
Há várias maneiras de se demonstrar respeito. Uma forma de percebê-lo é observar como as pessoas se tratam. Assim, conhecendo a cultura local e vendo o emprego de seus costumes, pode-se entender o quanto determinada relação é ou não respeitosa. No entanto, essa percepção me parece limitada, dada a diversidade cultural humana. Portanto, a menos que se objetive o conhecimento profundo de todas as culturas, o que me parece inviável, acredito ser relevante encontrar um ponto comum, onde todos possam se apoiar.
A palavra “respeito” vem do latim respectus, que significa “olhar para trás” ou “consideração”. Esse termo é derivado do verbo respicere, que é formado pela junção do prefixo re- (de novo, para trás) e specere (olhar, observar). Considerando os sentidos como a forma básica de nos relacionarmos com o mundo, creio que a visão é o mais importante para o ser humano. Por isso, digo que respeitar tem de se valer da visão, ou seja, respeitar significa, literalmente, “olhar novamente” ou, por extensão de significado, “revisitar”.
Essa ideia dialoga diretamente com o zelo, pois, para cuidar, é necessário diligência e precisão, habilidades adquiridas pelo esmerado trabalho sobre si e pelo constante refinamento. Por isso, lembro da frase icônica que meu Si Fu sempre diz: “Entrega mais quem tem mais.”

É por isso, que os adultos devem cuidar das crianças, uma vez que tiveram tempo para o profundo exercício de gerar em si, capacidades inesperadas para uma criança.
Certa vez, estava praticando uma das minhas atividades físicas favoritas, que é correr. Estava em um bom ritmo, quase atingindo minha meta de correr uma distância maior em menos tempo. Um pouco à frente, notei um senhor com uma criança pequena no colo atravessando a rua. Pela velocidade, logo me impediriam de manter o meu “pace” desejado. Pensei em acelerar; se assim fizesse, eles teriam que esperar mais tempo para atravessar. No segundo seguinte, desacelerei totalmente e dei passagem. O que acontece é que, mesmo distante, havia um carro vindo, e percebi que estava em minhas mãos a possibilidade de diminuir riscos.
Diminuir o “pace” é algo que qualquer corredor experiente evita, e qualquer situação que atrapalhe o objetivo gera um grande nível de irritação. Mesmo assim, fiz aquilo de bom grado. Juntei-me àquele senhor no cuidado com um ser tão indefeso. Naquele momento, eu tinha mais condições de garantir a segurança. Como dito: “Entrega mais quem tem mais.”
Passada a cena, retomei minha corrida já em um ritmo mais lento e pude refletir sobre o ocorrido. Lembrei-me de uma conversa transformadora que tive com meu Si Fu no dia anterior. Falávamos sobre a organização de um evento, e ele chamou minha atenção para alguns erros. Relembrar essa experiência foi uma maneira de respeitar o momento que tivemos. Percebi que agi com respeito em relação ao senhor, não por ter desacelerado e dado passagem, mas por, de início, ter intencionado passar primeiro e, logo em seguida, ao voltar ao momento, optar por dar passagem.

No dia 31 de agosto, fui nomeado mestre. Dois dias antes, como mencionei, meu Si Fu me chamava a atenção por conta de erros. Acredito que a mestria não significa não cometer erros. Para mim, a mestria trata da habilidade de assumir a responsabilidade pelas ações e ter a dignidade de aparar as arestas e seguir trabalhando, sempre objetivando o melhor. Esta é, de maneira geral, a verdadeira postura de um mestre.
Ainda não penso em meus discípulos, pois não conheço seus rostos ou objetivos, e, portanto, não sei como apoiá-los. De toda sorte, mesmo que não existam, sigo me preparando. Para mim, a mestria não trata de concluir nada, apenas de um novo começo. E, como já inicio a jornada dessas pessoas que ainda não conheço à frente delas em experiência marcial, cabe a mim entender que o melhor jeito de fazer meu trabalho, tanto com meus futuros discípulos quanto com meu Si Fu, é através do respeito.