
Ao pensar na possibilidade humana, percebemos uma série de mecanismos criados pela espécie que viabilizam sua sobrevivência. Analisando com cuidado, é fácil notar o quão grandiosos, são estes mecanismos, luz elétrica, carros, foguetes, etc. Por consequência, também temos a suposição de que a espécie humana está acima de qualquer revés de suas ações. Afinal, chegando a tal ponto de poder, não é difícil supor ser capaz de fazer qualquer coisa. Contudo, como salienta Rabelais, querer é poder apenas quando é permitido. Portanto, é necessário a observação do que é preciso. Apenas assim é possível viver uma vida equilibrada. Aqui, lembro também de determinado rei do livro ” o pequeno príncipe” que se dizia capaz de tudo. Quando o pequeno príncipe pede para que ele faça desaparecer o sol o rei diz ser capaz, mas é preciso esperar a hora certa. Para mim, o que estes dois pensadores, François Rabelais e Saint-Exupéry dizem é que para que a vontade seja contemplada, ela precisa navegar pelo sopro da oportunidade, apenas assim, é preciso operar ‘milagres’.

A experiência marcial, eventualmente e de forma ilusória, faz achar que no poder reside a vitória. Para isso, pressupõe a busca de mais, seja através de exercícios físicos rigorosos, ou qualquer outro mecanismo que leve o corpo ao extremo, assim, apenas pela capacidade de fazê-lo, entende-se poderoso. É preciso cautela nesta análise, basta notar que nem sempre o máximo atingido pelo corpo é o suficiente para o objetivo fim e por mais que se treine há sempre um limite. Nestes casos, perdeu-se tempo e se gerou machucados. Alguns tão profundos que dificilmente irão se recuperar.
Então, a saída são as vias estratégicas. Por exemplo, ao praticar com Si Fu, percebo que simplesmente sua mão flui. Eventualmente, até vejo o uso de uma técnica, mas o ponto é que o movimento dele não está refém dela, ele simplesmente se aproveita das minhas aberturas. Eu ofereço a ele a vitória. Seu papel é garantir a não derrota, ou seja, evitar de me oferecer oportunidades, e de bom grado, receber o que ofertei, não há razão alguma para forçar, esta dado é preciso apenas aproveitar.

E se refletirmos de maneira aprofundada sobre o que é vitória, percebemos que esta reside na atitude diante de uma ação, em vez do aparente resultado. Por exemplo, mesmo que o Si Fu se aproveite da vitória ofertada, com Kung Fu, eu percebo que não perdi. Quero dizer, através do bom aproveitar das oportunidades ele conseguiria me golpear. Se me aproveito também, percebo as brechas em minha guarda ou eventual falta de atenção ou o que seja que fez com que eu me desestabilizasse. Portanto, em vez de me sentir derrotado, posso me ver vitorioso pelo aprendizado.
Aliás, tive uma experiência bastante marcante neste sentido. Ano passado, outra vez, eu não consegui o visto americano. Fiquei bastante desanimado e entendi, que a próxima visita a casa do Si Fu agora em maio e todos os seus eventos não seriam possíveis para mim. Contudo, mesmo desanimado, desafiei-me a associar a negativa à experiência de quando Si Fu me golpeia se aproveitando das brechas que dou. Acontece que é muito mais fácil para mim extrair aprendizado quando Si Fu me golpeia que em qualquer outro cenário. Claro, Si Fu quer me ajudar, ao contrário do Consul americano por exemplo.
De qualquer forma, cabe a mim decidir qual postura ter diante deste cenário. Em vez de apenas me deprimir, faço questão de estar junto dos meus irmãos da forma como posso. De fato, ainda não posso ir, mas posso, apenas por me manter disponível, galgar os mesmos degraus dos demais, mesmo que no Brasil. Quanto ao visto, é questão de tempo, é certo que em algum momento terei conseguido. Então, tenho certeza que minha visita aos EUA será muito mais proveitosa. E a exemplo da experiência com Si Fu, neste caso também posso perceber as possíveis brechas que deixei e que me inviabilizaram a conquista do visto.
Então, é importante entender que negativas não são sinônimos de desistência, é preciso resiliência e vontade. Vontade esta que vai para além do poder, pois eu desejo, e posso. Sendo assim, certamente quando houver o dever, a possibilidade lá estará.