
Confúcio, nome latino de Kong Fuzi, foi um renomado filósofo, pensador e político chinês cuja influência persiste até os dias de hoje. Confúcio acreditava que a sociedade se organizaria de maneira harmoniosa se as pessoas cumprissem seus papéis e responsabilidades com dedicação e moralidade. Ele propôs que cada indivíduo tivesse uma missão específica, baseada em suas capacidades e posições sociais. Ao inserir atividades e atribuir missões adequadas a cada pessoa, Confúcio acreditava que a ordem e a justiça prevaleceriam, promovendo um ambiente de respeito e prosperidade. A ênfase no autocultivo, na educação e no cumprimento dos deveres era vista como essencial para o desenvolvimento de uma sociedade estável e bem-ordenada. Além de suas contribuições filosóficas, Confúcio também deu importância à estrutura familiar e ao respeito pelos antepassados.
Todos esses preceitos também foram responsáveis pela formatação das bases para a prática das artes marciais, sobretudo, quando tratamos da contribuição do pensador ao que diz respeito a família Kung Fu. Portanto, há nestas famílias, de modo geral, uma definição muito clara de posições a qual cada membro deva ocupar. Como diz Confúcio, isso facilita a organização e a estabilidade daquela sociedade.
Outra discussão relevante para o propósito do texto trata do entendimento de como foi fundada as bases da hierarquia. Por exemplo, nas religiões, pode-se entender que aquelas figuras ou criaturas mais próximas da divindade específica de determinada crença possuem maior asernal de poderio mágico e autoridade espiritual. Portanto, toda autoridade advém da proximidade com Deus.

Imagino que a sociedade contemporânea, sobretudo a ocidental, tenha se baseado nestes princípios para se organizar e constituir-se como tal. Aqui também me refiro ao Mo Lan, ou seja, as famílias Kung Fu. Contudo, é importante um olhar cauteloso sobre a perpetuação destes saberes uma vez que há o risco real de em se repetindo a forma, perder-se a essência.
Um Si Fu, é o líder máximo de qualquer família Kung Fu. Portanto, toda a formatação fica a critério dele e de suas crenças, respeitando, claro, o que for essencial ao sistema. No caso da minha família, Si Fu costuma compartilhar as decisões com seus discípulos fazendo com que o direcionamento da família fique a critério deste grupo. Então, neste contexto, faz sentido entender que quanto mais próximo ao líder, maior poder, pessoalmente, prefiro o termo: responsabilidade de decisão, haverá. Mesmo assim, é importante compreender que não há nada de divino nesta articulação social.
Na família Moy Jo Lei Ou nós temos três programas para acesso ao sistema Ving Tsun e, portanto, ato sequente, ao Kung Fu. São eles: Fundamental, Experiencial e Tradicional. Dos três, o programa que mais gera acesso ao Si Fu é o último, o tradicional, justamente o que é reservado aos membros vitalícios, ou seja, discípulos. Além disso, Si Fu assume papéis diferentes de acordo com o grau relacional envolvido. Quero dizer, ele pode ser Si Fu(師傅) que significa “mestre” ou “professor”, denotando alguém com habilidades técnicas ou artísticas avançadas que ensina outros. Este termo pode ser usado em uma variedade de contextos, incluindo artes marciais, culinária, caligrafia, etc. Ou Si Fu(師父) que Significa “pai mestre” e tem uma conotação mais pessoal, muitas vezes usada em um relacionamento mestre-aprendiz que é familiar.
Portanto, é inviável relacionar o papel de um Si Fu e seus discípulos à divindades uma vez que os discípulos estão mais próximos por questões circunstâncias muitas vezes e Si Fu tem papéis distintos. Algo absolutamente impensável no caso de divindades afinal Deus sempre será o mesmo Deus e em qualquer circunstância.

Com relação a uma especificidade a teoria de Confucio, a família Kung Fu usa a regra de definição de posições claras. Uma delas, é a relação Si Hing – Daai(師兄弟). Que compõe a relação “Si Hing” (師兄) que significa irmão mais velho,”Si Daai” (師弟) significa irmão mais novo. Basicamente, essa divisão é definida pela ordem de ingresso na família Kung Fu.
Curiosamente, o ideograma Si(師), de irmão mais velho ou mais novo significa a mesma coisa, ensinar e aprender. Essa definição é particularmente importante se considerarmos que toda pessoa, independente de idade, círculo social ou condição de vida em qualquer sentido, possui em si uma grande bagagem de aprendizados. Portanto, sendo mais velho em vida antes ou enquanto praticante do Kung Fu, sempre haverá o que ensinar. E o que para mim é o mais importante, independente de ter muita ou experiência nenhuma, sempre haverá o que aprender. Portanto, vejo que o que rege em definitivo a relação entre os pares é a humildade, companheirismo e camaradagem nos desafios do dia a dia. Portanto, embora tenhamos posições claras, elas não são fixas. Aliás, imagino que justifique o termo que ouvi há muitos anos do Si Fu que era, se bem entendi, “Si Hing circunstancial.”

Suponho que a proposta de Confucio sobre a definição de posições seja bem mais profunda do que normalmente se tenha acesso. Por isso, meu entendimento é que definir posição não significa congelar pessoas. Ou seja, uma pessoa mais antiga é definida como tal pela circunstância do momento. Quero dizer, sobre o cenário que esta sendo visto, se está pessoa não tem experiência é melhor que outra pessoa, ainda que mais nova, tome as rédeas da situação, desde que já esteja familiarizada com o momento.
Em meu caso, sempre tive uma relação próxima com Si Fu. Ficamos juntos no Mo Gun em diversos momento, já passei dias na casa dele trabalhando meu Kung Fu em outras tantas oportunidades. Mesmo assim, há pessoas, bem mais jovens que eu que já visitarem ele nos EUA. Portanto, quando eu for, e se algumas dessas pessoas estiver presente, é óbvio que ela assumirá a frente. Esse eu for esperto vou conseguir aprender com ela para então, entendendo o fluxo, eu poder assumir o que for preciso, não por necessidade de marcar posição, mas por condição real. Para mim, este é um bom exemplo sobre o que é a figura do Si Hing circunstancial, em outras palavras, a essência das relações nas artes marciais.