
Entendo a unidade como uma reunião de várias partes que compõem um todo. A construção de uma unidade é essencial para criar sistemas eficientes e funcionais. Falando sobre o corpo, existem segmentos diversos que possuem especialidades bem definidas. Por exemplo, as pernas têm o papel de proporcionar sustentação e deslocamento. Já os braços têm a especialidade de interagir e manipular o ambiente. Devido à sua especialidade proposta, as pernas possuem mais força e capacidade de explosão, enquanto os braços têm destreza e amplitude de movimento.
Falei, portanto, da parte como o todo. Sobretudo em sentido marcial, ambos, braços e pernas, possuem o dever de proteger o corpo. Saber usá-los em conjunto pressupõe habilidade, que origina, a posteriori, a capacidade de uso em separado. Separados na forma, mas em conjunto em seu conteúdo.

No sistema Ving Tsun, na trilogia fundamental, período que compõe os três primeiros níveis do sistema, percebe-se uma construção bastante coerente com a proposta de criar uma estrutura forte e, aos poucos, variá-la. No Siu Nim Tau, primeiro nível do sistema, nota-se uma preocupação grande com a construção de padrões. Por exemplo, a linha central e o posicionamento frontal. Neste domínio, o praticante não faz deslocamento das pernas, percebendo, portanto, as nuances e necessidades para se manter de pé. Em seguida, no estudo do Cham Kiu, o praticante explora a linha central e o posicionamento frontal a partir do deslocamento da base. Por fim, nesta fase do sistema, temos o Biu Je, onde o praticante desenvolve a capacidade de, ao perder a linha central, retornar a ela de forma rápida e precisa.
Aos praticantes do sistema Ving Tsun, creio que as percepções compartilhadas acima não sejam novidades. Contudo, ainda seguindo a proposta de unir partes para construir o todo, e, em sequência, desconstruir o todo para perceber as partes, pergunto-me o quanto, nesse estudo, é considerada a movimentação da cabeça; por fim, e me parecendo menos percebido ainda, como seria o trabalho e o estudo do uso dos olhos. Quero dizer, perceber o trabalho de grandes segmentos como braços e pernas é simples, por conta de sua perturbação visual. Perceber os menores detalhes já requer uma atenção mais aguçada.
De todo jeito, antecipo já aqui uma proposta de estudo com os olhos. Basta seguir os mesmos princípios exigidos pelos domínios aos segmentos maiores. Ou seja, em Siu Nim Tau, os olhos estão estáticos e relaxados, fitando o horizonte e percebendo o máximo de nuances possíveis. Em seguida, no Cham Kiu, os olhos acompanham o movimento, portanto, se movem, e é exigida a necessidade de foco na parte. Já no Biu Je, como o que há de mais leve e rápido no corpo, eles são os primeiros a chegar e, portanto, dão a direção para onde o corpo irá se mover.

Portanto, da mesma forma como é possível trabalhar especificamente partes estratégicas do corpo, é possível transmutá-las e fazer com que assumam papéis diversos, de acordo com a necessidade e habilidade manual. Propus um estudo dos olhos inserindo-os no contexto marcial proposto pelo Sistema Ving Tsun. Em uma escala mais ampla, vale extrapolar a capacidade deles, me refiro ao estudo proposto antes, e dar a eles uma acuidade mais refinada e simbólica. Em outras palavras, ao se deslocar, primeiro vão os olhos, depois o restante do corpo. Em estratégia, antes de se expor a qualquer cenário, é crucial ver onde se está se inserindo; apenas a partir de então, deslocar-se sem medo. Estes olhos podem, em uma escala mais refinada, ser representados pelas mãos. Ou seja, com as mãos é possível “ver” onde está o oponente, portanto, não é necessário olhar para ele, apenas senti-lo.
Assim, extrapolamos a capacidade de olhar, passando pela habilidade de ver e chegando ao ponto último que é perceber. Em uma foto, por exemplo, é possível olhar uma série de imagens; isto não significa que elas serão vistas. Menos ainda, que todas as nuances daquela imagem serão percebidas. Por isso, seja pelos olhos, pernas ou mãos, o que mais vale é a capacidade de transmutar a experiência para qualquer cenário do dia a dia. Talvez assim, em caso de algum tipo de desconforto no cenário marcial, seja possível ver com outros olhos a mesma experiência para, a partir daí, perceber outras coisas impossibilitadas pelo eventual amargor do cenário marcial.