
Yin- Yang trata de entendimentos contrários. Mais profundamente, percebe-se que o fim de determinado intervalo é o início imediato de seu oposto, dando o sentido de movimento, não por acaso, cíclico. Contudo, mesmo em seu fim, há de se existir um tanto do que já se passou e virá, isto justifica o círculo branco na configuração escura e o círculo claro na configuração preta.
A imagem comum do Yin-Yang está incompleta. Originalmente, a parte escura, representando o invisível, deveria ser maior que a clara, que representa o visível. Isso reflete a realidade: há mais coisas invisíveis do que visíveis.
Considerando a visão humana como um ângulo de 180 graus, os outros 180 graus são imperceptíveis. Além disso, obstáculos como prédios e carros limitam ainda mais a visão. Portanto, o visível é sempre menor que o invisível.
Esse conceito também se aplica à prefiguração e configuração. Antes de algo se manifestar (configuração), ele está em um estado latente (prefiguração). Pequenos sinais no estado latente, chamados de tendências, podem indicar o que está por vir.
Esses mecanismos não devem ser vistos de forma reducionista ou dicotômica, dada a infinidade de possibilidades latentes e soluções inesperadas. O observador, por mais perspicaz que seja, nunca conseguirá mapear todos os cenários possíveis. Em situações extremas, isso pode significar a diferença entre a vida e a morte. Abaixo, trago uma experiência vivida há alguns dias que suponho ser capaz de traduzir na prática o que foi dito.

Um dos meus passeios favoritos na Barra da Tijuca é correr do Mo Gun ao Quebra Mar, no posto 01 da praia da Barra. Nas últimas semanas, venho fazendo isso todo domingo. No último domingo, estava retornando para casa e optei por caminhar por um trecho da calçada mais escuro.
Em dado momento, notei quatro jovens vindo na direção oposta, se aproximando cada vez mais. Para mim, este é um claro momento de prefiguração. Não sabia exatamente o que queriam, mas o ambiente estava escuro, eram quatro jovens eu estava sozinho e todos vinham na minha direção. Considerei desviar a rota, mas não haveria tempo; a tendência era que me alcançassem antes de conseguir.
Decidi seguir em frente. Notei que dois estavam mais à minha esquerda e os outros dois à direita, aparentando a intenção de me cercar. Quando julguei o momento adequado, acelerei o passo e me direcionei totalmente para a direita, fazendo com que os quatro ficassem à minha esquerda. Um deles me ofereceu um doce que estava em uma caixa na sua mão. Disse que não estava interessado e continuei meu passo acelerado, mas sem correr.
Ele ainda tentou argumentar, mas repeti que não queria e segui caminho sem parar, mantendo-me de frente para todos. Continuei minha caminhada e mais nada aconteceu.

Eu consideraria que aquela poderia ser uma situação de assalto. A prefiguração indicava esse desfecho, mas não se configurou. Isso ocorreu porque, percebendo a tendência, atuei nas variáveis de forma sutil e conectada com a necessidade, sem desesperos ou certezas prévias. Atuei precisamente. Note também que a experiência marcial está implícita. Não desferi nenhum golpe, mas, a todo momento, minha atitude foi marcial.
Já em casa, pus-me a refletir sobre quando teria aprendido a habilidade de lutar sem lutar. Lembrei imediatamente de diversas vivências com meu Si Fu, onde socos e chutes simplesmente não existiam, mas era exigida uma postura marcial. Poderia ser em uma reunião, oferecendo algo a ele ou assistindo a um filme. De verdade, absolutamente tudo é Kung Fu.
Ainda refletindo, lembrei que um conceito bastante presente no Yin-Yang é que tudo o que se configura também se torna prefiguração do próximo momento. Tive habilidade para lidar com a situação porque tenho um Si Fu, então, a situação se configurou em apenas uma recusa do que foi oferecido. Nem todos têm a mesma sorte. Por isso, creio ser meu papel como cidadão ter alertado a polícia do possível problema. Nesse caso, falhei terrivelmente. Aliás, o que eu estava fazendo sozinho em uma rua escura no domingo à noite?