
A essência das artes marciais é contrariar o consenso. Esta é uma afirmação poderosa e requer um entendimento aprofundado para se ter acesso à sua essência. Contrariar é ir contra, em sentido oposto. Contudo, o sentido marcial propõe o contrário a partir da oposição da lógica, um novo caminho, em vez do embate. Por exemplo, no sentido de pensamento, em geral, a ordem comum é a partir de níveis onde o nível 1 é inferior ao 2, que é superior ao 1 e inferior ao 3, e assim vamos. Portanto, claramente é notada uma escala de superioridade. Nas artes marciais, a busca é entender os processos através de uma abordagem diferente, que eu chamo de pensamento lateral. Neste caso, a busca pelo saber acontece a partir do cenário onde estamos envolvidos.
Observe que a primeira abordagem, a mais socialmente conhecida, baseia-se no acúmulo de conhecimento, considerando apenas o indivíduo, sua capacidade cognitiva e o nível ao qual ele pertence. A segunda abordagem proposta pressupõe o uso da inteligência alheia, já que se desconsidera qualquer saber prévio para o fim de se aprender algo novo. Neste caso, usar outras inteligências é crucial para o bom andamento do processo.
Portanto, contrariar o consenso, no sentido marcial, diz respeito a mudar a lógica de pensamento dominante e aprender uma nova maneira de pensar, tornando-se assim mais inteligente, já que, neste caso, usar a inteligência alheia é fundamental. E não há mistério em entender as razões que justificam porque duas cabeças pensam melhor que uma.Portanto, ao falarmos de meditação, por exemplo, devemos entender que o estado meditativo exige do praticante sua capacidade máxima de presença, já que é imperativo que ele considere o tempo todo o ambiente ao redor e tenha, portanto, a capacidade de se atualizar constantemente. Por extensão, entende-se que a meditação deve ser considerada uma prática para além da capacidade interna ou pessoal, mas um instrumento de desenvolvimento da humanidade, humanidade esta que é definida pela conjunção de no mínimo duas pessoas.

Podemos inclusive, nos apoiando no contrário do consenso, redefinir a ideia de tensão. Tensão, nos termos marciais, diz respeito a ligeira intensão. Isto significa que existe uma intensão fraca e sutil. Está intenção podemos nomear de energia de preenchimento. É ela que permite o avanço do movimento sempre para frente, como sua intenção é fraca, é inviável avançar a todo custo, portanto, o avanço advém a partir do cenário que se está inserido.
A primeira vez que ouvir falar sobre a energia de preenchimento foi com meu Si Fu. Na época, ele usou o exemplo da água armazenada em uma sacola de plástica. Ele dizia que a água fazia uma pequena pressão, o que gerava a forma da sacola, uma forma arredondada. Como era uma intenção fraca, não havia risco de estouro da sacola. Mas, caso se fizesse um furo na sacola, imediatamente a água por ali escorreria, indicando a energia de penetração.
Ou seja, a intenção sempre existe no ambiente marcial, no caso do Ving Tsun, essa intenção é ocupar o meio, especificamente, o ponto de referência. Contudo, ela é propositalmente fraca, apenas o suficiente para permitir que escorra, sempre que houver a possibilidade. Aprofundando a reflexão, podemos entender a necessidade de conformidade. Ou seja, adaptar-se ao cenário pressupõe habilidade de altíssimo nível. Em última análise, adaptar jeitos e maneiras de se portar, vestir ou agir, para mim, é o verdadeiro entendimento do que é expressão marcial. Portanto, ser como a água.

Repare que tudo o que foi dito sobre a água, a própria água não sabe. Ela é pelo simples fato de ser, pela sua natureza. Ela não pensa em intenção fraca ou em se conformar; ela simplesmente é assim. Neste sentido, creio que o que mais se poderia aprender com a água é seguir sua própria natureza.
Daí a relevância das artes marciais, suas práticas como a meditação e outras, e sua proposta diferenciada sobre inteligência. Tudo o que se deve fazer é seguir o fluxo natural, não intervir ou atrapalhar. Ser pleno em sua própria natureza. Fazer uso da humanidade de maneira profunda e ativa, mesmo assim, de forma suave. E lembrar, sobretudo, que tudo o que sabemos, ou achamos que sabemos, foi imposto por alguém. Portanto, talvez não seja o caminho que gostaríamos de trilhar para nos sentirmos plenos.