Família Kung Fu

Monastério Shaolin, 2009. Ao centro temos a matriarca de nosso clã, senhora Helen Moy. Ladeada por monges que nos recepcionaram e diversos nomes de grande relevância para nossa linhagem. Dentre eles, Grão Mestre Leo Imamura e Mestre Senior Julio Camacho.

O monastério Shaolin, onde acreditamos que houve o inicio do Sistema Ving Tsun, tem como uma de suas principais características a heterogeneidade.

Em seu interior conviviam harmonicamente budistas, taoistas, ateus, homens, mulheres, entre outros.

Por isso, em nossas práticas podemos identificar indícios de cada corrente filosófica, propondo portanto uma interpretação abrangente do Kung Fu.

Com relação a característica familiar, nossa inspiração é o pensador e político chinês mais conhecido como Confucius.

Ilustração de Confucius, pensador chines

Uma das contribuições para a humanidade que este pensador deixou foi a ideia de família. Confucius acreditava que se cada pessoa tivesse uma função a exercer, a sociedade viveria em harmonia.

Então, ele criou uma estrutura familiar complexa, onde destacava qual o papel de cada individuo. Esta pessoa deveria executar rigorosamente sua função, e, apenas ela.

Na família Kung Fu, isto é seguido da maneira estratégica.

Por exemplo, Si, de Si Hing, irmão mais velho, e Si Dai, irmão mais novo, possui rigorosamente o mesmo significado: ensinar e aprender.

Por isso, o Si Hing não deve se posicionar como uma figura de autoridade.

Ele ou ela, lembrando que não estou usando os termos de maneira relacional, onde caberia o termo Si Je, acompanham o Si Fu e trilham o mesmo caminho que o Si Dai há mais tempo.

Por isso, tem condições de auxiliar os mais novos através de sua experiência, mais nada.

Por sua vez, o Si Dai não deve ter uma postura apenas receptiva, é importante se colocar de maneira ativa no seu próprio desenvolvimento.

Considerando sua experiência prévia, certamente ele ira contribuir com o seu desenvolvimento, e, no desenvolvimento do Kung Fu de seu Si Hing.

Existe uma outra relação, que é o eixo de toda a experiência marcial. Esta é chamada de Si To, Si Fu, To Dai.

Com Mestre Senior Julio Camacho, observados por meu irmão Kung Fu, Andre Guerra. Nucleo Ipanema

Kung Fu é pessoal, por isso, apesar de tantos alunos, Si Fu se dispõe a ter relação individual com todos.

Os discípulos tem apenas um Si Fu, o Si Fu, no trato, é Si Fu de apenas um discípulo.

Diferente da relação Si Hing – Dai, relação entre irmãos mais velhos e mais novos, a relação Si To, não propõe duplicidade de papéis.

Pelo contrário, se a relação for madura, o papel de cada um estará bem claro.

Aprendi com meu Si Fu que a clareza de papés é de suma importância para o bem estar da família Kung Fu, pois, em um ambiente em que há liberdade para se expressar, é comum termos acesso a diversos tipos de saberes.

Contudo, na família Kung Fu o saber mais importante é o do Si Fu, é dele que devemos nos valer em qualquer cenário.

Qualquer outro trata apenas de conhecimento ou curiosidade, a meu ver, sem representatividade no desenvolvimento pessoal do Kung Fu.

Em outras palavras, nada impede o acesso a outros conhecimentos, mas não saber o que seu Si Fu pensa sobre aqueles assuntos pode confundir e atrapalhar sua jornada.

Todo artista marcial deve entender que Si Fu muitas vezes oferece água quando queremos suco, e que a água nos mantem suficientemente hidratados.

Kung Fu à Mesa

Decoração de um restaurante Chinês

A dinâmica do Kung Fu nos convida a desenvolver a todo momento uma postura marcial.

Seja pelo nível de tensão que, claro, é adequada ao momento de cada praticante, ou pela proposta de olhar além do óbvio.

Quando saímos para comer, por exemplo, fica nítida esta proposta. Já que, sabemos, não vamos a um restaurante apenas para comer, mas sim para ter um momento de Vida Kung Fu.

A dinâmica de um restaurante chinês favorece todo este processo, já que a mesa é três vezes redonda. Isto faz toda diferença.

Alem disso, o Kung Fu propõe alguns protocolos, assim, a todo momento estamos atentos ao outro.

Restaurante Chou Kou, Copacabana. Com Mestre Senior Julio Camacho, a sua esquerda meus Si Suk Marcelo Navarro e Jones Bauman. A sua direita eu e Si Suk Felipe Seabra.

A mesa em um restaurante chinês é redonda por uma razão simples: não há posição de destaque a priori, por isso, se for o caso, cabe aos participantes evidenciar esta pessoa de maneira discreta.

Outra estrutura redonda, e, giratória, é onde o garçom posiciona a comida. Isto significa que o pedido não é individual e sim para a mesa.

Por isso, sempre é um Si Hing, ou seja, alguém que conheça as pessoas e a dinâmica da mesa chinesa a pedir, desta forma garantimos que o pedido contemplará todos os gostos e não vai haver desperdício de tempo com pedidos individuais.

Por último temos o prato, este é individual. Note que a ordem em que apresentei a estrutura foi do macro para o micro, por isso, entendemos que o mais importante é o todo.

Neste dia, estávamos em um seminário com o Si Gung, que é o Si Fu de meu Si Fu, Grão Mestre Leo Imamura, ele estava diante de mim na mesa.

Como sempre digo, a todo momento a Vida Kung Fu nos propõe uma atitude objetiva e discreta. Mas nem sempre estamos atentos a ela.

A escolha do lugar foi curiosa, minha estratégia era ver onde Si Gung iria sentar, Si Fu certamente sentaria próximo, assim, eu poderia escolher um local um pouco mais distante.

A razão disso era não cometer nenhuma gafe na frente do Si Gung, e, na minha cabeça, envergonhar o Si Fu. Até porque, eu tinha na época pouca experiência em restaurante chinês.

Acontece que quando entrei estava próximo demais de Si Fu e Si Gung, como eles rapidamente sentaram ficou uma cadeira vaga exatamente ao lado do Si Fu e na frente do Si Gung.

Um pouco desconfortável eu sentei, não havia outra coisa a se fazer.

Em seguida a comida chegou e todos se serviram. Eu estava tão tenso que estava travado, me questiono se inclusive respirava.

Com muita naturalidade Si Fu serviu Si Gung e a si mesmo. Como eu ainda estava travado ele me serviu.

Um dos protocolos no Kung Fu diz respeito ao mais jovem servir ao mais velho, por isso, achei a atitude do Si Fu estranha.

Mas, me serviu de alerta, eu precisava me destravar e viver aquela experiência.

Logo em seguida servi chá para o Si Fu, ele ficou me olhando mas eu não tinha entendido. Rapidamente ele pegou o bule de Chá e serviu o Si Gung.

Pensei: agora entendi. Passado um tempo, servi chá ao Si Gung e me voltei para meu prato. Si Fu me deu uma sutil joelhada, mais uma vez olho sem entender.

Outra vez, rapidamente ele pega o bule, agora serve a si.

Pronto, tinha de fato entendido. Eu precisava estar atento ao Si Gung e Si Fu. Deste momento em diante não deixei de servir os dois. Estava até satisfeito comigo mesmo.

Passado algum tempo, sinto um beliscão na coxa esquerda, olho para Si Fu com cara de bobo, ele continua comendo. Noto que os dois estão bem servidos, o que será que houve?

“Gui, você não vai comer?” Si Fu pergunta.

Só então notei que meu prato estava intocado. Simplesmente esqueci de mim.

Mestre Senior Julio Camacho, a sua esquerda Si Taai, Senhora Vera Camacho e a sua direita Si Gung, Grão Mestre Leo Imamura, De pé temos meus irmãos Kung Fu Thales Guimarães e mais distante André Guerra.

Como disse, a mesa chinesa considera do todo para parte. Eu estava no fluxo contrário, uma das minhas preocupações era que eu não sabia segurar o Fai Chi, ou estava com medo de envergonhar meu Si Fu e só.

Mas, foi a experiência deste dia que me ajudou a estar atento as questões do todo, sem deixar de considerar minhas minhas próprias questões.

Neste dia, notei que a preocupação individual é pouco estratégica. Não importa a habilidade ou falta de habilidade do individuo, o importante é saber se diluir no contexto.

Mais que tudo, notei como o aprendizado pode ser dinâmico e sem palavras. Não tive uma aula de etiqueta Kung Fu, mas sim, uma experiência marcial.

Si Fu, em poucos gestos me mostrou isto, inclusive, me ajudou a refletir que todos os protocolos no Kung Fu são estratégicos, e, portanto, devem ser atualizados de acordo com cada cenário.

Protocolos não servem para definir conduta, mas sim, auxiliar o jovem praticante no entendimento do simbolismo do Kung Fu, em outras palavras, olhar além do óbvio.

Siu Nim Tau, continuação.

Siu Nim Tau, cenário propício para sua prática

O desenvolvimento marcial requer dedicação e habilidade para estar diante de desafios. A pratica do Siu Nim Tau, primeiro domínio do sistema tradicional, propõe, tão logo executada, o desabrochar da experiência marcial.

Contudo, não é raro o mal uso desta sequência de movimentos e, como consequência, a má interpretação de seus gestos ou seus “beneficios”.

Por isso, praticar em cenários distintos favorece o desenvolvimento, já que, na maioria das vezes, estar diante de algo novo nos permite vivenciar experiências inesperadas.

Cena do Filme ” O Grande Mestre.” O personagem de Patriarca Ip Man demonstra Siu Nim Tau em um cenário propicio para sua prática.

Siu Nim Tau, em meu entender, diz respeito a “verdade interna.” Por isso, esta cena fictícia exemplifica bem o que quero dizer.

A sequência de movimentos do Siu Nim Tau, apesar de possuirem razão em si, inclusive na ordem em que são apresentadas, no sentido mais profundo, são instrumentos da experiência marcial.

O que nos leva, gradativamente, a uma atitude mais madura diante de situações em que temos dificuldade de lidar, portanto, nossa atitude se torna marcial.

A “verdade interna” diz respeito ao quanto que temos de conhecimento do nosso próprio potencial. Por ser verdade, não há espaço para atrevimento ou subserviência.

É isto que permite o personagem lutar sozinho contra 10 pessoas, se ele soubesse que não seria capaz não estaria ali, isto é marcialidade.

Todo este entendimento, é claro, desenvolvi com meu Si Fu, Mestre Senior Julio Camacho, de maneiras distintas.

Em uma delas, estávamos no Núcleo Barra, situado no condomínio Interlagos de Itaúna, no Recreio, Si Fu, eu e meu irmão Kung Fu Pedro Correa. Pedro tinha acabado de chegar, na época, estudávamos o domínio Mui Fa Jong.

Si Fu disse que iria embora mas orientou que praticássemos Siu Nim Tau e depois Chi Sau.

Já no inicio da prática Si Fu nos mostrou como fechar a mão, ela deve ficar bem apertada, toda a energia deve estar concentrada ali, a mão deve ficar maciça tal qual a uma bola de ferro.

Em seguida, Si Fu apagou todas as luzes,, fechou as portas e janelas do Núcleo. Por fim, disse:

“O Kung Fu está literalmente em suas mãos, não se permitam fazer menos que vinte minutos de pratica, não deixem de manter as mãos bem apertadas nem por um segundo, faça cada um a sua maneira, mas devem terminar juntos.” Depois disto foi embora.

Fiquei preocupado, e se o Mo Gun pegasse fogo?

É obvio que tínhamos as chaves, e a chance disto acontecer era pequena, este pensamento era só minha mente me sabotando, era uma desculpa que criei para sair correndo dali.

Passado alguns minutos, a sensação de sufocamento era tamanha que, estava sem forças para tensionar as mãos, parecia que meu corpo entendia que sua única função era respirar.

Naquele dia entendi a importância de oxigenar o corpo. Desenvolvi mais da capacidade de estar atento ao outro independente do desconforto, já que meu irmão Kung Fu ainda estava ali.

Mas, o que me gerou mais mais aprendizado, foi uma das ultimas frases que Si Fu tinha dito antes de sair:

“O Kung Fu está literalmente em suas mãos”

Claro que eu e o Pedro poderíamos simplesmente parar e combinar de dizer que fizemos como Si Fu propôs.

Aliás, eu sabia que Si Fu não perguntaria depois o que tinha acontecido, o que de fato aconteceu.

Kung Fu é uma pratica para adultos, ou para te ajudar a se tornar um adulto. Tomar decisões e bancar o processo faz parte do aprendizado.

Siu Nim Tau no Mo Gun, cenário propício para sua prática

Em diversas conversas com Si Fu, entendi que meditação diz respeito a estar atento ao momento e se aproveitar do fluxo. E que dentro da dinâmica marcial, a meditação está relacionada ao tencionar e relaxar ao mesmo tempo,

Por isto, praticar Siu Nim Tau na praia ou em meio ao transito, atrasado para algum compromisso inadiável devem ter o mesmo peso.

Siu Nim Tau deve ser practicado em grupo, mas também sozinho. Pois, só você vai saber seu nível ou o que quer atingir com o Kung Fu.

Em outras palavras, quando sozinhos, o que demonstramos de verdade interna?

Inteligencia Estratégica

Praticante de Artes Marciais em seu desenvolvimento fisico

Para o praticante de Arte Marcial, atividade física é qualquer atividade realizada através do corpo.

Portanto, não há como o ser humano executar qualquer atividade que não seja física.

Dormir, por exemplo, é uma atividade pouco usual na explicação do que digo mas que se encaixa perfeitamente.

Então, como o Kung Fu poderia nos auxiliar neste tarefa?

Pratica do Zelo no Antigo Núcleo Méier. Desenvolvendo minha habilidade física

A atividade marcial é repleta de “pré- conceitos”. Normalmente, estes são os difundidos por filmes. E, portando, não necessariamente um fato.

Contudo, o que está demonstrado nas entrelinhas costuma ser comum entre o que é fato e ficção.

Por exemplo, temos a disciplina, resiliência e vontade de se desenvolver.

Todas estas características são cruciais, seja para se manter em uma posição por determinado tempo ou mesmo para executar atividades corriqueiras.

Inclusive, creio que o Kung Fu é um excelente exercício para o sono. Isto se explica facilmente:

Certa vez, ouvi Si Gung, termo similar ao “avô”, em português, dizer que uma boa noite de sono é o resultado de um bom preparo ao mesmo. Podemos usar o decorrer do dia para isto.

Fui introduzido a esta perspectiva de maneira muito natural:

Lembro que ao iniciar meu processo, eu costumava ficar depois de minha pratica. Conversava com Si Fu, trabalhava em alguma atividade especifica do núcleo com um irmão Kung Fu e depois ia embora.

Ao longo dos anos, fui naturalmente me disponibilizando mais, a ponto de passar o dia inteiro imerso nas atividades do núcleo.

Lembro de algumas vezes em que tive a oportunidade de encontrar o Si Fu bem cedo e me despedir de madrugada.

Desses encontros obtive diversos benefícios, um deles foi a melhora na qualidade do meu sono.

Mestre Senior Julio Camacho. Há mais 16 anos, foco e relaxamento

Entendo que a qualidade do sono mudou por conta das atividades ao longo do dia.

O tempo que tinha entre descanso e gasto de energia era inversamente proporcional. Tinha bem menos que as oito horas que um dia acreditei serem necessárias.

Então, para poder descansar, eu aprendi a gastar menos energia.

Fazer as atividades com objetividade e preparo prévio me ajudou a equilibrar o desperdício de tempo e gasto desnecessário de energia, seja corrigindo erro ou falta de foco.

Por fim, entendi que uma boa noite de sono é a que se dorme o tempo que se tem para dormir, sem culpa e com o máximo de aproveitamento.

Esta última foto é emblemática, trata do primeiro Siu Nim Tau praticado por Si Fu no antigo Estúdio Barra.

Neste dia, há exatos 16 anos, Si Fu pegou a chave e inaugurou um processo ímpar em nossa história. Onde um líder cuida de dois espaços distintos, na época, já tínhamos o Núcleo Jacarepaguá.

Esta feliz coincidência de escolha da foto que faz aniversário me fez pensar o seguinte:

Certamente, este Siu Nim Tau o ajudou a manter o foco e a não desperdiçar energia até aqui, e, por esta via, me ajudou a entender como melhorar o meu sono.

Mo Gun, minha casa. Minha casa meu Mo Gun

Encontro Tematico Remoto com Mestre Senior Julio Camacho, instrumento que representa a capacidade de se apoiar na situação

Tudo muda, se transforma e, ou, atualiza. Nesses tempos atuais, isto é o que vivemos diariamente.

Diria até que vivemos isto minuto a minuto. Por isso, entendo que ninguém sabe exatamente o que está acontecendo e nem se pode ter certeza dos desdobramentos de nossas ações.

Se manter presente, em outras palavras, atento ao que se dedica a fazer é crucial.

Somente assim, mesmo sem certeza de para onde vamos, ao menos sabemos que caminho estamos trilhando.

Com Mestre Senior Julio Camacho, aprendizado nas situações do cotidiano

A todo momento, percebo com meu Si Fu que os grandes aprendizados residem nas coisas comuns.

O entendimento disto me parece simples, não é que as situações corriqueiras contenham aprendizado em si, mas sim, a perspectiva marcial nos permite enxergar além do óbvio.

Esta afirmação me lembra uma historia:

No Núcleo Barra temos duas salas que são divididas por uma porta de blindex, assim, não se interrompe fluxo das atividades de nenhuma das salas. Na maioria das vezes deixamos esta porta fechada.

Certa vez, estava praticando com diversos irmãos Kung Fu, foi uma pratica que me deixou bastante satisfeito dado ao nível de consciência que pude ter naquele momento.

Ao terminar, transitei de uma sala a outra, e, por esquecimento, deixei a porta aberta. Si Fu fechou e pediu: ” Por favor, mantenha a porta fechada”.

Para mim aquilo era obvio, disse:” pode deixar, Si Fu.”

Retornei a sala de pratica ávido por mais uma rodada de que chamei de “exercício de consciência”.

Passado um tempo, retornei a outra sala e não percebi de imediato que passei sem nenhuma dificuldade, tinha mais uma vez deixado a porta aberta.

Discretamente, fechei-a e, em seguida, ouvi Si Fu dizer:

“Gui, você esta notando o que esta fazendo?”

Sem entender, olhei para ele, ele apenas retribuiu o olhar; em busca de informação, tornei a olhar para a porta e notei que não tinha fechado por completo.

Ao retornar a sala de pratica, abri a porta com cuidado e me certifiquei de que ela foi fechada totalmente, somente depois disso continuei minha pratica.

Si Fu e eu nunca mais falamos desta história, mas, ela me marcou profundamente.

A ponto de influenciar na dinâmica da minha casa. Há pouco tempo, notei que todas as luzes da minha casa estavam acesas, mesmo de dia.

Não creio que as luzes acesas o tempo todo possam me causar prejuízo em qualquer sentido, mas não pude deixar de me perguntar qual seria o benefício disto.

Tentando me manter mais atento, notei que o gesto de acender a luz é automático, tal qual o de deixar a geladeira aberta ou a água do filtro vazando.

Ou mesmo, tal qual o de abrir e fechar a porta do Mo Gun.

Relação Si-To. Relação que norteia qualquer momento

Como eu disse, o momento é de mudanças. Hoje, estando mais em casa, criei naturalmente mecanismos de transforma-la no Mo Gun,

Em outras palavras, em um ambiente onde eu possa me desenvolver enquanto praticante.

Toda esta dinâmica só é possível por conta da relação que criei ao passar dos anos com meu Si Fu.

Por isso, se quer saber minha opinião sobre o atual momento da família Moy Jo Lei Ou ou sobre nossa casa, o mo gun, eu repito o que foi dito: é um momento de mudança.

Contudo, esta mudança não é só ou necessariamente física, é também de paradigma.

Portanto, para entender, e até mesmo apreciar o melhor o que está acontecendo, dedique-se ao seu Kung Fu e, sobretudo, a sua relação Si-To.

Primeiro passo

Patriarca Moy Yat demonstrando uma de suas artes, a caligrafia; enquanto seu discípulo, Grão Mestre Leo Imamura acompanha

Caligrafia chinesa é uma arte!

Nossa linhagem tem um apreço especial por esta arte, dada a habilidade de meu Sitaai Gung, Patriarca Moy Yat.

Este conhecimento não se refere apenas a arte de escrever, mas também a escrever com arte.

Para mim, isto ficou claro há pouco tempo atrás.

Livro de autoria do Meu Si Fu, Mestre Senior Julio Camacho. Kung Fu manifestado em palavras

Já nas primeiras vezes que vi alguma pintura de Patriarca Moy Yat, eu fiquei encantado, adoraria pintar como ele.

Mesmo as letrinhas chinesas, como eu chamava na época, me chamavam atenção.

Ano passado, quando mais uma vez Si Fu pediu a seus discípulos que escrevessem com regularidade sobre sua experiencia marcial eu fiquei muito desconfortável, não achava que teria conteúdo para apresentar.

A partir das dicas dele resolvi tentar. “Use fotos no texto, três são suficientes.”

Me empenhei a fazer os escritos dentro desta estrutura, pouco tempo depois, Si Fu me orientou sobre a legenda das imagens:

“É esperado que sua legenda ajude a contar a história”

Ainda neste período ele disse:

“Entenda o impacto do que você escreve nas pessoas.”

Recebi diversos comentários do Si Fu sobre meus textos, todos me ajudaram a me refinar, e, sobretudo, a me sentir mais seguro.

Outras pessoas começaram a fazer seus apontamentos sobre o que eu escrevia. Assim, me senti mais seguro ainda.

Relação Si To, Si Fu, To dai

Tenho certeza que Si Gung, Grão Mestre Leo Imamura, tem bastante bagagem para falar de caligrafia e arte de modo geral.

A razão disto é, por tantos anos, ter acompanhado seu mestre.

Não sei dizer se um dia me tornarei um grande escritor. Todo caminho começa com o primeiro passo, este foi dado. E, caso não seja reconhecido como tal, não importa.

Tenho certeza que terei bastante bagagem para falar sobre como escrever.

A razão disto é, por tantos anos, ter acompanhado seu mestre.

Siu Nim Tau

Si Fu, Mestre Senior Julio Camacho. Nova Yorke, EUA

Em meu entendimento, a sequência do Siu Nim Tau é uma ferramenta que nos auxilia na auto observação.

Entender a extensão de corpo e a melhor maneira de executar os movimentos são estudos propostos, sobretudo, quando se está iniciando.

Com a experiência, nota-se que, o que faz a acontecer a pratica do Siu Nim Tau é o próprio Siu Nim Tau.

Para que aconteça, basta que o praticante posicione seu corpo de maneira favorável, assim, o indivíduo se deixa portar pelos movimentos.

Em outras palavras, um bom Siu Nim Tau é aquele que não é atrapalhado pelo seu executor.

Mestre Senior Julio Camacho guarnece xícara entregue por Patriarca Moy Yat. Estudo de Siu Nim Tau

Praticamos arte marcial, portanto, estamos diariamente em situações de crise. Nada grave, mas crítico.

Servir chá, por exemplo, é um excelente estudo. Existe o risco de servir na hora errada e atrapalhar o fluxo, ou, derramar e queimar as pessoas.

Por isso, este gesto não pode ser executado levianamente, é preciso atitude marcial. Uma boa maneira de executar esta, e outras tarefas, é se deixar portar, como na foto.

Há uns dias, Si Fu me sugeriu que fizesse Siu Nim Tau ao acordar e antes de dormir. E, o que entendo como mais importante, ele disse: “Faça com verdade interna”

Siu Nim Tau é como um espelho, a diferença é que em vez de se ver, você se percebe. Associado a isso há uma benção muitas vezes mal interpretada, você está sozinho.

Isto é excelente, pois, desta maneira, sua pratica não é influenciada pelo olhar alheio, facilitando assim a percepção ou acontecimento da “verdade interna.”

Desenvolvendo a habilidade de lidar comigo mesmo

Graças a proposta do Si Fu, estou aproveitando a quarentena de maneira a ter cada vez mais contato com minhas dificuldades.

Assim, posso primeiro percebê-las para, por fim, entender como lidar com elas.

Estudar Siu Nim Tau pelo período necessário sem se afetar é uma arte, e, a meu ver, um compromisso de todo artista marcial.

Entender como não ser atrapalhado ou se atrapalhar é um bom inicio de caminho para qualquer ser humano.

Olhar além do óbvio

Tao, simbolo que representa naturezas opostas e complementares

A Humanidade está repleta de simbolismos, exatamente por isso, no Kung Fu, uma espécie de escola para seres humanos, ou, de refinamento da própria humanidade, encontramos o melhor cenário para estudá-los.

A maneira como isto ocorre é muito simples, a todo momento, somos convidados a olhar para cada estrutura com um olhar que vai além do óbvio.

Desta maneira, aguçamos nossa inteligência, e, todo processo, por mais simples que pareça, torna-se uma grande ferramenta de aprendizado.

Contudo, acredito que a capacidade de simbolizar esteja diretamente relacionada a experiencia prévia de cada praticante, em outras palavras, quanto mais tempo de Kung Fu mais capacidade de simbolizar teremos.

Talvez, exatamente por isso, tenha ouvido diversas vezes meu Si Fu dizer: “Kung Fu, no fundo, diz respeito a tempo”.

Baai Si, cerimônia impar na jornada de todo praticante, Com Mestre Senior Julio Camacho

Si Fu certa vez falava no Mo Gun que a principal diferença entre os humanos e os demais animais é a capacidade de simbolizar.

Por exemplo, para um cachorro, um pedaço de bife serve para matar a fome, ele pode até aprender a não devorar o o bife do cachorro ao lado; mas, jamais vai refletir sobre o porque disso.

Vou além, nunca iremos ver um cachorro em um jantar à luz de velas, ou, convidando amigos para comemorar seu aniversário. Pelo menos, não por esforço ou interesse próprio.

Se alimentar é uma necessidade básica de qualquer ser vivo, mas a forma de fazê-lo não é parecida, a razão disso é a capacidade de simbolizar.

No Kung Fu, este processo é elevado a capacidade máxima. A cerimônia de Baai Si exemplifica o que quero dizer.

Nela, em determinado momento, tocamos 5 partes do corpo no chão:

As pernas, simbolizando entrega e o desejo de não fugir da relação;

Os braços, que por serem armas, são postos para abaixo simbolizando o não uso deles naquela relação;

E a cabeça, que por estar voltada para o chão, dificulta a visão e deixa exposto a nuca, simbolizando confiança plena.

Este é um gesto simbólico, uma promessa sem palavras do quanto que o discípulo confia e preza por aquela relação que é vitalícia.

Mais que isso, é um indicativo de que, mais que prometer, é importante através de atitudes demonstrar quem é. Ou, entender como deve ser aquela relação: sem fugas, sem farpas e de confiança,

Estes dias de quarentena estão sendo, curiosamente, difíceis para mim; tanto pela saúde quanto pelo isolamento social.

Me envolvi, sem perceber, em uma camada que acreditei ser de proteção que somente me afastava, aos poucos, do meu Si Fu, e, portanto, do Kung Fu.

Aliás, Kung Fu é uma excelente ferramenta para lidar com a situação atual, em outras palavras, me afastei do que mais precisava.

Com Mestre Senior Julio Camacho e meu irmão Kung Fu André Guerra, mais que líderes, todai

Em tempos de crises, há pessoas que se escondem. Estes, certamente não são os Artistas Marciais.

Como dito, Kung Fu diz respeito a tempo. Com certeza, com o tempo, poderemos criar simbolismos para o cenário de saúde mundial e, a partir disto, tirar proveito desta situação.

Que façamos jus ao titulo que carregamos, que de fato sejamos artistas marciais.

Acho que aqui, mais que em qualquer outro cenário já vivido,

Sigamos Juntos!

Técnica

Donnie Yen, ator que interpreta Patriarca Ip Man no filme “O Grande Mestre” executa Jong Sau, a guarda do Ving Tsun

O inicio da pratica do Ving Tsun da maioria das pessoas tende a ser repleto de questionamentos sobre como fazer.

O modelo, para estes praticantes, é sempre mais importante do que o entendimento do gesto e o porque de ser apresentado daquela maneira.

Por isso, os tutores quando são abordados por estes alunos tendem a responder de maneira superficial ou devolvendo a pergunta, algo como: “O que você acha?”

Imagino que esta atitude cause um desconforto tremendo ao aluno, pois, como acontecia comigo, o questionamento seguinte era: ” mas eu estou começando agora, como posso ter uma opinião formada?

Alguns anos de prática me ajudaram a entender o porque desta atitude.

Meu Irmão Kung Fu mais velho, Claudio Teixeira, reproduz seu entendimento sobre o Jong Sau

Nenhuma técnica do Sistema Ving Tsun, tem por fim sua utilização em combate; esta é uma afirmação de Patriarca Moy Yat.

Meu Si Fu, Mestre Senior Julio Camacho, foi quem compartilhou esta afirmação de Sitaai Gung, comigo.

Do que ele falou na época, eu entendi que as técnicas são instrumentos, altamente refinados, pois, como no exemplo das sequências do sistema, possuem ordem e maneiras diferentes de serem apresentadas, que nos ajudam a entender, e a usar melhor nosso corpo.

No mesmo dia, Si Fu comentou que Patriarca Ip Man tinha o hábito de, quando se sentia desconfortável em alguma conversa, postar suas mãos diante do corpo, juntas, num gesto, em principio, nada marcial, mas que deixa seus punhos em condições de uso.

Lembro que fiquei bem empolgado com esta história, por um tempo, sempre que conversava com alguém eu tentava manter uma distancia que possibilitava o golpe. Reparava em cada gesto do meu “oponente” pronto para qualquer situação de ataque.

Situação esta que, sabemos, nunca chegou a acontecer. Entender o cenário da época e a posição social de meu Si Jo, Patriarca Ip Man, era crucial para, de fato, entender a melhor maneira de “usar” aquela história.

Mais uma vez usei meu Kung Fu, ou uma história de família, como técnica. Não sem razão passei por uma série de situações constrangedoras, pois, como deve imaginar, não é natural uma pessoa esperar a todo momento ser atacada.

Si Fu, Mestre Senior Julio Camacho e sua representação de Jong Sau

Hoje, entendo que quando um tutor diz “o que você acha” ele está dizendo: “Não se limite a técnica, use cada dispositivo como uma ferramenta de auto conhecimento.”

Qualquer um pode ter uma técnica melhor que a sua, basta ter mais tempo para se dedicar.

Mas, posso garantir, se você usar cada dispositivo como um instrumento de refinamento pessoal, e a técnica como meio para isto, caso você precise lutar, você estará seguro do que tem e não inseguro do que não tem, pois, pode acontecer de alguma técnica não ser bem apreendida.

Se de fato entendermos o que Si Fu quer dizer com atitude marcial o olhar irá inutilizar o adversário.

Vou além, se de fato você for um Artista Marcial sua atitude já será o suficiente.

Medo

Cena do Filme Karate Kid.

Nesta cena do filme Karatê Kid, a cobra e a monja seguem os mesmos movimentos, uma espécie de balé marcial, dada a situação critica do cenário.

Observando a cena está um jovem discípulo, Drake, interpretado por Jaden Smit, e seu Si Fu, Mr. Han, interpretado por Jackie Cham.

Para Drake, a monja segue o movimento da cobra, após ser convidado por seu mestre a observar melhor, ele percebe que, na verdade, é o contrário.

Mas, considerando que esta afirmação é a correta, eu me questionava porque a mulher reproduzia gestos de cobra e não a cobra reproduzia os gestos de mulher.

A atitude marcial me ajudou a entender.

Usar a guarda para neutralizar o oponente. Com meus irmãos Kung Fu Filippe Silva e o pequeno Lucas Tiziano

Si Fu, Mestre Senior Julio Camacho sempre fala da importância da atitude marcial e da capacidade de adaptação ao cenário.

Por isso, entendo que na cena do filme, a monja vai até a cobra e se adapta a ela pois este é um cenário desconhecido, portanto gera medo.

Ou, na pratica infantil, a importância de manter a guarda e entender que estando atrás dela estamos seguros, sem tensionar e se divertindo.

No Fundo, não importa quem é o adversário, pois, o maior de todos eles sempre será o mesmo.

Si-To, Relação onde através de uma lente Si Fu te a ajuda a se ver. Com Mestre Senior Julio Camacho

A situação de saúde atual me gerou uma grande preocupação. No início eu dizia que o medo que eu sentia era por conta das informações veiculadas pela mídia de modo geral, até que fui conversar com Si Fu.

A primeira coisa que me disse foi: “se quiser fica em casa, mas se for pra ficar em casa que seja por ser a melhor decisão, não pelo medo. Não deixe que ele assuma o controle da sua vida.

Esta situação é igual a quando você fica com a guarda frouxa diante do Léo Reis, nosso Daai Si Hing, de que você tem medo exatamente?

Se esta com medo de morrer toma cuidado, o contrário de viver é não viver não morrer, como muitos acreditam.

Levanta a guarda, neste caso isso é, lavar bem as mãos, não passar a mão no rosto, carregar consigo lenço umedecido e álcool em gel, não são tempos de vergonha.”

Toma as rédeas de sua vida e assuma as consequências de sua decisão.

Assim, eu entendi que meu medo não é o vírus, meu medo sou eu mesmo.

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