
Mestre Senior Julio Camacho em estudo de Baat Jaam Do.
Há posturas que não precisam ser orientadas, basta observar o cenário. Por exemplo, à exceção das crianças bem pequenas, pessoas sabem que facas devem ter a ponta direcionada para o objetivo fim, a inobservância desta simples necessidade certamente causará grandes prejuízos.
Por esta lógica, não seria necessário o uso deste instrumento ser facultado apenas a membros mais experientes, os chamados “sêniores; ” mas é esta a orientação. Em minha experiência, entendo que esta necessidade diga respeito ao Kung Fu.
Objetivamente, as facas são peças de, ou que geram, a morte; sendo assim, é preciso um nível de excelência comum apenas à pessoas que verdadeiramente, seguindo seus próprios critérios e orientações de seu Si Fu, buscam transmutar a natureza de arma em instrumento daquele objeto.
Penso que em qualquer cenário, a palavra deva ser a chancela do que foi combinado. Por isso, chegar no horário em compromissos, fazer o que se prometeu e garantir o desenvolvimento favorável àquilo que se faz não deve ser tratado como um grande feito já que é básico. Muito parecido com o exemplo primário de uso das facas exposto acima, e, para atestar um pouco mais o supracitado, pessoas que não são capazes de fazer isto, podem ser consideradas “crianças muito pequenas. “
Há em outro extremo situações onde indivíduos, por razões diversas, não podem cumprir com determinados compromissos; quando se fala de potência, necessariamente se fala de Kung Fu.

Com Mestre Senior Julio Camacho, 2018.
Fazer o básico não significa que vá ser fácil, significa que não é necessário alaridos. Nestes casos, é comum que os sujeitos ao redor exijam mais de você. Parece-me óbvio, quando mais se entrega, mais demandas devem aparecer; acho que assim deve ser.
Contudo, há um limite. Seja no sentido de habilidade em executar todas as tarefas ou tempo hábil, disponibilidade ou mesmo vontade. Nestes casos, observe o exemplo:
“Naquele dia eu estava exausto. É muito raro me sentir desta forma, mas foi um dia em que falei para mim que não tinha condições, precisava descansar. Como já estava desperto fui tomar banho, no chuveiro, reforcei o que já sabia, não ia conseguir. A roupa de trabalho já estava pronta, resolvi me vestir. Já que estava vestido, que tal ir até o carro?
Aos tropeços, fui bem sucedido. Bem, a derradeira tentativa, vou começar a dirigir. A poucos metros do trabalho, notei que seria muita cara de pau não ir até minha sala estando tão perto, já na sala, não havia porque não trabalhar.
Ao longo do dia, fiz o que pude me desafiando ao mínimo, isso me ajudou a acumular, aos poucos, mais energia. Em seu fim, já estava tão carregado de energia que me pus a cortar a grama do quintal de casa. Aquele foi um dia rico. “

Aula Master, 2019.
As aspas usadas no parágrafo acima sinalizam a experiência de uma outra pessoa. Espero assim ter deixado claro que apesar desta história eu ter ouvido do Si Fu, exponho o que eu entendi do que ele disse, não necessariamente suas palavras Espero também ter deixado claro o que quero dizer quando falo sobre Kung Fu ou potência.
É que Kung Fu também diz respeito a trabalho duro, mas não somente a isto. O sentido que tento dar ao texto é sobre o Kung Fu maduro, aquele esperado dos membros sêniores, ou, o que é facilmente percebido na expressão pessoal de um Si Fu.
Mais especificamente, aquele que potencialmente é desenvolvido na expressão pessoal de um discípulo, enquanto possibilidade, ou o que potencialmente é exposto por meu Si Fu, no sentido de poder.
Não sou capaz de expressar o quanto lamento o início deste meu dia, de forma tão incapaz, não posso dizer o quanto lamento minha falta de Kung Fu para lidar com determinadas situações. Ao mesmo tempo, o potencial legado a mim ainda sobrevive e está em desenvolvimento, sou grato por existir alguém que possa me inspirar, somente assim fui capaz de levantar da cama no dia de hoje.
É por isso que com o calor e a alegria que ainda restam em mim, faço questão de agradecer a meu Si Fu por toda a experiência, em alguns casos tão dura, vivida por ambos, que me permitem, ainda que manco, ser capaz de caminhar.
Graças a nossa dedicação, Si Fu, para este dia, eu ainda não morri. E pela questão que faço em honrar nosso nome e toda a experiência vivida, tenho absoluta certeza de que em pé chegarei a seu fim, muito embora talvez não seja capaz de cortar grama.