
Comitiva de Despedida, maio de 2023
Si Fu conta que muito de seu Kung Fu foi desenvolvido em viagens acompanhando seu próprio Si Fu, meu Si Gung, ao redor do mundo. Uma outra parte, foi na Rodovia Presidente Dutra, onde segundo seus cálculos morou por volta de 6 meses. Acontecia, que como vivia no Rio de Janeiro e seu Mestre em São Paulo, considerando tempo de viagem e eventuais transtornos comuns em estradas, passava quase um dia para concluir seu traslado; fazendo isto por alguns anos, chegou ao número citado.
Neste período de tempo, eu imagino, na sua ida era o momento de conter a ansiedade e aguardar o momento da chegada; seu retorno, era o momento de digerir toda a experiência vivida e transformar em energia para se manter inteiro até a data do próximo retorno. Acho que estes momentos de solidão são cruciais para o Kung Fu, já que a ressignificação da experiência acontece de forma natural.

Comitiva para Celebração do Aniversário de Madame Helen Moy, dezembro de 2017
Certa vez, em um dos seus retornos para o Rio, a experiência vivida em São Paulo foi tão marcante que ela passou a viagem inteira revivendo aquele momento. Na ocasião, ele havia pedido a seu Si Fu autorização para iniciar um trabalho. Em uma tentativa de estímulo, ao menos, é assim que eu vejo, Si Gung com Maestria não disse que sim, tampouco que não. Apenas incitou dúvidas dando exemplos claros de que sim, ele poderia iniciar um trabalho ao mesmo tempo que deixava clara, muitas vezes com os mesmos exemplos, sua eventual incapacidade de seguir seu desejo.
Então, o que fazer? acho que se Si Gung tivesse dado uma resposta definitiva, sendo sim ou não, para Si Fu, seria bem mais fácil. Neste caso, bastava iniciar o trabalho tendo certeza do apoio de seu Mestre, ou nem começa-lo, já que, pela essa ótica, ele não seria capaz. Acho que no fundo, a proposta era: caso Si Fu iniciasse ou não o trabalho, ele precisava ter certeza de que a decisão seria dele.

Momento de Vida Kung Fu
Pessoalmente, posso contar várias vezes em que cheguei no Mo Gun ou saí dele com lágrimas nos olhos. A experiência vivida era tamanha que eu usava as lágrimas como uma tentativa de diluir tudo o que eu sentia. A bem da verdade, havia nestas lágrimas, uma intenção quase oculta de necessidade de atenção ou algum tipo de pena.
Clamava através dos olhos pela elucidação de sentimentos que eu tinha ciência e de alguma forma, justamente por saber quais eram, preferia ignorar. Acho que Si Fu sabia disso, e por mais que eu clamasse por pena, Si Fu me trazia a responsabilidade. Nunca foi fácil, nunca houve um “coitado do Gui”, era pancada atrás de pancada na busca desenfreada de ambos em apontar meu coração para o caminho que eu sempre quis seguir, mas nem sempre tive coragem de trilhar. Exatamente por isso, em nenhum outro momento ou lugar da minha vida e a despeito de toda a dificuldade, senti-me tão respeitado.
Hoje, as lágrimas que acompanham este texto não me remetem a pena ou qualquer forma de me diminuir. Elas tratam justamente, apesar de toda dor e tristeza do processo, de finalmente me encontrar com os sentimentos de veras temidos. Si Fu nunca disse que eu podia ou não, mas exigia de mim a respostas para as minhas próprias dúvidas, afinal, achando que posso, ou que não posso é minha a razão. Muito obrigado, Si Fu. Por tudo até hoje, e por tudo que há de vir!