
Deusa Têmis, deusa Grega da Justiça.
A representação da Justiça, no caso dos ocidentais, é baseada na Cultura Grega. Por esta cultura, a meu entender, diz-se que para ser justo é necessário estar cego, ou seja: não deve haver qualquer tipo de olhar apaixonado ou censurador a qualquer uma das partes;
É imperioso, saber pesar o que for exposto em razão direta a seu contrapeso, além de ser vital ter poder, no sentido do moral e conquistas prévias, para determinar qualquer ordem.
Todas estas prioridades são representadas pela venda, balança e espada; além da própria figura que é representada por uma mulher, mas que não vou me ater agora.
Trazendo para a realidade da experiência marcial, vejo algumas possibilidades semelhantes; A guarda, é o ponto de equilíbrio e ponderação entre pessoas adversas, estas ponderações são relevantes já que é por elas que chegaremos a representação de poder, o golpe.
Por último, os olhos bem abertos, principalmente no “momento derradeiro” que é quando há o toque. Isto ocorre, pois em um embate justo, no sentido de justeza, não existe equidade das partes; o que se busca é a desigualdade, vence quem tem mais Kung Fu, é este o esperado.
Repare que as possibilidades acima vistas não dependem de nenhuma habilidade prévia, mesmo técnica. O importante é como, naquele momento, “tendo razão” ou não, apresenta-se a própria verdade.
Para se vencer, em termos mais adequados a minha realidade “ocupar o meio, ” é obrigatório fazer desvios para esquerda ou à direita jamais esquecendo o resultado final, “energia para frente, Chung Chi, ” que é representada pelo soco, por exemplo. Há vários pontos que eu poderia associar a meu entender sobre a justiça, mas, neste ponto específico, energia para frente, creio que não só as pessoas responsáveis pela justiça, mas também toda a sociedade poderia e deveria se valer.

Restaurante Chon Kuo, 2016
Sobre os desvios necessários, usei termos como direita e esquerda, a razão disto foi usar determinada maneira de falar, para tratar do assunto. A rigor, quanto mais criativo e experiente somos, percebemos novas possibilidades de desvios; por exemplo: retroceder, em diagonal ou simplesmente não se mover.
Há na sociedade certo desconforto que me parece desnecessário com relação a palavra, e sua orientação, retroceder. Mesmo na experiência marcial, vi praticantes fazerem movimentos sem sentido pela justificativa de: “no Ving Tsun, não se anda para trás. ” Deixe-me propor uma reflexão sobre este isto:
Certa vez, em um restaurante com Si Fu, achando que estava trabalhando a energia para frente, pedi ao garçom água com gás e um limão espremido para ele antes mesmo de se sentar a mesa; claro, eu vi ele fazendo estas combinações de bebidas em determinada ocasião e achei que era uma regra.
Bem, não era o caso, quando o pedido chegou ele me perguntou porque eu havia pedido aquilo, justifiquei que ele sempre bebeu. Sua resposta foi:
“Eu bebo porque você sempre pede, faço isso por zelo a você, que tal você começar a prestar atenção em mim? “
Checar com Si Fu o que ele quer beber antes de pedir é um desvio no Chung Chi; minha intenção foi boa, mas acabei atropelando o processo. A partir de então, comecei a perceber que “no Ving Tsun”, as vezes, é preciso recuar; o ponto de confusão é que quando se recua, ou vai para qualquer outro lado que não em frente, faz-se apenas para criar condições de seguir adiante, nada mais.

Partida de Mestre Senior Julio Camacho e Senhora Márcia Moura Camacho para os EUA, 2020.
A devida atenção aos detalhes é fundamental para o desenvolvimento da cultura. Desvios sempre acontecerão, saber se aproveitar do melhor daquele desvio e entender como se desvincular tão logo seja necessário ou possível e sem paixões exibem um alto nível de Kung Fu.
Mais importante, é entender que o todo, necessariamente, vem antes da parte. Por isso, ainda que se discorde eventualmente de qualquer ponto, caso seja benéfico ao todo e maléfico apenas ao próprio ego, faz- se necessário abrir mão da individualidade para o bem que é maior, não deixando de se aproveitar, ainda que de maneira egoísta, do que a proposta diferente tem de favorável a oferecer.
Concluo dizendo que se aproveitar do que está avesso é sinal de inteligência, abrir mão da individualidade pelo todo, de maturidade, criar um cenário outro, não comtemplado pelas visões opostas mas exatamente a partir delas é o estado de arte.
Afinal, seja no Kung Fu, justiça, política ou outro cenário, é importante entender que desvios pela esquerda, à direita, ou qualquer outro são facilitadores, e não paralisadores do que é mais importante que é seguir em frente!