
No final da década de 1970, a banda britânica Pink Floyd apresentou ao mundo um de seus maiores sucessos, a música intitulada “Another Brick in the Wall”. Sua letra trata de como a banda entendia o processo de educação à época.
Tantos anos depois, embora existam avanços, pergunto-me: “O que de fato mudou?”
Basicamente, o principal trabalho da pedagogia é criar melhores modelos, refinar os obsoletos e corrigir o que já se entende como inútil. Isto tudo ocorre nas instituições de ensino. Portanto, apesar dos avanços, podemos entender que, em essência, nada mudou.
O problema é que a palavra ensinar, em sua raiz, traz a ideia de deixar uma marca. Então, mais importante que ajudar a desenvolver capacidades reflexivas ou críticas, é imprimir uma verdade pessoal nos estudantes, presumindo que isso os tornará bem-sucedidos e, portanto, felizes. Como essa marca pessoal é oriunda da cultura em que vivemos, onde o sucesso está frequentemente ligado ao dinheiro, o discurso é que os estudantes devem ter boas profissões, para isso, é fundamental prestar vestibulares ou concursos.
Dependendo da profissão escolhida, é possível ser bem-sucedido no sentido exposto, mas é difícil saber, ante essa máquina de moer gente, para onde realmente aponta nosso coração. Não só a escola, mas a cultura que a escola e seu método de ensino ajudam a reproduzir, influencia isso.
Se pensarmos bem, quem mais prospera são os donos de universidades e cursos preparatórios. Cursos de extensão e outras áreas do ensino também estão em alta; todos querem deixar sua marca, curiosamente, a mesma.
Então, como viver plenamente se temos uma perspectiva diferente?
É preciso DESenvolver. Nesse sentido, a prática marcial é crucial.

Há 17 anos, pratico o Sistema Marcial Ving Tsun. Tecnicamente, me sinto preparado para os desafios do dia a dia. Mesmo assim, esses desafios exigem o uso altamente refinado das técnicas. Não basta saber aplicar um soco; é preciso entender sua origem e destino, calcular sua intensidade e relevância. Muitas vezes, nota-se que é melhor nem mesmo golpear.
É por isso que não basta saber a técnica; entender seus fundamentos é crucial. Saber desdobrá-las em uma camada mais profunda é o retorno para a maior das inteligências. Em outras palavras, é necessário retirar as camadas impostas que não deveriam estar ali, como o sentido de vencer o oponente.
Isso se expande para a educação formal, onde também foram criadas camadas que dificultam o entendimento do que poderia ser feito naquele ambiente. Isso é facilmente identificado quando notamos que o principal método de avaliação é feito por notas individuais, o que inibe a troca de conhecimento.
Isso resulta na “criminalização” de práticas como a “cola”, que poderia ser um meio de cooperação. Em uma sociedade que valoriza a colaboração, colar poderia ser visto como uma troca de conhecimentos.
Colar, em uma sociedade que visa a cooperação e o crescimento de todos, deve ser bem visto. Nesse caso, a cola seria a troca de conhecimentos e informações, apoio mútuo. Um mecanismo de solução que considera mais de um instrumento capaz de resolver o problema. Afinal, “duas cabeças pensam melhor que uma”. Imagine isso aplicado a toda uma turma, colégio e, como utopia, em escala social.

Minhas reflexões vêm das experiências com meu Si Fu, que me mostrou que o verdadeiro aprendizado vai além da técnica, permitindo um entendimento mais profundo. O conceito de Vanguarda e Retaguarda ilustra essa ideia: mais importante do que saber algo é saber compartilhar e fazer o conhecimento circular.
Além disso, é mais importante aprender do que ensinar. Portanto, o foco sai da instituição e se volta para o principal interessado: o aluno. O que se faz é transmitir o conhecimento com base no oferecimento de cenários frutíferos para que o aluno seja capaz de compreender por si mesmo, em vez de repetir jargões e, portanto, não contribuir para o desenvolvimento da humanidade, que é, a meu ver, o que o ensino propõe.
Neste contexto, e baseado em minha experiência com Si Fu, a proposta é a transmissão, que visa o compartilhamento de um saber. Sobre este saber, o aprendiz faz o que for capaz de fazer. E, caso ele esteja bem aparelhado, ou seja, em condições de se experimentar e refletir criticamente sobre suas ações ou as do outro, certamente podemos aguardar bons resultados.