
A concentração é um elemento essencial em diversas práticas e disciplinas, desempenhando um papel crucial tanto no desenvolvimento pessoal quanto na eficácia de sistemas de treinamento. No Sistema Ving Tsun, a concentração pode parecer se manifestar de formas distintas, mas, se bem exploradas, é possível adquirir um entendimento mais profundo e holístico do sistema.
Em primeiro lugar, a concentração é entendida no seu sentido mais conhecido: a capacidade de foco mental. No Sistema Ving Tsun, esse foco é cultivado para aprimorar a atenção, a precisão e a eficácia dos movimentos. A prática regular das técnicas exige um estado de presença mental, onde o praticante deve concentrar-se intensamente no movimento, na respiração e na intenção.
Contudo, quando falamos da via por onde o Sistema Ving Tsun se manifesta, o corpo, apesar de ser possível separar para efeitos de estudo, o correto entendimento é de que ele se manifesta como uma coisa só. Portanto, a concentração no sentido de “trazer para o centro” desempenha um papel simbólico e prático no Ving Tsun. Este sistema enfatiza o uso da linha central do corpo, tanto como uma área a ser protegida quanto como uma via de ataque eficaz. Em última análise, a concentração se dá também no sentido de tornar ações distintas em uma só, aumentando eficácia e precisão. Portanto, o uso da linha central e a concentração permite o entendimento de que não há diferença entre se defender ou atacar; no fim, o importante é agir concentrado.

É por isso que explorar a guarda é um excelente estudo para aprender não só o sistema, mas também como usar o corpo de forma mais inteligente e unificada, fazendo com que os movimentos possuam potência e precisão sem a necessidade de treinamentos específicos. De fato, basta usar o corpo de forma inteligente.
Em um aspecto mais subjetivo, também é possível explorar o mesmo entendimento, já que concentrar, ou seja, trazer para o centro, significa, na prática, alinhar os aspectos divididos e tratá-los como um conjunto de coisas que apontam para a mesma direção, sendo estas coisas de mesma natureza ou não.
Por exemplo, lembro-me que, em um passado não distante, eu trazia para o Si Fu meu desconforto em relação à quantidade de coisas a serem feitas em nossa escola. Muitas vezes, nem havíamos terminado a demanda anterior, e já se manifestava uma nova.
Na época, em geral, Si Fu me respondia com uma pergunta. Ele dizia:
“O que você já fez?”
Minha resposta era que não havia iniciado nada, já que, antes mesmo de começar algo, já havia mais a se fazer. Então, ele respondia que eu deveria iniciar por alguma.
Hoje, noto que a dificuldade era minha capacidade de me concentrar na atividade. O cenário, meus contemporâneos, ou questões pessoais, tudo era componente e, a bem da verdade, uma desculpa para não fazer nada e justificar o estado das coisas que não mudavam.
A partir do momento em que trouxe para mim o desafio de simplesmente fazer e concluir as atividades, uma a uma, notei que elas possuíam pontos em comum. Se não em sua natureza, às vezes eram coisas diferentes mesmo, mas tinham o mesmo objetivo final, que era, por exemplo, o desenvolvimento marcial.
Neste momento, passei a me desafiar a executar tudo que era proposto, já que minha justificativa era evoluir como pessoa. Não me importava muito com o que os demais pensavam; apenas fazia o meu melhor.
Esse tipo de postura me trouxe a segurança de executar as tarefas de acordo com a minha capacidade e, portanto, me senti seguro para tentar mais. Aqui, segue o próximo desafio.

Há coisas que não sou capaz de fazer, seja por não ter tempo ou habilidade técnica. Então, surge a pergunta: por isso devo não fazer?
A resposta não é simples. Isto depende de uma série de aspectos pessoais, sobretudo os que regem a pessoa no momento. Para mim, cujo objetivo é me tornar uma pessoa mais eficaz e, portanto, desenvolver meu Kung Fu, a resposta é não.
O que acontece é que, não havendo tempo, é possível ajustar os horários e tentar necessitar de menos tempo para concluir a tarefa. Em caso de não ter a habilidade técnica, posso pedir ajuda e aprender com outros; assim, me torno um ser humano mais completo.
Até porque, muitas vezes, mesmo tendo a oportunidade de aprender, ainda posso não desenvolver bem o conteúdo. Neste caso, torno-me um líder. Ou seja, focado no objetivo final, conduzo aqueles que têm mais habilidade, gerando benefícios a todos. Para mim, este é o verdadeiro sentido de concentrar.