O que é Kung Fu?

Cena do Filme ” Kung Fu Panda”

O primeiro filme da animação Kung Fu Panda, entre outras coisas, trata com maestria da relação Si To, Mestre e Discípulo.

Entendo desta maneira, pois além de mostrar as dificuldades e imperícias do praticante, trata do empenho e habilidade do Si Fu.

No filme, “Mestre Shi Fu” percebe que seus métodos de ensino precisavam ser adaptados para o novo aluno.

Assim sendo, mudou sua maneira de transmitir, de forma que o Kung Fu fosse melhor apreciado por seu díscipulo, ” Pô”. Sem perder a marcialidade.

Em outras palavras, o discípulo pode desenvolver seu Kung Fu através de suas próprias dificuldades, e não a partir do caminho e ou dificuldades de seus colegas mais antigos. Apesar de muitas vezes estes caminhos se cruzarem.

Com Si Fu, Mestre Senior Julio Camacho e Si Mo, senhora Márcia Camacho. Celebração do Ano Novo Chinês.

Existem algumas situações que me envolvi na família Kung Fu que me deixaram desconfortável. Literalmente, com vergonha na cara.

Destas situações não me orgulho muito, apesar de ter tirado uma boa lição da maioria delas.

Mas há algo do qual me orgulho. Me orgulho da minha habilidade de me manter seguindo junto.

Minha Habilidade?

Sempre achei que Si Fu era demasiado duro comigo. Situações similares ou até mais graves com outros demandavam “consequências” bem mais leves.

Achava que o problema era eu. Quase como desafio a mim mesmo, me convencia a tentar de novo, e de novo e de novo.

Muitas vezes, de maneira ingênua, cometendo os mesmos erros. Mas tentando jamais desistir.

Si Fu certamente percebeu minha “estratégia.”

Com Mestre Senior Julio Camacho. Através do Kuen se constrói um homem. Mas não somente assim

Hoje, entendo que de fato tenho habilidade de me manter seguindo junto, mas, certamente não adquiri essa habilidade sozinho.

Noto que, percebendo minhas investidas, Si Fu me ajudou a praticar da maneira como me propus. Me mantendo, na medida do possível, sempre de pé.

Para isso, o que ele faz é ir comigo para além do meu limite, além do que acho que suporto.

Por isso, a arte marcial é tão desconfortável para mim. Não que ela seja desconfortável em si.

Mas, para que eu me mantenha tentando é preciso chegar ao ponto de desistir, assim, me desafio de novo e a única saída que me resta é voltar a ficar de pé.

Quanto mais tempo você vive essa experiência, mais forte você fica. Então, para que o desafio continue, as pancadas precisam ser cada vez mais fortes.

Há diversas pessoas, que admiro muito, com o Kung Fu construído de maneira muito mais leve que a minha. Para mim, estas pessoas são excepcionais.

Eu, que ainda não cultivei inteligência suficiente para que meu processo seja parecido, apenas torço que nossos caminhos se cruzem mais.

Condutor

Monges Praticando

Muitos movimentos nas artes marciais impressionam por sua plasticidade.

Esta é, inclusive, a razão de diversos praticantes procurarem por uma escola. Ter a habilidade de executar tal movimento daquela maneia é um sonho para muitos.

Esta afirmação faço sem medo de errar, já que, eu próprio, fui uma dessas pessoas.

Deixei de ser por uma razão simples, as frustrações.

Com Mestre Senior Julio Camacho. Premência de morte

Fui frustrado por duas vezes. A primeira vez, foi quando percebi que os gestos marciais poderiam ser simples, sem caretas e esforço.

O problema não era a simplicidade, isso sempre achei magnífico. Meu problema foi perceber o quanto que para mim, ser simples era um desafio.

Então, comecei a pensar que fazer movimentos simples ou complexos dependia de escolha e habilidade.

Esta, foi minha segunda frustração. Obviamente, não foram apenas duas as frustrações que vivi durante a minha jornada.

Mas, falo destas duas com uma espécie de carinho especial, já que, de todas, foram as que melhor consegui ressignificar.

A minha segunda “grande frustração”, diz respeito a vontade imprimida em instrumentos.

Grão Mestre Leo Imamura e o Ving Tsun Do

Já escrevi em meu blogue sobre os instrumentos utilizados no Sistema Ving Tsun. Inclusive, falei de seu uso, considerando a vontade do praticante.

Mas, a que, ou melhor, a quem me refiro quando falo do uso?

Em “mãos livres”, portanto, a trilogia fundamental, pude perceber que quando há uma brecha, o que se deve fazer é avançar.

Assim, o corpo é instrumento do cenário vivido. Não age, apenas reage. Talvez inconsciente.

Neste sentido, virar o adversário de ponta cabeça ou avançar o punho no sentido favorável não são cenários diferentes entre si. Isto quando não há vontade.

Os instrumentos, permita-me chamar de armas, são o próprio cenário.

Sua ponta ou fio sugerem uma ação. Então, o portador não é quem porta a arma, mas sim a ação, seja ela faca ou bastão.

Sim, em alto nível, não é o praticante quem conduz a arma.

Talvez seja isto que Patriarca Moy Yat tenha dito quando falou, em um cenário específico, algo como: “Eu sou a linha central.”

Foco

Bastidores da Fotografia

Em boa parte da dinâmica do Kung Fu, mais importante que o executor de uma tarefa é a tarefa em si.

Sendo assim, a discrição é valorizada. Uma prova disto, é a relevância do fotógrafo na fotografia.

Afinal, é ele quem eterniza o momento, exatamente por não aparecer.

Anos depois, quando temos acesso a imagem, muitas vezes não sabemos nem mesmo o seu nome.

Mas, para aquela foto existir, ele foi importante.

Com Mestre Senior Julio Camacho e meu irmão Kung Fu André Guerra. Relação Si To e gestão

O que escrevi acima foi inspirado em uma conversa que tive com Si Fu há alguns anos.

Naquele dia, ele questionou que posição eu gostaria de assumir em uma foto. Imediatamente, disse que a de fotógrafo.

E continuei dizendo que gostaria de ser importante sem aparecer. Na época, ele me olhou sério e disse que ser mais importante não pode estar a frente da função.

Absorvi aquelas palavras com certa falta de entendimento. A partir disto, o que fiz foi continuar trabalhando, sempre buscando fazer o melhor que eu era capaz.

Por isso, muitas vezes era possível me ver nas mais diversas situações. Contudo, quase sempre nos bastidores.

Trigésima primeira cerimônia tradicional da Família Moy Jo Lei Ou

Hoje, inspirado por uma conversa com Si Fu e meu irmão Kung Fu Cláudio Teixeira, pude voltar a refletir sobre o assunto.

Percebi que discrição em sua natureza não tem relação direta com o Kung Fu. Por isso, eu que me considero naturalmente discreto não posso me vangloriar disto.

Alto nível de Kung Fu, no caso de qualquer ser humano, não é somente potencializar sua natureza. Mas sim, ser capaz de executar qualquer tarefa, independente de sua preferência.

Afinal, é claro que o fotógrafo é crucial no momento da foto, mas sem a pessoa ou o momento a ser fotografado, este se torna inútil.

Por fim, que seja ocupando a cadeira do centro, de pé, afastado, ou apertando o botão, que sejamos sempre o melhor para aquela função.

Espelho

Paisagem, tornar-se um.

Olhar para si é uma arte que requer método.

A pratica marcial é um espelho.

Saber usar este método, ou seja, o espelho, é crucial para o desenvolvimento humano.

Assumir o que se vê como sendo, não poderia ser diferente, o que de fato somos, independente de agradar ou não, eu chamo de arte.

Com Mestre Senior Julio Camacho, preso em minha tensão

Na prática marcial, o adversário é quem está adverso, ou seja, ao contrário da sua posição. Exatamente como a um espelho.

Neste sentido, o golpe entra como consequência de uma guarda mal posicionada, por exemplo. O espelho mostra as falhas, a partir delas nos refinamos.

Contudo, está é uma visão superficial. O mais importante não é entender que a mão está fora de centro, mas sim o porque.

Muitas vezes a razão é medo, ansiedade, ou qualquer outro sentimento e/ou reação que mostra quem somos intimamente.

Siu Nim Tau, mirar-se como o alvo

Aprendi com meu Si Fu quer ser autêntico não é falar o que se pensa. Este, muitas vezes é inconveniente ou mal educado.

Ser autêntico é se mostrar como é, e a partir disto fazer o seu melhor para o todo.

Todos sabemos o quanto ser honesto no sentido de mostrar quem se é não é tarefa fácil, até por conta das mil e uma maneiras que temos de nos esconder. As redes sociais são o maior exemplo.

Por isso, o verdadeiro artista marcial diante de um espelho jamais se maquia.

Até porque, a arte marcial é uma busca para si. Qual o sentido que há, sobretudo nestes termos, em mentir, ainda mais se for para si?

Assim sendo, entendo que haverão dias que perceberei que não sou tão belo ou bem disposto como eu gostaria.

Nestes dias, o que vai contar como positivo não foi o que percebi, mas sim o que faço a partir disto.

Se me for possível fazer meu melhor, independente do ânimo, ao fim, posso deitar em minha cama e dormir em paz. Pois este foi um bom dia.

Medo

Cena do Filme Ip Man. Obra que conta a história de um dos patriarcas de nosso estilo

Quando iniciei minha jornada no Kung Fu meu objetivo era tornar um grande lutador.

O que quero dizer é que gostaria de vencer qualquer oponente em combate.

Meu enfoque jamais foi o esporte, como o MMA. Mas sim, a habilidade marcial.

Aos poucos, a partir da experiência que vivi no Mo Gun( salão de Guerra), pude perceber que meu sonho precisaria de muito mais que vontade para ser realizado.

Isso aconteceu, pois invariavelmente, quando estava diante de um adversário eu sentia medo.

Então, iludido pelo senso comum, acreditei que se eu treinasse as técnicas poderia vencer meus oponentes.

Em alguns casos, bem raros, esta estratégia de fato me ajudou. Mas em nenhum momento deixei de sentir medo.

Notei, com o passar do tempo, que o medo jamais deixaria de me acompanhar. Mas eu poderia entendê-lo de maneira diferente.

Com Mestre Senior Julio Camacho

“A essência das artes marciais é contrariar o consenso”. Esta frase é de Sun Tzu, famoso estrategista chinês.

Entendo que contrariar não é ser contra, mas entender de forma contrária, ou diferente.

A partir deste entendimento, notamos que o soco desferido deixa de ser uma ameaça.

Mas uma oportunidade de entendermos, através do risco iminente, e simbólico da morte, o porque de termos tanto medo de um golpe.

Seja ao desferí-lo ou recebê-lo.

A partir deste olhar, tive a oportunidade de apreciar determinados aspectos do Kung Fu onde estou imerso há tanto tempo, mas pouco pude apreciar.

Por exemplo, o que de fato são as armas nas artes marciais?

Entendo hoje que são instrumentos. Assim, qualquer coisa pode ser usada como arma, desde uma espada a um espanador.

Contrariar o consenso em alto nível de Kung Fu significa fazer uso de qualquer coisa da forma como for necessário, sem desrespeitar sua natureza.

A partir deste aspecto, a arte marcial ultrapassa o sentido de luta e se torna arte sob perspectiva marcial.

Com Mestre Senior Julio Camacho. Kung Fu para a vida

Como disse, iniciei a pratica do Ving Tsun com o objetivo de me tornar um lutador. Não entendia bem o que isto significava ou quão longe poderia chegar o entendimento deste termo.

No início do ano de 2020, vimos nossa vida mudar por conta de um novo o corona vírus.

Eu era uma das pessoas que estavam com medo, por isso, fui conversar com Si Fu.

Após me ouvir, ele questionou:

“o que você quer fazer?”

Notei que em todo meu discurso não disse ao Si Fu o que gostaria de fazer. Falei apenas do medo que sentia.

Não soube explicar do que eu tinha medo. Mais uma vez, fui iludido pelo consenso. Em outras palavras, estava com medo apenas porque o clima era de medo.

Si Fu me disse:

“Medo, é aquela sensação que temos por estar diante de um adversário, em guarda.

Exatamente por isso, nossa principal atitude deve ser também levantar a guarda. E estar disposto a entrar em combate sem correr riscos desnecessários.

Para um inimigo invisível a olho nu, guarda diz respeito a não colocar a mão no rosto.

Se manter distância segura das pessoas e principalmente lavar as mãos.

Atitudes simples que podem nos ajudar a manter a saúde e cuidar de quem está próximo.

A partir destes cuidados, monte sua estratégia, e assuma as consequências.”

Assim, entendi que lutar não significa necessariamente golpear ou ser golpeado. Lutar, diz respeito a estar de pé, em guarda. Independente da situação.

Sem duvida, esta perspectiva me ajudou a aprofundar meu entendimento das artes marciais.

Assim, rapidamente meu primeiro objetivo deixou de ter relevância em minha prática.

Hoje, penso que ser um “bom” artista marcial diz respeito a transpor a experiência vivida no Mo Gun para o meu dia a dia. E o contrário.

É desta forma que, com o tempo, o Mo Gun passa a ser sua vida e sua vida passa a ser seu Mo Gun.

Assim, fazendo da vida uma eterna experiência marcial, aumento minha zona de conforto sem jamais sair dela.

Creio que se sentir à vontade em qualquer cenário é a principal contribuição da pratica marcial.

Isto é o que busco hoje em dia.

Reflexões sobre o Tempo

Representação de Tomás de Aquino, Filósofo e Religioso.

Sobre o tempo, há mais de uma maneira de percebê-lo. Por exemplo, na história, temos o chamado tempo histórico, que estuda tudo do passado em uma sequência linear de eventos significativos; seu benefício seria a análise e compreensão de eventos históricos e suas causas e consequências e outros. Para o fim do texto, vamos nos basear em duas definições de tempo: Cronológico e Kairológico.

A origem da ideia de tempo Cronológico vem da palagra grega “Chronos” que se refere ao tempo linear e sequencial. Na mitologia grega, Cronos era o deus do tempo, associado ao tempo que pode ser medido e quantificado.

Já o tempo Kairológico deriva da palavra grega “Kairos,” que significa momento “certo” ou “oportuno”. Diferente de Chronos, Kairos representava um tempo qualitativo e oportuno, onde a ênfase está na significância do momento e não na sua duração. Na mitologia grega, Kairos era representado como um jovem que segurava uma balança, simbolizando a oportunidade que deve ser aproveitada no momento certo.

A busca por estes entendimentos se originou quando Si Fu comentava sobre Tomás de Aquino e sua percepção sobre presente, passado e futuro. A frase, atribuída a ele, Tomás de Aquino, é:

“O tempo é uma medida do movimento entre dois instantes. O agora é como o ponto do tempo, que, sem ter parte, divide o passado e o futuro.”

Ou seja, esta visão do tempo que considera o passado, que já não é, ao futuro, que não é ainda. Então, uma conclusão lógica seria que já que o “agora” conecta o que já não é, portanto, não existe mais, com o que não é ainda, ou seja, não existe agora, a única existencia é a do presente. Para mim, esta é uma lógica bastante similar com a de Kairós, aliás, quando se fala de momento oportuno ou se aproveitar da oportunidade no momento certo, estamos rigorosamente falando sobre Kung Fu.

Mestre Senior Julio Camacho, praticando na antiga Sede da mundial Moy Yat Ving Tsun.

Este entendimento é importante. Ele explica porque, por exemplo, é difícil traduzir aos praticantes mais jovens como é dificil dizer o tempo exato necessário de pratica para expressar o Kung Fu; a resposta adequada seria o tempo que você conseguir cumprir . Quero dizer, não adianta se matricular em todas as aulas quando só é possível participar de uma. Ou seja, em vez de olhar para o tempo quantitativo, a quantidade de aulas, apoie-se no tempo qualitativo, o melhor aproveitamento possível de quando for praticar, ainda que seja apenas uma vez.

Certa vez, perguntei para o Si Fu quando tempo demoraria a pratica da sequência do Siu Nim Tau para que ela fosse considerada bem executada. Na época, saber dos minutos ou horas era importante para mim.

Então, Si Fu me contou uma história:

“Havia um monge que morava em Nova Iorque. Ele, todos os dias, caminhava no Central Park. Ja era famoso por conta deste seu hábito. Uma emissora de TV resolveu fazer uma entrevista, nesta ocasião, foi perguntado ao monge quantos passos são necessários para percorrer todo o parque; todos supunham que seriam milhares de passos. Por isso, a resposta foi tão surpreendente. Ele disse que era preciso apenas um passo. A razão disto, segundo o monge, é que cada passo é único.”

Esse único passo, a meu vez, se relaciona com o início. Depois do início, a conclusão que se espera é do seu fim, e não do tempo premeditado. Ou seja, iniciar e terminar, isto é que de fato importa.

Com Mestre Senior Julio Camacho. Estudo do Nível Superior Final.

Sabe-se que Kung Fu diz respeito a camadas. Camadas de aprendizado e desenvolvimento, e, mais importante, de se aproveitar de todo e qualquer cenário. Por isso, a celébre frase de patriarca Moy Yat:

“Siu Nim Tau deve ser executado quando se tem vontade. Para se ter vontade é preciso fazer todo dia.”

Faz- se aqui uso de um dispositivo do sistema, Siu Nim Tau, para exemplificar o que de fato é aplicado ao Kung Fu. Entenda, o sistema é um meio, não o fim. O que se busca ao executar as listagens, dispositivos associados, ou praticas transversais é o aprendizado do Kung Fu para que este seja aplicado no dia a dia. Portanto, a resposta mais profunda e correta para o questionamento ” Quanto tempo devo praticar” é:

Quando se trata de Kung Fu, a pratica deve acontecer todo dia, hora, minuto e segundo. Cada gesto, dos mais refinados e complexos aos mais corriqueiros devem refletir sua capacidade. E, caso seja necesário o uso do sistema, em geral, o é, use-o, a partir deste entendimento, sem moderação. Até porque, como eu disse, é importante iniciar e terminar. O tempo de trabalho é dificil prever, mas a qualidade do uso faz grande diferença. Isso, inclusive vale para a vida, afinal, sobre o tempo, o tempo Chronos, não sabemos quanto nos resta. Mas sobre Kairós, cabe a nós definir.

Para Além do Obvio

Cumprimento oriental

Influenciados pelos chineses, os orientais tem o hábito de se cumprimentar curvado o corpo.

A razão disto é o símbolo que este gesto traz.

Inspirando entrega e confiança.

Representação de Miyamoto Musashi. ícone da cultura japonesa

Para me explicar a razão de os orientais se cumprimentarem desta forma, Si Fu me contou uma história.

Estávamos no Mo Gun, Si Fu, Mestre Senior Julio Camacho falava sobre a guarda. E a importância de posicionar o corpo atrás dela.

Sabemos que braços e pernas são armas, por isso, posicioná-los diante do corpo é vital para a sobrevivência.

Mas, “Se braços e pernas são armas, porque nós ocidentais, nos cumprimentamos com aperto de mão?

Minha Cerimônia de Baai Si. Janeiro de 2011

Por isso, os orientais se cumprimentam oferecendo a cabeça, já que é a parte mais sensível do corpo.

Desta maneira, demonstram sua confiança naquela relação.

Enquanto ocidental, o que faço é tirar proveito deste conhecimento.

Entendo que independente da maneira como cumprimento, o mais importante é ser honesto.

Os punhos podem ser usados para golpear. Mas também para abraçar, acariciar e cumprimentar.

Assim, entendo que independente do instrumento, o mais importante é a intenção que esta por detrás de seu uso.

Esta perspectiva é muito útil no estudo dos Níveis Superiores do Sistema Ving Tsun.

Onde usamos instrumentos e não armas. Isto faz toda diferença


Antecipação como maneira de preparo

Patriarca Moy Yat executa o Guerk Jong

Uma das características desenvolvidas pelo artista marcial é o preparo. Assim, diante de qualquer situações vivida no “Mo Lan” (Circulo Marcial) o praticante mantém a calma e a compostura. Sendo assim capaz de enxergar o desenrolar da situação, e a partir disto tomar a atitude adequada ao cenário. Para se chegar a este estado, é preciso dedicação em diversos sentidos. Sobretudo, dedicar-se a fugir do senso comum e a quebrar paradigmas.  Por isso, a dedicação a esse tipo de abordagem deve ser constante, sendo necessário, portanto, extrapolar o ambiente familiar do Mo Gun e integrá-la ao dia a dia.

Quando iniciei minha jornada no Kung Fu, recebi diversas vezes orientação do Si Fu sobre a importância de se preparar antes de iniciar qualquer tarefa. Demasiado ansioso, percebo hoje que meu entendimento na época era que o preparo era uma perda de tempo. Achava que, enquanto me preparava, estava desperdiçando o tempo que poderia ser usado na execução da ação. Por isso, acabava me atrapalhando na realização das tarefas. No fundo, eu estava envolto em um turbilhão de sentimentos e situações, e como não havia preparo, sentia-me sobrecarregado e incapaz de concretizar minhas intenções. Inclusive, achava que a vida sempre estava em ritmo acelerado e culpava o tempo por minhas frustrações.

Com Mestre Senior Julio Camacho e meu irmão Kung Fu André Guerra

Foi nesse contexto de ansiedade e frustração que o Si Fu sugeriu um protocolo de conduta que me fez repensar o processo. Na época, tínhamos que estar no Mo Gun às 08:00h. Como eu me programava para chegar exatamente nesse horário, sempre me atrasava. Chegando atrasado, deixava alunos esperando e começava meu trabalho mais tarde do que o planejado, o que fazia com que as demandas se acumulassem. A sugestão de Si Fu foi simples, mas transformadora: programar-me para chegar 30 minutos antes do início das atividades. Essa mudança foi genial, pois me preparava para imprevistos como atraso no transporte, esquecer algo e precisar retornar, ou até mesmo reorganizar meus pensamentos antes de iniciar o dia. Com isso, eu não apenas chegava antes do horário, mas também me preparava com folga para o dia. A vida passou a ser menos corrida, e eu aprendi a usar o tempo de maneira mais eficiente.

Essa experiência me ensinou que o tempo é igual para todos; a diferença está em como o utilizamos. A aplicação prática desse protocolo não só melhorou minha gestão do tempo, mas também minha qualidade de vida e eficácia nas tarefas diárias.

III Imersão na Vida Kung Fu do Clã Moy Jo Lei Ou

Reforço o que frisei acima, o preparo existe inclusive para o que não se espera. Chegar mais cedo, garante que eu esteja não só pronto, mas absolutamente disponível no tempo necessário. Em uma escala menor, de minutos, horas ou meses é simples entender qual o tempo necessário. Se o tempo passa a ser contado em décadas, as condições e variáveis são infinitas e imprevisíveis, neste sentido, é difícil se preparar para um fim específico, já que é mais difícil saber qual será o fim.

Neste caso, o que prevalece é a capacidade de expressar o Kung Fu em todas as situações, mesmo as imprevistas. Quero dizer, o preparo sugerido como protocolo de minutos não se trata apenas de chegar mais cedo, mas agir com excelência em qualquer cenário. Ou seja, não há necessidade de grandes habilidades ou recursos, mas sim, a capacidade de se antecipar para o que não se espera, mas por chegar antes há tempo hábil para ajustes.

Em cerimônias tradicionais, isso é profundamente trabalhado. Não necessariamente o promovido tem condições de acessar o domínio seguinte ou a condição legada por Si Fu. Exatamente por isso a promoção acontece: para que esta pessoa possa, intimamente, assumir o cargo que ainda é nebuloso, mas que, por atitude e desejo, torna-se claro a partir do momento em que se assume o papel. Muitas vezes, essa promoção pode gerar frustração, pois a pessoa acha que ainda não está pronta. Contudo, o próprio processo de assumir essa nova responsabilidade é o que a prepara para o domínio do novo nível. Ou seja, ao trilhar o caminho e enfrentar os desafios, o praticante desenvolve as habilidades e o preparo necessários para a execução daquela função.

Siu Nim Tau Parte 03

Com Mestre Senior Julio Camacho e Meu Si Hing, Mestre Qualificado Thiago Pereira. Antiga Unidade Méier

Quando iniciei minha prática, na antiga Unidade Méier, localizada em um espaço especializado, além de Ving Tsun, em dança.

Eu era tutorizado por Si Suk Ursula e Si Hing Thiago Pereira.

Talvez por isso, apesar dos esforços de ambos em me aproximar do meu Si Fu eu me sentia desconfortável.

Já havia tido contato com Si Fu, mas não me sentia tranquilo ao estar perto dele. As conversas fluíam melhor com meus tutores.

Com Mestre Senior Julio Camacho. Minha primeira foto Si To

De modo que, certa vez, estimulado por meu Si Hing Thiago Pereira, fiz contato com Si Fu para tratar de algum assunto ao qual não me recordo.

Era a primeira vez que eu ligava para ele, por isso, achei que deveria me apresentar:

“Si Fu, aqui é o Guilherme Farias, da Unidade Méier.

“Eu sei quem é você, Guilherme. Não precisa se apresentar”. Esta foi a resposta do Si Fu.

Fiquei pensativo, como Si Fu sabia quem eu era? será que só a voz é suficiente para reconhecer uma pessoa?

Certamente ele não tinha meu contato na época.

Siu Nim Tau, ou, como eu gosto de traduzir, diminuir a vontade

Desde o episódio com o Si Fu, eu tive a oportunidade de tutorizar diversas pessoas. Notei que, tudo que a pessoa era, podíamos notar em seu Siu Nim Tau.

Seja insegurança, dificuldade de entender limites ou qualquer outra caracteristica pessoal.

Por isso, me questionei se, através da minha voz, eu mostrava o que sou.

Minha conclusão, talvez seja obvio, foi que sim!

A partir daí, pude com a ajuda de meu Si Fu, e todos os tutores aos quais tive acesso, encontrar no Siu Nim Tau características particulares, que por reproduzir há tanto tempo, não percebia.

Fui tão profundo nesta busca que atualmente muito mais que perceber minhas características, busco refiná-las sempre que preciso.

Hoje, meu Siu Nim Tau é mais que uma busca de quem eu sou, mas uma demonstração clara de quem me tornei.

Aos poucos, pude notar que falar ao telefone ou reproduzir gestos marciais é um processo parecido.

Através desta experiência com Si Fu, notei que qualquer coisa pode ser feita com Kung Fu.

Tiro com Arco

Patriarca Moy Yat executa o Dim Guerk

O Sistema Ving Tsun possui diversos provérbios, eles são nomeados de provérbio marciais. São como guias, pois sugerem uma profunda reflexão.

Um deles diz: “Pessoas caminham pelo arco, eu caminho pela corda.”

Existem alguns entendimentos sobre esta frase, falarei dos que acho mais interessantes.

Mestre Senior Julio Camacho exemplifica como caminhar pela corda.

Lutar é preciso, viver não. Preciso, neste caso, trata de precisão, não de necessidade, como nos disse algumas vezes Si Fu, citando certa frase do pensador Fernando Pessoa.

Por isso, o soco do praticante de Ving Tsun é reto, seco e sem floreios. O punho fechado possui a tensão imprimida à corda quando esta se prepara para disparar a flecha, apoiada pela mão do arqueiro.

Após o máximo de tensão, há o disparo. Atingido o potencial máximo deste último, temos o relaxamento. Mão e corda se confundem, pois possuem um processo parecido.

Equilíbrio é outro ponto proposto.

Premência de Morte e Kung Fu

É comum vivermos na experiência marcial o que chamamos de “premência de morte”. Isto significa que, em todo momento, há risco de morrer.

Contudo, todo o processo é simbólico, incluindo a própria morte. Portanto, cabe ao praticante, apoiado pelo tutor, sobretudo do Si Fu, extrapolar a experiência para além do óbvio.

Por isso, o chute e mais que uma técnica.

Aprendi com meu Si Fu que o equilíbrio é dinâmico. Portanto, o que nos ajuda a ficar de pé é a mínima percepção do desequilíbrio e seu consequente ajuste.

Em outras palavras, caminhar pela corda requer ajuste constante, característica primária de todo artista marcial.

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