Energias Físicas no Trabalho do Kung Fu

Patriarca Ip Man

Um dos principais aspectos do Kung Fu, é o trabalho de energia. Trabalhar a energia, significa acumular, como forma de carregamento da ação, e canalizá-la por via específica. Desta forma, tende-se a extrair o potencial máximo possível do movimento. É possível dividir, para fins didáticos, o trabalho de energia através de 4 movimentos distintos: posicionamento, tempo, distância e a própria energia. É importante reforçar que a divisão é meramente didática, uma vez que, para o uso correto do trabalho de energia, é fundamental que todos os aspectos apresentados como passo a passo ocorram simultaneamente e com igual qualidade.

Sabe-se, também, que a via corporal é a principal maneira que todo ser humano adquire conhecimento e se desenvolve no dia a dia. Mesmo quando sentado, ou em atividade intelectual, é possível afirmar que há ali uma atividade física, uma vez que para se manter sentado é necessária matéria física, corpo, e a atividade intelectual necessita do cérebro, que também faz parte do corpo. Por isso, afirmo que o trabalho de energia é uma atividade puramente física, e expansiva para além do próprio físico, da forma como pretendo explicar a seguir.

Recepção dos Líderes da Família Moy Jo Lei Ou

Quando fomos receber os líderes da família Moy Jo Lei Ou, em agosto passado, por conta de um erro de planejamento, tomei uma condução que demoraria muito mais tempo que o previsto para chegar ao aeroporto. Ciente deste equívoco, ainda que tarde, fiquei na dúvida se deveria retroceder o caminho e recomeçar a viagem. Entre mudanças constantes de opinião, resolvi contatar meu irmão Kung Fu a respeito do que ele achava. Si Fu e Si Mo ainda não haviam aterrissado, portanto, talvez houvesse tempo, embora não garantido. Neste sentido, e para evitar qualquer erro novo, tomei a decisão de permanecer da forma como estava e seguir o fluxo.

A associação da prática de um sistema marcial, como o Ving Tsun, e o seu desenvolvimento natural, o Kung Fu, me gera algumas reflexões: Por exemplo, penso que os sistemas utilizados para o desenvolvimento do Kung Fu, são maneiras de trazer materialidade a ele. E mais, estes sistemas de “materialização,” não necessariamente são marciais. Mesmo assim, sou convicto de que a marcialidade seja nossa principal via, já que por ela explora-se o potencial máximo do corpo do indivíduo, e, a partir disto, se extrapola a experiência para a condução de uma vida mais plena e eficaz.

Por exemplo, o conceito de Vanguarda e Retaguarda, ou seja, guardas de apoio mútuo foi explorado na história que contei acima. O que acontece, é que quando se vive uma experiência marcial por um sistema como o Ving Tsun, é de suma importância entender que o uso do corpo deve estar integrado. Portanto, a noção de lado melhor do corpo, seja por ser mais rápido, forte ou por se ter mais domínio, mostra-se ineficaz. Veja, na história, tanto eu quanto meu irmão Kung Fu podemos ser entendidos como Vanguarda e Retaguarda no processo de recepção dos Líderes da família, da mesma forma que usamos o corpo todo na hora de lutar, ou seja, qualquer golpe deve ter condições de ser continuado pelo próximo. No caso, como me atrapalhei com o horário, mas o Thiago Silva estava disponível, no fim, meu atraso não atrapalhou o todo.

II Evento de Nomeação, Investidura e Fundação de Família Kung Fu

Extrapolar a experiência marcial específica do sistema com as experiências marciais vividas no dia a dia, estas sem estrutura alguma, é a conduta de um mestre. Mas veja, eu próprio busco fazer isto antes mesmo de ser nomeado. Portanto, a atitude de um mestre não me parece acontecer quando este tem o título. Parece-me que se pode reconhecer um mestre quando este é capaz de se libertar da linearidade sistêmica e sua expressão marcial ocorre em qualquer cenário e efetivamente de qualquer maneira.

Ainda sobre energia, a história que eu contava seguiu seu fluxo natural, ou seja, o erro foi inserido no contexto para que seu desenvolvimento tivesse o resultado esperado ou o mais próximo disso possível, que era encontrar Si Fu, Si Mo e meu irmão Kung Fu no aeroporto. Para este fim, baseado no sistema, fiz uso de um conceito que chamamos de energia de preenchimento, que é a habilidade de seguir adiante, mesmo diante dos obstáculos e desvios. Como não retrocedi, ou seja, optei por não voltar, e com o apoio do Thiago, que negociou com Si Fu e Si Mo a minha espera, consegui encontrá-los, mesmo com alguns minutos de atraso.

Não é simples trazer a excelência dos movimentos para situações do dia a dia. Embora possamos associar a história à noção de Vanguarda e Retaguarda, sendo rigoroso, notamos que houve erro. A Vanguarda e Retaguarda precisam ter condições de atuação direta e simultânea; caso acontecesse algo ao Thiago, o objetivo fim, o traslado de Si Fu e Si Mo, seria prejudicado, já que demorei a chegar. Portanto, o que aconteceu, se quisermos trazer a cena para o cenário de luta, é que meu movimento não foi eficaz. E a única coisa que impediu que eu fosse metaforicamente golpeado foi a sorte, sorte por eles poderem e quererem esperar por mim.

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