ou as do outro, certamente podemos aguardar bons resultados.

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