Técnicas para Esvaziar e se Desenvolver.

A cada dia, desenvolvo com meu Si Fu a capacidade de trabalhar a precisão em diversos níveis. Como praticante de artes marciais, meu estudo inicia pelo corpo. Se o processo for bem conduzido, é comum que essa mesma precisão, iniciada pelo estudo do corpo, passe a ser espelhada para outros aspectos da vida. Então, temos o Kung Fu, que é a capacidade de desenvolver aprendizado e excelência em qualquer aspecto do escopo humano.

Para entender o que vem a ser humanidade, gosto de adotar a definição do idioma chinês, que considera que, para uma pessoa ser considerada humana, ela precisa se relacionar com outra pessoa. Isso se justifica pela relação dos caracteres que definem humanidade: o caráter pessoa (人) mais o caráter dois (二). Notem que o que está implícito é a necessidade de relação entre duas pessoas, representada pelos caracteres dois e pessoa, e não simplesmente a existência de duas pessoas.

Uma maneira de se relacionar é através da linguagem e suas variações, sendo a escrita uma delas. Por isso, neste texto, relaciono o desenvolvimento do Kung Fu através da palavra preconceito.

Sobre o preconceito, segue uma breve explanação:

O preconceito é um julgamento ou opinião preconcebida sobre uma pessoa ou grupo, que geralmente é baseado em estereótipos, desinformação ou falta de conhecimento. Esse fenômeno pode se manifestar de várias formas, incluindo atitudes negativas, discriminação e tratamento injusto, e é frequentemente dirigido contra características como raça, gênero, orientação sexual, religião, classe social e outras identidades.

Sabe-se que esta definição é a mais atual da palavra. Fazendo uso da experiência marcial, ou seja, a busca da precisão através do corpo, fui atrás do significado mais profundo ou original, desenvolvendo, portanto, meu Kung Fu, e me deparei com a seguinte definição:

O termo “preconceito” vem do latim praeiudicium. Prae- significa “antes”. Iudicium significa “julgamento”. Portanto, praeiudicium significava literalmente “julgamento antecipado”. Esta era uma palavra usada nos meios jurídicos.

Concluí, portanto, que o grande mal do preconceito não é o resultado em si, como a discriminação, mas seu julgamento antecipatório.

Reunião de Pré evento da terceira imersão na Vida Kung Fu da família Moy Jo Lei Ou

Por exemplo, há um aforismo no Kung Fu que diz: “esvazie a xícara”. Esse aforismo é utilizado quando a pessoa se direciona ao Si Fu repleta de desejos e preconcepções, em outras palavras, preconceito. Este preconceito pode ser de ordem prática e técnica do sistema ao qual se estuda ou não. Então, quando o Si Fu diz “esvazie a xícara”, ele sugere ao praticante que permita que seu recipiente seja preenchido com saberes outros e mais importantes para o momento daquela pessoa.

É importante esclarecer que a passagem da xícara vazia indica que o mais importante para a xícara é seu esvaziamento, ou seja, beber do líquido que ali está disponível para absorção e, sobretudo, digestão. Só então a pessoa estará pronta para absorver o próximo conteúdo. Para mim, isto indica que toda ciência prévia deve antes estar bem consolidada e desenvolvida. Na prática, nem sempre isto é possível, daí a relevância do Si Fu.

Ontem, eu estava bastante empolgado com determinada situação. Como há tempo para sua realização, planejei uma série de propostas em minha cabeça e as expus ao Si Fu sem refinamento, apenas as minhas concepções prévias. Como a proposta considerava uma pequena parte de todo o processo, Si Fu comentou que preferia não opinar e que eu visse com meus irmãos de Kung Fu, que estão no mesmo processo, qual o melhor caminho a seguir. Claramente, o que me aconteceu foi o evento da xícara cheia ou, para os termos deste texto, preconceitos.

Com Mestre Senior Julio Camacho, Junho de 2024.

Acontece que, muitas vezes, as associações oriundas das experiências do Kung Fu advêm da capacidade do praticante, sobretudo à medida que vamos nos tornando mais maduros no processo. Ou seja, o aforismo citado, de fato, faz parte do cenário. Contudo, sua evidência não deve partir do Si Fu, cabendo ao discípulo fazer as interpretações condizentes e se refinar sempre.

Após a experiência com o Si Fu, pus-me a refletir sobre o porquê de sua resposta. Todo o texto trata da reflexão oriunda da experiência que pude fazer e agora compartilho. Ele não me falou sobre o aforismo de esvaziar a xícara, fui eu que associei. Fiz isso como um método de desenvolvimento marcial que aprendo com ele, que é a capacidade de trabalhar profundamente toda e qualquer questão, inserir a opinião alheia aos nossos processos particulares e entender como isso pode nos favorecer, e, sobretudo, tomar cuidado com as certezas. Estas são as principais causadoras de frustrações diante dos cenários da vida e muitas vezes nocivas ao todo que está em volta. Portanto, esvaziar a xícara é uma maneira útil, certamente não a única, de lidar com o preconceito

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