Ensaio sobre a resiliência: seus ser ou não ser.

Por do sol em Luanda, Angola. 2018

Entendo como característica pessoal a habilidade de investir intensamente, insistir, até o ponto de se ter o que precisa. Neste aspecto, não desistir é cláusula pétrea da ação com seu oposto punível com a inquietante sensação de fracasso e perda de rumo; Eis, portanto, o que chamo de resiliência. Esta habilidade, possibilitou-me iniciar a prática do Kung Fu ao qual me dedico até hoje, minha primeira viagem internacional, e algum tempo depois, meu início formal como instrutor de artes marciais, por exemplo.

Há um outro lado; para todas as situações que se encaminham para o desgaste é necessário haver um ponto de ruptura, seja este da situação, ou do caminho a ser percorrido. É certo que esta atitude traz à vida uma camada de leveza que há muito almejo, mas pareço incapaz de atingir, o que segue, é que este “ponto” sempre é confuso para mim. De toda forma, o que sei é que tudo que chamei de resiliência ao longo da vida foi posto em cheque há alguns dias, então, sobre este aspecto, estou certo de uma coisa: sobre resiliência, não entendo absolutamente nada.

“Seung Chi Sau” com Mestre Senior Julio Camacho

Nunca foi fácil, viver não é. A série de atravessamentos ao qual estamos todos submetidos faz com que a vontade seja testada. Até onde, munido apenas do desejo, somos capazes de ir?

Penso que não muito longe. Não há desejo que condicione qualquer processo, a rigor, trabalhar no invisível, preparar o cenário, e esperar, são as atitudes daqueles que atingem algum sucesso. Por tanto, se por definição já se sabe que a vida não é fácil, é necessário coragem e perícia para transformá-la. Este processo se chama Kung Fu.

Eu falava sobre uma grande decepção vivida, era um sonho preparado com carinho, mesmo assim, diante do resultado, questiono-me se houve algum nível de profissionalismo, embora não tenha dúvidas sobre seu caráter amador. O fato, é que derrotado em determinada intenção, vi-me envolvido em melancolia, e em lágrimas insistentes que não vieram a cair, apenas sufocaram meu grito de revolta.

Sim, foi um sufoco. Não demonstraria a quem não fosse interessar a dor lancinante que corrói todo um ser, além de desmoronar um sonho implantado há anos. Aliás, já repararam quanto tempo os preparativos para um sonho leva para se formar, e em quanto tempo eles se dissolvem? A razão é inversa.

Assim que pude, comentei com Si Fu o resultado fatídico de nossos planos, ao mesmo tempo, sugeri nosso próximo passo, afinal, lembrei de quem sou, e o que já fiz para chegar onde estou e por isso não iria desistir, lembra da definição primária sobre a resiliência?

Surpreendi-me quando Si Fu disse não. Não tentaríamos daquela forma, e para meu absoluto terror, os planos se tornaram muito maiores.

“Yam Chá” com Mestre Senior Julio Camacho

Curioso o medo que sinto. Provavelmente, é porque desta vez, intimamente, eu saiba que nossa nova forma de agir é o que preciso fazer para dar certo. Percebam, sou perito em insistir no que se sabe não haver resultado, por anos invisto em relações que me causam mal estar sob o signo de não querer desistir; eventualmente, por insistência, tenho algum sucesso, mas bem sei que não é exatamente o que consigo que reflete todo o meu potencial. Si Fu me disse há alguns anos, em determinada ocasião que me parece bem similar, se não a mesma em seus aspectos mais profundos:

Isso é um processo de autossabotagem, é grave, e só você pode resolver.

Tão habituado em repetir os erros, talvez para me provar que eu tinha razão, ou seja, não daria certo mesmo, entendi que resiliência tratava de simplesmente insistir. Na realidade, pode ser que a resiliência diga respeito a se desprender de invólucros passados e lançar mão de novas habilidades, aí sim, faz sentido continuar. Esta é a camada de Kung Fu que me parece faltar, tentar outra vez para fazer dar certo é bem diferente de continuar a tentar simplesmente, existem ajustes necessários a se fazer, estar atento a eles e aprender é necessário. Neste caso, o “ponto” de ruptura com um passado infeliz, é o refinamento constante, independente do resultado.

Bem, eu estou desorientado, é o momento de realinhar. Como início, eu penso que talvez existam potencias ainda não explorados em mim, e é justamente sobre eles que Si Fu propões os trabalhos. Sendo assim, o caminho é tentar. Aqui nasce, talvez, uma nova definição sobre resiliência.

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