O Vazio que Propõe Preenchimento

Cena do Filme o Reino Proibido

É comum iniciarmos qualquer prática com algum objetivo muito bem fundamentado. O desejo pode ser emagrecer, ter mais resistência ou aumentar o salário, em caso de cursos e concursos. Nestes cenários, como a principal propaganda, em geral, traduz- se como a conclusão do objetivo visado, atingido a meta, busca-se uma nova. E assim muitas pessoas estruturam a vida.

No meu caso, isto aconteceu com o Kung Fu. Antes de iniciar minha prática já estava montado todo o percurso que eu iria percorrer e como me tornaria mestre. Muito rapidamente notei que mesmo sendo criativo, jamais poderia supor o caminho que a vida me levou.

Kung Fu é uma dinâmica diferenciada pois não se busca meios para atingir o fim. A pratica do kung Fu já se basta. Em outras palavras, havendo presença, o Kung Fu se desenvolve independente do desejo, saber, suficiência ou insuficiência. Ninguém é tão autossuficiente que não possa usar tais habilidades disponíveis, ou incapaz de forma a não desenvolve-lo.

Há uma cena no filme que cito, onde o discípulo despeja uma enxurrada de saberes em seu Mestre. Ele fala sobre habilidades físicas e coisas que viu em filmes. Seu Mestre, com um sorriso sem graça, apenas enche a xícara de chá que servia. Em dado momento, a xícara enche e queima o rapaz. Ao ouvir o lamento do discípulo, o Si Fu comanda: ” esvazie a xícara”. Incauto, ele simplesmente joga o chá fora.

Venerável Ordem Fraternal Esotérica de São Francisco de Assis, umas das primeiras palestras que assisti do Si Fu, 2007.

Em geral, um problema grave dos discípulos é a incapacidade de obedecer, Considerando que a palavra obedecer é intimamente vinculada a proficiência em ouvir, analisemos os fatos:

Antes de obedecer é preciso ouvir a partir de uma escuta inteligente, Kung Fu, o que está sendo dito. O Mestre da história acima deu uma ordem, o aluno não ouviu, por isso jogou o chá fora. Ora, por qual razão se enche uma xícara vazia?

Beber o líquido era o comando, contudo, cheio de pressupostos como estava optou por descartar o conteúdo. Aprofundando a discussão, o ato de beber significa absorver integralmente o que foi disponibilizado pelo mestre; como já estava “cheio” de saberes mal digeridos, foi incapaz de apreciar o novo conteúdo.

Assim acontece na minha vida kung fu. Eu, discípulo, apresento ao Si Fu uma serie de saberes, muitas vezes sem contexto, e exijo dele o desenvolvimento marcial a partir da minha história; isso é um prejuízo enorme. O Si Fu é um líder, então, ele apresenta o chá, ou seja, o conteúdo a ser absorvido. Apenas desta maneira podemos de fato imergir na chamada dimensão kung Fu.

Demorei alguns anos para perceber isso, esta experiência existe desde quando iniciei minha pratica. Abaixo compartilho uma das situações que me ajudam a despertar esta sensibilidade.

Estudo Especial sobre o Programa Fundamental, 2022

Há alguns anos, Si Fu foi com uma comitiva à Argentina. Lá eles tomaram posse das facas encomendadas ao Mestre Senior Leandro Godoy, meu Si Suk. Foi uma época muito divertida, Si Fu a todo momento voltava no assunto da viagem conosco, compartilhava mais um ajuste que fez no modelo para encomendar e convidava seus discípulos a participarem do processo.

A todo momento, falava-se sobre o “Baat Jaan Do” no núcleo. Nesta viagem eu não pude participar, mas fiquei muito empolgado e desejoso de estar junto. Como havia a proposta de no ano seguinte uma nova comitiva faze-la, aguardei meu momento. Por falta de sorte, a pandemia do covid 19 começou e a viagem foi desmarcada. Eu ainda estava empolgado com o espírito que ficou alguns meses no ar, mesmo depois da viagem.

Então, tomei a decisão de fazer o meu momento especial; decidi comprar o par de facas antigo do Si Fu, o que ele aprendeu todo o conteúdo do nível superior final. Apenas pelo fato de ter sido do Si Fu, estas facas são especiais, além disto, antes do Si Fu, elas pertenceram ao Si Gung. É claro que eu esperava uma cerimônia de entrega recheada de muitas histórias e sugestões de uso, tal como foi no momento anterior.

Empolgado, entreguei o valor ao Si Fu. Sua resposta foi olhar, por no bolso, tocar meu braço e dizer: ” Use bem” Mais nada. Mesmo assim, não deixei a decepção tomar conta do meu semblante, achei que era o caso de aguardar o momento oportuno.

Tempos depois, vendo que a oportunidade não chegava decidi discretamente abrir a mochila e deixar ele ver o instrumento. Tinha esperanças que ele pedisse para entregar a ele e assim, finalmente, me devolver da forma como eu queria. Ato contínuo, senti que estava forçando demais e que a intenção desta atitude era manipular o Si Fu. Sentindo-me mal por isso, fechei a mochila e pus nas costas, assim entendi que as facas me foram entregues.

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