Sintonia e Sincronia

Reunião de Sintonia com Mestre Senior Julio Camacho

Há pelo menos dois meses, temos um encontro regular com Si Fu. Sempre Segunda Feira, às 20:30h. Esta reunião, intitulada “Reunião de Sintonia”, é direcionada aos membros vitalícios, mas aberta a membros regulares que desejarem participar.

A meu ver, a proposta desta reunião vem de um desejo do Si Fu de ter contato regular com seus discípulos, e assim poder compartilhar suas vivencias e criar um “DNA cultural”.

Aliás, me parece que o principal legado de um Si Fu para sua família não é o sistema, apesar deste ser fundamental. Mas sim, seu Kung Fu.

Filme Karate Kid, 2010.

O termo Kung Fu, ou seus ideogramas, é possível ser traduzido. A explicação que mais me agrada vai para além do dicionário. Gosto de traduzir da maneira como pude experimentar, na prática, meu próprio Kung Fu. Maneira esta simples e profunda. Na maioria das vezes, através da inspiração.

Lembro de certa vez, no ano de 2012, ocasião em que entregávamos o antigo Núcleo Barra, que ficava no condomínio Interlagos de Itaúna.

Naquele tempo, coordenávamos a entrega do antigo espaço onde estava alojado o Núcleo Barra, mudávamos para outro endereço, fazíamos a mudança de residência do Si Fu e preparávamos a viagem do Si Fu para a China.

Era simplesmente muito para mim. Estava assustado com toda a mudança, e com o fato de Si Fu não estar presente em boa parte desta, já que precisava ir para a China. Tinha certeza que não daria certo. Com todo esse pessimismo, era comum cada coisa que eu fazia, a menor que fosse, gerar algum tipo de prejuízo.

Em dado momento, Si Fu me passou um móvel do caminhão para transportar para o andar onde seria sua nova morada. Segurei mal e o móvel caiu e quebrou uma parte. Imediatamente Si Fu me chamou a atenção; aliás, chamar a atenção muitas vezes é entendido como algo pejorativo. O que Si Fu fez foi o que o termo diz, nada além, tampouco aquém.

E, como estamos falando de uma atividade marcial, entendo que o que Si Fu queria era que eu assumisse a consequência do meu ato, em outras palavras, tivesse marcialidade, o que é impossível quando se está desatento . Fiquei extremamente envergonhado e comecei a chorar o mais discreto que pude.

Mesmo comigo desestabilizado, Si Fu não desistiu. Outra vez tentou o transporte do móvel, agora avariado. Como não me movi, mais uma vez me convida para o combate, chamando minha atenção. Sempre de forma contundente, lá estava ele tentando me fazer entender que eu estava lutando, e, nestes momentos, o que não se pode fazer é desistir; falei baixinho, apenas para ele ouvir: “estou com medo”; imediatamente, ele me responde como se esperasse que eu dissesse ou já tivesse entendido :” Eu também estou.”

Ná época eu não saberia explicar como, mas peguei o móvel e mesmo chorando fiz o transporte. Neste mesmo dia, quando estávamos só nos dois em seu novo apartamento, ele resolveu me contar determinada situação que estava vivendo; talvez, fosse esse o motivo de seu medo.

Minha primeira Viagem Internacional, Angola, 2017.

Kung Fu não é sobre não ter medo, por isso, meu comentário foi irrelevante. Kung Fu é sobre como lidar com medo. Si Fu me mostrou isto na prática. Me mostrou pelo exemplo, o que é Kung Fu.

Esta foi a maneira que Si Fu encontrou de me mobilizar. Como disse no início do texto, há outras. A reunião de sintonia vem em momento crucial, para todos aqueles que desejarem fortalecer seu próprio Kung Fu.

Através de seus contos, acessamos o que há de mais intimo no momento, e, sobretudo, o que esta sendo feito para transmutar experiências por vezes negativas em aprendizado. A oportunidade está disponível a todos, basta aproveitar.

Si Fu falou em nosso último encontro sobre a consequência negativa do choro. Quando choramos, no olho há lagrimas o que dificulta a visão. Entendo que aí está a relevância da frieza emocional, não é sobre não chorar, é sobre ter clara a visão.

Não saberia dizer porque continuei a missão de transportar o móvel mesmo depois de te-lo quebrado após deixar cair. Hoje digo que foram as lágrimas, isso não me permitiu enxergar a profundidade do que nós dois estávamos vivendo é a qualidade humana que esta experiência nos traria.

Estava tão voltado para meus medos, que estes me superaram, fazendo entender que só eles existiam. Considerar qualquer cenário apenas pela capacidade do que se pode ver, eu chamo de ter “lágrimas nos olhos.”

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