
O entendimento sobre limites depende da condição pessoal, seja física, imaginativa ou de outra natureza. Em geral, sobretudo nas artes marciais, é comum percebermos o uso exagerado dos dispositivos estratégicos, ou seja, a transposição irresponsável dos limites. O problema é que esse tipo de postura pode gerar lesões graves e muitas vezes irreversíveis. Por isso, cabe considerar a seguinte definição de limite:
Limite pode significar a quantidade máxima ou mínima que algo pode alcançar.
Ou seja, caso exista algum tipo de restrição, é esperado que a pessoa considere essa restrição na execução dos movimentos. Por exemplo, quando há necessidade de agachar e, se por acaso houver alguma restrição muscular, o limite desse agachamento será a capacidade máxima do músculo das pernas. Por extensão, podemos trabalhar também os limites que definem, por exemplo, a zona de conforto. Veja, é absolutamente prazeroso e comum que, uma vez estando nesta condição, se deseje permanecer nela. Nestes casos, o que se sugere é a ampliação da zona de conforto; ou seja, em vez de ultrapassar os limites para se sentir mais desafiado, a estratégia é, aos poucos, aumentar a zona de conforto. Portanto, no exemplo sugerido, em vez de exigir do músculo a capacidade máxima de imediato, o importante é fazer com que, com o tempo adequado, este se torne mais elástico.
Portanto, o que vale é ampliar seus limites, até porque, por definição, limites não podem ser ultrapassados.

Uma estrutura interessante para definir o estudo de limites, seja físico ou de interpretação/imaginativo, é o Mo Gun (武館), “salão marcial” ou “salão de guerra”. Perceba que, ao traduzir, é indicado o entendimento de salão, ou seja, um espaço físico limitado. O que limita o espaço seriam suas paredes e seu uso. Então, vale a interpretação de que o espaço físico do Mo Gun é o local onde se desenvolverá a experiência marcial. Mesmo assim, não me surpreendi ao ouvir do Si Fu, em nossa última conversa, que nosso Mo Gun era um banco de uma praça onde estávamos reunidos. Neste caso, o que é necessário fazer é expandir a capacidade imaginativa. Um salão, ou seja, um espaço físico limitado, é uma desculpa para se trabalhar a marcialidade. Uma desculpa, não a única. Portanto, é mais adequado entender que qualquer local é um bom local para chamarmos de Mo Gun, desde que naquele ambiente estejamos com a intenção de nos desenvolver enquanto seres humanos.

Pessoalmente, gosto de traduzir o Mo Gun também como casa. Para mim, a minha casa é o local onde descanso e me preparo para os desafios do dia a dia. Sendo capaz de fazer do Mo Gun a minha casa, será possível expandir enormemente minha zona de conforto, uma vez que farei tudo o que é preciso para relaxar ou me recompor, mas sempre considerando a perspectiva marcial. Aliás, o Mo Gun é a casa de qualquer praticante de Ving Tsun. E cada um investe o tempo e a dedicação que julga necessária ou possível. Hoje, como sempre foi, mas em um contexto diferente, dedico o máximo de tempo possível para meu desenvolvimento pessoal em casa.