
Yam Chá Shopping Barra Square, Barra da Tijuca. 2014.
Penso que o desenvolvimento humano seja nada mais, talvez por isso tão complexo, do que a habilidade de retirar o excesso, ou jogar fora o que não interessa. Daí, a relevância da Arte Marcial. Como disse em outros textos, o simbolismo da expressão “esvazie a xícara ” explica este processo.
Considerando que só é necessário esvaziar a xícara quando ela está cheia, e, para esvaziar, é preciso beber do conteúdo, temos a razão de ser deste texto. Acontece que, quando iniciamos qualquer movimento novo, estamos cheios de expectativas e precisamos, de alguma forma, diminuí-la para apreciar melhor a pratica a que se submeteu.
No caso do Ving Tsun, entendo que os protocolos sejam o conteúdo, a priori, da xícara; pois ajudam os novos membros a se orientarem no atendimento de seu desejo, aproveitando-se, da melhor forma, do que aquela escola apresenta por currículo. Por isso, vejo que aos poucos, todos nós, os praticantes, devemos nos libertar dos protocolos para ter acesso somente ao objetivo fim que é tão subjetivo, o Kung Fu.

Estudo do Nível Superior Final, Barra da Tijuca. 2019.
O último nível da fase semiestruturada do sistema é um indicativo do que foi dito. Por exemplo, a lógica da linha central tão comum ao logo de todo o sistema é elevada ao máximo de sua potência a partir do uso deste instrumento.
Outro exemplo:
É corriqueiro apresentarmos as pessoas ao Si Fu, no Mo Lan, em vez do contrário. Isso acontece pois se espera que a pessoa já conheça o Si Fu, aliás, este é um dos trabalhos dos discípulos; e muito embora o Si Fu já tenha ouvido falar da pessoa, é possível que ele não conheça ainda seu rosto. Então, em geral, quando esta pessoa se aproxima Si Fu aguarda as apresentações.
Nestes casos, além de falar o nome, aprofundamos as apresentações com alguma história ou característica da pessoa, de modo a associa-la a alguma memoria do Si Fu, ou iniciar uma relação que eles irão construir entre si a partir dali.
Por isso, espera-se que o discípulo tenha algum conhecimento sobre o novo praticante, de outra forma, este processo se complica. Este é um procedimento comum, talvez até, possa chamá-lo de protocolo.
Eis que certa vez, estava sentado ao lado do Si Fu e chegou um novo praticante para falar com ele, eu próprio não o conhecia ainda, por isso, optei por não falar nada, embora tenha ficado constrangido. Esta pessoa falava naturalmente, e dava a entender que conhecia bem o Si Fu; contudo, também não se apresentou. Neste caso, Si Fu precisou perguntar o seu nome.

Condomínio Riviera, Barra da Tijuca. 2023.
A leitura que faço desta história, é que por estar preso ao procedimento, deixei que algum irmão Kung Fu que tivesse mais contato com a pessoa tomasse a dianteira; afinal, não havia o que falar, e, por outro lado, não há mal algum na espera estratégica; contudo, não foi o caso, o que fiz vou passar a responsabilidade para outro. Como ninguém assumiu a função, Si Fu tomou a dianteira.
Não há, objetivamente, nenhum mal em Si Fu tomar a dianteira, pensando em aspectos mais simbólicos, é como se eu tivesse morrido, morrido no sentido de me aproveitar da experiência, de me aproveitar de um procedimento simbólico para, a despeito de não usá-lo, criar o mesmo fim, e, além disto, me libertar do protocolo.
Até porque, não encontro razão que justifique o fato de eu mesmo não ter perguntado seu nome.