Man e Mo: A Liderança de uma família

Celebração do quinquagésimo quinto aniversário do MS Julio Camacho – 2024

Na tradição das artes, o equilíbrio reside na união de dois pilares fundamentais. Man (文) representa a erudição e a maestria nas chamadas “artes leves”, como a caligrafia, a pintura, a poesia e o cultivo do intelecto. Em alto nível, compreendo o Man como o cuidado invisível. Já Mo (武) evoca as “artes pesadas”, a disciplina marcial e a eficácia técnica; o que entendo também como o cuidado visível. Em altíssimo nível, todo praticante desenvolve habilidades em ambas as perspectivas, mas ainda assim é possível perceber nitidamente a proximidade de cada um ao considerarmos esses dois aspectos. Tomo por empréstimo essas características para exemplificar a dinâmica da minha família Kung Fu.

No mundo da gestão e das estruturas rígidas, fomos ensinados que para cada veículo deve haver apenas um condutor principal. A ideia de um piloto e um copiloto traz uma falsa sensação de segurança baseada na hierarquia, especialmente quando o trabalho é compartilhado por pessoas de sexos opostos. Nestes casos, o senso comum apressa-se em definir quem é superior ao outro.

Mas, na vivência da nossa Família Kung Fu, aprendemos uma verdade muito mais sofisticada: a de que é possível compartilhar o manche com igual maestria. Aqui, dois líderes não se anulam nem se tornam dependentes; eles se potencializam. Hoje, celebramos a vida de quem personifica essa liderança de forma única.

Dizer que minha Si Mo, a senhora Márcia Moura Camacho ocupa este lugar apenas por ser a companheira do meu Mestre seria ignorar a força da sua própria trajetória. Ela é líder por escolha, por presença e por uma percepção aguçada que muitas vezes escapa aos olhos menos treinados.

Cerimônia de Reafirmação Discipular – 2019

Já mencionei em outra oportunidade como essa parceria mágica se manifesta. Tratei, à época, de quando eu estava imerso no trabalho exaustivo de pintura do Mo Gun. O cuidado veio de onde eu menos esperava. Não era obrigação do Si Fu me alimentar, nem cruzar a cidade para me entregar um jantar quente. Mas foi a sensibilidade da Si Mo que enxergou a necessidade onde havia apenas o cansaço. Aquele alimento, entregue em mãos a pedido dela, não era apenas nutrição para o corpo; foi um aprofundamento teórico e prático de que o cuidado habita as operações mais sutis e corriqueiras. Como artista marcial, eu exercitava a capacidade de lidar com o desconforto, mas o gesto da Si Mo me fez perceber que o alívio de qualquer mal-estar é, por si só, um estudo refinadíssimo sobre como praticamos nossos sistemas marciais.

Essa história de liderança e presença atravessa continentes. Recordo-me de quando o Si Fu enfrentou uma cirurgia cardíaca crítica nos Estados Unidos. Recebíamos vídeos dele monitorado por fios e conexões. Ele tentava manter uma voz otimista e, mesmo depois, ao nos enviar imagens caminhando, ainda visivelmente fragilizado, a angústia permanecia. As telas não me davam garantias claras.

Comitiva de Visita a Angola — 2017

Foi então que a Si Mo resolveu vir pessoalmente ao Brasil. Ela cruzou continentes para nos olhar nos olhos e garantir que, de fato, tudo estava bem. Talvez eu não domine a língua portuguesa o suficiente para decodificar a importância daquela presença, o mais provável é que não existam palavras para o que aconteceu ali. O que sei é: Si Mo cuidou do marido quando foi necessário e escolheu cuidar da sua Família Kung Fu de um jeito que somente ela poderia fazer.

Si Fu e Si Mo são o exemplo perfeito da união entre Man (文) e Mo (武). Cada um a sua própria maneira e jeitos de escolha, sobretudo, optando por se complementarem

Feliz aniversário, Si Mo. Obrigado por escolher liderar o nosso clã com essa força que acolhe, que informa e que, acima de tudo, nos inspira a buscar a nossa própria força através do seu exemplo.

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