Cale-se

Arquétipo do Silencio

As palavras usadas sem inteligência costumam causar mal estar e sofrimento tanto para quem profere, quanto para quem ouve. Daí a relevância de estar atento a cada gesto, sendo ele exibido por qualquer parte do corpo, inclusive, a boca.

Em geral, a tensão é um excelente dispositivo, já que por si, é capaz de trazer ao orador a atitude necessária para o transcorrer de sua oratória sem que esta se torne um mal entendido ou fira inadvertidamente.

Si Fu certa vez compartilhou comigo uma expressão curiosa onde a falta de atenção a ela causava os embaraços comentados acima. O termo “boca mole”, parece-me, estar em perfeita consonância com a falta de tensão eventualmente experimentada pelos falantes.

O que acontece é que, para fechar a boca, é necessário certo nível de esforço. Como é comum os pensamentos serem mais velozes do que qualquer articulação que vise traduzi-los, esta espécie de freio, faz- se importante para dar o tempo mínimo necessário para um melhor enquadramento da torrente de pensamentos.

Repare que a palavra torrente não foi usada aleatoriamente, o uso dela pretende exemplificar o tamanho da tensão necessária para suprimi-la, ou seja, a força com que se fecha a boca.

Passarela da Subprefeitura da Barra da Tijuca. Rio, março de 2019.

Por isso, muito embora o senso comum comunique diferente, entendo que a melhor maneira de encontrar harmonia ou paz interior seja através da tensão que é gerada sempre quando incluímos o outro, portanto, o adversário, no sentido de estar adverso, não necessariamente em conflito, embora também possa ser.

Contudo, é preciso cautela para o uso da tensão, pois, a tendência é se apoiar no extremo oposto e acabar desequilibrando; de forma diferente, mas, ainda assim, em desequilíbrio.

Há na expressão marcial, um dispositivo interessantíssimo para se trabalhar a tensão no nível necessário.

Estava com Si Fu saindo do Núcleo. Ele tinha um compromisso e precisava rapidamente se deslocar a outro extremo de onde estávamos. Por conta do tamanho do transito, logo se convenceu de que não teria tempo hábil.

Então, convidou-me para uma caminhada noturna. Com passos rápidos, conversávamos sobre como se aproveitar da situação e não se vitimar. Passado algum tempo, contarmos boa parte do trânsito e Si Fu pode tomar seu transporte.

Alguns minutos mais tarde ele me enviou uma mensagem marcando sua localização. Não tinha apenas conseguido manter seu compromisso, como, “acreditavelmente”, chegou mais cedo do que precisava.

Yam Cha, Tijuca. Ano de 2012

Entendo que o ápice da eficácia no exemplo acima, seja justamente a tensão que Si Fu foi capaz de usar no que diz respeito a não fazer comentários não construtivos. Naquela situação, qualquer pessoa seria capaz de reclamar do governo, do carro da frente, ou do motorista que parece estar dormindo.

Pelo contrário, Si Fu não só foi capaz de não reproduzir o comum, como se aproveitou da situação, em princípio, desfavorável. O fato de não estar de carro e não poder pedir um transporte por aplicativo, naquele cenário, foi fundamental uma vez que pode fazer uma caminhada, dar a atenção que eu solicitava e ao mesmo tempo chegar antes no seu compromisso sem qualquer prejuízo para ninguém.

Sempre lembro desta história, inclusive, é por isso que evito de falar de politica ou sobre assuntos que me parecem não desdobrar em nada. Hoje, muito embora eu faça uso de transportes inadequados para seu fim, em vez de fazer um discurso sobre como o político deveria agir, procuro aproveitar o tempo que seria perdido lendo um livro, ou estudando algum assunto de meu interesse.

É curioso observar como a relação Si To |( Si Fu To Dai) sempre da um jeito de sobressair.

Soco de Batalha

Cena do Filme Ip Man; no Brasil: “O grande Mestre”

Com relação ao desconforto, podemos observa-lo por diversos ângulos. No que se refere ao mal estar ou a dor, que pode gerar lesão, é considerado erro de medida.

Acontece que todo corpo tem seu limite ,portanto, o praticante de um sistema marcial, ou, um artista marcial, no sentido daquele(a) que obtém certo nível de maturidade, costuma usá-lo como dispositivo para reconhecer seu máximo; então, daí, é possível identificar a necessidade, ou possibilidade de avanço. Em outras palavras, busca-se atualizar o limite a partir do momento em que o nível de maturidade é suficiente para perceber os sinais corpóreos.

O sistema Ving Tsun é absolutamente físico, mesmo assim, em meu caso, costumo associar o quinto nível do sistema ao estágio máximo do uso dele.

Assim creio, pois sua postura corporal exige tanto do conhecimento de estruturas anteriores, e basilares, quanto de alinhamento da atitude mental com o objetivo almejado. Desta forma, é possível desferir o “soco de batalha”.

Cerimonia de Passagem de Nível, Barra da Tijuca. 2017

Lembro de certa vez, quando estava fazendo a manutenção do núcleo com alguns irmãos Kung Fu, não percebi o nível de cansaço que me consumia. Naquele dia, sai exausto do núcleo.

Desatento, não observei se o despertador estava ativado; o que fez com que perdesse a hora e não pude participar do término dos ajustes. Chegando no Mo Gun na hora que pude, tive a oportunidade de praticar “Jung Choei”.

Uma guerra, aprendi com Si Fu, só deve ser iniciada se houver condições de chegar ao fim. Além disto, é importante a manutenção da energia para que não seja usada aquém ou além, e sim, o máximo empregado até o objetivo último.

Portanto, creio que não exista problema algum em ficar exausto. Desde que, mesmo exausto, e exatamente por isso, chegue-se.

Prática Especial com Mestre Senior Julio Camacho, Condomínio CEO CORPORATE, Barra da Tijuca, 2013

Facilmente eu associo a experiência da pratica do “Soco de Batalha” a de zelo com o núcleo. Para mim, é rigorosamente a mesma coisa.

Claro, na experiência do zelo com o núcleo, dei o máximo como sempre fiz, só não fui capaz de entregar tudo até o fim. Guerra, deve ser iniciada e terminada para valer o esforço; simbolicamente, no caso, eu morri.

A habilidade de iniciar e terminar uma tarefa oferecendo o máximo, a despeito do desgaste, é justamente o que o o artista marcial pratica.

Manter a expressão serena mesmo em estágio máximo de dor é comum aos nossos exercícios, mesmo porque, o foco ali não é a dor, mas o quanto a atitude mental e a capacidade física estão associadas.

É por isso que para mim, o que define o limite pessoal é a capacidade de projetar e executar aquilo que se pretende!

Dez Segundos

Marcador de Tempo, ampulheta

O tempo tem seu próprio tempo. Por isso; ele pode ser mensurado; é o caso do tempo Cronológico. Conheço outra forma de tempo, chama Kairológico, neste caso, o tempo não tem tempo.

Creio que exista uma outra medida para o tempo último, absolutamente subjetiva; vou chamá-lo de presente!

Por exemplo, a propósito de evocar, é comum presentear alguém com o que se traga lembranças. Neste momento, ainda que o tempo tenha passado, refiro-me ao Cronológico, aquela pessoa estará presente. E assim se fará, mesmo que tenha morrido.

Note, que um julgamento correto sobre a diferença entre as formas de tempo apresentadas, seriam as características chamadas de quantitativas ou qualitativas. Então, no que diz respeito ao que chamei de presente, poder-se-ia também chamar de tempo de qualidade.

Entrega de Nomes Kung Fu, Barra da Tijuca, 2014

Portanto, a qualidade do presente é o que importa, ou seja, não é relevante saber quantos anos se irá viver, mas sim, de todos os anos, quantas vezes estive presente!

Certa vez, estava com o Si Fu indo para casa de carro. Si Fu dirigia, ao parar em um sinal, disse que tiraria um cochilo. Dei uma risadinha sem graça, tentando dar a entender que tinha entendido a “piada”.

Passados mais ou menos dez segundos, o sinal abriu e Si Fu não deu a partida. Ele realmente tinha dormido. O mais leve que pude, toquei em seu braço, ele despertou e demos prosseguimento a viagem.

Parecia que estava a meu lado outra versão do Si Fu, aquele dia foi bem exaustivo, ambos estávamos cansados, mas, ao despertar, notei que de alguma forma ele tinha recuperado o suficiente para chegar ao destino.

Reunião Discípular, Maio de 2022

Esta é uma das mais vívidas memórias que tenho quando penso sobre presença, ou, como é mais comum ao nosso linguajar, momento presente!

Veja, um estado absoluto de cansaço é capaz de fazer alguém dormir, mas, dormir por segundos e se recuperar na medida do suficiente, para mim, pode ser explicado apenas pela capacidade de se entregar a necessidade de forma integral, sem meios termos. Não Semi desperto, absolutamente presente no inconsciente.

De minha parte, a risadinha que tentava agradar não foi nada além da falta de presença. Rir em uma situação que não tem graça em si é a prova absoluta de uma atitude frouxa e corriqueira.

Tão estranho quanto rir sem achar graça, é rir para tentar agradar. Posto que, se é este o intuito, só um estado pleno de presença é capaz do inspirar a conduta necessária para qualquer situação.

E após tantos anos, esta história ainda me é presente, como se estivesse vivendo ela agora, de fato estou.

Coração de Buda

Rei Midas, Mitologia Grega

Há na mitologia um mito referente ao rei Midas. Nesta história, por ter acolhido o amigo de um deus, foi disponibilizado a ele a realização de um desejo. Seu desejo, que era a capacidade de tornar ouro tudo que fosse submetido a seu toque, tão logo realizado, tornou-se uma maldição.

Acontece, que como pedido, tudo que tocasse tornar-se-ia ouro. A partir de então, o rei jamais pode se alimentar, ter um toque de afeto ou mesmo dormir em sua cama outrora confortável, pois, após seu toque, a cama se tornou um metal frio e duro.

Esta história, diz muito sobre o meu processo de desenvolvimento pessoal, ouvi-a pela primeira vez contado por Si Fu. Então, por falta de uma reflexão mais zelosa de minha parte, de forma muito similar ao mito, tornou- se para mim uma maldição.

Comitiva de Visita a Angola. Aeroporto Galeão, Outubro de 2017

Se há um moral da história, para mim, trata de capacidade que “pessoas de valor”, neste caso, homens e mulheres que usam seu poder ou riqueza em benefício de todos, de desejar o que é certo. Afinal, o que deveria desejar um rei além do desenvolvimento fértil e próspero de seu reinado?

Por uma camada mais profunda, eu entendo que independente da habilidade pessoal, caso o desejo seja correto, será benéfico. Para isso, é preciso estar alerta a essência de seu desejo, de modo que, cada folha contida ali, “Ip Sam”, seja extirpado de maneira a restar somente o que há de mais puro, “Ming Sam”.

Como disse, o mito que compartilho chegou a meu conhecimento por intermédio do Si Fu. Dizendo mais ou menos isto: ” você parece o rei Midas, tudo que faz, gera problemas.”

Naquele tempo, eu justificava sua afirmação pelo meu efetivo cansaço, claro, não seria o cansaço uma desculpa eficaz para a falta de atenção?

Sim, no sentido de desculpas. Mas não no sentido de justificativa.

Com Mestre Senior Julio Camacho. Antigo Núcleo Barra, O2; dezembro de 2019

A história de Midas, Si Fu fez questão de me lembrar por alguns anos. Há pouco tempo, eu próprio lembrei. Esta lembrança me trouxe o amargor experimentado no passado.

Um misto de culpa, angústia e um desejo desenfreado de finalmente acertar. Desejo este que me deixa cada vez mais distante do meu intento. Nestas horas, o que efetivamente acontece, pergunto-me. O que pode haver de tão errado na minha intenção?

Quem dera saber a resposta, certamente traria a minha vida a leveza e o frescor que tanto, de tantas formas, há tanto tempo, almejo.

Não sei a resposta, mas quem sabe um feixe de luz esteja se apresentando em meu horizonte, quem sabe esta luz, ofuscada por tantas folhas de um tempo imemorial, possa finalmente dar sinais de sua existência.

Acho que meu grande erro ou erro recorrente não seja o desejo que tenho, ele é sim puro; o efetivo problema que tenho são as folhas que obstruem.

Figuras do Poder

Filme Tropa de Elite. Brasil, 2007

Em geral, a maneira de agir é determinada pela cultura. Por isso, é possível identificarmos determinadas profissões apenas pelo linguajar e postura de seus representantes, postura esta que direciona o entendimento para qual escala de poder a pessoa se encontra.

Ou, eventualmente, gera confusões na comunicação quando, por exemplo, chamamos de doutor pessoas que não possuem doutorado.

Toda escala de poder tem uma razão de ser; a questão é: quanto é devido a uma pessoa o uso de títulos para justificar suas ações?

Acho que quando este processo é mal executado se torna caricaturesco, o que, em minha opinião, de forma alguma deveria acontecer data a relevância e responsabilidade destes profissionais na sociedade. Afinal, como confiar minha segurança, direito, saúde, construção do lar, entre outros, a um profissional cuja postura é risível?

Com Mestre Senior Julio Camacho, Beco do Gaúcho, 2012

Por outro lado, existem profissionais que inspiram. O que leva a crer que, apesar da cultura, é possível se valer da ocupação para benefício de todos.

Aliás, apesar da cultura, no sentido de prisão de forma a não ser possível interpretar de outra maneira tão submergido se está pela regra proposta, ou por apoio nela?

Em seu livro “Tratado da eficácia”, o professor François Jullien, faz um paralelo entre duas culturas que parecem ter seguido caminhos diferentes. A cultura ocidental teria entendido a eficácia através de planos e modelos, de modo a mapear o cenário por inteiro, e assim, subjugá-lo, o cenário, aos seus meios e fins descartando portanto a ideia de potencial da situação.

Por outro lado, a cultura oriental teria se inspirado na lógica de desenvolvimento. Deste modo, em vez de definir um modelo e encaixar o desenrolar da situação ao que foi premeditado, a proposta é se apoiar em um modelo prévio, mas totalmente independente dele, pois a todo momento o que foi planejado é atualizado a partir do transcorrer da situação.

Com Mestre Senior Julio Camacho, estudo especial da fase Semi Estruturada, 2022

Por isso, valorizamos tanto o estudo de outras culturas. Não por preferência, mas sim, como recurso que nos ajuda a analisar a nossa.

Visto isto, entendo que mesmo as estruturas de autoridade podem se inspirar neste modelo, ou seja, em vez de cristalizar uma posição de comando, a pessoa que ocupa este posto chega a ele independente de méritos próprios, portanto não portador da possibilidade de comando e sim portado a ela.

Sobre a família Kung Fu, Si Fu tem um termo curioso para o que foi chamado de lógica de modelo. o “Si Hing circunstancial”, é aquele ( sabemos que no caso, o termo não assume qualquer gênero, servindo tanto para homens quanto para mulheres) que dada a situação assume a posição de comando, seja no cenário que for, e, cumprida sua tarefa, retoma a posição inicial, ciente de que estar é bem diferente de ser.

Já vi Si Fu transmitindo o Kung Fu para praticantes mais antigos que ele, isso não abalou em nada a relação dos dois; primeiro, pelo nível de Kung Fu de ambos, segundo, porque a relação Si Hing -Dai não se relaciona em nada com hierarquia. Mesmo que fosse o caso, para quem tem Kung Fu, não faz diferença.

Sendo assim, creio que as pessoas tenham condições de se aproximar dos praticantes mais antigos e entende-los como igual, ou seja, pessoas que buscam o desenvolvimento; afinal, para isto, não é preciso ter cargo.

À sua maneira

Bolo para celebração do Aniversário de Grão Mestre Léo Imamura, 18 de Março de 2023

Meu Sitaai Gung, Patriarca Moy Yat, disse certa vez: “Zelo é a maneira correta de amar.” Bem, como fazer?

Ao longo da minha jornada, mostraram-me que o zelo está presente nos menores detalhes, quase invisível, ou, em alto nível, efetivamente impossível de se ver. Então me surgiram dúvidas, como a pessoa irá saber que estou zelando, se eu não demonstrar?

Esta pergunta gera uma outra, porque tenho a necessidade de ser notado?

Prática Especial com Mestre Senior Julio Camacho, Antigo Núcleo Barra, O2

Bem, meu caso era explicado pela dificuldade que tinha em ficar só. Eram tantos pensamentos e dificuldades, que percebia ser quase insuportável estar apenas em minha companhia.

O curioso é que por mais que tivesse necessidade de escapar de mim, não tinha jeito, eu sempre estava em minha presença. Por isso, cheguei a conclusão de que se eu não aprendesse a lidar comigo mesmo, jamais ficaria bem para onde fosse.

Não posso dizer que foi por isso, mas certamente me ajudou o fato de muitas vezes, por conta do Kung Fu, ficar só. Seja no Mo Gun, seja na casa do Si Fu ou em outro país. Nestes momentos, ouvindo o turbilhão que é a minha intimidade, aos poucos, pude distinguir pequenas vozes e interpretar o que elas diziam.

Em virtude de toda construção que pude fazer pela experiência, certa explicação, há muito compartilhada, fez sentido para mim. Segundo o que entendi do meu Si Fu, zelo é a habilidade de juntar a ação e a percepção.

Ou seja, mais que perceber qualquer necessidade, é crucial fazer o que for preciso para dar um melhor direcionamento a ela. O sentido contrário também deve ser observado, se a ação não for embasada por uma reflexão bem feita, há grandes chances de o ato ser estúpido, em seu sentido literal.

Com MS Julio Camacho e seus contemporâneos, MS Ricardo Queiros e MS Ursula Lima

Bem, por mais que tenha sido duro, aproveitei da melhor maneira as oportunidades que tive. A possibilidade de estar sozinho me trouxe a necessidade da busca constante por refinamento, algo que Si Fu inspirava mesmo antes de eu começar a praticar; já que, apesar de não ter participado do início da consolidação de nossa família, quando comecei, notei este espírito facilmente no ar.

E graças a mestria e dedicação do Si Fu, pude apreende-lo e passar a chamá-lo de meu, não por título, mas por apropriação.

Afinal, não consigo perceber outra forma de zelo tão genuína quanto dar espaço, e nutrir a partir do estritamente necessário.

Sigamos Juntos

Mestre Senior Julio Camacho em Cerimônia de Baai Si

Existe um momento na cerimônia de” Baai Si”, chamado” Yam Cha”. Este ato é o momento ápice da cerimônia pela capacidade simbólica carregada ali. O que acontece é que ao tomar o chá, o líder da família expõe publicamente sua confiança no novo discípulo.

A razão é bem simples, uma forma de se causar mal a saúde de uma pessoa é por envenenamento, seria fácil adicionar ao chá qualquer substancia nociva e dificilmente se saberia de quem foi a responsabilidade; por isso, Si Fu bebe; como gesto de confiança de que nenhum mal irá lhe ocorrer.

Sobre o sabor, por razões inerentes a relação Si To, sabe-se que haverá momentos bons e agradáveis, representado pelo calor da bebida, e momentos difíceis e desgostosos, percebido por seu amargor.

Grão Mestre Leo Imamura e Mestre Senior Julio Camacho, monastério Siu Lan (Shao Lin) do Sul

Com relação a razão inerente exposta acima, gostaria de frisar uma característica: a longevidade. Sabe -se que o discípulo e seu mestre estão juntos por toda a vida, aliás, temos uma pequena dificuldade com a linguagem aqui, pois o correto seria dizer que essa relação dura para sempre, no sentido de considerar que ela irá existir mesmo após a morte.

Siu Lan abrigou nossos ancestrais. Por séculos, o saber desenvolvido ali é transmitido a seus dignatários. Por milênios, melhor dizendo, por um tempo incalculável, no que tange a responsabilidade de todos os seus perpetuadores, será transmitido. Sei que através de meu Si Fu, Mestre Senior Julio Camacho, estou ligado intimamente a este local, mesmo nunca tendo pisado lá.

Por isso, creio ser plausível entender que a confiança seja o nome da estrutura que liga todos os elos que fazem essa corrente, esta simbolizado pela cerimônia de Baai Si. Ora, qual outra razão seria responsável a fazer com que duas pessoas se unam para o fim de compromisso mútuo, por tempo incalculável?

Visita de Mestre Senior Júlio Camacho ao Primeiro Núcleo situado na zona norte do Rio de Janeiro.

Há uma resposta. Por diversas razões vivi experiências sem igual com meu Si Fu, momentos felizes, infelizes e vários outros que não sou capaz de expressar em palavras. Isto tudo estava bem explicito mesmo antes de fazer meu Baai Si, e, portanto, materializar um compromisso mútuo iniciado muito antes da cerimônia.

O que há de novo, é que apesar de ser basilar a relação de confiança, acho que o que sustenta há 15 anos o convívio com meu Si Fu é a escolha. É possível, a despeito da confiança, escolher não seguir; baseado em minha experiência, posso afirmar, é perfeitamente possível escolher filtrar ou se omitir, eu próprio já fiz isso, porém, o mais bacana de tudo, isto vale para os dois lado, é possível escolher continuar.

Hoje, deparo-me com um desafio tão assustador quanto vários outros, confio em meu Si Fu tanto quanto sempre confiei, e, outra vez escolho, à minha maneira, segui-lo. Por isso, por mais instigante que seja a possibilidade de conhecer e viver em outro país não é isso que me emociona, emociona- me é que de novo, como tantas vezes a tantos anos, escolho seguir junto.

Man e Mo através dos tempos

Patriarca Moy Yat, 28 – 06 – 1938 à 23 – 01 – 2001

Meu Sitaai Gung, Moy Yat, em determinadas ocasiões usou duas expressões para definir Arte. “Man” trata de habilidades ditas contemplativas; por exemplo, pintura ou caligrafia; “Mo” envolve destreza corporal, tal qual montaria ou arquearia.

Segundo Si Jo ( ancestral), Moy Yat, o artista completo é perito nas duas definições de arte. Saber de anos que se faz atual. ´por isso, creio que a ciência, a proficiência e a “aplicação” ou “uso” destas habilidades se faz crucial a todo individuo que deseja obter algum sucesso, independente da área de atuação; claro, afinal, estamos falando sobre Kung Fu.

Meu mentor, Mestre Senior Julio Camacho e sua filha, Jade Camacho

Tive a sorte de ouvir estas frases de patriarca Moy Yat, e mais, pude vê-las em pratica; estas duas oportunidades foi com meu Si Fu.

Sobre “Mo” através de demonstrações marciais; uma sensação comum nestes momentos é a perda de altura e uma confusa explosão de luzes, figuras e formas, ato continuo, uma mão estendida que agarro e me ajuda a levantar. Há nestes momentos um pequeno “delay”, é mais ou menos o tempo que preciso para entender como fui capaz de ir ao chão e retomar a altura tão rápido; claro, essa habilidade não é minha.

Enquanto “Man”, tal qual “Mo”, atividades diversas. Si Fu Escreve, Produz, Atua, Dirige… e faz tudo de forma que da a entender que é capaz de fazer o que precisar, apenas porque faz o melhor que pode; alias, talvez seja essa a sua arte. No entanto, há outra habilidade que outra vez se vale dos dois conceitos: A arte de transmitir.

Assim creio, porque para transmitir é preciso esperar o tempo certo, entregar as informações necessárias com a habilidade de não ser aquém tampouco além do justo meio, ou, estritamente necessário. E mais, porque a despeito de todas as suas habilidades, a partir desta e para esta ele decidiu direcionar sua vida.

Despedida de Mestre Senior Julio Camacho, aeroporto galeão, Rio de Janeiro

E como falamos de “Man” e “Mo” em minha linguagem, Kung Fu, falo também de inspiração e capacitação. A arte de transmitir, posso resumir, requer conhecimento técnico e vontade de ambas as partes. Até porque, embora o interesse dos praticantes de artes marciais, em geral, ser bem específico, com meu Si Fu, eu desenvolvo Kung Fu.

Hoje escrever já não é mais uma barreira instransponível para mim; certamente esta habilidade veio de dedicação e pratica de minha parte. Mas, se há algum mérito, não é somente meu.

Perdi a conta de quantas vezes Si Fu me pediu para compartilhar minhas experiências, a escrita, era apenas uma via sugerida. Não fazia porque, de alguma forma, era difícil. é justamente este o ponto, como fazer algo difícil se tornar fácil o nome disto, outra vez, é Kung Fu.

E já que falamos sobre a habilidade de fazer o que for sugerido, em termo específico, obedecer, pergunto- me quantas habilidades deixei de adquirir apenas por não ouvir o Si Fu.

O caminho a seguir

Natalício de Mestre Senior Julio Camacho

Natalício, é a expressão usada para se referir ao dia em que uma pessoa nasceu independente da data de celebração, chamada aniversário. Esta diferença em geral é pouco observada fazendo com que a palavra natalício seja novidade ao vocabulário de muitas pessoas, e, por vezes, digna de surpresa já que é tão parecida com a palavra Natal; inclusive, foi o meu caso.

Falando em palavras, outra que me chama atenção é a palavra precisão, que pode ter tanto o sentido de necessidade, quanto de adjetivo. Afinal, navegar é preciso, viver não, não é verdade?

Todo este aprendizado desenvolvi com meu Si Fu. Ele foi quem me orientou sobre o significado destas palavras, e de outras. Disto, surge-me um questionamento, qual a relevância para o desenvolvimento do Kung Fu de entender sobre a morfologia das palavras? Aqui, proponho uma resposta:

Quando falamos sobre o Kung Fu, falamos sobre mestria, também, mas não somente em arte marcial. Sendo assim, em qualquer campo o executor desenvolve sua atividade em alto nível. Ora, você vê alguma diferença entre a palavra precisão, no caso de navegar, com relação a palavra precisão que caracteriza os gestos marciais, por exemplo?

Então, entendo que a razão da dedicação exercida por meu Si Fu em nos ajudar a prestar atenção às palavras, é justamente a mesma quando nos propõe um dispositivo corporal de combate simbólico, a realização de eventos ou viagens… afinal, tudo é Kung Fu..

Junco Vermelho, navio itinerante que levava e apresentava a Ópera cantonesa.

Por isso, faz sentido copiar o Si Fu nos hábitos e maneiras que ele criou para o desenvolvimento de sua habilidade marcial. Assim, teremos uma forma clara e eficaz de trilhar o mesmo caminho, até o momento em que somos considerados, a critério próprio, artistas marciais.

Outra vez me valendo do Si Fu, explico: Arte diz respeito a expressão pessoal, portanto, um artista é aquele que se expressa de maneira única em diferente, ou, no mesmo cenário. Um exemplo, é a pessoa que baseado em seu passado, reproduz cópias de ações, até o momento em que a dita cópia será sua versão para o gesto. Então, o artista marcial não pode ser criticado por repetir o que foi lhe dito ou mostrado, já que esta copia é da maneira que só ele é capaz de executar.

Vou além, neste sentido, eu entendo que esta copia deva ser bem vista, uma vez que não pode ser consideras falta de autenticidade, mas sim um vetor que direciona o praticante a experiência marcial.

Com Mestre Senior Julio Camacho

Quando falo de copia, quero dizer também em se aproveitar da situação. Quando Si Fu iniciou sua prática na Moy Yat Ving Tsun, eu tinha dois anos, então, é natural que ele filtre determinadas experiências já que percebeu que não é o caminho mais simples, e assim seguimos.

Há uns meses iniciei mais um grande desafio, novamente estou me preparando para morar fora do país e viver do que acredito. Agora, há a barreira da língua e a organização pessoal é bem maior do que a anterior. Apesar de tudo, a historia se repete.

Si Fu nunca teve a oportunidade de morar na mesma cidade que meu Si Gung, eu, apesar de ter vivido esse privilégio, enfrento um desafio antigo, por enquanto, não moro no mesmo país que meu Si Fu. A história se repete, embora envolva personagens diferentes. Os personagens se repetem, embora as histórias sejam contadas de forma diferente, outra vez, um discípulo segue os passos de seu mentor.

Para mim, o que importa agora é seguir junto; e seu eu vou seguir seus passos pela mestra estrada ou por uma totalmente diferente, é a cena do próximo capítulo. Em breve saberemos!

Qual o seu nome?

Processo de Reafirmação Discípular de Guilherme de Farias com seu Si Fu, Mestre Sênior Julio Camacho e sua Si Mo, senhora Marcia Moura Camacho.

Sobre o nome Kung Fu, sabe-se que costuma carregar alguns aforismas; em geral, três. Seja missão, advertência, ou característica pessoal, é comum o líder de família, talvez, apenas desta vez, dizer a sua opinião a respeito do discípulo.

Nota-se, já de antemão, e nas primeiras linhas do texto certa imprecisão sobre procedimentos. Se é comum, porque não é regra?

Claro, a cada líder de família é facultado o direito, quem sabe, o dever, de geri-la por suas particularidades. Assim, segundo minha experiência, posso afirmar que qualquer protocolo ou “maneiras de ser” perde relevância diante do momento de qualquer cenário apresentado; por isso, a regra apresentada acima como aforisma, deixa de ser um axioma; ao menos, no que diz respeito a ordem geral.

Homenagem a Mestra Sênior Ursula Lima, na ocasião dos 10 anos de sua família.

Quanto ao específico, tenho dúvidas. Ora, afirmo acima usando outras palavras; a ocasião se sobrepõe a regra. Sendo assim, não estaria errado entender que a regra é cada ocasião. Mesmo assim, não é como acredito, penso que há algo não declarado, e, de alguma forma, vivido por todos. O chamado DNA advém da cultura, não como regra, mas como vivência e sobretudo, cultivo. Dia após dia, sem fim.

Si Fu certa vez me disse, não por estas exatas palavras, mas pelo entendimento delas:

” Meu Si Fu, Grão Mestre Leo Imamura, me deu o nome Moy. Isto significa que uma das minhas principais identificações não foi gerada por mim. Mas me apropriei deste nome de tal maneira, que não só porque recebi que é meu, mas também por cede-lo a você.” É possível ceder a alguém o que não é seu de fato?

Pearl Harbor, 7 de dezembro de 1941

A história conta que certo General, contrário a determinado ataque, foi o único a se posicionar desta forma para seu Estado Maior; voto vencido, decidiu que seria ele a comandar a ofensiva. A despeito do sucesso da operação, a história também conta as suas consequências.

Presenciei diversas vezes, seja por exemplos práticos ou teóricos, qual poderia ser valor de nossa família. Imagino, que não por acaso esta história esteja tão viva em minha memória. Aqui, não digo que este é o DNA da família Moy Jo Lei Ou, mas, um principio, se não para toda a família, certamente para mim.

É claro que a única pessoa capaz de determinar qualquer diretriz é o líder de sua família; o curioso, é que meu Si Fu tem o habito de ouvir a todos, e a partir disto, tomar decisões. Assim sendo, longe de determinar qualquer valor, mas fazendo parte de um processo, tal qual qualquer personagem histórico, subscrevo-me,

Moy Faat Lin.

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