Reativo

Meditar.

A busca pelo “estado contemplativo” é cada vez mais comum. Exatamente por isso, não é raro ver propagandas de estudos e práticas que prometem este fim. Advindo daí, vejo uma questão que pode se tornar problemática.

Baseando-se no potencial da situação, ou seja, a busca de pessoas pelo assunto, e o acesso facilitado que a internet possibilita, gera-se, com certa facilidade, cada vez mais conteúdo; o problema, é buscar dentre todos os saberes o que vai efetivamente traduzir a experiência do indivíduo para a busca pessoal.

Por isso, é necessário atingir algum grau de maturidade no sentido de entender sobre o aspectos basilares do saber em si. Apenas entendendo do que efetivamente trata a experiência, quais os saberes fundadores, e a dedicação de seus transmissores é possível, e mesmo assim, não garantido, seguir seu caminho sem desvios desnecessários.

Com relação a meditação, por exemplo, sua origem sugere o desenvolver da capacidade de “impenetração”, em outras palavras, a busca de postura contemplativa e absolutamente reativa, através de cenários muitas vezes caóticos e desconfortáveis, o que se perde em algumas escolas. Talvez daí, o senso comum de que é necessário “sair do zona de conforto. ” Digo isto, pois minha percepção sobre as demais escolas é de que para ter qualquer nível de contemplação mais intima é preciso se isolar e criar características específicas.

Ora, entenda que para a lógica da cultura onde me apoio para as afirmações, é costume explicar que as coisas acontecem através de movimentos, jamais estados. Por isso, não existe estado contemplativo, apenas contemplação, ou meditação. Há um termo que acredito que explique melhor esta característica, Siu Nim Tau.

Presença e Momento, 2017.

Para mim, a genialidade do sistema Ving Tsun consiste na maneira como é apresentada sua estrutura; primeiro, Siu Nim Tau. Sabe-se que uma das razões para isto é o fato de se apresentar logo de início o que é mais importante daquele saber, assim, facilita-se a absorção do conhecimento sem mesmo perceber, uma vez que ainda sem ciência do praticante todos os fundamentos ou sementes são praticados; há outras.

Em uma situação de assalto, por exemplo, discurso comum é de que “aconteceu do nada. “

Não foi!

O que acontece é que a mente tende a flutuar em situações corriqueiras, o que gera o poder místico dos assaltantes. Penso que pelo fato de haverem demandas mal distribuídas em nossos cérebros, e nenhuma resolvida – sempre em vias de -, todas elas se apresentam ao mesmo tempo, ocasionando a falta de foco por conta de eventual inabilidade.

O caminho é fácil de identificar; veja:

Nem bem entendida a primeira demanda, passa-se a seguinte, sob o signo de pro atividade e assim se vai. Em geral, começar pela demanda mais simples é um bom caminho, esta afirmação é inspirada no Sistema Ving Tsun. “Siu Nim Tau” é a listagem onde os movimentos são mais simples, não fáceis, por isso, é possível ali desenvolver a habilidade de foco de forma simplificada. Como sistema, a aprendizagem anterior não é descarado, então, ao acessar o próximo domínio, além de aprender novos conteúdos, é possível absorve-los através da ótica anteriormente proposta ao mesmo tempo que se disponibiliza à habilidade aprendida um novo cenário.

Em resumo, o que eu digo é que foco, em Kung Fu, não significa analisar individualmente qualquer coisa, mas sim, iniciando por uma, desenvolver a habilidade de separar em partes mais de uma coisa, todas ao mesmo tempo. Separar é um processo interessante, sobretudo quando a experiência esta mal digerida, ou pessoalmente se está indisposto.

Certa vez, estava me dividindo entre os afazeres do Mo Gun e determinada manutenção na casa do Si Fu, exausto, estava com dificuldade em manter foco nas duas atividades. Como não tive condições de manter a qualidade mínima para as atividades, Si Fu me chamava a atenção. Bastante cansado e magoado, tive dificuldade em ouvir o que Si Fu pontuava e optei por justificar.

Justificar qualquer erro, é o maior exemplo de fraqueza emocional, Si Fu não deixou passar desapercebido, uma vez que tinha notado minha desistência em tentar, expulsou-me de sua casa dizendo que se eu quisesse descansar, era melhor ir embora, e fez questão de deixar claro que não era para eu estar mais ali.

Não lembro de outra situação que tenha me deixado mais irritado. Naquele momento, decidi desistir da prática do Kung Fu, e, apenas para não chegar no Mo Gun, onde ia buscar minhas coisas, com o rosto molhado e emocionalmente afetado, sentei-me em um pouco e contemplei o vazio.

Nada mais vazio do que a forma como me sentia, acho que por poucos momentos realmente consegui não pensar em nada. Voltei ao Mo Gun e, muito mais por birra do que desejo, resolvi ficar; enquanto rezava baixinho para que Si Fu não me expulsasse quando retornasse.

Decidido a ficar independente de possivelmente ser expulso, e mesmo se a possibilidade acontecesse, fiquei surpreso quando Si Fu me encontrou e não comentou nada.

Efetivamente estava decidido a discutir, nenhum outro dia me senti tão frustrado.

Presença, 2020.

Sabendo que Si Fu não iria me dar atenção, resolvi fazer algo de útil, foi então que, formalmente, nosso irmão Kung Fu Carlos Antônio iniciou sua prática no Programa Fundamental, tornando-se discípulo alguns meses depois.

Não posso dizer que Carlos hoje é discípulo por conta de meus atos, creio que não; mas posso dizer que ele não deixou de ser discípulos pelos meus atos. Isso é grande coisa, na época, muita coisa saia errado por conta de minhas atitudes.

A partir desta experiência, houveram vários ressignificados:

É esperado que em momentos de desespero, pessoas tenham posturas infantis, mesmo assim, nem sempre o que é esperado é benéfico. Entenda, ao “sair da zona de conforto” há a falácia da decisão. Ou seja, de alguma forma, se está disposto a viver aquela experiência, mas só um “pouquinho” ou o “quanto aguento. ” Claro, o praticante normal acredita que a experiência marcial acontece quando chega ao Mo Gun, sabe o horário da “aula, ” o conteúdo a ser desenvolvido, e, os mais arrogantes, meu caso, creem poder ditar como irá acontecer.

Quando tentei justificar meus erros ao Si Fu, no fundo, eu estava dizendo que saiu da minha previsão a experiência, neste caso, o melhor a se fazer é ir para casa, como Si Fu ordenou. De verdade, sobre este aspecto, o que há em mim é um sentimento de gratidão, pois pude perceber o quão fraco ou forte eu posso ser, dependendo apenas de minha intenção, e da real experiência marcial que acumulei ao longo dos anos.

Sobre a intenção, a que é trabalhada no momento programado da aula, é pobre, Kung Fu de verdade é o que acontece quando não se espera, refino-me; Kung Fu, ou a falta dele, de fato, é o que acontece quando você toma uma decisão baseada em cenários que não se esperava e está afetado.

“E agora, é a hora de ir ou de ficar? “

Se decido ir, que eu vá sem culpa, se decido ficar, que aguente. O que não pode acontecer é responsabilizar pessoas outras sobre minha incompetência ou eventual imbróglios da vida.

E agora aqui, no último parágrafo, escondido para ninguém mais ver, reflita comigo:

Mesmo sobre esta intenção última, creia que não depende só de você, o cenário é absolutamente componente, basta segui-lo. Eu certamente não teria condições de ficar se Si Fu não tivesse me provocado tanto, certamente, a questão se traduz em obedecer.

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