Conduta marcial e a arte da descompressão.

Yam Chá

Receber um convite para tomar alguma coisa pode estar relacionado a um momento de pausa. Nessas horas, o esperado é sair do ambiente em questão e desfrutar do descanso e de uma boa conversa com amigos. Às vezes, não é necessário que a pausa esteja relacionada com a bebida; basta sair do ambiente para se desconectar.

De fato, momentos de pausa contribuem para uma melhor absorção do aprendizado ou como um refresco para situações críticas. De toda forma, quando falamos em estratégia, percebemos que é mais útil descomprimir em vez de desconectar. Porque a desconexão aponta para o abandono, momentâneo ou não, do cenário anterior, enquanto, na verdade, e na maioria das vezes, a necessidade é de tempo para uma interpretação mais adequada. Desta forma, é possível entender melhor determinados aspectos da experiência marcial que, por vezes, são nebulosos e, por falta de tempo e descompressão, mal interpretados.

Por exemplo, Yam Cha (飲茶) literalmente significa tomar chá. Como é comum na China o consumo de chá, ele está presente em qualquer momento do dia, seja no café da manhã, almoço ou jantar. Além disso, o convite para Yam Cha não está necessariamente relacionado ao consumo do chá ou à necessidade de refeição; neste caso, como eu disse, pode ser apenas uma desculpa para a descompressão ou mesmo uma mudança estratégica de cenário.

Entenda que uma das formas de se reconhecer uma pessoa é investigando sua conduta diante de cenários diversos do dia a dia. Sobretudo em momentos e necessidades de sobrevivência, como é o caso da alimentação. É curioso perceber que a sociedade, de maneira geral, ocupou-se de criar mecanismos de observação de conduta através do que se chama etiqueta, que é, em definição simples, um conjunto de regras e normas de comportamento social consideradas apropriadas. Há, por exemplo, maneiras apropriadas para se comportar à mesa, que envolvem a ciência do uso de talheres, manejos e trejeitos, e assim por diante. Há também o que chamarei de conduta marcial à mesa. Por fim, para mim, cabe entender como ambas podem se complementar e assim podemos nos tornar seres humanos completos.

Sobre a origem da chamada conduta marcial, conto a seguinte lenda:

Para ser aceita no monastério, a criança era deixada à porta de entrada por seus pais. As razões podem variar, mas o que é aceito de forma geral é que os pais, ao fazerem isto, objetivavam garantir um futuro digno a seus filhos, uma vez que lá, no monastério, era garantido acesso a alimentação, trabalho e estudo. Então, a criança que conseguia passar alguns dias à porta, lidando com as intempéries do tempo e a fome, era enfim convidada a adentrar ao recinto. Lá chegando, deparar-se-ia com uma longa mesa onde era convidada a se sentar e aguardar. Imagino aqui o tamanho de sua surpresa ao perceber que na mesa estava disposta uma xícara e um biscoito um tanto duro, mas milagrosamente disponível. Então, considerando a fome e todo o cansaço, não é difícil supor que esta criança, de imediato, ignorava a presença da misteriosa xícara e também a recomendação de aguardo, e se servia daquele alimento que provavelmente era o único em tantos dias, dado o momento no qual se encontrava, tão pouco importava seu sabor ou condições. Bem, lamento informar, mas, tal qual o tempo de espera, o biscoito e a xícara também eram um teste.

Passados alguns momentos, reunia-se aos neófitos um monge que ali era o mais antigo. Este se sentava à mesa e então era servido o chá. A criança, embora com o estômago um pouco mais forrado, ainda faminta, de imediato estendia sua xícara e só então percebia ser esta sem fundo. Atônita, olhava para o monge mais antigo e compreendia a razão: ele recolhia seu próprio biscoito, postava embaixo da xícara para que fizesse as vezes de fundo e então tinha condições de sorver seu chá. Em seguida, com o biscoito amolecido por conta da bebida quente, poderia comê-lo. Assim, surge o costume que temos de sempre aguardar o mais antigo, considerando que este, através de seus exemplos, será capaz de instruir a melhor conduta.

Yan chá com Mestre Senior Julio Camacho, 2010.

Por isso, muitas vezes nossas práticas acontecem em restaurantes. Lá, desenvolvemos o arcabouço necessário para expandir a experiência marcial para qualquer cenário. O estudo da conduta marcial em restaurantes chineses é particularmente interessante, uma vez que precisamos aprender novas maneiras e entender como adaptar antigas.

Por exemplo, ao fazer uma análise sobre a disposição de mesas em restaurantes chineses, percebemos claramente três círculos. Do todo para a parte, notamos a mesa em si, que é redonda. Essa disposição propõe a integralidade do grupo, uma vez que favorece os membros da mesa a se olharem, já que não há quinas e pontas. Outra questão: para saber quem é o líder da mesa, é preciso estar particularmente atento, já que não existe em tal cenário uma posição central.

O segundo círculo diz respeito a comida que fica disposta em um outro circulo, pouco menor que a mesa, giratório. Então, ao se servir, é necessário considerar todos os participantes já se corre o risco de na tentetiva de trazer determinado prato para si, retirar do outro a oportunidade de se servir. Outro ponto a se observar é que, em geral, não há pratos individuais, o que indica que o pedido é sempre para a mesa, ou seja, para todos.

Por último, temos os pratos. Estes representam o círculo pessoal. Notem que este é o único círculo onde as condicionantes são pessoais. Não é por acaso que ele é o último dos círculos e também o menor; mesmo assim, também é importante e, portanto, representado. Simbolicamente, o registro primário é de que o mais importante é o maior, a mesa, por seu tamanho. Quero dizer, é maior pois comporta mais, muito mais que a necessidade individual, mas a necessidade coletiva.

Contudo, o último lugar no sentido da importância é perfeitamente mutável, já que este é, em sim, um indicativo de olhar, não uma ordem. Portanto, se para a pessoa, o mais importante seja o círculo pessoal, o prato, à rigor, não há problema. Ela é como a criança do conto, necessitada de cuidado e incapaz, ainda, de pensar para além de si. Neste caso, cabe ao mais antigo notar e cuidar. Portanto, não existe aqui uma relação de primasia, apenas, praticantes de de artes marciais fazendo seu melhor.

Yan chá com Mestre Senior Julio Camacho, 2024.

Nota-se, portanto, que a descompressão é uma dinâmica importante para o desenvolvimento marcial. Contudo, em alguns casos, é preciso tempo para que o praticante desenvolva essa consciência. Todo o conteúdo marcial que compartilho nesta página é de alguma forma oriundo do meu mestre, seja direta ou indiretamente. Abaixo segue um aprendizado direto que tive há alguns anos, e que até hoje reverbera a ponto, inclusive, de escrever este texto.


Há alguns anos, Grão Mestre Leo Imamura, que é o mestre do meu mestre, estava no Rio, em visita à família Moy Jo Lei Ou. Em uma pausa para o almoço, decidimos levá-lo a um restaurante chinês. Era, inclusive, a primeira vez que eu teria a oportunidade de comer em um. Ciente dos preceitos da experiência marcial, me achando incapaz de atendê-los, com fome e cansado, pensei ser mais prudente sentar afastado de Si Fu e Si Gung a fim de não envergonhar meu Si Fu diante do Si Fu dele e, quem sabe, simplesmente comer em paz. Naquele contexto, era óbvio que minha necessidade pessoal era maior que todo o contexto.
Como sempre digo, a todo momento, a Vida Kung Fu nos propõe uma atitude objetiva e discreta. Mas nem sempre estamos atentos a ela. A escolha do lugar foi curiosa. Minha estratégia era ver onde Si Gung iria sentar; Si Fu certamente sentaria próximo, assim, eu poderia escolher um local um pouco mais distante.
Acontece que, quando entrei no restaurante, estava próximo demais de Si Fu e Si Gung. Como eles rapidamente se sentaram, ficou uma cadeira vaga exatamente ao lado de Si Fu e na frente de Si Gung. Um pouco desconfortável, eu sentei; não havia outra coisa a se fazer.

Em seguida, a comida chegou e todos se serviram. Eu estava tão tenso que estava travado; me questiono se, inclusive, respirava. Com muita naturalidade, Si Fu serviu Si Gung e a si mesmo. Como eu ainda estava travado, ele me serviu. Achei o gesto dele estranho, mas me serviu de alerta: eu precisava me destravar e viver aquela experiência. Logo em seguida, servi chá para Si Fu. Ele ficou me olhando, mas eu não tinha entendido. Rapidamente, ele pegou o bule de chá e serviu Si Gung.


Pensei: Agora entendi.

Passado um tempo, servi chá a Si Gung e me voltei para meu prato. Si Fu me deu uma sutil joelhada. Mais uma vez, olhei sem entender. Outra vez, rapidamente, ele pega o bule e agora serve a si mesmo.
Pronto! Agora tinha de fato entendido. Eu precisava estar atento ao Si Gung e ao Si Fu. Deste momento em diante, não deixei de servir os dois. Estava até satisfeito comigo mesmo.

Passado outro momento, sinto um beliscão na coxa esquerda. Olho para Si Fu com cara de bobo; ele continua comendo. Noto que os dois estão bem servidos. O que será que houve? Talvez percebendo que eu não tinha entendido, ele pergunta:

“Gui, você não vai comer?” Só então notei que meu prato estava intocado. Simplesmente esqueci de mim; a fome tinha passado.

É evidente que eu poderia ter me escondido e não seria um grande problema, além do prejuízo à experiência, mas há tempo, sempre há. Mesmo assim, tive a sorte de ser incapaz, no sentido de estratégia, de fugir. Somente assim pude notar algo fundamental: servir é um ato de grande maturidade emocional e precisão. Portanto, se a experiência for bem conduzida, todos, o tempo todo, estão se servindo. Como meu Kung Fu à época era tão imaturo, Si Fu precisou redefinir protocolos para me ajudar a voltar à experiência. Desta vez, Si Fu deixou explícito o cuidado que tem para com seus discípulos.

À medida que estes vão amadurecendo, seu cuidado é cada vez mais sutil. Portanto, para balancear, devemos ampliar nossos cuidados com ele. Afinal, se nosso entendimento é que devemos apenas servir chá, entendemos algo sobre o desenvolvimento marcial, mas absolutamente nada sobre Kung Fu.

Então, é necessário entender que toda a vivência do cenário marcial é em si incompleta. É preciso expandir o cuidado a ponto de além de exímio praticante, tornar-se um ser humano completo.

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