DESenvolver-se.

Busca pelo Desenvolvimento.

A busca pela evolução é inerente ao ser humano; não por acaso, estamos envolvidos por uma série de saberes que prometem a realização desta necessidade, na maioria das vezes, de forma metafísica. É que o pensamento mágico caminha lado a lado com a evolução da humanidade.

Ora, basta ver o jogador entrar em campo e fazer determinado sinal tocando o gramado, entenda que este não é qualquer sinal, não só pela força ritualística que carrega, baseando-se na lógica do sofrimento, mas, sobretudo, pela fé que aquele indivíduo deposita no ato. Eis então, a meu ver, um exemplo de pensamento mágico, e a criação de um símbolo.

Falando em sofrimento, podemos nos valer também de uma das verdades budistas, aquela que diz: “você vai sofrer! ” Associando a máxima ao símbolo de tortura dos mais absurdos de que se tem história, a cruz, parece-me lógico entender que o desenvolvimento está submetido a dor.

Isto me explica. Toda a forma como manejo minha própria vida tem como base, ” clausula pétrea, ” o sofrimento. Sim, cristão como sou, ainda que por osmose.

Mesmo assim, há alguns anos venho desenvolvendo outras abordagens para a busca que sempre fiz mas jamais estive tão perto ou, ao menos, na trilha em vez de trilhos.

Início das Restrições por conta da pandemia do Covid19 no Brasil. 2020

Todos sentimos medo, a diferença é a maneira de lidar com ele. Isto pode ser um critério identificativo de pessoas maduras e as demais. A três anos atrás, eu estava apavorado, não me lembro de sentir tão próximo a possibilidade, ou a morte propriamente dita.

Diversas pessoas tombaram a meu lado, eu, por azar, fui absolutamente atingido, ainda que não diretamente. Todas as minhas crenças espirituais foram postas a prática naquele período, estava decidido a retomar minha fé.

Em determinado momento, o pai de uma amiga adoeceu do covid, após internado, ele teve menos de uma semana. No dia fatídico, da morte propriamente dita, pus-me em posição de suplica e clamei aos céus, quem sabe, eu finalmente seria atendido. Pelo que percebi, as estrelas apenas me fitaram de volta, alheias a minha existência.

Neste período, conversei bastante com Si Fu. A cada novidade, entenda que novidade significa algo novo, não necessariamente favorável, eu atualizava. Por alguma razão, de toda a conversa que tivemos, a resposta que mais me marcou foi uma figura representativa da guarda. Eu ainda não sabia, mas precisaria demais de me manter em guarda mais adiante.

Pouco tempo depois, para mim, parece ter sido no mesmo dia, Si Fu precisou ser internado às pressas. Sobre o que senti, não sei o que dizer. Prefiro compartilhar o que aprendi.

Passado o momento crítico, Si Fu estava novamente de pé e fazendo o que tinha que fazer da maneira que podia. Não se ouvia lamúrias, apenas brincadeiras bem humoradas que geravam boas risadas. Muito embora tenha faltado muito pouco para ele morrer, não morreu; parece-me que é este o registro que busca deixar.

Entenda que Kung Fu não é a salvação eterna ou o Nirvana. É a construção desenvolvida por homens que buscam estar vivos ainda que após a morte, não por maneiras sobrenaturais, mas por memória. Neste caso, somente as melhores fazem diferença.

Portanto, a busca do desenvolver me parece, dentre todos os saberes, a mais adequada no sentido literal da palavra. Desenvolver, significa abrir mão do invólucro onde muitas vezes nos valemos por medo. Desenvolver, diz respeito a deixar de ser envolvido pela cultura que, em casos específicos, pode não fazer sentido.

É óbvio que cada ser humano tem a possibilidade de se desenvolver de acordo com seus valores, em meu caso, busco me desenvolver de certos valores que a mim não cabem. Como instrumento, uso, acompanhando meu Si Fu, aquele a qual chamamos Kung Fu.

Barra da Tijuca, 2018

É critico tomar decisões baseadas em valores alheios, sobretudo, os já consolidados. Pense no jogador que faz o sinal da cruz, em alguns casos, nem mesmo percebe o que está fazendo. Caso ele seja consagrado, o pior dos mundos. Certamente haverá um garoto que vai copiar; e, talvez pelo sinal, ou pela sorte, este garoto também se tornará um expoente, eis a cultura daqueles que fazem sabe-se lá o que com o objetivo único de fazer. Cria-se então a cultura, para que? talvez nunca pensemos.

A tomada de consciência é a chave elementar do Kung Fu, a razão é simples: Ele não está pronto. É apenas uma trilha que você pode seguir ou não, pode-se tomar outro caminho e legar saberes outros a quem quiser te tomar de exemplo. E caso ninguém queira, não há problema, se faz sentido para você ótimo, o Kung Fu é seu, sem grandes promessas ou fins.

Provavelmente, este é meu grande problema com a espiritualidade. Lá eu acreditei ter o poder de ser superior ao que mais temo, a morte. A lógica dos milagres era perfeita para o jovem, e hoje adulto, temeroso. Creio ser responsabilidade das instituições a falta de orientação, mesmo assim, faltou-me tempo. Desenvolver-me do seu senso de poder, que logo passou a ser meu, era crucial, não foi lá que achei poder ser bem sucedido.

Creio ter sido abençoado por ser discípulo de meu Si Fu. Pelo nosso convívio, e o apreço que desenvolvi, a partir dele, pelo uso das palavras, finalmente vejo a possibilidade de deixar o caminho da dor. Hoje eu creio que somente deixando de me envolver com a morte eu possa viver da melhor forma a vida. E quando ela chegar, desprendo-me da necessidade da vida, só porque assim é o jogo, sem milagres ou promessas tardias, apenas morrer sabendo ter feito o melhor que pude quando é para fazer, em vida!

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