
Estudo do Nível Superior Final, 2021.
Com relação a abordagens de sistema, gostaria de falar sobre duas possibilidades. A primeira foi desenvolvida por Jean Piaget; um do mais influentes pensadores do século 20. A teoria dele é em geral mais próxima da forma como os ocidentais percebem o mundo, já que foi, e ainda é, inclusive, o modo de pensar onde se baseou o processo educacional do ocidente. Lev Vygotsky foi um pensador Russo, que a exemplo de Piaget, também teve sua contribuição sobre o processo educacional, neste caso, é melhor aproveitado no chamado oriente.
Piaget entende que o conhecimento deve ser seriado e homogêneo; propondo que o saber tenha sua transmissão para pessoas que possuem a mesma maturidade emocional, por exemplo.
Já Vygotsky entende que estímulos diferentes são as melhores possibilidades, sendo assim, propõe que pessoas em momentos distintos de vida se relacionem, sobretudo, em sistemas educacionais. Não é novidade falar que cada abordagem tem suas vantagens, mas, no que se refere a Kung Fu, neste texto, vamos notar que o pensamento orientador privilegia Vygotsky.
Pessoalmente, creio que a experiência marcial deva ser plural, ou seja, quanto mais variações houver, melhor aproveitada, até porque, é nestes cenários que se desenvolve a habilidade de se adaptar a situações sem dificuldade. Ou, mesmo quando não se é capaz de se adaptar tão facilmente, é possível fazer análises de alta qualidade que ajustam os meios para, quem sabe, chegar-se aos fins.

Comitiva da Família Moy Jo Lei Ou, Angola, 2017.
Lembro que no início da minha prática, ainda era comum determinados acessos do sistema serem reservados. Então, encontrando uma porta fechada já se sabia que o desejo dos que ali estavam era não ser incomodado. Por isso, qualquer coisa que acontecesse do lado de fora era de responsabilidade dos que não participavam das sessões Master. Ali se criava uma divisão. Os Seniores de um lado e os mais jovens, aguardando o momento de ser chamado para fazer sua aula, do outro.
Entendo que esta configuração tenha como potencial o desenvolvimento do Kung Fu, veja como é simples entender: os mais jovens tinham uma oportunidade ímpar de fazer o que quisessem, a depender apenas de sua criatividade. Não há em nenhuma abordagem educativa, que eu conheça, cenário mais rico. Contudo, apesar de existir uma orientação inicial, era difícil os mais jovens entenderem que a ideia era que se mexessem, deixando a encargo de pessoas mais experientes o próprio aprendizado, nada mais limitador.
Por outro lado, os mais antigos em momentos de prática pouco trocavam com os demais no sentido humano. Quero dizer, via-se uma diferença muito clara entre aqueles que transmitiam e os aprendizes, via-se professores, não pessoas em busca de evolução, que é a razão de ser dos chamados “Si Hing”, tal qual os “Si Daai. “
Sobre este assunto, ainda não tive oportunidade de aprofundar com Si Fu, de modo que o que compartilho refere-se apenas a minha experiência prática, deixando talvez passar aspectos mais sutis de direcionamentos de meu mestre; seja como for, segue o que chamo de próximo passo na família Moy Jo Lei Ou.
Em 2018, fundamos o chamado Programa Fundamental. Este programa, a meu ver, tem por fim oportunizar aos praticantes iniciantes a experiência que eles acreditam que deve ter do estudo de uma Arte Marcial, ao mesmo tempo em que se faz uso dos membros da família, e de outros dispositivos, para que, aos poucos, este aspirante a membro possa ingressar na dimensão Kung Fu. Em paralelo, Si Fu cria um filtro, não limitativo, para o programa que seu próprio Si Fu fundou, meu Si Gung Leo Imamura. Além de poder apresentar as pessoas mais experientes uma perspectiva de prática diferente da já habituada; ou seja, o programa não é restrito a determinados membros, todos podem praticar igualmente, e a seu modo e munido das orientações do instrutor, experimentar o Kung Fu.
Por não limitativo, o que quero dizer é que o aspirante a membro não está impedido de acessar o próximo programa, ao contrário, ele é bem vindo. A questão é: caso queira! Desta forma, protegemos o programa experiencial de pessoas que não estão interessadas em ter aquele acesso e preferem participar de uma dinâmica marcial muito parecida com a de uma academia, o que não é problema algum.
A partir do momento em que o aspirante a membro faz seu acesso à família, é apenas questão de tempo para ter o próximo momento, o Programa Experiencial.

Yam Chá em Família, 2013.
Este programa, o experiencial, parece-me que tem por base o preparo dos próximos discípulos. Neste momento, a relação Si Hing Dai acontece de forma natural, inspirada no Programa Tradicional e já experimentada de forma sutil no programa anterior.
É preciso frisar, no Programa Fundamental não existe relação Si Hing Dai, o que existe, são pequenas inserções sugestivas do que poderia ser.
Apesar de o termo usado para o mais antigo ser Tutor, em geral, este é um discípulo, portanto, nas entrelinhas traz à aula de experienciação a postura orientada pelo nosso Si Fu no programa tradicional, onde a experiência é absolutamente Si Hing Daai.
Outro ponto, o chamado membro ativo tem acesso ao Si Fu. O que falta ali é desenvolver a relação de ambos, apoiado por um irmão Kung Fu mais experiente. É importante iniciar o contato, viver historias e se conhecerem mutuamente. O critério para o convite para o “Baai Si, ” cerimônia de discipulado, é absolutamente reservada ao Si Fu, embora tenha ciência disto, creio que o que foi citado compõe os critérios. Ao menos foi para mim.
Como discípulo, ao mesmo tempo que não muda nada, muda-se tudo. Este membro já teve acesso a dois programas, portanto, está muito mais experimentado sobre o que seria o programa tradicional, quero dizer, é certo que os termos ou qualquer outro saber parecerá menos diferente. Ainda que saibamos que novas histórias irão acontecer pela frente, é chegado o momento de não só fazer uso a experiência marcial, mas sim, penetrar o espírito da família, este é o que por vezes chamo de Kung Fu. Apenas vivenciando o cerne de toda a construção do Kung Fu de nosso Si Fu, é possível estreitar a relação ao máximo, de modo que em todo contato tenha por base a construção da experiência marcial.
Falando de minha experiência, a primeira vez que fiz uma viagem internacional foi com meu Si Fu. Por isso, pude aproveitar o momento para além de turismo, já que não era nossa intenção, então, consegui imergir no cenário forma bem especial, e o turismo aconteceu como plano de fundo e foi bem aproveitado.
Eu gostaria de dizer, que por essa e outras experiências que eu já teria me “capacitado ” para dizer que entendi o cerne da experiência de vida Kung Fu de meu Si Fu, considerando que ele comenta muitas vezes que já percorreu o mundo com o seu. Mas, nunca me senti mais longe; este comentário não trata de uma perspectiva depreciativa de mim ou do que vivi, mas sim uma percepção.
O que acontece é que pela primeira vez que fui a Angola, eu estava louco para iniciar minha prática do Baat Jaam Do, meu acesso foi no mês anterior a viagem. Naqueles tempos insisti bastante com Si Fu neste começo, baseando – me unicamente em seus comentários sobre viagens com Si Gung e determinado acesso que teve do Nível Superior Final em um hotel; quis repetir a história. Acontece que Si Fu percorreu o mundo inteiro com seu Si Fu, eu visitei apenas um país e em uma perspectiva bem diferente da que certamente ele viveu.
Quando olho para trás vejo o longo caminho que já percorri, eu me orgulho. Realmente vivi muita coisa, se olho para frente, não vejo nada, não há limite algum, apenas o vazio absoluto esperando ser percorrido. Gostaria de poder olhar para minha história e ter a certeza de que por tudo que foi vivido sou imparável, muito embora tenho vivido muita coisa, se olho para frente, impressionado, percebo que a realidade não poderia ser mais diferente.
Para um discípulo em busca de seu mestre para o fim de aprender a viver melhor sua própria vida, qual é o limite exato de para onde deve ir ou quantos passos é capaz de caminhar?
A experiência de vida Kung Fu não tem fim! mesmo longe do Si Fu, não significa que eu tenha parado de praticar, mas, o fato de não fazer este viagem certamente é um sintoma de a minha história obstruiu meus olhos. Olhando muito para o que tive, acho que me esqueci de que devo seguir em frente.