Transmutação de Símbolos.

Finalização de Prática, 2022.

A capacidade de se expressar é crucial para o bem viver em sociedade. Sabendo disso, muitas escolas disponibilizam técnicas que prometem desenvolver tal habilidade, em tempo recorde, inclusive. A partir destas técnicas, o aluno terá condições de lidar com seus anseios.

Sabendo disto, pessoas que se entendem tímidas ou possuem alguma dificuldade na matéria, buscam os métodos prometidos como se fossem o próximo gole de ar pós grande tempo sem respirar. É pelo desespero que buscam o desenvolvimento da habilidade, não necessariamente, pela busca da habilidade em si.

Eu acredito que a capacidade de se expressar vá além, de por exemplo, falar em público. Creio que a análise seja uma grande ferramenta no quesito potência de expressão. Repare como o termo se explica: analisar, significa separar em partes; por isto, a pessoa que tem disposição em mergulhar neste tipo de saber se torna perito em si, não em técnicas. Minha intenção não é desfavorecer a técnica, mas sim, favorecer a possibilidade de se envolver em desafios buscando lidar com a, ou, as questão(es) em si, não fora.

Explanação sobre como foi a prática, antigo Núcleo Meier, 2008.

Isso já foi um desafio para mim. Quando mais jovem, já tinha determinada habilidade em fala e escrita já que tive a oportunidade de estudar em colégios suficientemente bons que me prepararam para os desafios de uma prova, ou um português bom o suficiente para poder conversar; ainda assim, falar em público era para mim uma questão.

Muito embora na época do colégio eu já tivesse que apresentar trabalhos, a gagueira e o tremer das pernas eram companheiros comuns, independente do meu saber sobre o tema. Para caraterística que me incomodava, resolvi adotar a expressão timidez, e tudo ficaria explicado a partir de então.

O problema, é que analisar a timidez não é uma tarefa comum. Em uma rápida reflexão, não identifico autores, sobretudo os mais lidos atualmente, que tratem do tema com o que acredito ser a devida profundidade. Em geral, cria-se “palavras de poder” e a raiz é ignorada.

Nas reuniões com Si Fu, minhas amigas, gagueira e tremer de base, mostraram- se cada vez mais forte, claro, era preciso “ter Kung Fu”; fiquei confuso sobre o que isto poderia estar dizendo, na época, pouco afeito a análise, optava por me esconder, torcendo para que não perguntassem minha opinião; não era o que acontecia.

Muito rapidamente, fui convidado a despir a máscara que usava, para finalmente encarar a situação. Pasmem, minha questão não é timidez, descobri que na realidade não sou nem um pouco tímido, a questão foi sobre o medo e a ansiedade.

O medo, relaciona-se diretamente com algo observável por exemplo o medo de falar em público, que não tem relação necessária com a timidez, diz respeito a um aspecto específico do sujeito, portanto, possível de trabalho. A ansiedade, diz respeito a desejo, o querer que determinada situação logo aconteça é um traço desta característica. Para mim, isto corrobora o que disse, qualquer característica só deve ser nomeada diante de profunda análise!

Cerimonia Tradicional da Família Moy Jo Lei Ou, 2012.

Esta análise, de inicio, foi – me proposta pela busca do Kung Fu. Fazia minha prática uma vez por semana e tinha o resto dos dias para digeri-la. Mais tarde, comecei a me disponibilizar mais e as responsabilidades se apresentavam. Desta vez, tinha menos tempo para digerir os desafios que são cada vez maiores; lidar com qualquer situação, valendo-me do que tenho, suficiente ou não, era a grande questão.

Neste quesito, desenvolvi alguma habilidade em me virar, mas o medo de vir uma situação pior e eu sucumbir era enorme.

Em um segundo momento, foi-me sugerido a busca da análise propriamente dita. Apesar da resistência inicial, resolvi tentar. E pude então entender aspectos que me geram tanto medo e vergonha, a ansiedade é apenas um sintoma, um efeito colateral de algo que é realmente mais sério.

Em busca das minhas verdades, pude perceber que tanto quando pude, as vezes, quando era inviável, tentei me esconder, tinha muito medo de errar, e não percebia que o problema maior não era o erro, era o querer fugir de mim.

Então, a capacidade simbólica reascendeu; aos poucos, mudando meus entendimentos sobre a experiência marcial, e sobre o que faço questão de enfrentar, falando em um aspecto mais inconsciente, não mais me abalo com tremor de base que ainda acontece, sei que é absolutamente natural ter medo, o que há de diferente é o desejo que tenho de um dia ter a coragem de lidar com meus demônios da forma que Si Fu lida com sua vida; provavelmente com medo, mas sobretudo com sensatez e Kung Fu. Assim sendo, independente da dificuldade, é possível sair bem sucedido!

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