Entre o Profissional e o Amador: Uma Jornada nas Artes Marciais

Vôo para a Argentina

No senso comum, os termos “profissional” e “amador” carregam uma distinção clara em relação à qualificação e competência. O “profissional” é visto como alguém que possui treinamento formal, experiência comprovada e realiza sua atividade com eficiência, sendo remunerado por seu trabalho. Ele segue padrões e normas estabelecidos, sendo referência em sua área. Já o “amador” é frequentemente associado a alguém sem qualificação, um iniciante ou incapaz de executar a atividade com precisão. Essa visão coloca o amador como alguém que, embora tenha interesse na atividade, ainda não atingiu o nível de conhecimento ou habilidade necessário para ser reconhecido como competente.

Um fato é que o entendimento adequado da linguagem e seu uso ampliam os horizontes, permitindo a possibilidade de viver uma vida plena. Em outras palavras, refiro-me ao sentido de viver de acordo com seus próprios valores e crenças, considerando que existem opiniões e possibilidades diferentes — e, em casos extremos, opostas ao que se acredita. Ainda assim, não é necessário invalidar-se ou sentir-se inútil diante de uma sociedade superficial, que não busca o aprofundamento do próprio ser.

Penúltima Visita de Mestre Senior Julio Camacho ao Brasil

Há alguns anos, eu conversava com Si Fu a respeito do profissionalismo nas artes marciais. Ele comentava como foi o início de sua carreira e o nível de preparo geral à época. Disse que, por ser um cenário tão precário, nosso grande clã, liderado por Grão Mestre Leo Imamura, era visto de forma jocosa por alguns de seus pares, já que meu Si Gung havia introduzido uma camada de profissionalismo a essa carreira.

Ao falar de profissionalismo, refiro-me ao uso refinado de palavras, gestos e vestimentas. Mesmo com as dificuldades naturais de introduzir qualquer processo novo, uma cultura foi reinventada. Hoje, sabe-se que é perfeitamente possível — e até esperado, a meu ver — que as pessoas que trabalham com artes marciais tenham uma postura refinada em qualquer situação. Veja, é preciso entender que ser refinado diz respeito ao uso adequado e preciso das ferramentas de trabalho. Se, em nosso caso, é o punho, é claro que contundência é essencial, assim como a possibilidade de lesões graves, por exemplo. Mas a possibilidade não se relaciona com a regra, e contundência não está ligada à violência, muito pelo contrário.

E talvez justamente por ter feito parte do grupo que trabalhou na construção dessa cultura, meu Si Fu refinou-se a tal ponto que entendeu como o uso correto e o entendimento dos termos podem, de fato, elevar a prática das artes marciais. No desenvolvimento do Kung Fu, ele se descreve como um “profissional amador”.

É preciso considerar que, na origem da palavra “amador”, o entendimento correto é “aquele que ama”. Ou seja, alguém que desempenha sua função por amor, em contraste com o entendimento de “profissional”, que é “aquele que desempenha sua função a partir de competência técnica”.

Para mim, o trabalho que Si Fu exerce com seus discípulos está inserido no contexto profissional, mas, sobretudo, no amador.

Com meu irmão Kung Fu, mestre Thiago Silva

Há alguns dias, eu me perguntava por que deveria viajar para o exterior. Seria um investimento grande em diversos sentidos, e eu não tinha certeza se estava disposto e pronto para encarar essa experiência.

Os motivos eram claros: junto com meu irmão Kung Fu, Thiago Silva, eu deveria trazer com segurança os Jiu Paai, confeccionados com esmero por meu Si Suk, Leandro Godoy, e fazer uma palestra para o público argentino. Quanto à palestra, seu tom era puramente profissional.

Posso afirmar que trazer os Jiu Paai e palestrar em espanhol, apesar de não dominar o idioma, não foi nada difícil. Eu e Thiago desenvolvemos bons planos, alguns até improvisados na hora. Quanto à palestra, falei de maneira que penso ser espanhol e, pelo olhar das pessoas e pelo que compreendi de suas falas, fui bem-sucedido. Missão cumprida. Mesmo assim, já de volta, meu incômodo persiste: “O que fui fazer lá?”

Uma das palavras que mais me encantam na língua portuguesa é “vocação”. Com seu sentido de convocação ou chamado, ela também indica inclinação natural ou talento. Vale a pena entender que esse chamado nem sempre vem de fora, às vezes vem de dentro. A convocação é íntima e pessoal. Portanto, sempre que estou em dúvida, busco seguir “o chamado que vem do meu coração”. E assim, chego à resposta da minha pergunta:

O que fui fazer lá foi atender ao meu chamado, minha vocação, que não podia ser diferente, pois foi inspirada no Si Fu. Acredito que a maneira correta de viver é viver por amor. Desta forma, fica muito simples entender por que o público foi capaz de me compreender. Não se trata apenas do esforço em falar seu idioma, mas da humanidade envolvida.

Imprimi em cada palavra, gesto ou roupa que usei todo o amor que tenho pelo que escolhi fazer. Quando isso é feito, tenho certeza de que não passa despercebido e também não precisa ser traduzido. Esta linguagem é universal.

Com Mestre Senior Julio Camacho. Inspirações para a Vida

Há, contudo, a necessidade de um pequeno refinamento. Apesar de crer que o amor é uma linguagem universal, o profissionalismo não é. Seu tecnicismo exige o entendimento de todas as possibilidades que envolvem o trabalho. Em relação às técnicas do sistema, creio ter o suficiente para me considerar um profissional, mas, no sentido mais amplo do trabalho, ainda não.

Si Fu foi claro: ele disse para eu ir à Argentina, fazer um belo trabalho e — o que faltou — divulgar. Atualmente, a maneira como nos posicionamos na internet ajuda na construção e qualidade do profissionalismo. Tenho sérios problemas com postagens nas redes sociais, mas entendo que, para atender cada vez mais ao meu chamado, nesse sentido, preciso me tornar muito mais profissional.

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