
O Sistema Ving Tsun possui cerca de trezentos anos. Trezentos anos a partir de seu estabelecimento como tal, por nossa ancestral Yim Ving Tsun. Portanto, há mais histórias anteriores a seu marco de fundação.A partir do estabelecimento inicial, o sistema foi consolidado. Então, sua transmissão passou a ser viável para além das paredes do monastério Siu Lam e, posteriormente, para o mundo.
O marco de um início é um acervo, uma vez que deu nome à arte e criou uma estrutura coesa. O acervo, nesse contexto, refere-se a um conjunto de conhecimentos, práticas, documentos e tradições acumulados ao longo do tempo. O estabelecimento de materiais indicativos, como nomes, estruturas ou documentos, são maneiras de manter vivo e transmissível qualquer saber.

O Patriarca Moy Yat foi um dos responsáveis por tornar o sistema Ving Tsun conhecido para além da China. Sua principal contribuição foi no sentido de transmissão, quando, por exemplo, adaptou o sistema para melhor apreciação no chamado mundo ocidental. Ele dizia que a maneira correta de transmitir o sistema era de forma pura e integral. Entendo que a maneira pura à qual se refere é a preocupação de transmitir o que o sistema propõe e não suas interpretações pessoais. Quanto ao integral, é preciso que seja completo e restrito ao seu fim. Creio que essa forma de abordagem ele tenha aprendido com seu próprio Si Fu, Patriarca Ip Man.
Meu Si Fu, Mestre Sênior Julio Camacho, através dos aprendizados com seu Si Fu, Grão Mestre Léo Imamura, discípulo direto do Patriarca Moy Yat, fez chegar a nós a importância dessa abordagem. Além disso, valendo-se das perspectivas e possibilidades de qualquer acervo, Si Fu criou sua própria maneira de dar continuidade e perpetuar o sistema, criando programas que fortalecem e protegem os que já existiam. Para mim, essa é a origem do Instituto Julio Camacho.

Portanto, o Sistema Ving Tsun, que foi fundado na China há três séculos, passou por diversos processos de construção, correções e refinamentos. Como há tempos ele não é transmitido apenas na China e necessitou de diversos ajustes para se atualizar à época e à cultura em que foi inserido, pode-se entender que o sistema Ving Tsun, e também o Kung Fu, são patrimônios da humanidade. Sendo assim, cabe a todos os seus transmissores o olhar cuidadoso ao passado, no sentido de manter o que é original do acervo, a transmissão atualizada, com o objetivo de tornar o entendimento e apreciação viáveis aos contemporâneos, e a sensibilidade para perceber as variações ainda sutis e invisíveis que vão sugerir como serão as necessidades futuras.

Em minha família, Si Fu prefere trabalhar com seus discípulos. A meu ver, este é um aspecto fundamental no sentido da estratégia da abordagem do sistema e preparo das próximas lideranças. Veja, ao deixar o trabalho daqueles que não são discípulos a encargo de seus membros vitalícios seniores, Si Fu gera a eles a oportunidade de se responsabilizar por sua própria comunidade e criar uma base que, no futuro, irá gerar novos discípulos. Estes, por sua vez, já estarão habituados a trabalhar com pessoas tão distintas entre si que entenderão que não existe uma verdade absoluta, apenas leituras pessoais. Portanto, o mais novo também deve se inspirar e desenvolver sua própria abordagem do sistema, que mais tarde será lapidada por Si Fu e, então, tornar-se-á Kung Fu. Isso, por sua vez, torna aquele praticante absolutamente capaz de continuar o trabalho para as próximas gerações, tendo ele esse objetivo ou não.
De minha parte, enquanto legatário do sistema, e por isso alguém que passa por todo este processo de aprendizado, assumo o compromisso com minha ancestralidade de perpetuar o sistema, respeitando a corrente originária e por onde há de vir minha linhagem.