
A mestria é um processo e, claramente, pode ser dividida em duas etapas. A primeira diz respeito à jornada individual do praticante. Este é o momento de forjar o coração; nesta etapa, o praticante realiza seus estudos orientado por seu mestre e busca, a partir de sua necessidade particular, o desenvolvimento pleno de suas capacidades intrínsecas e muitas vezes latentes.
Essa etapa é marcada pelo desenvolvimento de habilidades técnicas específicas e particulares, voltadas absolutamente para o desenvolvimento pessoal. A este praticante, é outorgado o título de mestre de algum sistema, cuja motivação é o desenvolvimento do Kung Fu. Si Fu (師傅).
O segundo momento trata de um discípulo maduro, capaz de dividir sua capacidade pessoal com a necessidade e/ou capacidade do todo, apoiando-se no potencial da situação para exercer sua mestria. Nesta etapa, o indivíduo se apoia em habilidades que lhe são próprias com o intuito de inspirar, desenvolver e capacitar o todo. Dessa forma, aproveita-se do que é compartilhado por seus alunos, gerando um conjunto de experiências impossíveis de se exercer ao considerar apenas a própria capacidade individual — por mais louvável que esta seja.
A este, é outorgada a condição de mestre do que se convencionou chamar de Kung Fu. Neste caso, refiro-me ao Si Fu (師父).
Note que os termos possuem significados em si e também são validados por conceitos prévios e por interpretações pessoais de seu usuário. Por isso, esclareço que o uso da expressão “forjar o coração” vai além de sua possível interpretação primária. Trata-se de um trabalho contínuo, árduo, fluídico e vermelho — bases elementares para o desabrochar da essência individual e seu retorno ao início, ao “bebê vermelho”, bem como a inspiração para que outros possam trilhar sua própria jornada.
Sobre o uso diferencial dos termos Si Fu, explico através de imagens.

Existem dois filmes que, para mim, esclarecem especificamente o que vem sendo tratado até o momento.
Whiplash – Em Busca da Perfeição é um filme de 2014, dirigido por Damien Chazelle, com Miles Teller (Andrew Neiman) e J.K. Simmons (Terence Fletcher) no elenco principal. Trata-se de um filme sobre a relação intensa — e muitas vezes abusiva — entre um jovem baterista de jazz, Andrew, e seu professor extremamente exigente, Terence Fletcher.
A história gira em torno de uma questão central:
até onde vale a pena ir em busca da perfeição?
Já Mr. Holland: Admirável Professor, filme de 1995 dirigido por Stephen Herek, apresenta a trajetória de Glenn Holland, um músico e compositor que aceita um emprego como professor de música em uma escola pública para, teoricamente, ter tempo para compor sua grande obra.
Com o passar dos anos, a narrativa acompanha o impacto direto e indireto de seu trabalho no desenvolvimento dos alunos e da comunidade escolar. O filme aborda:
- dedicação como prática cotidiana
- construção de vocação a partir da realidade encontrada
- tensão entre ambição pessoal e responsabilidade coletiva
- o papel do ensino como forma de legado
- a lenta transformação de um músico em educador
A obra atravessa décadas da vida de Holland, mostrando como sua carreira docente, inicialmente encarada como temporária, torna-se seu verdadeiro eixo de realização. A grande composição que desejava criar assume outra forma: manifesta-se na vida dos jovens que formou.
É um filme sobre trabalho, persistência, formação humana e construção de sentido através do ensino.
No âmbito dos nossos termos, penso que ambos podem ser considerados Si Fu.
A diferença é que, no primeiro caso, Terence Fletcher congelou-se no título. Seu objetivo principal era criar uma grande obra — e permaneceu restrito a isso. Por essa razão, extrapolou a medida do que é saudável, levando tudo ao limite apenas pela busca de seu próprio fim.
Já Glenn Holland, que iniciou com o mesmo projeto de Terence Fletcher, teve a oportunidade de se moldar ao cenário e se reinventar.
Fletcher conquistou o melhor solo de bateria que o mundo teria ouvido, Holland,Governadores, Acessores especiais e pessoas de alto estirpe de maneira geral.
Para mim, a principal diferença entre um e outro é a papacidade de proporcionar algo para alem de si.

Mas ainda não finalizei minha reflexão. Acredito, de fato, ter deixado clara a diferença entre os termos Si Fu. Porém, como vocês bem sabem, a subjetividade e a capacidade interpretativa são absolutas para quem escreve. E, justamente por isso, não posso ignorar que existe uma outra categoria possível — esta, exclusiva. Refiro-me ao meu Si Fu, Mestre Sênior Julio Camacho.
Ao observar os filmes, percebo que o Si Fu Holland não possui a habilidade técnica de Terence. Portanto, ele provavelmente jamais formaria alguém como o exímio baterista Andrew. Por outro lado, Terence também não tem a capacidade de olhar para além de sua própria necessidade e capacidade individual. Em parte por arrogância, em parte por limitação mesmo. Assim, dificilmente construiria líderes em qualquer âmbito.
Ambos, cada um à sua maneira, são incompletos: um é inteiramente técnico, o outro é inteiramente formador. Mas nenhum deles alcança o ponto onde verdadeiramente repousa a mestria.
E é aqui que meu Si Fu se destaca.
Si Fu tem uma carreira de mais de 30 anos como mestre — construída após outra trajetória, igualmente bem-sucedida, na publicidade. Ele escolheu ser quem é. E isso, meus amigos,realmente não é para qualquer um, muito diferente de um título ou condição, está sim, possível a todos que quiserem. Seu caminho não se limita ao desenvolvimento técnico individual nem se restringe à função de educar. Ele integra os dois e vai além: percebe o que a situação pede, responde à necessidade do todo e, ao mesmo tempo, mantém viva sua própria busca.
Em outras palavras, ele representa aquilo que Holland não alcança e aquilo que Terence não compreende. Uma mestria que não se congela no título, nem se dilui na função, mas se manifesta continuamente, em movimento, como coração que se forja e se renova — sempre vermelho, sempre vivo.
Por isso, Si Fu, peço que considere esta singela homenagem, em seu natalício de 56 anos, como um registro da admiração e inspiração que tenho por você. Não sei se vou conseguir viver uma vida íntegra e verdadeira como você, mas sei que tenho a absoluta sorte de estar muito bem acompanhado.
Muito obrigado,
Feliz aniversário.