Sintonia e Sincronia

Reunião de Sintonia com Mestre Senior Julio Camacho

Há pelo menos dois meses, temos um encontro regular com Si Fu. Sempre Segunda Feira, às 20:30h. Esta reunião, intitulada “Reunião de Sintonia”, é direcionada aos membros vitalícios, mas aberta a membros regulares que desejarem participar.

A meu ver, a proposta desta reunião vem de um desejo do Si Fu de ter contato regular com seus discípulos, e assim poder compartilhar suas vivencias e criar um “DNA cultural”.

Aliás, me parece que o principal legado de um Si Fu para sua família não é o sistema, apesar deste ser fundamental. Mas sim, seu Kung Fu.

Filme Karate Kid, 2010.

O termo Kung Fu, ou seus ideogramas, é possível ser traduzido. A explicação que mais me agrada vai para além do dicionário. Gosto de traduzir da maneira como pude experimentar, na prática, meu próprio Kung Fu. Maneira esta simples e profunda. Na maioria das vezes, através da inspiração.

Lembro de certa vez, no ano de 2012, ocasião em que entregávamos o antigo Núcleo Barra, que ficava no condomínio Interlagos de Itaúna.

Naquele tempo, coordenávamos a entrega do antigo espaço onde estava alojado o Núcleo Barra, mudávamos para outro endereço, fazíamos a mudança de residência do Si Fu e preparávamos a viagem do Si Fu para a China.

Era simplesmente muito para mim. Estava assustado com toda a mudança, e com o fato de Si Fu não estar presente em boa parte desta, já que precisava ir para a China. Tinha certeza que não daria certo. Com todo esse pessimismo, era comum cada coisa que eu fazia, a menor que fosse, gerar algum tipo de prejuízo.

Em dado momento, Si Fu me passou um móvel do caminhão para transportar para o andar onde seria sua nova morada. Segurei mal e o móvel caiu e quebrou uma parte. Imediatamente Si Fu me chamou a atenção; aliás, chamar a atenção muitas vezes é entendido como algo pejorativo. O que Si Fu fez foi o que o termo diz, nada além, tampouco aquém.

E, como estamos falando de uma atividade marcial, entendo que o que Si Fu queria era que eu assumisse a consequência do meu ato, em outras palavras, tivesse marcialidade, o que é impossível quando se está desatento . Fiquei extremamente envergonhado e comecei a chorar o mais discreto que pude.

Mesmo comigo desestabilizado, Si Fu não desistiu. Outra vez tentou o transporte do móvel, agora avariado. Como não me movi, mais uma vez me convida para o combate, chamando minha atenção. Sempre de forma contundente, lá estava ele tentando me fazer entender que eu estava lutando, e, nestes momentos, o que não se pode fazer é desistir; falei baixinho, apenas para ele ouvir: “estou com medo”; imediatamente, ele me responde como se esperasse que eu dissesse ou já tivesse entendido :” Eu também estou.”

Ná época eu não saberia explicar como, mas peguei o móvel e mesmo chorando fiz o transporte. Neste mesmo dia, quando estávamos só nos dois em seu novo apartamento, ele resolveu me contar determinada situação que estava vivendo; talvez, fosse esse o motivo de seu medo.

Minha primeira Viagem Internacional, Angola, 2017.

Kung Fu não é sobre não ter medo, por isso, meu comentário foi irrelevante. Kung Fu é sobre como lidar com medo. Si Fu me mostrou isto na prática. Me mostrou pelo exemplo, o que é Kung Fu.

Esta foi a maneira que Si Fu encontrou de me mobilizar. Como disse no início do texto, há outras. A reunião de sintonia vem em momento crucial, para todos aqueles que desejarem fortalecer seu próprio Kung Fu.

Através de seus contos, acessamos o que há de mais intimo no momento, e, sobretudo, o que esta sendo feito para transmutar experiências por vezes negativas em aprendizado. A oportunidade está disponível a todos, basta aproveitar.

Si Fu falou em nosso último encontro sobre a consequência negativa do choro. Quando choramos, no olho há lagrimas o que dificulta a visão. Entendo que aí está a relevância da frieza emocional, não é sobre não chorar, é sobre ter clara a visão.

Não saberia dizer porque continuei a missão de transportar o móvel mesmo depois de te-lo quebrado após deixar cair. Hoje digo que foram as lágrimas, isso não me permitiu enxergar a profundidade do que nós dois estávamos vivendo é a qualidade humana que esta experiência nos traria.

Estava tão voltado para meus medos, que estes me superaram, fazendo entender que só eles existiam. Considerar qualquer cenário apenas pela capacidade do que se pode ver, eu chamo de ter “lágrimas nos olhos.”

Maturidade

Yam Chá, Núcleo Barra

Em sua última visita, Si Fu comentou sobre o início de sua carreira. Falamos das diversas maneiras como isto ocorreu; uma delas me Inspirou.

Si Fu comentou que não havia práticas aos Sábado por conta da agenda das pessoas que conduziam o trabalho na época, por isso, ele se dispões a abrir o Mo Gun.

Resumindo a história, o que acontecia é que Si Fu abria o Núcleo ás 08:00h, tomava café com os presentes, praticava e assim terminava o dia. Com o tempo, o momento após a prática se tornou almoço e, por fim, o momento após o almoço foi transformado em outra prática.

O dia terminava às 17h, com todos bastante animados e previamente confirmados para o fim de semana seguinte.

Yam Chá, posto de gasolina

Esta atividade, iniciada há décadas se manteve por alguns anos e se tornou uma tradição em nossa família.

Lembro das diversas vezes que tive a oportunidade de estar junto de vários irmãos Kung Fu, ouvir suas histórias e experiências. Na maioria das vezes, estas atividades contavam com a presença do Si Fu. Por isso, além das experiências, havia um recorte que era crucial para mim, chamamos este recorte de dimensão Kung Fu.

Ná época, eu trabalhava com implementação de linhas novas de telefone, trabalhava de madrugada. Chegava em casa, dormia um pouco e partia para o Yam Chá.

Lembro da dificuldade que era este processo. A preguiça me assolava, quando chegava ao ponto de encontro, eventualmente atrasado e bastante sonolento, Si Fu me olhava sério e dizia, “Boa Noite, Guilherme.” Demorei alguns anos para entender sobre o que ele estava falando.

Condomínio Blue Sky, antigo Núcleo Barra

Como eu disse, me aproveitava bastante destas conversas. Sempre saía com uma série de divagações e bastante emocionado. Mas, nada além disto.

Se pensarmos em escala de desenvolvimento, o máximo que um recém nascido faz é tratar de suas próprias necessidades, de maneira bem específica.

Hoje, penso que na época minha postura era bastante similar. Me alimentava das informações, estava presente mas gerava muito pouco, ou, a bem da verdade, absolutamente nada para o outro ou além de mim.

Como disse no início do texto, ouvir aquela história do Si Fu me gerou bem mais que conteúdo, me questionei o que eu poderia fazer, de concreto, com aquilo. Por isso, estou empenhado em retomar as atividades de café da manhã como uma rotina aos Sábados.

Hoje, penso que é possível associar ao Kung Fu as fases de desenvolvimento dos seres humanos. A diferença é que ou você é criança ou adulto. Em outras palavras, ou você usa o que foi desenvolvido para proveito próprio, ou se aproveita do conhecimento e gera algo para além de Si. Assim, você saberá o quanto tem de Kung Fu observando o quanto é capaz de gerar, também para si, mas, sobretudo, para o outro.

Expressão Marcial

” Você mede a grandeza de um homem pela quantidade de coisas que ele aguenta.”

Esta frase, é do meu Si Taai Gung, Moy Yat. A primeira vez que a ouvi, foi em uma palestra do meu Si Fu. Fiquei encantado com a frase, me dispus imediatamente a torná-la prática.

Passaram-se alguns anos desde que ouvi esta frase pela primeira vez. Até hoje, ouvi mais de uma vez. A última foi recentemente, de novo proferida por Si Fu.

Toda vez que ouço, eu renovo o compromisso que fiz comigo, curiosamente ou não, ela é dita sempre que preciso ouvir.

Suspeito que a questão não seja metafísica, seja pura e simplesmente uma necessidade pessoal. Faz parte de mim, intrínseco. De tal forma que talvez eu tenha dado um significado diferente das vezes todas que ouvi.

Sabemos que o estudo da Níveis Superiores tem alto nível de simbolismo, em um passado distante, entendi que simbolismo era como algum tipo de brincadeira. Como se não fosse de verdade.

Ontem, eu estava diante do meu Si Fu, ele com dois pedaços de plástico na mão, que simbolizavam o Baat Jaam Do. Acreditem, ali não havia nenhum nível de brincadeira. Em momento algum tive dúvida de que se houvesse qualquer movimento em falso de minha parte eu realmente me machucaria.

Contudo, não me machuquei, e eu errei, errei mais de uma vez. Há uma energia quando se dispõe do Baat Jaam Do, seja ele do material que for. Essa energia assassina não precisa matar, apesar de deixar claro que poderia.

Agora eu estava com o Baat Jaam Do, sabendo o que deveria fazer, me guardei totalmente atrás do instrumento, absolutamente pronto. Para minha surpresa, percebi que poderia usá-lo.

Usar para que?

Estava diante do meu Si Fu, não queria, de maneira alguma, nem mesmo lidar com o risco de machucar; mesmo assim, naquela ocasião,havia risco. A tensão era tamanha e densa que tive a impressão de ser capaz de segurá-la. Aí entrei em crise, minutos antes, quando ele tinha o Baat Jaam Do, apesar do medo, eu estava tranquilo. Desta vez foi bem diferente.

Pela primeira vez desde que me lembro, segurava com parte das minhas forças uma arma. A outra parte segurava as lágrimas, na esperança de que caso fosse bem sucedido, não desistisse.

Lutei, não contra meu Si Fu. Mas contra mim, melhor dizendo, comigo.

Mestre Senior Julio Camacho na Antiga Sede Mundial. Nova York, EUA

Esta luta vivida ontem me fez crescer. Acredito que hoje sou um homem um pouco mais “grandioso,” como talvez quisesse dizer meu Si Taai Gung.

Como disse, entendi a frase de patriarca Moy Yat de várias maneiras, uma delas foi achar que o importante era aguentar pancadas. Talvez por isso, tenha recebido o apelido carinhoso de “Dublê do Méier,” dada a minha disponibilidade em participar de demonstrações.

Hoje, creio que só isso não basta. Levantar depois que me derrubaram, até hoje, não foi um grande problema para mim. Meu problema é me manter de pé, enquanto eu próprio me derrubo.

A pratica do Siu Nim Tau é íntima. Considerando tudo que há em volta, fazemos um mergulho profundo em nós mesmos. Nem sempre é agradável.

Acontece que na maioria das vezes colocamos grandes expectativas sobre nós mesmos, a medida que a prática evolui, percebemos que não somos capazes de cumprir essa expectativa, neste momento, nossa prática pode ser frustrante, inclusive, porquê não adianta entregar a responsabilidade pelo eventual fracasso no outro.

Siu Nim Tau, está sendo um teste para minha coragem, no sentido de saber se de fato quero enfrentar meus demônios.

A experiência que tive relatada acima, foi gerada pelo Si Fu. Ele disse que eu deveria golpeá-lo, ele me atacou, me despontando uma reação. Ele me fez perceber que é possível morrer e matar. Siu nim Tau é meu, eu me percebo, estímulo, e identifico o que não me ajuda a me desenvolver enquanto ser humano.

Então, neste caso, eu devo me perceber, para em seguida me provocar uma reação e assim golpear o que preciso for; isso dói. No fim, devo ser capaz de matar e ao mesmo tempo, não poderia ser diferente, ser morto, simbolicamente, por mim. Extinguindo assim o que me impede de evoluir.

Matar e morrer não são ações simples, em nenhum sentido.

Por isso, eu digo que também é possível medir a grandeza de um homem pela maneira como ele se percebe, e se refaz.

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Sintonia

Yam Chá, Núcleo Barra, Downtown

Meu Si Fu, desde o ano de 2020 mora nos EUA. Desde sua viagem, seguimos com um processo que já era comum, mas a partir deste marco se tornou mais desafiador. Ocorre que o grupo de pessoas que já tinham a incumbência de gerir a família, sob tutela do Si Fu, tinha a mesma missão, com o Si Fu fisicamente distante.

Aos poucos, notei que a disponibilidade do Si Fu era a mesma de quando estava no Brasil, salvo algumas diferenças sutis. Esta percepção me deixou mais seguro do que fazer.

Certo dia, mais de um ano depois da viagem do Si Fu, um irmão Kung Fu me expos sua dificuldade em saber como representar o Si Fu.

Reunião de Sintonia com Mestre Senior Julio Camacho

Fiquei um pouco confuso no início, este praticante é bem mais novo que eu, me flagrei me perguntando o que efetivamente significava sua fala. Em princípio, achei que era apenas um comentário trivial o que, de fato, poderia ser.

Por preconceito, pensei em ignorar o comentário, quase ao mesmo tempo lembrei que de tantas coisas que venho aprendendo com Si Fu, uma das mais importantes é levar a sério o que o outro diz. Por isso, da forma mais sutil que me ocorreu, continuei a conversa.

Com Meu Si Fu, mestre Senior Julio Camacho

Não sei qual a real intenção dele, mas sei das minhas. E, como quero bem representar meu Si Fu, devo me valer de seus ensinamentos e multiplicá-los. Para mim, não cabe a um irmão mais velho a incumbência de decidir se é o momento ou não de outros seguirem os mesmos caminhos, como, de forma imatura, eu fiz.

O que me cabe é estar disponível, de acordo com minha habilidade e possibilidade para qualquer um. Assim como Si Fu sempre faz com cada um de nós.

O que disse, e digo é: A melhor maneira de se representar alguém, é saber como ela pensa e atua. Se Falamos de Kung Fu, acessar o Kung Fu dessa pessoa, de modo mais intimo e da maneira como for possível é crucial. Todos nós estamos em busca de desenvolvimento pessoal e submetidos a erros. Portanto, não se satisfaça com, o que na minha opinião, são os irmãos Kung Fu; intermediários.

Arte Marcial

Demonstração de Kung Fu

Há uma mística com relação a demonstração do Kung Fu. Normalmente, o que é observado é a elasticidade e plasticidade do movimento.

Isso gera uma caricatura do artista marcial. O resultado desta caricatura é o padrão a ser atingido, abafando toda a expressão pessoal do indivíduo.

Yam Chá com Rafael Romanizio

Kung Fu, segundo aprendo com meu Si Fu, precisa ser simples. É através da simplicidade que temos acesso aos dispositivos que educam nosso corpo.

Creio que além de simples, o Kung Fu precise estar inserido em cenários corriqueiros. É justamente nos valendo das situações do dia a dia que nos desenvolvemos.

Portanto, a caricatura é desestimulada. Isto significa que não é necessário copiar o movimento alheio, mas sim, entender como ele se adapta a situação pessoal.

Em outras palavras, saber inserir o Ving Tsun no contexto pessoal de vida, é o melhor, me arrisco a dizer único, caminho para se desenvolver o Kung Fu.

Aula Master com Mestre Senior Julio Camacho

Sempre me pergunto, se o processo é pessoal, para que a exibição?

Creio que aqui, chegamos a uma situação bastante delicada. A apresentação doKung Fu ao Si Fu ou um irmão Kung Fu, é crucial para o desenvolvimento da mesma. Claro, já que assim, há a oportunidade de eventuais correções ou provocações positivas.

Creio que o processo de demonstração não relacione com exibição. Por isso, não há razão para vergonha ou justificativas sobre o Kung Fu.

Por isso, não se permitir querer impressionar ou atender expectativas alheias é importantíssimo.

Assim nasce o artista marcial.

Esvazie a Xícara

Aula Master com Mestre Senior Julio Camacho

Algumas vezes, ouvi Si Fu dizer que existem três grandes guerras na jornada de um artista marcial.

A primeira, a guerra da pena, a segunda, a da fala, e por último do gesto marcial. A todo momento e independente do nível, somos provocados a viver cada uma delas.

Pra isso, estar relaxado, e, sobretudo, ter intimidade é crucial. A intimidade a que me refiro é com o hábito da escrita, da fala, e com próprio corpo, além, é claro, da intimidade com seu Si Fu.

Na realidade, creio que a intimidade com o Si Fu seja a mais importante, já que, muitas vezes, para que possamos ter experiências ele nos abre a porta de sua casa, onde temos acesso a partes íntimas de sua vida.

Encerramento das atividades do ano de 2021.

Lembro que pouco depois do início da minha prática, fui convidado por meus irmãos Kung Fu a participar de uma reunião com Si Fu.

Eu estava bastante nervoso. Então, para que não percebessem, resolvi apenas ouvir, dando a entender que estava participando, como ouvinte.

Acreditei que ouvindo eu poderia aprender alguma coisa e, quem sabe, em uma próxima reunião eu teria mais a oferecer.

Em um momento de pausa, Si Fu me chamou. Me perguntou o que eu estava achando,noivou atentamente minha curta resposta e posicionou: ” Quero ouvir mais a sua voz.”

Logo eu pensei, e claro, não externalizei: como posso falar alguma coisa se não sei o que dizer?

Estudo do Nível Superior Final

Antes de retornarmos à reunião eu já estava suando. Tentei reviver tudo o que foi dito, mas, para minha surpresa, não lembrava de nada. Nem mesmo do que estávamos falando.

Estava muito envergonhado, quando retornamos, eu evitava propositalmente, e, talvez, descaradamente o olhar do Si Fu. Tamanho era o medo de ele perguntar o que eu achava.

A “estratégia” de evitar o olhar do Si Fu, de certa forma funcionou, naquele contexto.

Creio que isto tenha acontecido, pois ele percebeu meu desconforto, e, em respeito ao meu momento, resolveu não insistir. Sobre isto, minha percepção veio muito mais tarde, foi quando a tentativa de evitá-lo não funcionava mais.

Só então notei o quanto tempo perdi com estratégias que não me faziam avançar, já que na maioria das vezes, para desenvolver Kung Fu,o que se deve fazer é desaprender antigos hábitos, em vez de aprender novos.

Portanto, estar disposto a viver as três guerras, pela intensidade que for, e crucial para o processo de desaprender, ou,melhor dizendo, desenvolver.

Viagens

Mestre Senior Julio Camacho e Patriarca Moy Yat. Residência de patriarca Moy Yat, 1998

As vezes, ouço Si Fu dizer que a maior parte de seu Kung Fu foi construído em viagens com seu Si Fu, Grão Mestre Leo Imamura.

Nestas oportunidades, ele conta que pode viver de maneira íntima e profunda a chamada experiência marcial.

Pessoalmente, acredito que a experiência tenha sido tão marcante por uma razão muito simples, ele não podia voltar para casa.

Quando estamos Mo Gun, com horário agendado nos preparamos para aquele período. Por uma hora, talvez um pouco mais ou menos, nos dedicaremos ao nosso Kung Fu. Em seguida, trocamos de roupa e a experiência marcial voltará a ser observada, com sorte, na semana seguinte.

Contudo, para se viajar, é preciso bem mais disponibilidade. De outro país, não se volta imediatamente para casa porque alguém querido está doente, ou o próprio está estafado. Muito embora todas estas situações aconteçam, estando em seu país, estado, ou fora deles.

Por isso, acredito que Si Fu tenha adquirido algumas habilidades:

Não se desesperar e se sentir a vontade no ambiente que estiver. O mundo é o quintal da sua casa, ampliar a zona de conforto, um estudo de Kung Fu.

Mestre Senior Julio Camacho e Patriarca Moy Yat, vizinhança de Si Taai Hung

O meu Kung Fu é marcado por experiências vividas na minha própria cidade. Por vezes, no Mo Gun, por vezes, na casa de meu Si Fu.

Justamente por isso, entendo que meu Kung Fu também é construído através de viagens, sobretudo, as dele.

Claro, por diversas vezes foi submetido a experiências de tensão que me exigiam, na minha cabeça, o retorno para minha casa. E, apesar de ser muito simples faze-lo, não fiz.

Boa parte das vezes era por dedicação ao Kung Fu. Não minha, mas do Si Fu. Embora estivesse, quase sempre, com a visão embaçada por lágrimas e sentimentos que não me ajudavam em absolutamente nada, eu sempre notei no Si Fu uma capacidade de se reerguer que achava fascinante, a ponto de me fazer acreditar, quem sabe, também fosse capaz de desenvolver.

Então eu ficava, como se tivesse em um país distante, como se não fosse possível voltar para casa. Porque, neste sentido, de fato não era. Eu tentava, de novo, de novo…

Até aprender que apenas tentar tampouco gera resultado. Uma boa régua para saber se a experiência esta surtindo alguma diferença é perceber a capacidade de fazer a mesma coisa de formas diferentes. E o quanto estas formas diferentes se distanciam do erro. Afinal, errar é humano, acertar também.

Aula do Programa Experiêncial com Mestre Sênior Julio Camacho

A Vda Kung Fu tende a ser solitária, apesar de estarmos quase sempre rodeados de pessoas. Isto acontece porque ela é pessoal.

Por isso, é comum a sensação de vazio. Vazio este que é preciso ser preenchido. Daí a necessidade de contato com seu próprio Si Fu, para o acesso ao Kung Fu ser da forma mais pura possível.

Acredito que assim podemos trilhar o caminho de nosso Si Fu, e, justamente por isso, ele será apenas nosso, já que, como discípulo, nosso papel é continuar criando condições de outros poderem trilhar as trilhas que nos levam a nossa gênise.

Por isto, estou ansioso de poder viajar mais com Si Fu. Para percorrer o caminho que ele próprio percorre, e poder deixar também minhas pegadas que espero poder servir um dia, a exemplo do meu Si Fu, como guia.

O que de fato importa?

O que é visível e o que é invisível

O que é claro é visível, escuro, invisível. Partindo desta proposição, não é difícil entender que há muito mais de escuro que claro.

Certa vez, ouvi Si Fu dizer que era estranha a ideia de dia, já que na maior parte do universo é escuro.

Então, conformar -se a impossibilidade de enxergar, ou seja, admitir que a maior parte do que existe é impossível de se ver, é crucial para a vida.

Aula Master com Mestre Senior Julio Camacho

A possibilidade de enxergar nos permite uma série de pistas, mas ao mesmo tempo nos cria algumas armadilhas, tamanha é a dependência geral para o sentido da visão.

No fim, o grande problema é a dependência, seja do que for. Por isso, creio, a atividade marcial nos convida a além de enxergar o que é possível ver, perceber o que não é possível ser visto; normalmente o que não é visto está oculto através da imobilidade.

Mesmo assim, não basta saber que a maior parte das informações está oculta. É preciso um grau maior de refinamento, este grau diz respeito a sistema.

Quando iniciei minha prática, via meu nome no quadro de membros no primeiro domínio do sistema, Siu Nim Tau. Várias vezes me perguntei quando tempo levaria para chegar ao último nível do sistema, e, por quantas coisas eu teria de passar.

Por sorte, eu não fazia ideia do que eu teria que passar. Não por ter passado por experiências absurdas ou impossíveis de viver, mas por não ter ciência do preparo que Si Fu iria me fornecer. Ainda que por diversas vezes. eu tenha visto as listagens dos níveis mais avançados, não saberia perceber o invisível do que estava sendo demonstrado.

Estudo do Baat Jaam Do. O mais alto Nível do sistema

Hoje eu tenho acesso ao último domínio, exatamente por isso, dariamente, sou impelido a acessar o primeiro. Por uma razão simples:

Aprendi ao longo dos anos que Kung Fu diz respeito a discrição, então, quanto menos movimento, mais Kung Fu está sendo demonstrado.

A sequência do Siu Nim Tau é a que menos demonstra movimentos, ao mesmo tempo, é a semente para todas as outras.

Mas, no fundo, não falo apenas de pouco movimento, falo de fazer pouco e extrair muito falo também de sistema. Há pessoas que são respeitadas por sua habilidade marcial, há pessoas que são respeitadas pelo ser humano que é.

Ha pessoas que são reconhecidas pelos movimentos técnicos, há pessoas que são reconhecidas pelo seu nome.

Já ouvi falar de pessoas que são respeitadas pela agilidade do seu punho ou potência de sua voz, também ouvi dizer de pessoas que desarmam pelo olhar.

No fundo, o nível, ou o que e visível não importa. O que importa é o que se faz dele.

Invisibilidade

Condução da Aula Master pelos presentes presentes

Perceber o que é óbvio não é uma tarefa simples. Ver e apreender qualquer imagem é diferente de simplesmente olhar.

Por isso, trabalhar a capacidade de visão para que esta produza algo mais que meras imagens, e que estas imagens façam algum sentido, é um exercício maravilhoso de Kung Fu.

Contudo, creio, o chamado “alto nível” exige bem mais.

Série Marco Polo

Havia uma série na Netflix, onde em uma cena vi um Si Fu instruindo seu To Dai:

“Há duas mãos no combate, uma mente, a outra fala a verdade.”

É claro, a cena é um pouco maior que isto, mas esta frase foi o suficiente para me fazer pensar. O que significaria uma mão que mente?

Na série, o entendimento é o engodo, a persuasão. Creio que possamos investir um pouco mais.

Já ouvi meu Si Fu dizer, ao menos foi o que entendi, que qualquer movimento inicia na etapa de pré figuração, ou seja, como ainda é um embrião, o “DNA” do movimento está lá, mas ainda não sabemos se é o Taang Sau ou Fuk Sau. Sendo assim, sua aparência está relacionada ao Jong Sau.

Então, se houver a necessidade de definir, qual nome se daria? Pela capacidade ocular, creio que seja impossível,por isso, trabalharemos a partir de agora o invisível.

Aula Master com Mestre Senior Juiio Camacho.

Por isso, aprendo diariamente com meu Si Fu que a habilidade do artista marcial não é enganar ou esconder.

Mas sim, manipular o cenário de forma favorável, se aproveitando ao máximo do potencial da situação.

Sendo assim, as mãos não mentem ou falam a verdade, elas se adaptam da melhor maneira possível.

O vencedor do embate não será quem faz muito movimento ou aparece demais, portanto, visível. Mas quem atua sempre na pré figuração, ou seja, a maior parte do tempo invisível.

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