
Kung Fu é um termo abrangente, frequentemente explicado pela tradução de seus ideogramas. De fato, entender seu significado através de traduções da escrita é uma maneira útil e comum de apreciá-lo. Mesmo assim, pretendo me valer de alguns de seus dispositivos práticos, por entender que a experiência do dia a dia é mais descritiva e melhor associada à vida de seus praticantes.
O termo “Kung Fu” (功夫) é frequentemente associado às artes marciais chinesas, mas seu significado vai além disso. Literalmente, “Kung Fu” significa “trabalho duro” ou “esforço habilidoso” e pode se referir a qualquer disciplina ou habilidade desenvolvida através de prática intensa e dedicação ao longo do tempo. Aprofundando um pouco mais seu entendimento teórico, afirmo que a prática regular e disciplinada do Kung Fu possibilita ao praticante a capacidade de executar qualquer ação de forma estratégica. A necessidade e a execução do trabalho árduo são pré-requisitos para que a ação final seja a execução de qualquer tarefa, valendo-se da sabedoria — ou seja, de um esforço que culmina no resultado de não se fazer força, mas simplesmente permitir que o resultado aconteça por si.
No contexto das artes marciais, Kung Fu engloba uma variedade de estilos e técnicas que combinam disciplina mental e princípios filosóficos. Os praticantes de Kung Fu treinam para desenvolver força, flexibilidade, velocidade e resistência, além de cultivar a concentração, a paciência e o equilíbrio emocional. Vale lembrar que o Kung Fu pode ser inserido em qualquer contexto, não apenas nas artes marciais. Por isso, é possível e absolutamente correto afirmar que tudo é Kung Fu, ou que, em qualquer ação, podemos ter mais ou menos Kung Fu. Para mim, o que definiria essa proficiência como maior ou menor reside na capacidade de associar as habilidades do Kung Fu em uma coisa só. Ou seja, o praticante não possui apenas habilidade em Kung Fu; em alto nível, há ou não Kung Fu. Portanto, a força, a velocidade, a concentração e outros requisitos não são buscas isoladas de habilidades, mas sim, mecanismos prévios componentes de algo muito maior, quase que por sua capacidade atômica, no sentido literal.
Para finalizar a introdução, esclareço que as associações comuns a animais, quando se fala de técnica, consideram também o ser humano como um de seus representantes. Neste caso, falamos especificamente do sistema Ving Tsun.

O monastério Siu Lan, Shao Lin em mandarim, originou e abrigou diversos estilos marciais de Kung Fu. Dentre eles, o que mais tarde seria conhecido como Ving Yim Tsun Kuen, ou Ving Tsun, estilo composto por seis domínios e três fases distintas: Estruturada, Semi Estruturada e Não estruturada. A primeira etapa permite que o praticante tenha acesso a técnicas específicas do sistema que potencializam o entendimento e estudo do próprio corpo. Ato sequente, dispensa as técnicas e deixa a encargo do praticante seu próprio modo de agir, fases semi e não estruturadas. Por ser o último instrumento, ou estilo, de estudo nas câmaras do monastério, este era reservado a pessoas mais experientes e também de grau mais elevado dentro da instituição. Por mais experientes, refiro-me também a pessoas mais velhas; portanto, é razoável supor que este estilo dispensa movimentos que exigem alto vigor físico, valendo-se apenas de movimentos naturais ao homem e suas capacidades. Assim, criam-se mecanismos teóricos, uma vez que se valem da capacidade humana, mas que, sobretudo, devem ser inseridos na prática. Portanto, em última análise, é importante entender que toda reflexão necessita de sua execução em ação.
Por exemplo, respirar, em seu amplo sentido, é uma necessidade de qualquer ser vivo. Desta forma, no caso do ser humano, foi possível desenvolver uma técnica onde esta necessidade básica fosse transformada em instrumento de estudo. Temos, portanto, a habilidade intitulada Chi Kung (气功), que consiste em artificializar a respiração para que se perceba melhor a entrada e saída do ar e seu resultado no corpo. Como eu disse, esta é uma necessidade básica, e como instrumento é utilizada no sentido de entender e utilizar melhor o corpo. Portanto, é ilusório supor que é possível controlar a respiração completamente. Em vez disso, a orientação é que, por meio da percepção, o praticante entenda como ele é ou não afetado por experiências externas ou inesperadas. Neste sentido, apenas lembrar-se de respirar e, em um nível posterior, ser capaz de adequar a respiração ao cenário que se vive pode trazer um conforto maior e clareza na tomada de decisão. Entenda que a respiração, por ser uma necessidade básica, independe da vontade; aliás, é assim que se morre afogado. Portanto, resumindo, considero que o trabalho de Chi Kung consista apenas em se manter atento à necessidade específica do momento. Aliás, a todo momento, é sobre isso que trata o Kung Fu.

Disse no início do texto que uma forma eficaz de desenvolver o Kung Fu é através de sistemas marciais, mas há outras maneiras. Minha escolha pela via marcial diz respeito à principal maneira difundida do estudo, por filmes e livros, por exemplo, e também associada a um pouco de sorte. Não sabia antes de iniciar minha própria prática, mas há uma característica muito mais esclarecedora do porquê o Kung Fu ser mais conhecido pelas vias marciais.
Acontece que, no sentido de necessidade de se despir de qualquer tipo de máscara ou caricatura pessoal, a expressão marcial é a que mais rapidamente permite que o indivíduo tenha acesso à sua essência. Como esta essência muitas vezes não é agradável de se perceber, já que o praticante muitas vezes se percebe medroso, mesquinho e com outras características ditas negativas, a marcialidade propõe de forma imediata que o contato com estas características desagradáveis seja o que faz com que a pessoa se torne alguém melhor. Veja, se eu sou medroso, por exemplo, não é a máscara social que me fará deixar de ser assim, ou qualquer tipo de profissão. Estas possibilidades apenas mascaram o ser. Neste caso, o medo sempre estará presente, ainda que muito bem escondido. Portanto, admitir-se medroso é o que fará com que o praticante possa ter contato com as questões que assim o traduzem, permitindo que o mesmo possa trabalhá-las de forma a melhor lidar com elas. E isto acontece de forma muito simples:
Apesar de simbólica, há a experiência de morte no contexto das artes marciais; o fato de ser simbólica não faz diferença ao cérebro. Portanto, um soco sempre vai representar um risco real à vida, então, sua ação diante disto estará de acordo com esta necessidade, a de defender a vida. Considerando que a vida é o bem mais precioso que se possui, aí reside a relevância da expressão marcial na prática do viver pleno.

Por fim, concluo reforçando o que foi dito no início. É imperativo entender que Kung Fu é o mais alto grau de desenvolvimento humano que eu conheço. O que justifica esta afirmativa é entender que só faz sentido se ele for pleno. Portanto, é reducionista entender que Kung Fu se traduz apenas pela habilidade de lutar, respirar melhor, desenvolver o corpo a seu potencial máximo, ou a uma arte marcial. Tudo é Kung Fu. E outra vez me valho do sistema Ving Tsun para exemplificar esta necessidade:
Quando iniciei minha prática, Si Fu explicou que a primeira sequência de movimentos iria me apresentar tudo o que era preciso para que eu me desenvolvesse no sistema. Não ficou claro na época, mas avançando pude notar, em termos práticos, como todo o sistema se conecta para permitir que a semente de tudo que seria aprendido fosse plantada no primeiro dia. Ou seja, dos seis domínios, no primeiro, já se pode desenvolver todo o restante.
É claro que para se atingir essa percepção é necessário galgar todos os degraus do sistema de forma a apreciar as sementes que foram plantadas já no início por diversos ângulos. É justamente por isso que fica evidente que o sistema tem seu Kung Fu, ou seja, de fato é necessário aprender o sistema completo para que se extraia o potencial máximo do instrumento. Mas, entende-se também que suas divisões podem ser consideradas didáticas para o fim de uma melhor apreciação de toda a sua estrutura. Mesmo assim, é necessário expandir o olhar de forma a apreciar esta mesma lógica fora do sistema. Por exemplo, quando cozinho, nitidamente percebo nuances do sistema que podem ser utilizadas no preparo da comida. Não vejo razão para valer-me de socos e chutes neste cenário, mesmo assim, lá reside a essência da arte; por isso, quando executo gestos marciais ou faço qualquer outra coisa, se consigo conectar tudo o que tenho para realizar a tarefa da forma mais íntima e estratégica possível, eu trabalho o meu Kung Fu.