Mestre Senior Julio Camacho em Cerimônia de Baai Si
Existe um momento na cerimônia de” Baai Si”, chamado” Yam Cha”. Este ato é o momento ápice da cerimônia pela capacidade simbólica carregada ali. O que acontece é que ao tomar o chá, o líder da família expõe publicamente sua confiança no novo discípulo.
A razão é bem simples, uma forma de se causar mal a saúde de uma pessoa é por envenenamento, seria fácil adicionar ao chá qualquer substancia nociva e dificilmente se saberia de quem foi a responsabilidade; por isso, Si Fu bebe; como gesto de confiança de que nenhum mal irá lhe ocorrer.
Sobre o sabor, por razões inerentes a relação Si To, sabe-se que haverá momentos bons e agradáveis, representado pelo calor da bebida, e momentos difíceis e desgostosos, percebido por seu amargor.

Grão Mestre Leo Imamura e Mestre Senior Julio Camacho, monastério Siu Lan (Shao Lin) do Sul
Com relação a razão inerente exposta acima, gostaria de frisar uma característica: a longevidade. Sabe -se que o discípulo e seu mestre estão juntos por toda a vida, aliás, temos uma pequena dificuldade com a linguagem aqui, pois o correto seria dizer que essa relação dura para sempre, no sentido de considerar que ela irá existir mesmo após a morte.
Siu Lan abrigou nossos ancestrais. Por séculos, o saber desenvolvido ali é transmitido a seus dignatários. Por milênios, melhor dizendo, por um tempo incalculável, no que tange a responsabilidade de todos os seus perpetuadores, será transmitido. Sei que através de meu Si Fu, Mestre Senior Julio Camacho, estou ligado intimamente a este local, mesmo nunca tendo pisado lá.
Por isso, creio ser plausível entender que a confiança seja o nome da estrutura que liga todos os elos que fazem essa corrente, esta simbolizado pela cerimônia de Baai Si. Ora, qual outra razão seria responsável a fazer com que duas pessoas se unam para o fim de compromisso mútuo, por tempo incalculável?

Visita de Mestre Senior Júlio Camacho ao Primeiro Núcleo situado na zona norte do Rio de Janeiro.
Há uma resposta. Por diversas razões vivi experiências sem igual com meu Si Fu, momentos felizes, infelizes e vários outros que não sou capaz de expressar em palavras. Isto tudo estava bem explicito mesmo antes de fazer meu Baai Si, e, portanto, materializar um compromisso mútuo iniciado muito antes da cerimônia.
O que há de novo, é que apesar de ser basilar a relação de confiança, acho que o que sustenta há 15 anos o convívio com meu Si Fu é a escolha. É possível, a despeito da confiança, escolher não seguir; baseado em minha experiência, posso afirmar, é perfeitamente possível escolher filtrar ou se omitir, eu próprio já fiz isso, porém, o mais bacana de tudo, isto vale para os dois lado, é possível escolher continuar.
Hoje, deparo-me com um desafio tão assustador quanto vários outros, confio em meu Si Fu tanto quanto sempre confiei, e, outra vez escolho, à minha maneira, segui-lo. Por isso, por mais instigante que seja a possibilidade de conhecer e viver em outro país não é isso que me emociona, emociona- me é que de novo, como tantas vezes a tantos anos, escolho seguir junto.