
Historicamente, há confusões sobre termos e seus usos. Por exemplo, a palavra “aluno” é equivocadamente traduzida como “aquele que não tem luz”, quando, na verdade, deriva do verbo “alere”, que significa nutrir ou alimentar.
O mesmo ocorre com “professor”. Embora o termo se refira àquele responsável por inspirar e trocar conhecimento, muitas vezes é confundido com “profeta”, que significa “aquele que fala por outro” ou “porta-voz”.
Embora ambos professem, o professor se dedica à “profecia” do saber e à criação do conhecimento, enquanto o profeta age como porta-voz de uma mensagem divina, com uma autoridade que não se aplica ao professor. Por isso, é comum a confusão entre os dois papéis.
Essa confusão pode ser problemática quando o professor, devido a um entendimento equivocado, assume o papel de transmitir “verdades” absolutas.
O papel fundamental da experiência marcial é desenvolver o ser humano. Todos passamos pelas mãos de professores, e é essencial distinguir o papel de cada um e decidir a quem ouviremos. Devemos evitar ser influenciados por falsos profetas e entender o que é necessário para nosso desenvolvimento no momento apropriado.

Transmitir conhecimento, ou professar, é crucial para o amadurecimento, tanto no aspecto específico do conhecimento quanto no pessoal. Para se expressar legitimamente, é fundamental reconhecer que as verdades individuais não devem ser impostas como absolutas além de si mesmo. Cada um tem seu próprio caminho, e o compartilhamento desses caminhos é o que gera o verdadeiro aprendizado.
Por isso, em nossas aulas de fundamentação, o termo “instrutor” é preferido ao de “professor”. “Instrutor” tem um sentido mais específico e evita o entendimento equivocado do primeiro termo, protegendo tanto o aluno quanto o instrutor. O instrutor, no programa fundamental, tem um objetivo técnico, enquanto, no Sistema Tradicional, ele assume o papel de irmão mais velho, e o aluno, o de irmão mais novo, promovendo uma troca de conhecimentos e desenvolvimento mútuo, com um claro sentido de “professar”.

Aprendi sobre a etimologia das palavras com meu Si Fu, que é muito interessado no tema. A análise das palavras ajuda a entender o pensamento e a melhorar as interações. Suspeito que a atenção dele ao significado das palavras vai além do conteúdo, refletindo sua expressão marcial. Saber exatamente o que e como dizer é crucial para a prática marcial.
Revisitar experiências passadas e compreender o que se pode aprender delas é um exercício valioso de aprofundamento marcial. Escrever é uma forma de fazer isso.
Recentemente, um praticante mais novo fez uma sugestão que inicialmente recusei. Ao refletir sobre minha resposta, percebi que minha recusa se baseou mais em um desejo pessoal do que em uma avaliação justa da proposta. Esse episódio me lembrou da importância de evitar comportamentos hipócritas e manter a mente aberta para o aprendizado.
Faço minha parte voltando ao tema e refletindo sobre a responsabilidade de minhas ações, bem como sua precisão no sentido de estar de acordo com os aprendizados que tenho com Si Fu, como por exemplo, o estudo etimológico. Torço para que este irmão mais novo possa perceber o equívoco e, no melhor sentido da palavra “aluno”, se nutrir de saberes construtivos. Que, a partir disso, possamos nos desenvolver juntos, assim como desenvolvo com ele, inspirados por nosso Si Fu, o Kung Fu.